Amo a Natureza
O PASSE À LUZ DE ALLAN KARDEC.
Autor: Marcelo Caetano Monteiro.
Natureza, Fundamentos, Limites e Equívocos Sobre Uma das Práticas Mais Conhecidas do Espiritismo.
Entre os diversos temas que cercam o movimento espírita, poucos despertam tantas dúvidas quanto o passe. Ao longo dos anos, surgiram métodos, nomenclaturas, gesticulações, técnicas e interpretações variadas que, muitas vezes, acabaram por obscurecer aquilo que realmente foi ensinado por Allan Kardec. Para compreender o passe com fidelidade doutrinária, é necessário retornar às obras fundamentais da Codificação Espírita e examinar cuidadosamente o que o Codificador efetivamente escreveu sobre a transmissão dos fluidos, o magnetismo e a ação curadora.
Antes de tudo, convém observar que a palavra "passe", tal como é utilizada atualmente nas casas espíritas, não aparece sistematicamente na Codificação. Contudo, os princípios que sustentam essa prática encontram-se amplamente desenvolvidos nas obras de Kardec por meio dos estudos sobre magnetismo, fluidos espirituais, mediunidade curadora e ação dos Espíritos sobre os encarnados.
O passe, na sua essência, pode ser definido como uma transmissão fluídica. Trata-se da ação pela qual determinados fluidos são dirigidos de um ser para outro que também deve contribuir positivamente e com objetivos de auxílio, equilíbrio, fortalecimento ou alívio. Não constitui milagre, magia, ritual religioso ou concessão sobrenatural. É, segundo Kardec, um fenômeno natural submetido a leis igualmente naturais, ainda que ainda desconhecidas pela ciência de sua época.
Em A Gênese, ao estudar os fluidos espirituais, Kardec ensina que a ação magnética pode ocorrer de três maneiras distintas.
A primeira ocorre pela atuação exclusiva do fluido do magnetizador. Nesse caso, a pessoa transmite seus próprios recursos fluídicos ao beneficiário.
A segunda ocorre pela ação direta dos Espíritos, independentemente da participação fluídica significativa de um encarnado.
A terceira, e mais importante para a compreensão do passe espírita, resulta da combinação entre o fluido humano e o fluido espiritual. Kardec denominou essa modalidade de magnetismo misto ou humano-espiritual. É justamente nessa categoria que se enquadra a prática do passe nas instituições espíritas.
O passista, portanto, não é um curador milagroso nem um indivíduo dotado de poderes excepcionais. Sua função assemelha-se muito mais à de um colaborador, um intermediário, um cooperador dos Bons Espíritos. Ele oferece seus recursos fluídicos e sua disposição moral para que a assistência espiritual possa agir com maior eficiência.
Essa compreensão elimina uma das maiores distorções existentes em torno do passe: a crença de que o poder estaria na pessoa que o aplica.
Kardec foi categórico ao afirmar que os fluidos não são independentes das condições morais daquele que os emite. Os pensamentos, sentimentos, intenções e tendências íntimas modificam profundamente a qualidade das emanações fluídicas. Assim, o orgulho, o egoísmo, a vaidade, a agressividade ou a malícia podem impregnar negativamente os fluidos humanos, enquanto a benevolência, a humildade, a caridade e a sinceridade contribuem para sua elevação.
Na Revista Espírita de setembro de 1865, Kardec destaca que os fluidos transmitidos pelos indivíduos sofrem influência direta do estado moral de quem os exterioriza. Já na edição de novembro de 1866, enfatiza que a depuração íntima constitui uma das condições fundamentais para os que desejam trabalhar na assistência fluídica.
Essa observação possui enorme importância doutrinária.
Significa que o verdadeiro preparo para o passe não consiste apenas em estudar técnicas. O essencial é o esforço permanente de renovação moral. Quanto mais elevado o sentimento, mais harmoniosa tende a ser a natureza dos fluidos colocados em circulação.
