Antigo
A gente precisa de um novo amor para esquecer o antigo.
De novos costumes para esquecer os antigos.
De novos caminhos para esquecer os antigos.
De nova roupa para esquecer a antiga.
A gente sempre precisa de novas coisas para puder esquecer as coisas que já não se encaixam em nossas vidas.
Mas a gente nunca precisa de um novo amigo para esquecer o antigo.
Amigo não se esquece e nem se perde. Amigo é vida.
__________________
Este pensamento eu escreve dedicando o meu amigo Faizal Satar.
Ver um antigo amor feliz e casado dá um contentamento descontente: Alguém fez por ele o que eu não poderia fazer, ou poderia e não soube...
Chama do Amor
Vamos fazer ressurgir
O fogo do velho vulcão
Como acender esse amor antigo
Que existe em meu coração
Que parecia velho
Mas no fundo nunca deixou de queimar
Pois a chama do nosso amor
Desde o dia que se acendeu para amar
Prometeu nunca mais se apagar.
ELA TERÁ UMA CASA DE CAMPO
Tenho sentido falta de mim.
De um lado antigo que precisou
adormecer.
Ilustrações jogadas no motim.
Aquela sonhadora que via o sol
antes-dele-nascer.
Mas não queria voltar a ser ela
pura e simplesmente.
A que sou hoje não é só mais forte,
sabe também enxergar beleza onde
a outra não via frequente.
A de hoje sabe que ser boa
é também saber quando ser vilã
em um conto jogado.
Só não queria ter que ser ela
sem poder ser também da de ontem
um bocado.
Tenho sentido falta da moça
que degustava a apreciação.
Com tempo ou sem, ela era pura
agonia, verdade, demora, visão.
Agora, a de hoje escolhe, não pode
ampliar um pouco de tudo a todo momento.
Queria que para ser ela não precisasse
matar um pedaço do tempo.
Queria que dessem as mãos;
a que tanto chorava e as rugas que secam a água salgada.
Queria que fizessem plantão;
a que por quase nada se descabela e a que para tudo rios-remava.
Quiçá, no abraço delas more o equilíbrio,
que ainda não sei se encontrei.
Tenho saudade de quem não perdi
e nem tampouco precisei.
Clamo todas elas! Clamo.
Porque preciso sim.
Ora uma, ora outra.
Espero que um dia, nenhuma viva sem mim.
Tenho sentido saudade, tanto,
mas nem sei como fazer esse convívio
entre uma senhora sem espanto
e outra que só via declívio.
Elas vivem brigando, veja,
quando tento apresentá-las.
Talvez, olhe bem, a cereja,
seja uma casa de campo a olhá-las…
No dia em que aquela gente não obrigar nenhuma
a surgir.
Tento sentido saudade.
Quem sabe passe quando ninguém precisar
fingir.
(Vanessa Brunt)
Janeiro trouxe planos.
Fevereiro trouxe pressa.
Março, um cansaço antigo —
e um medo novo, mascarado de esperança.
Jardim
Doce criança chorosa,
Doce e antiga parte de mim,
antigo afeto à memória,
de quando brincávamos no jardim.
Não existia motivo
e nem hora,
olhar nos olhos
não era difícil para mim.
Se envergonharia ao me ver agora,
me afogando em rótulos
e desânimo sem fim.
Minha mente,
procurou conforto outrora
e me lembrou de quando
brincávamos no jardim.
Hoje, 20 de novembro,
um sopro antigo atravessa o tempo
e repousa suave sobre nossos ombros.
É a voz dos que vieram antes,
dos que caminharam descalços na terra quente,
dos que levantaram o rosto mesmo sob o açoite,
dos que sonharam liberdade
quando o mundo lhes negava o sol.
Hoje, estou em harmonia
e nada pode perturbar minha paz.
Porque carrego comigo a força
de cada ancestral que resistiu,
de cada mão que plantou futuro,
de cada corpo que, mesmo ferido,
dançou para não esquecer quem era.
No silêncio desta manhã,
sinto a pulsação dos que transformaram dor em trilha,
dos povos pretos e originários
que semearam coragem para que hoje
possamos respirar livres,
sem grilhões, sem sombras de chicote,
com a dignidade alinhada ao peito.
