A Verdade de cada um Pirandello
O silêncio mata
Não porque seja barulhento.
Não porque seja violento à primeira vista.
Mas porque é limpo demais para incomodar quem prefere se sentir correto.
O silêncio é o álibi dos que sabem.
É o abrigo moral de quem entende exatamente o que está acontecendo, mas escolhe não tocar no assunto.
Não por dúvida.
Por conveniência.
A sociedade não falha por falta de discurso.
Ela falha por excesso de encenação.
Defende valores em público e os abandona no primeiro instante em que eles exigem atitude.
Todo mundo reconhece a injustiça quando ela acontece com os outros.
O problema começa quando reconhecê-la exige posicionamento.
Quando exige perda.
Quando exige coragem.
É nesse momento que o silêncio aparece travestido de maturidade, de equilíbrio, de bom senso.
Mas não é nada disso.
É medo.
É cálculo.
É autopreservação.
O silêncio não é ausência de opinião.
É a decisão consciente de não agir.
É a escolha de proteger a própria imagem enquanto alguém suporta o peso inteiro da violência.
Quem se cala não está fora do problema.
Está dentro dele.
Sustentando.
Normalizando.
Permitindo.
Nenhuma estrutura injusta sobrevive apenas pela força de quem oprime.
Ela sobrevive porque encontra terreno fértil em quem observa e não interfere.
Em quem percebe, mas não confronta.
Em quem prefere não se comprometer.
A verdade desconfortável é esta:
muita gente não se cala porque não sabe o que fazer.
Cala porque sabe exatamente o que deveria fazer
e decide não fazer.
O silêncio é a forma mais educada de traição moral.
Não deixa marcas visíveis.
Não compromete discursos.
Mas cobra um preço alto de quem sofre e um preço invisível de quem se omite.
Uma sociedade que se orgulha do próprio silêncio não é pacífica.
É treinada para evitar responsabilidade.
E todo mundo que lê isso sabe, no fundo,
em que momento escolheu calar.
Em que situação desviou o olhar.
Em que instante preferiu não se envolver.
Não é acusação.
É espelho.
Porque quando o silêncio é confortável demais,
é sinal de que alguém está pagando o custo no lugar de quem se cala.
E isso, cedo ou tarde, exige reflexão.
Agora é Decisão
Não é sobre falta de tempo.
É sobre falta de decisão.
Nós sabemos quando algo está errado. Sabemos quando estamos nos afastando de quem amamos. Sabemos quando o orgulho começa a falar mais alto que o afeto. Sabemos quando estamos empurrando um sonho para “depois”. A consciência não é o problema. O problema é o que fazemos com ela.
Entre perceber e agir existe o medo. Medo de perder, de falhar, de não ser aceito, de começar de novo. E então justificamos.
Dizemos que precisamos pensar melhor.
Dizemos que não é o momento ideal. Dizemos que semana que vem será diferente.
Mas aqui está a verdade simples:
Se você sabe
e não faz,
você já escolheu.
Não escolher também é escolha. Não agir também é ação. O que você adia continua produzindo consequência.
A vida raramente destrói tudo de uma vez.
Ela desgasta.
Ela esfria o que era intenso.
Ela transforma presença em convivência automática.
Devagar o suficiente para que a gente se acostume. E o mais perigoso não é o erro. É a adaptação ao que nos diminui.
Será que sabemos mesmo?
Ou apenas evitamos encarar?
Porque consciência sem movimento vira peso. E o peso acumulado vira arrependimento.
O tempo não negocia com indecisão. Ele não pausa até que você se sinta pronto. Ele segue. E enquanto segue, revela uma lógica inevitável:
O que você não decide
também decide você.
Viver dói. Amar expõe. Mudar desestabiliza. Mas não viver endurece.
Não amar esvazia.
Não mudar corrói lentamente por dentro.
A dor da ação é aguda; a dor da omissão é crônica.
E aqui está o ponto central: não é ignorância. É postergação consciente. Nós sentimos quando estamos nos traindo um pouco. Sentimos quando estamos ficando menores para caber no confortável. Sentimos quando estamos escolhendo paz superficial em vez de verdade profunda.
A pergunta não é se você sabe.
A pergunta é: o que você fará com o que sabe?
Um dia haverá silêncio. Não o silêncio de uma sala. O silêncio em que as oportunidades já passaram. E nesse dia não serão os outros que perguntarão. Será a própria consciência.
Quando você soube,
por que não fez?
Quando você sentiu,
por que não falou?
Quando percebeu que precisava mudar,
por que esperou estar pronto?
A vida nunca exigiu perfeição. Nunca exigiu ausência de medo. Exigiu presença.
Presença quando era desconfortável.
Presença quando era mais fácil fugir. Presença quando tudo dentro de você tremia.
Enquanto você respira, ainda é presença que está em jogo. Ainda é decisão. Ainda é movimento.
E movimento não começa com certeza absoluta.
Começa com coragem suficiente.
Agora não é teoria.
Não é filosofia.
Não é inspiração momentânea.
É escolha.
E escolha
é agora.
Frutos Humanos
Marco Arawak
Se a gente fosse explicar as pessoas como frutas, ia economizar muita terapia.
Ou pelo menos ia deixar o sofrimento mais organizado por categoria.
A banana é perfeita. Presente, fácil, resolve tudo, não complica.
Ou seja… completamente ignorada.
Porque se não te dá ansiedade, você nem reconhece como interesse.
A maçã é padrãozinho. Bonita, alinhada, parece saudável emocionalmente.
Você morde e descobre que já estava machucada faz três relacionamentos… só bem administrada.
A pera é madura, tranquila, sabe o que quer.
Basicamente tudo que você vive postando que procura…
e tudo que você ignora porque “não sentiu química”.
Química, no seu caso, é trauma com boa comunicação.
A uva é golpe silencioso.
Você pega uma achando que é leve… quando vê já está emocionalmente comprometido com um cacho inteiro de problema que ninguém combinou.
A cereja então… aparece pouco, fala pouco, some do nada.
Você cria uma história inteira.
A pessoa só mandou um “kkkk” e você já estava escolhendo nome de filho.
A manga é intensidade. Chega doce, quente, envolvente.
Você sabe que vai dar trabalho.
Mas vai mesmo assim, com a autoconfiança de quem claramente nunca aprende.
O morango é lindo. Perfeito. Instagramável.
Dura menos que promessa de “vamos ver no que dá”.
A melancia é animada, social, divertida.
