Alexandre Calixto

Encontrados 24 pensamentos de Alexandre Calixto

Silêncio firme protege mais do que diálogo honesto com quem não joga limpo.

Por muito tempo eu me vi como uma boa pessoa, sentia como se fosse abençoado por uma aura mística, as mãos de Deus, mas em um pequeno momento, uma pequena circunstância, uma decisão errada e eu não consigo mais conviver comigo mesmo. Uma rua errada e hoje todos os piores adjetivos são vistos no espelho. Vai ser preciso um longo caminho de redenção e boa sorte para corrigir o curso, por hoje só posso dar o primeiro passo.

Sinto como se ninguém jamais tivesse realmente me conhecido. Como se cada pessoa que cruzou o meu caminho, até mesmo aquelas que caminharam ao meu lado por tanto tempo, tivesse visto apenas um pedaço de mim, um fragmento isolado, nunca o todo.

Às vezes imagino o que aconteceria se todos esses fragmentos se reunissem em um só lugar, como pedaços dispersos de um espelho quebrado. Tenho a estranha sensação de que, se alguém finalmente visse esse reflexo completo, algo dentro de mim desmoronaria, talvez o mundo que construí para me manter de pé.

Carrego comigo essa solidão antiga, quase familiar. E, no fundo, acredito que talvez seja melhor assim. Porque há certas partes de nós que parecem destinadas a permanecer em silêncio, guardadas na penumbra onde ninguém mais alcança.

Há muito tempo deixei de me reconhecer. Em tantos momentos me enganei sobre mim mesmo, estive errado, caminhei às cegas, girando em círculos como quem procura uma saída que talvez nem exista.

Sinto como se houvesse um muro invisível entre quem eu sou e quem venho sendo. Um muro silencioso, erguido pouco a pouco, que hoje parece alto demais para ser atravessado. É como se algo, ali no meio desse vazio, impedisse o resgate daquilo que um dia foi a minha alma.

E assim sigo, com a estranha sensação de que, em algum ponto do caminho, perdi a ligação de estar verdadeiramente conectado a mim mesmo. Como se eu ainda habitasse este corpo, mas já não encontrasse o caminho de volta para dentro de mim.

Às vezes tenho a sensação de viver alguns passos atrás de mim mesmo. Caminho, falo, tomo decisões… mas meus pensamentos parecem observar tudo de longe, como se não reconhecessem totalmente as minhas próprias ações. Há um desencontro silencioso entre quem pensa e quem age dentro de mim.

Sou impulsivo. Sei exatamente os caminhos que deveria evitar, mas, ainda assim, meus pés parecem escolhê-los primeiro. É como assistir a mim mesmo atravessando portas que já sei, de antemão, que não deveriam ser abertas.

Também não sei se amo como os outros amam. Eu cuido, me preocupo, assumo responsabilidades, tento proteger quem está por perto. Faço tudo aquilo que dizem que o amor faz… mas o sentimento dentro de mim é estranho, deslocado, como se estivesse escrito em um idioma que todos entendem menos eu.

Às vezes choro em silêncio. Não por grandes tragédias, mas por pequenas falhas repetidas, por erros que eu mesmo construo com as minhas próprias mãos. Existe uma parte de mim que gostaria profundamente de ser melhor, mais claro, mais correto, mais inteiro.

E, ainda assim, carrego um peso que talvez nem seja meu. Sinto-me responsável por tudo que chega até mim: pelos problemas, pelas pessoas, pelos desencontros. Mesmo aquilo que claramente pertence ao mundo dos outros acaba encontrando um lugar dentro de mim.

Talvez por isso eu viva assim, um pouco perdido, um pouco atento demais, tentando, no meio da banalidade dos dias, encontrar algum ponto onde meus pensamentos e minhas ações finalmente decidam caminhar lado a lado.

O que se faz com uma vida quando ela parece já ter sido lançada na direção errada? Às vezes penso nela como uma flecha que deixou o arco cedo demais.

Há coisas dentro de mim com as quais não sei conviver. Meus erros, meus pecados, as decisões que se acumulam como marcas difíceis de apagar.

E a culpa… a culpa é uma companhia persistente. Ela não grita, não exige nada em voz alta. Apenas permanece. Sentada ao lado dos meus pensamentos, me lembrando em silêncio, de tudo aquilo que eu gostaria de ter sido e de tudo aquilo que, apesar das intenções, acabei não sendo.