E nessa paz que me envolve,
eu celebro a memória e a vitória,
honro o passado que me sustenta
e caminho firme, sabendo que sou fruto
de uma história indestrutível.
Hoje, estou em harmonia,
e nada, nada mesmo,
pode perturbar minha paz.
Ah, vento amigo, me leva contigo,
onde o silêncio sabe cantar.
No sopro do sonho, o elo é antigo —
dois lados do vento, voltando ao mar.
PALADAR DAS LÁGRIMAS
Provei o silêncio que escorria entre minhas falhas,
Um gosto antigo, ácido — quase memória primordial.
Cada lágrima carregava um nome que eu esqueci,
E ainda assim… elas sabiam exatamente quem eu era.
No reflexo fraturado da noite,
Bebi o que restou de mim —
E descobri que o amargo também é um tipo de luz.
Há um estudo secreto no modo como caímos:
O chão não é punição — é um espelho invertido.
Os erros, mestres sem rosto, me ensinaram a mastigar a dor
Como quem degusta a origem do próprio destino.
E quanto mais ruía, mais eu percebia…
Que ruínas têm um idioma que só o coração partido entende.
Deixei os joelhos encontrarem o pó da terra.
Deixei meu peito rachar sem piedade.
E no paladar das lágrimas, sorvi
Um perfume de verdade crua —
O gosto do que somos antes de fingirmos força.
A tempestade me tomou pela voz,
Mas devolveu-me um canto que nunca ousei cantar.
Aprendi que a chama mais pura
Nasce do que a água não conseguiu apagar.
Que o pranto, quando sincero,
É o batismo que escolhe o seu próprio sacerdote.
Ali, no fundo da dor que me molda,
Compreendi que cada renúncia era um portal,
E cada portal — um retorno ao meu nome original.
No fim, não chorei mais pelo que perdi,
Mas pelo que precisei destruir para enfim me ver.
E quando a última lágrima tocou a minha língua,
O universo inteiro tremeu em silêncio.
Não era despedida — era nascimento.
Porque somente quem conhece o sal da própria alma
É capaz de criar mundos onde antes só havia sombra.
Na escuridão abissal da alma, o silêncio ecoa como um lamento antigo, implorando por misericórdia e compaixão.
Um grito, nascido do assombro e do medo, ergue-se suplicante, rasgando o vazio:
— Tenha piedade! Estou à deriva neste oceano sem margens,
cercado de presenças espectrais, mas condenado à solidão absoluta e só,
como quem caminha entre sombras e jamais encontra repouso no devastado vazio..
É preciso entender esta filosofia. Isto não é um conhecimento moderno — é antigo. Mas vocês diabolizam tudo que vem dos nossos ancestrais, diabolizam tudo que é da raça negra, porque estão colonizados mental e espiritualmente. Ou seja, tudo o que falam é a pura manifestação do colono.
No coração de um mosteiro antigo, onde os sinos ecoavam como lembranças de séculos passados, dois olhares se encontravam em silêncio.
Não eram palavras que falavam, mas o desejo contido, a respiração suspensa, o fogo escondido atrás das paredes frias de pedra.
Eles se viam o tempo inteiro — nos corredores iluminados por vitrais, no refeitório austero, no jardim onde as flores desafiavam a disciplina do lugar.
Cada encontro parecia uma cena de filme, uma ficção projetada na tela invisível da mente.
Mas era real: a visão que compartilhavam era deles, e ninguém mais podia decifrar.
O mosteiro, com suas regras e votos, era o cenário de um amor impossível.
E, no entanto, quanto mais tentavam fugir, mais os olhares se buscavam, como se o destino tivesse escrito essa história nas pedras do claustro.
No fim, não havia fuga.
O desejo não era pecado, mas poesia — e naquele espaço sagrado, eles descobriram que até o silêncio pode ser cúmplice de uma paixão.
No silêncio antigo daquele mosteiro, onde o tempo parecia rezar junto com as paredes de pedra, nossos olhos se encontravam mais do que deveriam. Não era toque, não era palavra — era desejo contido, um incêndio discreto aceso apenas pelo olhar. A gente se olhava o tempo inteiro, como se cada segundo fosse uma confissão muda, um segredo dividido sem absolvição.