Não é sem motivo que os Espíritos superiores ensinam repetidamente que a autoridade moral vale mais que qualquer recurso exterior. sob a ótica kardeciana. Pequenos comportamentos, quando não esclarecidos, podem acabar sendo interpretados como requisitos espirituais, técnicas especiais ou procedimentos indispensáveis, gerando tradições que, com o passar do tempo, se cristalizam sem qualquer fundamento doutrinário.
Como exemplo citamos, a atitude da respeitável senhora de retirar as chinelas antes de aplicar o passe pode ser perfeitamente natural e humana. Talvez seus pés estejam inchados, doloridos, sensíveis ao calor ou ao tempo prolongado em pé. Talvez ela simplesmente encontre maior conforto físico dessa forma. Nada há de errado nisso.
Entretanto, o problema surge quando observadores menos experientes, especialmente os recém-chegados à Casa Espírita, passam a atribuir significado espiritual ao gesto.
Alguém pode concluir silenciosamente:
— "Ela tira os calçados para descarregar energias."
Outro poderá pensar:
— "Os fluidos passam melhor pelos pés descalços."
Um terceiro poderá imaginar:
— "Esse é um procedimento utilizado pelos trabalhadores mais experientes."
E assim, sem má-fé de ninguém, nasce uma crença.
Mais tarde, essa crença pode transformar-se em costume.
Depois, o costume pode adquirir aparência de regra.
Por fim, a regra acaba sendo vista como princípio doutrinário.
Foi exatamente contra esse mecanismo que Allan Kardec tantas vezes advertiu. Em suas obras, encontramos constante preocupação em distinguir os princípios fundamentais do Espiritismo das práticas particulares adotadas por pessoas ou instituições.
A função da direção doutrinária de uma Casa Espírita não é vigiar gestos inocentes nem constranger trabalhadores idosos ou enfermos. Pelo contrário, deve acolhê-los com carinho e respeito. Mas cabe-lhe exercer permanente vigilância educativa para impedir que hábitos pessoais sejam confundidos com ensinamentos espíritas.
Uma orientação discreta poderia ser suficiente.
Sem expor a senhora.
Sem criar constrangimento.
Sem transformar algo simples em problema.
Em estudos, reuniões de trabalhadores ou esclarecimentos aos frequentadores, pode-se explicar que:
O passe não depende de roupas especiais, posição do corpo, pés descalços, movimentos específicos das mãos ou qualquer ritual exterior. Eventuais atitudes individuais decorrem de necessidades pessoais, conforto físico ou hábitos particulares, não constituindo normas da Doutrina Espírita.
Essa postura preserva simultaneamente dois valores importantes:
A caridade para com a trabalhadora, respeitando sua idade e suas limitações físicas.
A pureza doutrinária, evitando que observações equivocadas gerem superstições futuras.
A história do movimento espírita demonstra que muitos dos chamados "mistérios" nasceram justamente de interpretações apressadas de atos que, originalmente, eram apenas circunstâncias pessoais. Um lenço usado por alguém, uma cadeira específica, uma prece repetida, um gesto das mãos, um copo d'água colocado em determinado local, tudo isso pode adquirir, na imaginação humana, uma importância que jamais possuiu em sua origem.
O método kardeciano recomenda sempre perguntar:
"Isto é uma necessidade humana ou um princípio doutrinário?"
Se for necessidade humana, merece respeito.
Se for princípio doutrinário, deve encontrar apoio nas obras fundamentais.
Essa distinção simples protege a Casa Espírita da ritualização e conserva a simplicidade que caracterizou o Espiritismo desde os seus primórdios.
Como ensina Kardec, o valor do passe não está nos pés calçados ou descalços, nas mãos abertas ou fechadas, nos movimentos lentos ou rápidos. O essencial encontra-se na vontade de servir, na qualidade dos fluidos transmitidos e na assistência dos Bons Espíritos.
Todo o resto pertence ao campo das circunstâncias humanas, que merecem compreensão, mas não veneração.
Sob essa ótica, o passe não é uma demonstração de poder, mas um exercício, de serviço.
Não é um privilégio.
Não é um título.