Ainda assim, sigo aqui. Não exatamente por esperança clara, mas talvez por uma espécie de espera. Como se em algum ponto do caminho algo pudesse finalmente interceptar essa flecha, antes que ela encontre o destino errado que parece aguardá-la.

Por que insistimos em viver dentro de ciclos de pensamentos que não nos levam a lugar algum? Às vezes me sinto como um personagem preso em um daqueles filmes que começam pelo final, quando tudo já aconteceu, quando o destino já está selado, e ainda assim somos obrigados a assistir cada passo que levou até ali.

Não sei exatamente por que não tomo uma atitude. Fico girando dentro dos mesmos receios, repetindo as mesmas preocupações, como um disco gasto que insiste em tocar a mesma música. E o pior é saber que esses temores, muitas vezes, insultam minha própria inteligência. Eu os reconheço como inúteis e ainda assim não consigo escapar deles.

Talvez eu devesse ter deixado tudo para trás em algum momento. Escolhido outro rumo, outra estrada, outro horizonte. Mas permaneço aqui, parado num lugar estranho, com a sensação constante de que todos os dias acabo de chegar e já me arrependo de estar aqui.

Não há mais grandes desafios no caminho. Apenas a silenciosa obrigação de preservar aquilo que já existe. Manter de pé estruturas que eu mesmo sei que, cedo ou tarde, terão um fim.

E assim sigo vivendo como se já não houvesse propósito algum.

Embora, às vezes, eu escute o maior de todos os propósitos ecoando na minha mente, um choro pequeno, uma voz fina que insiste em me lembrar que a vida ainda me chama.

Mas há uma parte de mim que permanece imóvel diante disso tudo.

Uma parte que, infelizmente, parece incapaz de mudar.

Deve ser bom ser uma dessas pessoas que não se apegam a nada. Nem a pessoas, nem a coisas, nem aos próprios sentimentos. Parece mais leve, mais simples.

Eu não sou assim. Eu me apego a tudo.
A pessoas que já deveriam ter saído da minha vida há muito tempo. Ainda me pego querendo saber se estão bem e quando vejo que estão, por algum motivo, algo em mim se contrai.

Me apego também a coisas que já não fazem sentido. Guardo objetos, lembranças, pequenos pedaços de um passado que já deveria ter ficado para trás. E cada coisa guardada acaba trazendo de volta algo que eu já deveria ter esquecido.

E me apego até a sentimentos vazios. Coisas que já não significam tanto, mas que continuam ocupando espaço dentro de mim.

Sinto que estou vivendo num tipo de limbo.
Sem sono, sem muito amor próprio, como se a vida tivesse perdido um pouco da força.

Às vezes penso que, se pudesse construir uma máquina do tempo, não seria para voltar.

Existe um sentimento silencioso e cruel, daqueles que não deixam marcas no corpo, mas consomem tudo por dentro. Ele corrói devagar a capacidade de enxergar valor em si mesmo. Faz nascer a sensação amarga de não sermos capazes de cuidar de nada, de não sermos bons em nada, de não conseguirmos fazer ninguém feliz, nem a nós mesmos.

É um sentimento que se alimenta da culpa. E a culpa tem a capacidade de estraçalhar a alma sem que ninguém perceba. Aos poucos, ela transforma a própria consciência em um tribunal onde você tem que se encarar e julgar a si mesmo.

Talvez o pior não seja a tristeza em si, mas a vergonha de senti-la. A sensação humilhante de fraqueza, como se sofrer fosse apenas incapacidade de lidar com a vida, com as consequências das próprias escolhas ou com o peso do que se tornou. Então a pessoa começa a desaparecer dentro dela mesma, perdendo a capacidade de reconhecer quem era antes de tudo isso.

Sinto falta do tempo em que eu ainda conseguia sustentar o olhar das pessoas sem imaginar pena ou julgamento escondidos ali. Falta do tempo em que existir parecia mais simples e mais leve. Tudo o que eu queria era voltar a ser quem eu era antes, mas a verdade mais dura é que já nem sei ao certo quem sou.