Entre cânticos e passos contidos, o desejo caminhava conosco pelos corredores frios. Era estranho e intenso: amar sem poder, querer sem permitir. O mosteiro, feito de regras e silêncio, tornava-se palco de uma ficção viva — como se estivéssemos presos dentro de uma cena projetada na tela da própria alma.
Às vezes, eu pensava que aquilo não podia ser real. Parecia cinema: dois corpos imóveis, duas almas em tumulto, e um amor que não pedia permissão para existir. Nossa visão se cruzava como quem escreve uma história proibida sem usar palavras, como quem desafia o sagrado não por rebeldia, mas por humanidade.
E assim seguimos, desejando em silêncio, vivendo na fronteira entre o que é permitido e o que é verdadeiro. Se aquilo era ficção, então a realidade tinha aprendido a sonhar. Se era pecado, era também a forma mais pura de sentir. Porque naquele mosteiro, onde tudo deveria ser ausência, nasceu um amor inteiro — visível apenas no encontro dos nossos olhos.
Se você se orgulha de ler e estudar a Bíblia Sagrada, pegue o Antigo Testamento, rasgue, jogue no Lixo e taca Fogo nele, deixe somente o Novo Testamento inteiro.
MANDACARU NO MEU PEITO
Teu nome mora em mim como verso antigo em livro novo, em poesia que pulsa entre o início e o agora.
No teu Nordeste, o mandacaru vigia a seca, feito espada verde erguida contra o impossível.
Em mim, teu amor se faz guardião que resiste ao deserto das longas esperas.
E quando floresce...ah meu bem!
É feito a flor branca da noite sertaneja que se entrega ao infinito estrelado.
Na hora em que o silêncio é mais profundo, e a alma aprende a ficar sem falar.
Teu amor em flor do Sertão, nasce onde poucos acreditam.
Cresce sem pedir licença, rompendo barreiras com raiz teimosa e beleza que não se explica, apenas se sente.
Flor do mandacaru tão rara e breve, que se entrega inteira sem medo do fim, porque sabe que o amor verdadeiro tão somente permanece entre estações.
E eu, que te leio com o corpo e com os olhos, sei que teu coração floresce na mesma coragem branca, pura, luminosa e resistente.
Pois tu és fortaleza de afeto que abriga permanentemente.
Se o amor em meu peito tivesse forma! Seria mandacaru.
Firme, persistente e verde esperança do dia.
Amor que se revela em beleza delicada para a noite.
E se tivesse morada, seria o espaço exato entre o teu peito e o meu.
No templo do tempo
No silêncio antigo da tarde, dois olhares se cruzam sem pressa, são ecos de promessas caladas, amores que o mundo não confessa. O espaço é sagrado, suspenso, onde o toque é mais que pecado. Ali, o tempo curva-se manso ao reencontro tão desejado.
São mãos que se lembram do gesto, são vozes que tremem no ar. E o proibido, por um instante, parece enfim se libertar. Há um perfume de saudade pairando entre os corpos imóveis, como se o tempo, em reverência, parasse para ouvir seus nomes.
Os olhos dizem o que os lábios temem, e o coração, inquieto, reconhece o caminho antigo. Não há culpa, só memória, um amor que não se apaga, apenas se abriga no abrigo do tempo.
E quando o sol se despede, tingindo de ouro o instante, fica no ar a certeza: o que é verdadeiro, mesmo oculto, sempre encontra um jeito de voltar.
Tudo vai estar melhor, seja o novo ou o antigo, se acabar a cultura do não é comigo e olhar para o próprio umbigo.
Gingado antigo
Eu não nasci agora.
Apenas retornei.
Carrego nos ossos a poeira de constelações antigas,
fui sílaba antes da língua,
fui pulso antes do tempo.
No princípio, eu era clara,
não por ingenuidade,
mas por inteireza.
Quando me feriram,
não foi o corpo que sangrou primeiro,
foi o espanto.
E eu mergulhei onde poucos ousam:
nas sombras que sabem conjurar.