Não é uma posição hierárquica.
É uma oportunidade de auxílio fraterno.
Outro aspecto frequentemente mal compreendido diz respeito às técnicas de aplicação.
Atualmente encontram-se diversas classificações: passe longitudinal, transversal, dispersivo, concentrador, cruzado, de sustentação, de limpeza, entre outras denominações.
Contudo, quando examinamos rigorosamente a Codificação, verificamos que Allan Kardec jamais estabeleceu qualquer dessas técnicas como norma doutrinária.
Em nenhum ponto de O Livro dos Médiuns, A Gênese, Obras Póstumas ou da Revista Espírita encontramos prescrições determinando que determinados movimentos das mãos produzam necessariamente efeitos específicos.
A razão é simples.
Para Kardec, os fluidos são dirigidos primordialmente pelo pensamento e pela vontade.
O movimento físico constitui elemento secundário.
Em A Gênese, Kardec explica que os Espíritos manipulam os fluidos por meio do pensamento, da mesma forma que os homens manipulam objetos materiais pelas mãos. O pensamento funciona como força orientadora, modeladora e direcionadora da substância fluídica.
Consequentemente, não existe fundamento doutrinário para afirmar que determinado gesto seja indispensável à eficácia do passe.
Se um movimento auxiliar favorece a concentração do passista, pode ser utilizado como recurso pessoal. Entretanto, não pode ser elevado à condição de princípio doutrinário obrigatório.
O mesmo raciocínio aplica-se ao chamado passe transversal, longitudinal ou qualquer outra classificação surgida posteriormente.
Tais sistemas pertencem principalmente ao campo experimental do magnetismo e das práticas desenvolvidas após a Codificação.
Podem constituir hipóteses de trabalho.
Podem representar experiências particulares.
Podem até apresentar resultados observados por determinados grupos.
Mas não integram o corpo doutrinário codificado por Kardec.
O critério kardeciano permanece sempre o mesmo:
Está nas obras fundamentais ou trata-se de elaboração posterior?
Se for elaboração posterior, merece respeito como experiência humana, mas não deve ser confundida com princípio espírita universal.
Questão semelhante surge em relação ao chamado passe de assopro.
Historicamente, o uso do sopro remonta às práticas magnetistas do século XIX. Muitos magnetizadores acreditavam que a insuflação poderia concentrar, estimular ou dispersar fluidos.
Kardec conhecia essas experiências e não negava a possibilidade de ação magnética através do sopro. Todavia, jamais transformou essa prática em requisito do Espiritismo.
O que realmente importa, segundo a visão kardeciana, não é o instrumento utilizado, mas a qualidade da ação fluídica produzida.
Pode haver transmissão pelo olhar.
Pode haver transmissão pela palavra.
Pode haver transmissão pela imposição das mãos.
Pode haver transmissão pelo pensamento.
Pode haver transmissão pelo sopro.
Nenhum desses meios possui virtude própria.
Todos são apenas veículos.
O elemento essencial permanece sendo a vontade dirigida ao bem, a qualidade dos fluidos emitidos e a assistência dos Bons Espíritos.
Quando um gesto exterior passa a ser considerado indispensável ou dotado de eficácia própria, corre-se o risco de transformar um fenômeno natural em ritual.
E foi justamente contra a ritualização que Kardec tantas vezes advertiu.
O Espiritismo nasceu para libertar o pensamento das superstições, não para criar novas.
Por essa razão, o passe espírita autêntico deve ser simples.
Sem fórmulas sacramentais.
Sem palavras mágicas.
Sem objetos especiais.
Sem gestos obrigatórios.
Sem teatralizações.
Sem personalismos.
Sem comercialização.
A força do passe não reside nas aparências.
Reside na ação dos fluidos sob a direção da inteligência e da vontade.
Reside na sintonia com os Bons Espíritos.
Reside na sinceridade do sentimento.
Reside no esforço moral de quem serve.
Sobretudo, reside na submissão às leis divinas que governam as relações entre Espírito, perispírito e matéria.