É duro descobrir que não somos exatamente quem passamos a vida acreditando ser. Existe uma dor silenciosa em cobrar da vida respostas, até perceber que talvez sejamos nós os únicos responsáveis por oferecê-las. E então vem o choque mais frio de todos, o mundo não nos deve absolutamente nada. Nem compreensão, nem absolvição, nem a chance de voltar atrás.

Também é difícil olhar para si de outro ângulo e enxergar, sem máscaras, tudo aquilo que nos falta, perceber o quanto somos vulneráveis, contraditórios, frágeis e, às vezes, assustadoramente rasos. A consciência tem esse poder cruel de arrancar as justificativas bonitas que criamos para sobreviver, deixando apenas aquilo que realmente somos quando ninguém mais está olhando.

Talvez uma das piores coisas seja ouvir algo que atinge exatamente o lugar que tentamos esconder de nós mesmos. Eu gostaria de nunca ter sido chamado de covarde sem ter uma resposta imediata para negar aquilo. Gostaria de ter encontrado indignação, revolta, qualquer defesa convincente. Mas existem momentos em que o silêncio dói justamente porque, no fundo, não há resposta alguma. Porque, às vezes, tudo o que conseguimos enxergar em nós mesmos é exatamente isso.

Eu sempre fui uma pessoa bem resolvida. Nunca precisei da atenção dos outros para me sentir inteiro, nem busquei validação para confirmar meu valor. Passei boa parte da vida confortável dentro de quem eu era, com minhas certezas, meus limites e meus silêncios.

Até que um dia encontrei alguém que enxergou em mim algo que eu mesmo nunca havia visto. E, por algum tempo, acreditei naquela versão. Passei a falar mais, a rir mais, a confiar mais. O homem reservado se tornou sociável, o introspectivo passou a contar piadas, e a desconfiança deu lugar à esperança. Pela primeira vez em muito tempo, tive a sensação de que a felicidade talvez não fosse apenas um conceito distante.

Mas a realidade tem o hábito de cobrar o preço das ilusões. Com o tempo, percebi que a vida raramente permanece no auge dos sentimentos que ela mesma nos oferece. E aquilo que parecia uma descoberta acabou revelando outra coisa, talvez eu não tivesse me transformado, apenas experimentado uma parte de mim que deveria ter permanecido adormecida.

Agora me vejo diante da tarefa de reconstruir quem sou. Não porque aquela versão estivesse errada, mas porque ela não conseguiu permanecer. Preciso recuperar o controle dos meus sentimentos, reorganizar meus pensamentos e voltar a caminhar com os próprios pés.

Talvez as coisas nunca tenham sido realmente boas aqui dentro. Talvez eu apenas tenha encontrado alguém capaz de silenciar, por um tempo, os ruídos que sempre carreguei. Mas ninguém pode viver para sempre sustentado pelo olhar de outra pessoa.

As coisas vão voltar ao lugar. Não exatamente como eram antes, porque já não sou o mesmo homem. Mas voltarão a ser minhas. E isso terá de ser suficiente.

Minha solidão não é ausência de companhia. É ausência de testemunhas.

Se eu pudesse aliviar a mente e escolher um novo caminho, talvez não andasse mais por estas ruas. Elas parecem frias demais agora. A vida perdeu parte do brilho que um dia teve, e o mais estranho é que tudo isso aconteceu diante dos meus olhos, lentamente, sem que eu percebesse.

Às vezes temos tanto a fazer, tantos deveres, tantas expectativas, e ainda assim encontramos maneiras de estragar aquilo que mais importa. Procuramos respostas dentro de nós mesmos, mas é difícil encontrar algo quando nem sequer sabemos ao certo do que somos feitos.

Por aqui, a busca por compreensão parece inútil. A solidão se tornou uma sombra persistente, dessas que permanecem mesmo na mais profunda escuridão. Ela caminha ao lado de cada pensamento, de cada lembrança, de cada silêncio.

Aqui não existe sentido na busca por apoio ou compreensão, a solidão é como uma sombra que assombra na maior de todas as escuridões. O que resta é encontrar o final até que o final esteja aqui.

Eu não estou sozinho, vivo com minhas memórias e arrependimentos, esse é o meu lar. Esta é a minha verdadeira liberdade. Expresso todos os sentimentos que fazem de mim o que sou hoje e espero encontrar paz neles. Parece que eu já parti a muito tempo, parece que me perdi, parece que o perdi meu caminho.