Mas na intimidade… às vezes é só água gelada ocupando espaço emocional.
O melão é o primo que ninguém chamou mas apareceu.
Não é ruim… mas você também não lembra por que está ali.
O abacaxi tem fama de difícil que vale a pena.
Na prática, às vezes é só difícil mesmo e você está insistindo porque já investiu tempo demais pra admitir que errou.
O maracujá parece equilibrado. Vibe zen.
Três minutos sem resposta e já está escrevendo um roteiro completo de abandono.
O limão não tem filtro. Fala tudo.
Machuca? Machuca.
Mas pelo menos não te deixa meses tentando entender o que quis dizer com “depois a gente vê”.
O coco é fechado. Muito fechado.
Quando finalmente se abre… você já está emocionalmente em outro estado, com outra pessoa e outro trauma.
O kiwi é o diferentão.
Você julga, ignora… depois descobre que era bom e fica com cara de quem perdeu promoção por preconceito.
A tangerina é envolvente. Cheiro forte, presença marcante.
Mas dá trabalho, faz bagunça e deixa rastro.
Inclusive na sua paz.
A goiaba é sincera. Simples, direta, cheia de caroço.
Não é perfeita… mas também não te faz perder tempo fingindo que é.
A laranja é sociável. Fácil de gostar, fácil de dividir.
Mas sempre tem uma amarga pra te lembrar que você confia demais no básico.
E o abacate…
o abacate não é pra qualquer um.
Tem gente que prova e fala “não tem gosto”.
Claro que não tem… você também não tem maturidade pra sentir.
No fim, ninguém é só uma fruta.
Tem dia que a pessoa está madura, no outro está verde… e ainda assim quer ser tratada como sobremesa premium.
O problema nunca foi o tipo de fruta.
É você ignorar as boas, correr atrás das complicadas e depois abrir o Instagram pra postar “ninguém presta”.
E sejamos sinceros…
você não quer algo diferente.
Você quer o mesmo erro…
só que com uma casca nova pra não parecer repetição.
O sucesso é discreto. A competência se evidencia. O caráter sustenta. A integridade legitima. A ética preserva. A verdade prevalece. A humildade fortalece. A excelência diferencia. Os resultados testemunham. O legado permanece. O tempo revela.
E a insegurança... faz barulho.
O QUE ACONTECE QUANDO A DOR FALA MAIS ALTO
Você guarda tudo isso porque o silêncio parecia mais seguro do que aceitar o fim.
E não é fraqueza, nem exagero.
É porque você acreditou na promessa do que poderia ser.
Desistir parecia destruir o futuro que você desenhou sozinho.
É por isso que você continua:
justificando o que não tem defesa
aceitando migalhas de afeto
recalculando rota para caber onde não há espaço
culpando a si mesmo pelo que deu errado
Tudo para não admitir que o barco já afundou.
Mas a verdade é simples e inevitável: você não chora pela falta que o outro faz.
Você chora pelo desperdício de tanto amor entregue a quem não soube segurar.
Quando essa ficha cai, a dor muda de lugar.
O DIA EM QUE A ESPERANÇA CANSA
Apesar de toda a resiliência, chega o dia em que o peito simplesmente… desiste.
E quando desiste, a esperança cessa.
Isso acontece quando você finalmente enxerga:
que a balança do afeto sempre esteve desregulada
que você mendigava a atenção que antes sobrava
que o seu melhor nunca foi o suficiente para quem só sabia receber
que continuar insistindo era uma forma lenta de se destruir
Pequenos no Mundo, Grandes na Busca
_Marco Arawak_
A gente é criado acreditando que o mundo tem um manual de instruções escondido em algum lugar.
Embora a nossa vida inteira seja, no fundo, uma longa prova de que esse manual simplesmente não existe.
A gente passa anos tentando construir certezas, guardando-as como "moedas velhas em cofre", convencidos de que, quanto mais acumulamos, mais seguros estaremos.
Mas a vida, essa arquiteta implacável, nos mostra o contrário.
Os planos podem desmoronar. Pessoas, às vezes, seguem outros fluxos sem aviso prévio.
É nesse momento de ruptura que a gente descobre: "ter dúvida não é um defeito, mas sim a gente sendo gente, desarmado".
Omedo de não saber não é uma falha de caráter. É o estado mais honesto da nossa existência.
"Aprender a viver é aceitar que a gente não vai ter o mapa".
Por mais que a nossa mente ansiosa busque atalhos, a verdade é que a incerteza "não é um problema para ser resolvido, é o cenário". Não se luta contra o palco onde a peça acontece; a gente apenas aprende a caminhar nele.
A gente sofre porque tenta empurrar sentimentos gigantes dentro de caixas pequenas. Mas, diante da dor de uma perda ou da intensidade de uma saudade, a única saída é "lidar com o mistério".
Entender que, longe de ser falta de inteligência, essa incapacidade de explicar tudo é, na verdade, o que dá "profundidade para essa confusão".
Se tudo fosse óbvio, onde estaria a beleza?
Cansa querer ter a palavra final. Cansa carregar o peso de ser o dono da verdade.
Quando a gente finalmente se permite o "alívio de soltar a corda", a vida ganha uma leveza nova. Isso não significa desistir da busca. Pelo contrário.
A vida vale o esforço justamente porque "o enigma nunca termina".
→ ser pequeno demais para caber o mundo, mas grande o suficiente para querer continuar perguntando.
No fim das contas, a nossa condição é essa.
E, apesar de todo o desconhecido, é nessa pergunta constante que a gente se define.
É uma viagem, no mínimo, interessante.
A Arte de Ser Sóbrio
Autocontrole, Clareza Interior e Ética do Ser
Há quem pense que ser sóbrio é viver em negação.
Mas não é.
Ser sóbrio não é viver com menos vida.
É viver com mais presença.
É perceber o que acontece dentro de si antes de simplesmente reagir.
É reconhecer o desejo sem se tornar escravo dele.
É sentir sem precisar fugir.
É escolher sem precisar ser levado pelo impulso.
A vida oferece distrações o tempo inteiro.
Um excesso aqui.
Uma fuga ali.
Uma promessa de alívio imediato.
E então surge aquela voz:
“Só mais um pouco. Você merece.”
Talvez a pergunta mais importante seja outra:
“Eu realmente quero isso ou estou tentando escapar de alguma coisa?”
É nesse pequeno espaço entre o impulso e a escolha que a sobriedade começa.
Não como punição.
Não como privação.
Não como uma guerra contra aquilo que somos.