Assim, a posição de Allan Kardec sobre o passe pode ser resumida em alguns princípios fundamentais:
O passe possui fundamento legítimo dentro da Doutrina Espírita.
Trata-se de uma transmissão fluídica natural.
Pode ocorrer pela ação humana, espiritual ou pela combinação de ambas.
A qualidade moral do agente influencia a natureza dos fluidos transmitidos.
O pensamento e a vontade são fatores essenciais.
Não existem técnicas obrigatórias estabelecidas pela Codificação.
Gestos e movimentos são secundários.
Não há poderes miraculosos no passista.
O auxílio dos Bons Espíritos desempenha papel decisivo.
Toda ritualização deve ser evitada.
À luz de Kardec, portanto, o passe não é uma cerimônia. É um ato de fraternidade.
Não é um privilégio reservado a alguns. É uma forma de cooperação no bem.
Não é uma prática mágica. É uma aplicação das leis naturais que regem o intercâmbio fluídico entre os seres.
Quanto mais simples, sincero e moralmente elevado for o trabalhador, mais próximo estará do espírito da Codificação.
Porque, em última análise, o verdadeiro passe não nasce das mãos.
Nasce da alma.
Fontes:
A Gênese.
O Livro dos Médiuns.
Obras Póstumas.
Revista Espírita.
Estudos históricos sobre magnetismo e transmissão fluídica no século XIX.
Análises doutrinárias de instituições kardecianas sobre a distinção entre Codificação Espírita e práticas posteriores.
O PERISPÍRITO E A NATUREZA DO SOFRIMENTO ESPIRITUAL: A LUCIDEZ DE ALLAN KARDEC SOBRE AS SENSAÇÕES DOS ESPÍRITOS.
Marcelo Caetano Monteiro.
Entre os inúmeros temas investigados por Allan Kardec, poucos revelam tamanho rigor filosófico e científico quanto a natureza das sensações experimentadas pelo Espírito após a morte do corpo físico. O chamado Ensaio Teórico sobre a Sensação nos Espíritos, incorporado ao contexto de O Livro dos Espíritos, representa um dos momentos mais elevados da investigação kardequiana acerca da constituição do ser humano, da função do perispírito e das consequências morais da vida terrestre.
Ao abordar essa questão, Kardec rompe simultaneamente com dois extremos: o materialismo, que reduz a consciência à atividade cerebral, e o misticismo, que imagina o Espírito como uma entidade absolutamente insensível após a desencarnação. Em seu lugar, apresenta uma concepção fundamentada na observação dos fatos, segundo a qual o Espírito conserva sua capacidade perceptiva graças ao perispírito, envoltório semimaterial que estabelece a ligação entre a inteligência e a matéria.
O primeiro ponto que merece destaque é a distinção entre a causa da dor e a percepção da dor. O corpo não produz o sofrimento em sua essência; ele constitui apenas o instrumento por meio do qual determinadas impressões chegam ao Espírito. A consciência da dor pertence à alma, que registra, interpreta e conserva essas experiências. Kardec demonstra, assim, que a sensação não se identifica com o órgão físico, mas com a faculdade consciente do Espírito.
Essa conclusão encontra respaldo em um fenômeno conhecido ainda hoje pela medicina: a chamada dor do membro fantasma. Pessoas amputadas frequentemente continuam sentindo dores em membros que já não existem. O exemplo, utilizado por Kardec, evidencia que a sensação ultrapassa os limites da anatomia física, permanecendo vinculada à percepção consciente. Embora a explicação científica contemporânea envolva mecanismos neurológicos, Kardec utiliza essa analogia para ilustrar que a experiência subjetiva da dor não depende exclusivamente da existência material do órgão.
É justamente nesse ponto que surge o papel fundamental do perispírito. Segundo a Doutrina Espírita, ele constitui o elo entre o Espírito e o corpo físico, sendo formado a partir do fluido universal. Kardec o descreve como um envoltório semimaterial que funciona como agente transmissor das sensações. Enquanto encarnado, o Espírito percebe o mundo por intermédio dos órgãos corporais; após a desencarnação, desaparecem os órgãos, mas permanece o perispírito, conservando a possibilidade de determinadas percepções.