Existe algum sentido para o que vivemos além daquele que construímos em nossa própria mente?

Todos os dias atravessamos um turbilhão de emoções e, na maioria das vezes, ele termina antes que tenhamos a oportunidade de parar e refletir sobre o verdadeiro significado de tudo.

Não pensamos no sentido de dirigir por quilômetros para resolver problemas que logo serão substituídos por outros. Não pensamos no impacto de ligar para alguém apenas para desejar um feliz aniversário. Talvez porque, no fundo, quase não exista impacto algum.

Os rituais sociais são cansativos, e eu já estou farto deles.

Sei que sou bom em socializar. Sei ser útil, amigável e agradável quando necessário. Mas estou cansado de cada uma dessas versões de mim mesmo.

Existem pessoas cuja companhia ainda me traz um prazer genuíno. Pessoas com quem o tempo parece menos pesado. Mas a verdade é que a maioria delas tem me deixado profundamente exausto.

Sinto que minha solidão, que nunca foi de passear, agora caminha ao meu lado. Ela está em todos os lugares.

Me acompanha nas conversas, nos compromissos, nos trajetos e nos silêncios.

E, pouco a pouco, tenho a impressão de que estou me perdendo dentro de mim mesmo.

Como eu poderia culpar qualquer sentimento para justificar tantas escolhas erradas?

Durante quase toda a minha vida, caminhei por uma estrada que julgava moralmente correta. Bastou um momento de descuido para que eu me perdesse completamente.

Hoje não sou vítima de circunstância alguma. Sou o carrasco da minha própria alma. Sou responsável pela infelicidade da pessoa que jurei proteger. E, como se isso não bastasse, despertei o amor de alguém que jamais poderei amar da mesma forma.

Estou colocando em risco o maior chamado que já recebi na vida, como se estivesse desperdiçando a única oportunidade de realizar algo verdadeiramente importante nesta breve e insignificante passagem pela Terra.

Às vezes, gostaria de desaparecer por um tempo. Outras vezes, gostaria apenas de possuir a força necessária para me tornar alguém completamente diferente.

Porque já não gosto de quem me tornei.

Não gosto da minha própria companhia. Não gosto dos meus pensamentos. Não gosto da imagem que encontro quando me observo com honestidade.

Sinto nojo do mentiroso habitual que me transformei. Sinto repulsa por já não reconhecer uma identidade sólida dentro de mim. É como se tudo aquilo que eu acreditava ser tivesse se dissolvido, deixando apenas um vazio onde antes existiam convicções, amor e propósito.

Estas palavras não nascem da autopiedade. Não procuro absolvição nem conforto fácil.

Escrevo porque estou cansado.

Escrevo porque procuro uma saída que ainda não consigo enxergar.

Escrevo porque espero encontrar, em algum lugar entre estas linhas, a força necessária para continuar caminhando sem perder de vez aquilo que ainda resta de mim.

Escrevo porque não quero enlouquecer.

Ser inteligente é uma maldição. Você entende o jogo, observa as mentiras, reconhece os padrões. Mas ainda assim precisa se fazer de idiota para sobreviver.

Houve uma garota em minha vida. Certamente, eu não ocupei a vida dela da mesma forma que ela ocupou a minha.

Ela era especialmente bonita. Tinha um sorriso pleno e uma convicção admirável, mas, ao mesmo tempo, carregava uma doçura e uma fragilidade que a tornavam única. Era diferente de tudo o que eu já havia conhecido. Não era daquelas pessoas que atraem todos os olhares ao entrar em um lugar, mas possuía algo raro: era inesquecível para quem realmente a percebia.

Hoje, imagino que tenha uma vida feliz. Faz tanto tempo que não a vejo ou tenho notícias dela que já não saberia dizer quem ela se tornou. Talvez a última vez que nos encontramos já tenha acontecido sem que eu soubesse. Talvez ela nem se lembre mais de mim.

E tudo bem.

Pode ser que ela nunca saiba o quanto marcou a minha vida. Pode ser que jamais descubra que algumas pessoas permanecem conosco muito depois de terem partido.

Ainda assim, gosto de pensar nela de vez em quando.