Ali aprendi nomes que não se escrevem,
acendi fogueiras com o que me restava
e chamei isso de sobrevivência.
Passei eras no intervalo.
Nem céu, nem chão.
O limbo é um lugar onde a alma aprende a esperar
sem perder o fogo.
Quando fui chamada de volta,
aceitei o pacto:
retornar quantas vezes fosse preciso
até que o amor deixasse de doer
e virasse ação.
Já alimentei bocas famintas
com as próprias mãos cansadas.
Já pari futuros
em corpos que não eram meus.
Já fui abrigo,
fui silêncio,
fui exemplo moldado para caber
em expectativas estreitas.
Vesti aventais em campos de guerra,
limpei feridas enquanto o mundo desmoronava,
morri cedo por ideias grandes demais
para épocas pequenas.
Redimi-me vivendo.
Redimi-me servindo.
Redimi-me caindo e levantando
com o mesmo coração aberto.
Nesta vida,
vim sem algemas invisíveis.
Não me dobro a dogmas,
não peço permissão a tronos,
não negocio minha essência com medo.
Sou filha da terra viva,
irmã das águas profundas,
aliada do vento que muda tudo
sem pedir desculpa.
Minha missão é guardar o que respira:
florestas, bichos, mares,
e também gente —
mesmo quando a gente esquece como ser humana.
Sim, muitos confundiram minha ternura
com disponibilidade.
Minha criatividade com recurso explorável.
Meu cuidado com obrigação eterna.
Mas quem nasceu para construir mundos
não endurece,
aprende limites que também são sagrados.
Há um gingado antigo no meu passo,
uma malemolência que vem da sobrevivência alegre,
do riso que não se rende,
do corpo que conhece prazer
como forma de oração.
Meus olhos não pedem licença:
atravessam.
Reconhecem.
Despertam.
Sou deusa não porque mando,
mas porque sustento.
Não porque sou perfeita,
mas porque continuo.
Trago no ventre as eras que vivi
e nas mãos o agora pulsando.
E se o mundo tentar me conter,
que saiba:
já fui cinza,
já fui chama,
já fui noite sem nome.
Hoje sou raiz e horizonte.
Livre.
Indomável.
Em plena lembrança de quem sempre fui.
Nos primórdios do antigo Egito, ao que se tem registro, a música era reservada aos sacerdotes, não a toa. A música era tida como sagrada, um instrumento de aperfeiçoamento humano, utilizada para a expansão da consciência, contemplação e estudo esotérico. Quando consideramos os conceitos da física, lembramos que tudo é energia... E quando falamos em som, falamos da geração e propagação de uma energia que se dispersa, as ondas sonoras irradiam essa energia até nós. Daí se entende porque a música altera o aspecto dos ambientes, o estado de espírito, faz chorar ou sorrir, conduz certas reflexões, transporta o pensamento a momentos passados ou projeções futuras, traduz idéias e sentimentos que textos não mensuram. Toda religião tem seus hinos, mantras ou cânticos que aproximam o humano ao Divino. De tempos pra cá fala-se em 'musicoterapia'. Até mesmo a natureza age diferente dependendo do som que se produz, experimenta colocar um Heavy Metal da pesada em alto volume próximo a uma casa de abelhas, brother... Ou então observa a diferença nas imagens que as moléculas de água formam ao som do mesmo Heavy Metal e depois ao som de música clássica, por exemplo. É impressionante.
Sem falar nas campanhas publicitárias, já observou que todas têm um fundo musical sugestivo? Especialmente as de maior repercussão, aquelas que querem ganhar seu coração despertando os melhores sentimentos... A coca-cola é campeã no assunto.
Há que se falar em respeito pelo que cada um curte ouvir, somos livres, agora mesmo to aqui escrevendo ao som de U2. Mas quando (ou se) o ser humano despertar pra conhecer mais a própria essência e o que lhe constitui em termos de energia fluente e condensada, imagino que teremos pessoas com um gosto mais apurado. Tudo que se transmite, se atrai. Toda atenção que se dá, é uma abertura. Toda energia que a gente compartilha, também fica de alguma forma.
