Amor no Tempo Maduro- Carlos Drumond de Andrade
Metades plenas
Como é que a gente não consegue perceber que a terra se move aproximadamente um milhão de quilômetros por hora? - Claro que sabemos que é por que tudo está se movendo junto. Embora essa reflexão seja bastante óbvia podemos utilizá-la como analogia para tentarmos entender muitas outras coisas que conseguimos ou não observar e perceber.
A existência do ar é até matéria de estudo no ensino fundamental, pois só podemos senti-lo quando está se movimentando de encontro a nós ou quando nós corremos contra ele. Só é possível admirarmos o horizonte se nos opusermos a ele, pois se olharmos o entardecer voltados para o mesmo lado do sol, estaremos de costas para ele e não conseguiremos ver espetáculo algum.
As coisas que são inteiras, que tem perfeita sincronia, às vezes são também imperceptíveis aos nossos sentidos ao passo que as coisas divididas, quebradas e adversas é que nos apresentam outras existências. Podemos concluir que na maioria das vezes o que se opõe a nós embora possa parecer o contrario do que queremos é na verdade a metade que faz com que possamos nos dar conta da existência do que buscamos. É necessária a sede para sentirmos o verdadeiro sabor da água, é preciso o frio para entendermos o valor do calor, é preciso o barulho para valorizarmos a magia do silêncio, é preciso o tormento para agradecer pela paz. Os opostos se atraem por serem na verdade metades do inteiro que foi dividido.
O que nos move é o que temos pela metade, o que temos por inteiro pode ser que a gente nem de conta que possui. O curioso é que o que temos pela metade mesmo sendo o motor que nós tira da inércia também é a parte que julgamos não ser boa.
Somos perfeitas metades plenas em busca da nossa própria construção!
Nem sempre o que vivemos agitadamente tem o condão de sustentar uma alegria sólida a fim de gerar um conforto em nossa alma. Será que estamos cuidando do processo da lucidez em nossas vidas? Ou, será que estamos vivendo paliativamente e cegamente para ter sensações de alegrias momentâneas? A propósito, tudo é permitido, mas nem tudo é oportuno. Tudo é permitido, mas nem tudo edifica.
É intrigante quando percebermos que em dado momento de nossas vidas podemos estar anestesiados com os contextos dos quais estamos vivendo.
Quando no futebol, foca-se somente no chute na bola, abandonando o trabalhado da psicologia por detrás disso, está-se fadado à mediocridade nos resultados.
Devemos aprender a prestarmos mais atenção no que as pessoas fazem, do que no que elas falam, se quisermos realmente saber com quem estamos lidando.
Alertemo-nos diante das injustiças que cometemos com nossos próximos em nossa caminhada neste Planeta, pois os injustiçados por nós serão justificados, mas nós seremos aqueles que carregarão o fardo do arrependimento e da vacuidade em nossas almas.
A falta da busca de uma visão mais clara da realidade nos condiciona e condena a vivermos numa sociedade desordenada, inoperante e equivocada.
A evolução de nossos relacionamentos humanos consiste em sermos capazes de olharmos o outro devagar. O sentimento e a admiração têm de ser processual, na medida em que vamos conhecendo os defeitos e as qualidades do outro.