Espero que esteja feliz. Espero que a vida tenha sido gentil com ela. Espero que o sorriso que carregava continue iluminando os dias de quem tem a sorte de vê-lo.

Garota, onde quer que você esteja, desejo que encontre o mesmo amor que um dia despertou em mim.

E, se já o encontrou, desejo que ele jamais a abandone.

Hoje eu me sinto completamente perdido, de tudo o que vivo e já vivi. Estou completamente desconectado desse mundo e, na verdade, eu não sei se quero me reconectar. Acho que meu melhor lugar é sozinho. Sei que tem pessoas que genuinamente gostam de mim, mas sinto como se eu tivesse perdido o que quer que mantenha essas conexões.

Por muitas vezes eu já vesti máscaras que me permitiam ser apresentável em qualquer lugar, mas agora quero me distanciar de tudo isso. Quero viver no meu mundo, onde me sinto confortável. Quero colocar algumas coisas em lugares diferentes, quero parar de sofrer, quero cumprir minha sentença e me compensar do que minha cela limita.

Acho que inventei que poderia ser feliz, simplesmente assim. Deveria ter ficado onde estava, onde eu me gabava de conhecer cada lugar em que colocava meus pés, mas fui me aventurar por lugares desconhecidos e agora não sei mais onde estou.

Vou achar um caminho de volta, para o lugar úmido, frio, escuro e silencioso, mas que eu conheço tão bem que poderia chamá-lo de lar. Vou voltar para os sorrisos sem sentimento, os olhares perdidos, as conversas ouvidas pela metade e os pensamentos soltos. Vou voltar para dentro de mim.

Quando nos deparamos com os questionamentos sobre nossa serventia para as pessoas que amamos, inevitavelmente olhamos para todos os esforços que fazemos ao longo da vida, para as coisas de que abrimos mão, ou não, pelos outros. Buscamos atender às demandas da nossa família, não deixando nada faltar ou, pelo menos, garantindo o essencial para uma vida confortável.

Essa sensação de quem chegou lá, de quem cumpre seu papel, de quem consegue suprir as necessidades, é completamente desconhecida por mim. Eu vivo uma desordem constante. Por mais que me esforce, não consigo fazer tudo o que preciso pela minha mulher, pelo meu filho, pela minha mãe e por mim. Me sinto sobrecarregado, cansado, triste e sozinho. Me vejo em um barco muito grande, movido a remo, e o único que está remando sou eu. Pior do que isso, tenho a sensação de estar remando na direção errada.

Eu nem sequer me sinto bem por me sentir assim. Me acho fraco por deitar e perder uma noite de sono chorando por não conseguir alcançar todos os objetivos ou por ser egoísta a ponto de desejar ter ou fazer algo que não está entre as prioridades da minha família.

No fim das contas, acho que todo homem vive assim, as cobranças, os anseios, as responsabilidades… A diferença é que alguns dias são mais sombrios do que outros e essa noite está demorando a passar.

Sem ter por onde começar, eu comecei assim mesmo. Sem conhecer o caminho, apenas caminhei em alguma direção. Nunca parei para pensar em quantas pessoas eu faria sofrer durante esse percurso, nem em quanto mal eu seria capaz de causar sem jamais ter a intenção de fazê-lo.

Antes eu podia sentir. Hoje, nem esse direito me permito mais. Não posso me sentir triste, cansado, sozinho ou desamparado, porque a dor que carrego acaba se tornando muito mais intensa na mulher que amo.

E, apesar disso, sou inundado por todos esses sentimentos.

Não encontro forças para lutar por coisa alguma. Tudo o que eu queria era deitar ao lado dela, sentir sua mão deslizando pela minha cabeça e o perfume dela preenchendo o ar ao meu redor. Queria sentir seus cabelos tocando meu rosto e acreditar que fui perdoado por todas as vezes em que a magoei. Queria apenas ter a certeza de que ela ficaria bem, para que eu, enfim, pudesse voltar a sentir alguma coisa.

Mas eu não posso.

A vida tem uma estranha maneira de arrancar tudo que poderia me fazer bem. E, pouco a pouco, ela vem levando tudo de mim.

Eu tive um amigo na infância. Nossa diferença de idade era de apenas oito meses. Fomos criados juntos, compartilhamos as mesmas ruas, as mesmas descobertas e conhecíamos a essência um do outro de uma forma que só a inocência da infância permite.