Mas como liberdade.
Porque autocontrole não é sufocar o que sentimos.
É conseguir ouvir o que sentimos sem entregar a isso o comando da nossa vida.
É respirar antes de responder.
É esperar antes de agir.
É saber quando parar.
É reconhecer quando algo deixou de ser escolha e começou a ser dependência.
Isso exige força.
Mas não uma força rígida.
É uma força serena.
Fogo domado.
A capacidade de permanecer inteiro mesmo quando alguma parte de nós pede excesso.
E talvez seja aí que a chamada pureza vibracional encontre seu verdadeiro significado.
Não como uma ideia de perfeição ou como uma lei invisível que precise ser provada, mas como uma imagem para aquilo que cultivamos dentro de nós.
Pensamentos influenciam atitudes.
Atitudes transformam relações.
Relações transformam ambientes.
Ambientes também nos transformam.
Aquilo que alimentamos interiormente deixa marcas.
Uma palavra pode aproximar.
Outra pode ferir.
Uma emoção pode ser compreendida.
Outra, quando ignorada, pode acabar conduzindo nossas escolhas.
Por isso, cuidar da própria energia também pode significar cuidar daquilo que pensamos, sentimos, consumimos, dizemos e transmitimos.
Pureza não é nunca se contaminar com a vida.
É saber reconhecer o que nos faz bem, o que nos desequilibra e o que precisamos deixar ir.
É cuidado.
É consciência.
É presença.
E existe ainda uma dimensão mais profunda da sobriedade: a ética.
Porque nossas escolhas não terminam em nós.
Aquilo que fazemos pode alcançar outras pessoas.
Por isso, respeitar os próprios limites também significa respeitar os limites do outro.
Não transformar nossa carência em cobrança.
Nossa raiva em agressão.
Nosso medo em controle.
Nossa frustração em ferida para alguém.
Existe uma ética que ninguém vê imediatamente.
Ela está na intenção.
Naquilo que fazemos quando ninguém está olhando.
Na responsabilidade que assumimos pelas consequências de nossas escolhas.
Sobriedade, nesse sentido, não nos torna melhores que ninguém.
Torna-nos mais responsáveis por aquilo que fazemos com aquilo que sentimos.
E talvez um dos excessos mais silenciosos da vida moderna seja justamente a dificuldade de permanecer consigo mesmo.
Estamos sempre procurando alguma coisa para preencher o silêncio.
Mais estímulo.
Mais distração.
Mais velocidade.
Qualquer coisa que nos impeça de parar.
Porque parar exige coragem.
Quando o ruído diminui, podemos encontrar aquilo que tentávamos evitar.
Uma dor.
Uma dúvida.
Uma lembrança.
Mas também podemos encontrar algo que estava escondido por trás de todo aquele ruído:
clareza.
Talvez seja por isso que a sobriedade possa ser entendida como um reencontro.
Não com uma versão perfeita de nós mesmos.
Mas com aquilo que somos quando deixamos de fugir.
Ser sóbrio é poder dizer:
“Eu posso sentir isso sem me perder.”
“Eu posso desejar sem precisar obedecer.”
“Eu posso dizer não.”
E, principalmente:
“Eu posso escolher.”
Porque liberdade não é fazer tudo aquilo que o impulso pede.
Liberdade é ter espaço interior suficiente para decidir.
É escolher aquilo que consumimos.
Aquilo que cultivamos.
Aquilo que falamos.
Aquilo que permitimos permanecer em nossa vida.
É saber que nem todo desejo precisa ser realizado,
nem todo pensamento precisa ser seguido,
nem toda emoção precisa se transformar em ação.
A sobriedade não promete uma vida sem dor.
Promete algo mais honesto:
a possibilidade de atravessar a vida sem precisar fugir de si mesmo.
E talvez seja essa a verdadeira lucidez.
Não chegar ao fim da estrada completamente intocado.
Mas chegar inteiro.
Inteiro depois das escolhas.
Inteiro depois das perdas.
Inteiro depois das tentações.
Inteiro depois dos dias difíceis.
Sem precisar apagar aquilo que sentimos para continuar caminhando.
🌕 Aos que sentem o chamado da lucidez, aproximem-se.
Não é preciso chegar perfeito.
Basta chegar verdadeiro.
Deixem à porta os disfarces, as pressas e aquilo que já não serve.
Aqui, a presença é o vinho.
A escuta é o banquete.
A consciência é a luz.
E a clareza, o altar.
Não se entra neste templo para fugir da vida.
Entra-se para estar mais inteiro dentro dela.
O templo está aberto.
A alma está pronta.
A sobriedade é a chave.
O Jardim Interior: Uma Jornada Pessoal de Autoconhecimento e Transformação
(Inspirado por quem vive e aprende a cada instante)
Raízes da Existência
Ao refletir sobre minhas origens, percebo que cada ser abriga um terreno fecundo – um espaço repleto de memórias, emoções e aprendizados, muitos dos quais residem além da consciência imediata.
Não somos meramente os produtos de um passado fixo; somos, simultaneamente, artesãos do presente e do futuro.
Será que as cicatrizes do passado moldam nosso ser de forma irrevogável?
Embora as sombras da história deixem marcas duradouras, cada nova escolha nos permite revisitar e integrar o que foi esquecido – um trabalho contínuo, frequentemente auxiliado por momentos de reflexão (e, por vezes, apoio terapêutico).
Cultivo dos Pensamentos
Imagine a vida como um vasto jardim, onde selecionamos cuidadosamente as sementes a serem lançadas ao solo.
Em momentos íntimos, aprendi que semear afeição, empatia e curiosidade pode transformar relações e abrir novas perspectivas.
Nem toda semente, porém, surge da nossa vontade consciente, pois impulsos e conflitos internos podem emergir de recantos ocultos.
Será que o poder de transformar reside somente na nossa decisão consciente?
A verdade revela que, embora nossas escolhas informadas sejam fundamentais, é igualmente necessário explorar e compreender os aspectos submersos do inconsciente, permitindo que, ao serem integrados, desenhem um caminho mais autêntico.
A Dança com a Incerteza
A natureza ensina que nem todos os ventos sopram em favor dos nossos planos.
Em minha jornada, já me deparei com surpresas que alteraram o curso dos meus dias – momentos em que o inesperado se tornou professor.
Como manter o equilíbrio quando a vida se mostra tão imprevisível?