Essa concepção esclarece um dos aspectos mais discutidos da fenomenologia espírita: por que alguns Espíritos afirmam sentir frio, calor, sede, fome ou dores físicas? Kardec explica que tais sensações não decorrem da ação direta dos elementos materiais sobre o Espírito. O frio não congela o perispírito; o fogo não o queima; os vermes não devoram o Espírito. O sofrimento nasce da permanência de estados psíquicos e perispirituais associados à condição moral do desencarnado.
Esse entendimento adquire extraordinária profundidade quando Kardec analisa os Espíritos que permanecem fortemente ligados ao corpo após a morte. O caso do suicida que afirma sentir os vermes consumindo seu cadáver constitui uma das passagens mais impressionantes da Codificação. Evidentemente, os vermes atacam apenas o organismo em decomposição. Entretanto, como o desligamento perispiritual ainda não se completou, o Espírito experimenta uma espécie de repercussão psíquica daquilo que ocorre com seu antigo corpo. Não se trata de uma dor orgânica propriamente dita, mas de uma percepção ilusória vivida como realidade.
Essa observação revela um importante aspecto psicológico da desencarnação. A consciência não abandona instantaneamente suas referências construídas durante a vida física. O Espírito continua pensando, percebendo e interpretando a realidade segundo os hábitos adquiridos enquanto encarnado. Quanto maior o apego à matéria, maior a dificuldade em reconhecer a nova condição existencial. Sob essa perspectiva, a morte não transforma moralmente ninguém; ela apenas modifica o estado em que a consciência continua vivendo.
Outro ensinamento notável refere-se ao processo de depuração do perispírito. Kardec afirma que, à medida que o Espírito progride moralmente, seu envoltório torna-se mais etéreo e menos sujeito às influências materiais. Esse princípio possui profundas implicações filosóficas. O sofrimento espiritual não constitui uma punição arbitrária imposta por Deus, mas uma consequência natural da afinidade que o próprio Espírito conserva com os interesses inferiores da existência material.
Quanto mais predominam o egoísmo, o orgulho, a ambição desmedida, a inveja, o ódio e o apego às sensações exclusivamente corporais, mais denso permanece o perispírito. Em contrapartida, o cultivo da humildade, da caridade, da simplicidade e do desapego produz uma gradual espiritualização desse envoltório, reduzindo progressivamente a suscetibilidade às sensações penosas.
Sob o ponto de vista filosófico, Kardec apresenta uma concepção de justiça profundamente racional. O sofrimento não decorre de condenações eternas nem de castigos sobrenaturais. Cada Espírito experimenta naturalmente as consequências do estado íntimo que construiu em si mesmo. A lei divina manifesta-se como ordem moral, na qual causa e efeito permanecem inseparáveis.
Outro aspecto digno de atenção reside na teoria das percepções espirituais. A visão, a audição e as demais faculdades não pertencem aos órgãos físicos, mas ao próprio Espírito. Durante a encarnação, essas capacidades encontram-se limitadas pelos sentidos corporais. Após a morte, tornam-se progressivamente mais amplas à medida que o Espírito se emancipa da matéria. Os Espíritos superiores não percebem menos; ao contrário, percebem incomparavelmente mais, porém por meios que escapam às categorias sensoriais humanas.
Kardec reconhece, com admirável honestidade intelectual, que a ciência de sua época ainda não possuía elementos suficientes para explicar completamente o mecanismo dessas percepções. Em vez de preencher essa lacuna com especulações, limita-se a afirmar aquilo que a observação permite concluir. Essa postura revela um dos maiores méritos metodológicos da Codificação Espírita: admitir os limites do conhecimento quando os fatos ainda não autorizam conclusões definitivas.
A conclusão do ensaio desloca definitivamente a discussão para o campo moral. Os sofrimentos do Espírito guardam relação direta com a maneira pela qual viveu sua existência terrestre. O homem constrói diariamente seu estado espiritual futuro. Cada pensamento, cada sentimento e cada ação modelam gradativamente o perispírito, tornando-o mais ou menos apto à felicidade após a desencarnação.