Na adolescência, nossos caminhos começaram a se separar. Ele se mudou para outro bairro, depois para outra cidade e, mais tarde, para outro país. Ainda mantínhamos um contato esporádico, insuficiente para que soubéssemos o que realmente acontecia na vida um do outro. Hoje, sequer me lembro da última vez em que nos vimos. Não lembro da última conversa, do último assunto, nem se nos despedimos da maneira que duas pessoas deveriam se despedir quando não sabem que aquele será o último adeus.

Há pouco mais de um ano, recebi a notícia de sua morte. Um tumor maligno no cérebro o levou depressa demais. Não houve tempo para uma ligação, uma mensagem ou algumas palavras que, talvez, pudessem confortar seu coração. Ou talvez fossem apenas para aliviar o meu.

Curiosamente, a dor não chegou naquele dia. Ela veio muito depois.

Foi só com o passar do tempo que compreendi o verdadeiro peso daquela perda. Entendi que nunca sabemos quando será a última vez que veremos alguém que fez parte daquilo que somos. Nunca sabemos qual abraço será o derradeiro, qual conversa ficará inacabada ou qual silêncio será definitivo.

É estranho perceber que uma vida inteira pode terminar sem que tenhamos a chance de dizer tudo o que ficou guardado.

Desde então, passei a enxergar a existência de outra forma. Somos absurdamente frágeis. Fazemos planos como se o amanhã nos pertencesse, adiamos palavras como se sempre houvesse outra oportunidade e nos afastamos acreditando que o tempo nos esperará pacientemente.

Mas ele nunca espera.

A vida é cruel. Não apenas porque nos tira as pessoas que amamos, mas porque quase nunca nos avisa quando está prestes a fazê-lo.

Estive esperando que alguém me salvasse.


Que me salvasse da solidão que carrego dentro da cabeça, dos anseios que me consomem, dessa tristeza absurda que me invade quando o silêncio chega e não há mais ninguém por perto.


Procurei essa pessoa por muito tempo. E, em meio a essa procura, não posso ser injusto: muitas pessoas me estenderam a mão. Algumas permaneceram ao meu lado, outras tentaram me compreender, outras ofereceram aquilo que tinham. Mas, por mais que tentassem, não encontrei em ninguém a salvação para aquilo que me afligia.


E talvez esse tenha sido o meu maior erro: acreditar que ela viria de alguém.


Nessa busca, acabei me ferindo muito mais do que me curei, porque passei tempo demais procurando no lugar errado. Depositei em outras pessoas a responsabilidade de preencher vazios que elas jamais poderiam alcançar. Esperei que alguém soubesse atravessar lugares dentro de mim que, muitas vezes, nem eu próprio sabia como encontrar.


Entre frustrações, angústias e desesperos, comecei a compreender que as respostas que procuro talvez estejam dentro de mim. Que algumas dores não precisam desaparecer para que possamos continuar, precisam ser atravessadas, compreendidas e, de alguma maneira, transformadas em aprendizado.


Também compreendi algo ainda mais difícil: a minha tristeza é minha.


Não existe escolha sobre ser forte. Às vezes, força não é virtude, coragem ou qualquer dessas palavras bonitas que usamos para tornar o sofrimento mais suportável. Às vezes, ser forte é apenas perceber que não existe outra opção.


Ninguém virá me salvar.


E talvez a parte mais dolorosa seja aceitar que nunca foi obrigação de ninguém fazê-lo.


Talvez nem exista salvação da maneira como passei tanto tempo imaginando. Talvez exista apenas aprender a conviver com aquilo que habita em mim, recolher os pedaços que deixei pelo caminho e continuar, mesmo sem saber exatamente para onde.


Esperei durante muito tempo que alguém viesse me buscar.


Agora começo a entender que, se existe algum caminho para fora daqui, provavelmente terei de encontrá-lo sozinho.

Quando mais preciso viver, encontro em mim uma sombra moldada pela ausência do medo da morte. Hoje carrego comigo um símbolo, um lembrete silencioso de que já não temo o mundo. Carrego uma moeda para o barqueiro, como quem lhe diz que estou preparado, embora, no fundo, ainda não esteja pronto para partir.