Ao aceitar a incerteza como parte integrante da existência e ao nos dispor a explorar os recantos desconhecidos do nosso eu, transformamos cada revés em oportunidade de amadurecimento e resiliência.
Renovação e Crescimento
Cada ciclo da natureza é uma lição sobre recomeços. Assim como podar um galho seco permite que novos brotos surjam, reconhecer e trabalhar os conflitos internos é crucial para o crescimento.
Em longas conversas com mentores e em momentos de autoanálise, descobri que até o solo mais infértil pode revelar um potencial surpreendente com o devido cuidado.
Será possível reinventar-se diante das adversidades?
Embora a transformação seja um processo gradual – permeado de recaídas e desafios –, a dedicação à autocompreensão e, quando necessário, o apoio de um terapeuta abrem caminhos para um florescimento verdadeiro.
O Despertar do Cuidador
Mais do que meros espectadores, somos responsáveis por cultivar o nosso universo interior.
Esse reconhecimento implica encarar as resistências e os recônditos do inconsciente, muitas vezes exigindo coragem para buscar auxílio quando necessário.
Como saber o momento certo de tomar as rédeas e, às vezes, pedir apoio?
Quando cada experiência – seja de dor ou de alegria – nos convida à aprendizagem, percebemos que assumir a responsabilidade pelo nosso crescimento é um ato de coragem e autenticidade, que pode florescer melhor com o suporte de quem compreende os meandros da mente.
A Jornada que Transforma
Ao final, somos simultaneamente o jardim, o jardineiro e o próprio ciclo que se renova. A verdadeira beleza da vida reside justamente na complexidade dos nossos ciclos, nos tropeços e nos triunfos que se entrelaçam de maneira surpreendente.
Existe um ponto final para a transformação?
Cada nova estação nos ensina que nosso potencial de mudança é infinito; ao converter desafios em pontes, construímos um futuro pleno e autêntico – uma viagem interior que, como disse Rilke, é a única que realmente vale a pena.
Marco Arawak
Depois
Uma palavra que carrega consigo a promessa de uma ação futura, a intenção de fazer algo em um momento além do presente imediato.
Parece tão reconfortante, tão tentador deixar tarefas e compromissos para “depois”.
É como se o tempo futuro fosse um refúgio onde todas as responsabilidades pudessem esperar pacientemente.
Mas o que muitas vezes deixamos de perceber é que o “depois” é um terreno traiçoeiro, uma ilusão que nos faz acreditar que o amanhã será mais generoso que o hoje.
A realidade é que o “depois” não está garantido, não é uma promessa inequívoca. É um espaço incerto onde o café esfria, onde as prioridades mudam sem aviso prévio.
O encanto de uma ideia frequentemente se perde no limbo do “depois”, enquanto o cedo se transforma em tarde antes que possamos reagir.
A nostalgia que deixamos para depois pode nos atormentar com sua intensidade, lembrando dolorosamente as oportunidades que desperdiçamos. As voltas e reviravoltas da vida não esperam pelo “depois”; acontecem no agora, moldando o curso do tempo.
Os filhos que adiamos crescem num piscar de olhos, lembrando-nos da fugacidade da juventude e da rapidez com que o relógio avança. Envelhecer não espera pelo “depois”, pois cada ruga e cada fio de cabelo grisalho são testemunhas silenciosas do fluxo constante do tempo.
O dia se despede no horizonte, independentemente dos nossos planos para o “depois”.
E, por fim, a vida chega ao seu fim, não como um “depois” distante, mas como uma realidade inevitável.
O “depois” não garante que teremos mais tempo, mais oportunidades ou mais momentos preciosos. É um lembrete de que o presente é tudo o que temos, e é nele que nossas ações e escolhas têm o poder de moldar nosso futuro.
Então, enquanto planejamos e sonhamos com o “depois”, lembremos que o melhor momento para agir, amar, criar e viver é agora. Porque o “depois” é um espaço incerto, enquanto o presente é o palco onde realmente vivemos nossas vidas.
Marco Arawak.
O amor que carrego no peito não espera datas.
Ele não vive apenas em dias marcados com flores ou presentes.
Ele pulsa — suave e firme — a cada segundo.
É no olhar que repousa com ternura.
No toque que não apenas encosta, mas conversa em silêncio.
No gesto que não precisa ser grandioso, porque é verdadeiro.
Amar é estar presente mesmo na ausência.
É escrever com os dedos palavras que só o coração entende.
É cantar desafinado, mas com alma — porque o sentimento é maior que a melodia.
É esperar sem pressa.
É cuidar sem prender.
É sentir sem exigir.
O amor vive na rotina, no café feito com atenção,
no abraço que diz “estou aqui”,
na saudade que não cobra, mas acaricia o pensamento.
Não é preciso ocasião para amar.
Basta estar inteiro.
Basta escolher — com carinho, com afeto, com entusiasmo, com dedicação —
caminhar junto, mesmo quando o mundo parece andar em direções opostas.
Que o amor seja sempre celebrado.
Não apenas em datas especiais,
mas em cada instante em que dois corações decidem se reconhecer.
Com todo meu coração,
Marco Arawak
NÃO SOU O MUNDO — SOU O QUE ELE ME PERMITE SER
Por Marco Arawak
A Terra não é cenário. É a condição de tudo o que acontece. Antes de qualquer pensamento, existe aquilo que sustenta. Antes de qualquer palavra, existe aquilo que torna possível existir.
Nada em mim começou inteiramente em mim. Meu corpo é feito de coisas antigas: água que já foi nuvem, minerais que atravessaram montanhas, elementos forjados muito antes que meu nome existisse. Sou um encontro provisório de matérias que já pertenciam ao mundo antes de pertencerem a mim.
Não sou origem. Sou continuidade.
A Terra não me acolhe por escolha. Ela simplesmente existe. E, enquanto suas condições permitem, eu existo com ela. O chão não me sustenta por cuidado; sustenta porque é chão. Se deixa de existir sob meus pés, eu caio. Sem intenção. Sem julgamento.
A água não me protege. Ela corre. Quando está limpa, sustenta a vida; quando está contaminada, pode carregar essa alteração para dentro dos sistemas dos quais dependemos. O ar não se oferece. Ele está. E quando deixa de estar em condições que permitam a vida, não há filosofia capaz de substituí-lo.
Nada na natureza precisa me explicar o sentido da vida. Sua função não é me oferecer respostas. Basta que suas condições tornem a vida possível.
Não vivo em um mundo que foi criado para me refletir. Vivo em um mundo que me antecede e continuará depois de mim.
