Ame mas Nao Seja Trouxa
O homem criou deuses para explicar o céu; talvez sua maior tarefa agora seja aprender a contemplar o céu sem exigir que ele lhe responda.
O Estado laico protege a religião justamente porque impede que qualquer religião seja transformada em instrumento de coerção, reconhecendo que a verdade última sobre o transcendente permanece epistemicamente aberta.
O consumidor contemporâneo compra produtos enquanto produz dados sobre si; talvez seja esse o primeiro mercado em que o comprador paga e, ao mesmo tempo, fornece matéria-prima.
A maior liberdade científica talvez seja perguntar se aquilo que todos consideram verdadeiro possui evidências suficientes; a maior liberdade agnóstica é admitir quando a resposta ainda não pode ser conhecida.
Se houver um tribunal da eternidade, talvez sua sentença mais rigorosa seja reconhecer que nenhuma testemunha humana possui competência para depor sobre o absoluto.
A consciência transforma acontecimentos em experiência; talvez seja essa transformação que ainda separa o cálculo da existência.
Talvez a diferença entre inteligência e consciência seja menos uma questão de capacidade e mais uma questão de experiência.
Entre o que desejamos que seja verdadeiro e aquilo que podemos legitimamente afirmar como verdadeiro existe o território da dúvida; é nesse território, precisamente, que a razão aprende sua humildade e a liberdade encontra sua forma mais alta.
Talvez a maior liberdade intelectual seja suportar uma pergunta aberta sem violentá-la com uma resposta prematura.
Talvez o casamento seja uma das mais sofisticadas invenções humanas: a tentativa de conceder permanência institucional a uma experiência cuja beleza reside precisamente em sua incerteza.
Talvez seja preciso morrer algumas vezes por dentro para entender que viver também é deixar para trás quem já não somos.
Talvez o amor seja uma de nossas escolhas mais arbitrárias: encontramos uma pessoa entre milhões e damos ao acaso o nome de destino.
A religião frequentemente promete respostas onde a filosofia encontrou perguntas, e talvez seja precisamente essa diferença que explique sua força.
Talvez o mais silencioso dos naufrágios seja perder a própria identidade enquanto se aprende, pouco a pouco, a representar aquilo que o mundo espera de nós.
A felicidade talvez seja uma porta que só se abre quando deixamos de arrombá-la; há destinos que recuam justamente diante daqueles que tentam possuí-los à força.
Talvez o primeiro problema da filosofia seja descobrir se a vida merece ser abandonada antes que tenhamos compreendido por que desejamos abandoná-la.