Essa perspectiva elimina qualquer ideia de fatalismo. O livre-arbítrio permanece como fundamento da evolução espiritual. Ninguém está condenado ao sofrimento perpétuo, assim como ninguém conquista a felicidade sem esforço moral. A libertação das dores espirituais começa ainda durante a existência corporal, mediante o domínio das paixões inferiores, a renovação dos sentimentos e a prática constante do bem.
Ao final de sua exposição, Kardec recorda que essas conclusões não nasceram de uma elaboração teórica isolada. Resultaram da observação metódica de milhares de comunicações espirituais, analisadas, comparadas e submetidas ao controle da universalidade do ensino dos Espíritos. Esse procedimento evidencia o caráter investigativo da Doutrina Espírita, cuja autoridade repousa menos sobre afirmações dogmáticas e mais sobre a convergência criteriosa dos fatos observados.
Assim, o Ensaio Teórico sobre a Sensação nos Espíritos permanece como uma das mais sólidas demonstrações da profundidade filosófica da Codificação Espírita. Longe de apresentar uma visão fantasiosa da vida além da morte, Kardec oferece uma reflexão em que psicologia, filosofia moral e observação dos fenômenos convergem para afirmar que o verdadeiro destino do Espírito é consequência direta daquilo que ele faz de si mesmo.
Fontes
Allan Kardec. O Livro dos Espíritos. Parte Segunda, Capítulo VI – Da Vida Espírita.
Allan Kardec. Revista Espírita (1865) – Ensaio Teórico sobre a Sensação nos Espíritos.
Allan Kardec. O Céu e o Inferno, Primeira Parte e Segunda Parte.
Allan Kardec. A Gênese, Capítulos XIV e XV.
Allan Kardec. O Livro dos Médiuns, Segunda Parte.
Ser jovem é ser intrépido por natureza e revolucionário por imperativo moral. Todavia, sem discernimento, a revolução é apenas tumulto; sem oratória, é apenas silêncio.
Bendiga a natureza e tudo o que vier ao seu encontro, agindo sempre com alegria, paciência e gratidão para viver cada dia motivado, feliz e abençoado.
A natureza das crianças admite coisas puras, sem malícia e fantásticas, menos a estulticia dos homens.
Olhei para o céu,
Olhei para a natureza,
Olhei para as pessoas,
Olhei até para a minha cama, e só vi poesias.
Dominar a natureza através da técnica é o ápice da racionalidade. É a prova de que não estamos aqui para apenas "contemplar" o ser, mas para transformá-lo conforme nossa necessidade e desejo.
O ser humano é um ser estocástico por natureza; nossa genialidade nasce do erro, do esquecimento e do insight que surge quando menos o procuramos.
A ciência e religião nunca caminham juntas, quanto mais sabemos sobre a natureza, menores se tornam as chances de qualquer divindade existir!
Aprende-se também geografia, pela observação da natureza. Ao observar os rios, os mares, planaltos, planícies e montanhas. Já a matemática, ao adicionar os quilômetros percorridos, através de muitas viagens.
Rocha Metamórfica
Prova que a Natureza
se transforma e se renova.
O calor do manto da Terra
traz o carbono puro, por pressão.
Faz surgir o mineral
mais duro do planeta ,o Diamante.
Que dádiva, essa força interessante!
Quando abri as portas do meu coração,
o peso revelou sua verdadeira natureza:
não era força, era ausência de confiança.
Então Deus sussurrou ao meu espírito:
"Se crês em Mim,
por que insistes em sustentar
o que já repousa em Minhas mãos?"
Ele contemplou a profundidade da minha dor,
purificou as cicatrizes da alma
e fez da esperança
o princípio de uma nova existência.
Falhar é da natureza humana, reconhecer as próprias falhas é um dom de Deus, e delas extrair aprendizado para evoluir, é o emprego desse dom para a vida.