Minha história não é o centro da história da Terra. É uma passagem. Sou um instante dentro de algo muito maior, um acontecimento breve em um processo que não começou comigo e não terminará comigo.
E, ainda assim, existo.
Não como dono.
Como parte.
Cada respiração revela uma dependência. Cada passo pressupõe um chão. Cada alimento carrega uma cadeia de vida, matéria, água, energia e trabalho. Cada dia é uma experiência de equilíbrio que não controlamos inteiramente.
Nada em nós é garantido.
A Terra não é boa nem má. Não cuida de nós como uma consciência materna, nem nos pune como um juiz. Ela simplesmente segue suas leis e seus ciclos.
Mas nós sentimos.
Nós tememos.
Nós lembramos.
Nós escolhemos.
E é exatamente aí que algo muda.
A natureza não precisa ter intenção para produzir consequências. E nós não precisamos controlar o planeta para interferir profundamente nele.
A vida acontece enquanto suas condições permitem.
Dentro dessa fragilidade, construímos cidades, cultivamos alimentos, inventamos máquinas, criamos culturas, amamos, lembramos e sonhamos. Somos capazes de transformar o mundo porque dependemos dele. Essa é uma das grandes contradições da nossa existência: temos poder suficiente para modificar aquilo que não podemos substituir.
Somos forma por um tempo.
E toda forma, cedo ou tarde, muda.
O corpo retorna aos ciclos da matéria. A água continua circulando. Os elementos permanecem em movimento. Aquilo que chamamos de fim, muitas vezes, é apenas uma transformação dentro de processos muito maiores que nós.
Mas a nossa experiência individual é finita.
Eu posso desaparecer.
Você pode desaparecer.
Uma geração pode desaparecer.
E é justamente porque somos passageiros que nossas escolhas importam enquanto estamos aqui.
Existir é frágil. Não porque a vida não tenha valor, mas porque ela não vem acompanhada de nenhuma garantia de permanência.
O mundo não foi feito para mim.
Eu fui feito dentro dele.
E o modo como escolho viver dentro dele não é neutro.
Tudo o que faço interfere em alguma coisa: aquilo que extraio, consumo, desperdiço, transformo, descarto ou preservo. Nem tudo retorna diretamente para mim, nem tudo retorna da mesma maneira, mas quase nada simplesmente deixa de existir porque decidi chamar de “lixo”.
O que descartamos continua fazendo parte do mundo.
O que degradamos pode alterar os sistemas dos quais dependemos.
O que destruímos pode levar décadas, séculos ou gerações para se recompor — quando ainda pode se recompor.
Por isso, a natureza não precisa pedir admiração.
Precisa que reconheçamos limites.
Não precisa dos nossos discursos.
Precisa das nossas escolhas.
Não somos espectadores de um planeta externo a nós. Somos participantes de sistemas dos quais dependemos a cada instante.
Talvez esse seja o erro mais profundo da nossa época: imaginar que estar no mundo significa estar separado dele.
Não estou fora da natureza observando-a.
Estou dentro dela.
Meu corpo não é estrangeiro ao planeta. Minha água veio de ciclos anteriores. Meu alimento depende de solos, chuva, luz, organismos e trabalho. Minha respiração depende de uma atmosfera que não produzi.
Não carrego a Terra dentro de mim como símbolo.
Dependo dela como condição.
Se ela sustenta as condições necessárias à vida, eu existo.
Se essas condições se degradam, minha existência também se torna mais vulnerável.
Isso não é metáfora.
É condição material.
A natureza do planeta não é apenas uma ideia, um símbolo ou um consolo espiritual. É a base física sobre a qual a vida acontece.
Compreender isso não deveria nos tornar maiores.
Deveria nos tornar responsáveis.
Porque não estou aqui para dominar o mundo.
Estou aqui dentro dele.
E aquilo que me sustenta também sustenta milhões de outras formas de vida.
Talvez, portanto, a pergunta não seja “o que o mundo pode me dar?”.
Talvez seja:
“O que a minha presença deixa no mundo?”
Depois de mim, o que permanece?
Uma marca?
Uma ferida?
Uma construção?
Uma memória?
Um cuidado?
Uma possibilidade?
Não posso impedir que o mundo continue sem mim.
Mas posso escolher a maneira como participo dele enquanto estou aqui.
Posso consumir sem transformar tudo em descarte.
Posso construir sem considerar tudo ao redor como matéria disponível.
Posso usar sem esquecer que aquilo que uso veio de algum lugar.
Posso existir sem precisar transformar minha existência em domínio.
Porque não sou o mundo.
Não sou seu proprietário.
Não sou seu centro.
Sou uma pequena parte de uma realidade muito maior que me antecedeu, me sustenta e continuará existindo quando meu nome já não estiver sendo pronunciado.
E talvez essa consciência não seja uma diminuição.
Talvez seja uma libertação.
Não preciso ser o centro para ter valor.
Não preciso possuir a Terra para pertencer a ela.
Não preciso durar para sempre para que minha passagem tenha significado.
Sou apenas algo que acontece dentro deste mundo.
Breve.
Frágil.
Consciente.
E enquanto aconteço, posso escolher.
Posso cuidar.
Posso limitar.
Posso preservar.
Posso reparar.
Posso, ao menos, tentar não transformar em ruína aquilo que tornou possível a minha presença.
Talvez seja essa uma das formas mais silenciosas de responsabilidade humana:
saber que o mundo não existe para nós e, ainda assim, compreender que somos responsáveis pela maneira como existimos dentro dele.
Não sou o mundo.
Sou o que ele me permite ser.
E aquilo que eu fizer com essa possibilidade também fará parte do mundo.
Marco Arawak
AUTOANAMNESE
Entre a memória e o que ainda podemos ser
Existe uma história dentro de cada pessoa.
Uma história que não está escrita apenas em fotografias, documentos ou lembranças. Ela também vive nos gestos, nas escolhas, nos medos, nos sonhos, nas palavras que ficaram e, principalmente, naquilo que fazemos sem perceber.
Somos feitos de encontros, despedidas, descobertas, perdas, conquistas, erros e recomeços. Somos também feitos de perguntas que nunca encontraram respostas e de respostas que o tempo modificou.
Talvez por isso a autoanamnese seja tão importante: porque, antes de compreender o mundo, precisamos aprender a observar aquele que o contempla.
Volto os olhos para trás,
não para morar no passado,
mas para compreender
as pegadas que deixei.
Há caminhos que escolhi conscientemente. Outros surgiram diante de mim quando eu sequer sabia para onde estava indo. Alguns abandonei. Outros me abandonaram. E existem aqueles que ainda percorro, tentando compreender por que os escolhi.
Fazer uma autoanamnese é estabelecer um diálogo sincero com a própria história.
É perguntar:
Quem fui?
Quem sou?
O que me trouxe até aqui?
O que ainda carrego?
E o que já posso deixar partir?
Não se trata de procurar culpados, nem de transformar o passado em sentença. Trata-se de compreender.
Porque aquilo que não compreendemos muitas vezes se repete.
Repetimos comportamentos, escolhas, relações e pensamentos sem perceber que estamos seguindo antigos caminhos.
Por isso, olhar para dentro pode ser um ato de liberdade.
Há hábitos que herdei,
há pensamentos que aprendi,
há caminhos que percorri
sem jamais perguntar
se realmente eram meus.
A autoanamnese nos permite separar aquilo que somos daquilo que simplesmente aprendemos a ser.
Na vida pessoal, ela nos ajuda a reconhecer nossos valores, limites, desejos e contradições.
Nas relações, revela como amamos, confiamos, ouvimos, perdoamos, reagimos e estabelecemos limites.
Na família, permite compreender as histórias que recebemos e decidir conscientemente quais heranças queremos preservar e quais precisam ser transformadas.
Na vida acadêmica e profissional, ajuda a perceber talentos, interesses, escolhas e caminhos que talvez tenham sido construídos mais pelas expectativas externas do que pelos nossos próprios propósitos.
Nas decisões, cria um espaço entre o impulso e a escolha.
E, nesse pequeno espaço, pode nascer a consciência.
Antes de responder,
eu observo.
Antes de escolher,
eu compreendo.
Antes de seguir,
eu pergunto
para onde estou indo.
Também precisamos fazer uma autoanamnese dos nossos erros.
Não para viver em culpa, mas para transformar experiência em aprendizado.
O erro pertence à nossa história, mas não precisa determinar nosso destino.
A pessoa que fomos tomou decisões com os conhecimentos, sentimentos e circunstâncias que possuía naquele momento. Hoje podemos saber mais. Podemos enxergar diferente. Podemos escolher diferente.
Ontem eu não sabia.
Hoje compreendo.
Amanhã talvez transforme
aquilo que hoje ainda estou aprendendo.
Isso também é amadurecer.
Olhar para quem fomos sem desprezo, olhar para quem somos sem arrogância e olhar para quem podemos ser sem medo.
A autoanamnese também alcança nossos sonhos.
Quantos desejos são verdadeiramente nossos?
Quantos nasceram das expectativas de outras pessoas?
Quantas vezes confundimos sucesso com aprovação?
Quantas vezes seguimos uma estrada porque todos diziam que era o caminho certo?
Há sonhos que permanecem,
sonhos que se transformam
e sonhos que descobrimos
que nunca foram nossos.
Conhecer a própria história é também descobrir quais sonhos ainda fazem sentido.
E talvez esse seja um dos maiores poderes da reflexão: perceber que o passado explica muito, mas não determina tudo.
Somos memória, mas também possibilidade.
Somos consequência, mas também escolha.
Somos continuidade, mas também transformação.
O passado pode explicar nossas cicatrizes, mas não precisa escrever sozinho os próximos capítulos.
Carrego o que vivi,
mas não sou apenas o que vivi.
Carrego minhas marcas,
mas elas não são meu nome.
Carrego meus erros,
mas eles não são meu destino.
A vida inteira pode ser compreendida como uma grande conversa entre aquilo que fomos e aquilo que estamos nos tornando.
E talvez seja justamente por isso que precisamos, de tempos em tempos, silenciar o mundo.
Desligar o ruído.
Parar.
Respirar.
E perguntar:
O que está acontecendo dentro de mim?
Nem toda resposta surgirá imediatamente.
Algumas perguntas precisam permanecer conosco durante algum tempo. Algumas respostas chegam lentamente, através da experiência, da reflexão e das mudanças que fazemos no cotidiano.
A autoanamnese não é uma fotografia de quem somos.
É um espelho em movimento.
Hoje enxergamos uma parte.
Amanhã compreenderemos outra.
E, enquanto vivemos, aprendemos que conhecer a si mesmo não é encontrar uma definição definitiva, mas permanecer disposto a se conhecer novamente.
Sou memória
e sou possibilidade.
Sou passado
e sou caminho.
Sou aquilo que aprendi
e aquilo que ainda posso aprender.
Por isso, fazer uma autoanamnese não é voltar para trás.
É voltar para dentro.
É revisitar a própria história com honestidade, reconhecer o que nos construiu, compreender o que nos limita, valorizar o que nos fortalece e escolher, com maior consciência, aquilo que desejamos levar adiante.
Porque a vida não é somente aquilo que nos acontece.
É também aquilo que fazemos com o que nos acontece.
E enquanto houver consciência, haverá aprendizado.
Enquanto houver aprendizado, haverá transformação.
Enquanto houver escolha, haverá possibilidade.
E enquanto houver vida,
a história ainda estará sendo escrita.
A ONÇA DENTRO DE NÓS
Por: Marco Arawak
Há uma região em nós que não aparece nos espelhos.
É nela que permanecem as lembranças que o tempo não dissolveu, as perguntas que nunca terminamos de formular, os desejos que modificamos para caber nas expectativas alheias e os receios que, silenciosamente, participam de nossas escolhas.
Talvez conhecer essa região seja uma das tarefas mais difíceis da existência.
Porque olhar para dentro não significa simplesmente recordar. Significa interrogar a própria história.
Perguntar de onde vieram nossas certezas, quais experiências moldaram nossas convicções, por que determinadas situações despertam determinadas reações e até que ponto aquilo que chamamos de personalidade é, na verdade, uma construção feita de hábitos, circunstâncias e memórias.
É nesse território que encontramos a nossa autoanamnese.
Uma cartografia interior.
Um retorno às próprias origens para compreender os caminhos que nos trouxeram até aqui.
Quem fui antes de saber quem deveria ser?
O que escolhi por desejo e o que escolhi por necessidade?
Quais partes de mim nasceram de convicções e quais nasceram de adaptações?
Dentro de cada pessoa existe uma natureza que nem sempre se revela.
Há uma força silenciosa que observa antes de agir, percebe antes de responder e reconhece aquilo que muitas vezes tentamos ignorar.
É a onça dentro de nós.
Ela não precisa rugir para existir.
Move-se no silêncio das nossas percepções, atravessa nossas memórias e surge nos momentos em que algo essencial é ameaçado: nossa liberdade, nossos valores, nossos limites ou aquilo que profundamente reconhecemos como parte de nós.
Mas essa onça não representa apenas força.
Ela também representa consciência.
O instinto que observa.
A presença que não se precipita.
A capacidade de permanecer em silêncio antes de escolher um movimento.
Talvez por isso olhar para dentro exija coragem.
Porque podemos descobrir que aquilo que nos perturba nem sempre está no mundo exterior.
Às vezes, está naquilo que ainda não compreendemos em nós mesmos.
Há pensamentos que nos perseguem.
Há medos que condicionam escolhas.
Há padrões que se repetem porque jamais foram examinados.
E há partes de nossa própria história que permanecem à espera de serem reconhecidas.
Nem tudo aquilo que habita em nós precisa nos governar.
Pensar não significa necessariamente estar certo.
Sentir não significa necessariamente obedecer ao sentimento.
Ter medo não significa ser fraco.
E reconhecer uma parte difícil de nós não significa aceitá-la como destino.
A consciência começa justamente quando conseguimos observar aquilo que acontece dentro de nós sem sermos imediatamente dominados por isso.
Somos, ao mesmo tempo, experiência e observador.
Sentimos e podemos refletir sobre o que sentimos.
Pensamos e podemos questionar nossos próprios pensamentos.
Erramos e podemos compreender o erro.
É nessa distância entre o impulso e a escolha que surge uma das formas mais profundas de liberdade.
Também o passado precisa ser contemplado com honestidade.
Não para justificá-lo.
Não para condená-lo.
Mas para compreendê-lo.
A pessoa que fomos não possuía necessariamente os conhecimentos que possuímos hoje. Julgá-la apenas pelos olhos do presente pode transformar aprendizado em culpa.
O passado não pode ser refeito, mas pode ser compreendido.
E quando compreendemos aquilo que vivemos, nossa relação com a própria história começa a mudar.
A autoanamnese atravessa todas as dimensões da existência.
Está na família, onde recebemos histórias, valores e comportamentos que muitas vezes carregamos sem perceber.
Está nas amizades e nos afetos, onde descobrimos como confiamos, como estabelecemos limites e como nos relacionamos com o outro.
Está no conhecimento e no trabalho, onde nossas escolhas revelam aquilo que valorizamos e aquilo que desejamos construir.
Está nos erros, porque toda experiência pode se transformar em aprendizado.
Está nos sonhos, porque nem todo desejo que carregamos nasceu verdadeiramente em nós.
E está no futuro, porque nenhuma transformação consciente acontece sem alguma compreensão de quem somos hoje.
Por isso, talvez a pergunta mais profunda não seja simplesmente:
“Quem sou?”
Mas:
“O que está participando da construção de quem estou me tornando?”
Somos memória, mas não somos somente memória.
Somos consequência, mas também escolha.
Somos herança, mas também transformação.
Somos passado, mas ainda somos possibilidade.
A onça dentro de nós talvez seja essa parte primordial que nos lembra de permanecer atentos à própria existência.
Ela observa.
Espera.
Reconhece.
E nos ensina que força verdadeira nem sempre precisa fazer barulho.
Há momentos em que a maior demonstração de força é permanecer em silêncio.
Há momentos em que é preciso recuar.
Outros em que é necessário avançar.
E existem aqueles em que a verdadeira coragem consiste simplesmente em reconhecer o que acontece dentro de nós.
Conhecer-se não é domesticar a própria natureza.
É aprender a caminhar conscientemente com ela.
Talvez a maturidade seja justamente isso:
olhar para dentro sem medo de encontrar imperfeições;
compreender sem transformar compreensão em desculpa;
reconhecer nossas sombras sem permitir que elas ocupem todo o horizonte;
honrar nossa história sem permanecer prisioneiro dela;
e aceitar que ainda somos capazes de mudar.
A vida não é uma obra concluída.
Somos seres inacabados.
Cada experiência acrescenta uma camada.
Cada encontro desloca alguma perspectiva.
Cada perda modifica alguma medida de valor.
Cada descoberta reorganiza parte daquilo que acreditávamos saber.
Por isso, a autoanamnese não é uma resposta definitiva sobre quem somos.
É uma pergunta que aprendemos a fazer novamente.
De tempos em tempos, precisamos retornar ao silêncio e escutar aquilo que o ruído cotidiano impede de ouvir.
O que em mim é escolha?
O que é hábito?
O que é herança?
O que é medo?
O que é desejo?
E o que, finalmente, começa a ser liberdade?
Talvez a verdadeira autoanamnese seja esse retorno.
Não ao passado.
À consciência.
Entrar na própria floresta.
Reconhecer os rastros.
Perceber os movimentos.
E descobrir que, dentro de nós, existe uma natureza que não precisa ser temida nem negada, mas compreendida.
Porque conhecer a si mesmo não é encontrar uma identidade imóvel.
É perceber o próprio movimento.
É compreender de onde viemos sem nos aprisionarmos à origem.
É reconhecer aquilo que nos constitui sem permitir que isso determine tudo o que ainda podemos ser.
E talvez seja essa a grande lição da onça:
a força que realmente conhece a si mesma não precisa anunciar sua presença.
Ela simplesmente sabe quando observar.
Quando esperar.
Quando avançar.
E, sobretudo,
quando permanecer em silêncio.
Marco Arawak
Ode ao Vinho Eu Ofereço
Ó vinho, sangue da terra e do sol,
líquido rubi que dança no copo,
filho da videira que o tempo moldou
e a mão do homem elevou a ouro.
Nasce no silêncio das colinas,
amadurece sob o olhar do céu,
guarda no seio o fogo das estações
e o sussurro dos ventos antigos.
Quando te abro, o mundo se dilata:
o tinto queima como paixão antiga,
o branco canta leve como brisa,
o rosé sorri entre o dia e a noite.
Tu és memória e esquecimento juntos:
trazes à mesa os amigos distantes,
apagás as feridas do dia cansado
e acendes no peito a chama da festa.
Ó vinho, companheiro dos poetas,
aliado dos amantes e dos sábios,
tu que fazes o tímido falar
e o solitário sentir-se povoado.
Levanto o cálice e te saúdo:
saúde à terra que te deu a seiva,
saúde às mãos que te cultivaram,
saúde a quem te bebe com respeito.
Que cada gole seja uma oração
à vida que passa e ao prazer que fica.
Viva o vinho,
viva quem o ama,
viva a mesa onde ele reina.
Reza do Cativo
Pela Sobrevivência e Liberdade
Saravá, meu Pai…
Que o sinhô lá do céu escute nóis que sofre cá embaixo,
Que dê nóis o de cumê na cuia de barro,
A água boa, mesmo que no pote quebrado,
E um chão batido pra deitá o corpo cansado.
Saravá!
Que o chicote num levante quando a mão tá fraca,
Que o ferro quente num queime a pele quando a esperança quer nascê.
Que as mão de roça num seja cortada,
Que os pé de trilha num seja amarrado,
Que a pele num seja arrancada com ódio,
E que o sangue derramado faça brotá liberdade.
Saravá!
Protege os fio que foi vendido na feira, junto com gado e galinha,
Carregado em carroça, amarrado em fileira,
Sem nome, sem fala, só conto-de-reis na boca do feitor.
Ampara as irmã que geme baixinho na senzala, buchadas pelos homê do mal
Que cala por medo, mas chora lágrima que corre como rio escondido.
Guarda os corpo que tombô no porão do navio,
Com corrente no pescoço e sal na ferida,
Os que morreu no escuro, sem vela e sem canto,
Os espírito que ainda geme no tronco,
E os canto que foi calado com mordaça.
Saravá!
Que a memória dos mais velho num se perca:
Dos que contava história de África nas noite de lua,
Dos que batia tambor escondido no mato,
Dos que ensinava reza baixinho, de ouvido em ouvido,
Dos que passava segredo de erva na palma da mão.
Que o tambor nunca pare de batê,
Mesmo quando o sinhô proíbe,
Mesmo quando a chibata quer calar o couro.
Que o cheiro da arruda, do alecrim e da guiné limpe os caminho,
E que a fé dos que rezava escondido no fundo do quintal fique viva dentro de nóis.
Saravá!
Que a luz da candeia num deixe o corpo no escuro,
Que clareie a senzala,
Que guie os pé de quem foge na mata,
E que esquente nóis nas noite de frio,
Quando só o abraço da coragem faz companhia.
Que a candeia da esperança num se apague,
Mesmo quando a noite é comprida,
Mesmo quando o sinhô fecha a porta e leva a chave.
Saravá!
Que os pé de quem fugia deixe rastro de coragem na terra molhada,
Que os olho de quem viu a dor também veja liberdade,
E que o coração de quem sofreu saiba ainda amar.
Que os braço que empunhava enxada e foice ache descanso,
Que as costa que carregou fardo ache alívio,
E que a lágrima caída na terra seca faça nascê água de fonte.
Saravá!
Livra nóis das cobra que rasteja no mato,
Do capitão-do-mato que ronda com cachorro,
Do escorpião escondido no chão quente,
Da abelha que ferroa sem aviso, da ferida que num tem remédio,
E do cansaço que pesa mais que o sol de meio-dia queimando a pele.
Saravá!
Abençoa nóis na travessia da Kalunga Grande,
No gemido do tumbeiro que ainda ecoa,
Na senzala que guarda silêncio de morte,
No quilombo que guarda sonho de vida.
Dá força a quem correu com corrente no pé,
Dá voz a quem rezava escondido no mato,
Dá chão a quem fugiu pela picada da mata,
Dá descanso a quem tombou sem cruz, sem nome, sem reza.
Abençoa os fio e os neto que vem depois,
As família que vai carregá de nóis a força e a esperança,
Que ache na vida a liberdade verdadeira,
Que o coração deles seja forte, o pensamento sábio,
E os pé guiado pelos caminho de justiça e coragem.
Saravá!
Que cada gota de suor derramado vire canto de vitória,
Que cada lágrima caída no chão se transforme em rio de lembrança,
Que cada corpo caído na senzala se levante no quilombo da eternidade.
Coloca nos peito de cada um de nóis a certeza:
Que a liberdade é reza que nunca morre,
É tambor que nunca cala,
É chama que nunca apaga.
Saravá!
E que os fio de hoje e os fio de amanhã
num precisem mais chorá cadeia nem senzala,
que a liberdade chegue na vida deles como pão na mesa,
como água fresca no pote,
como canto que nunca se cala.
Saravá!
Que os neto e bisneto de nóis cresçam forte,
que a lembrança da dor se faça só memória,
mas que a força da coragem seja sangue correndo nas veia.
Que eles andem de cabeça erguida,
que tenham nome, voz e destino,
que ache no mundo o respeito e a paz que nóis sonhava.
Saravá!
E nóis jura, diante de Deus e dos mais velho,
que essa reza num morre,
que essa chama num apaga,
que essa palavra é tambor batendo no peito,
é vento levando esperança,
é juramento vivo de liberdade.
Saravá, axé!
Autoria:
Marco Arawak. antigo:
Quando se Tornam Palavras
Alma, em estrofes.
Sentimentos, em versos.
Pensamentos, em palavras.
Há emoções que não cabem na voz,
silêncios que amadurecem por dentro
e lembranças que insistem em permanecer.
Então a alma procura abrigo na escrita,
o sentimento encontra ritmo,
e o pensamento aprende a existir
fora de quem o concebeu.
Escrever é isso:
dar forma ao que era invisível,
preservar o que o tempo tenta levar
e transformar ausência em permanência.
Porque algumas coisas passam.
Outras ficam.
E há aquelas
que só sobrevivem
quando se tornam palavras.
Para que não esqueçamos
daquilo que nos libertou
e nos cativou.
Marco Arawak
Nossas Mãos
O tempo passa a correr e nos obriga a ver que a armadura pesada deixou de valer. O que nos resta — e o que nos basta — é continuar a apertar firme aquela mesma mão que nos susteve no topo do sol e no fundo da tempestade que afasta. Chegamos à maturidade plena da alma, onde a defesa cede à calma e o controle do destino nos dissolve numa cumplicidade. É um amor que despiu todos os medos, cruzou as eras sem segredos e transformou a calmaria do outro na nossa única, inegociável e definitiva morada, sem espaço para outro enredo. Porque tentar respirar e viver longe de tudo isto é, no limite mais cru do instante, caminhar infinitamente sem direção.
Marco Arawak
A dor não é o destino, é matéria-prima!
A alquimia é o processo que nos tira da ruína e transforma-nos em força maior do que aquilo que quase nos destruiu.
É preciso crer , ainda que a realidade diga que não, porque há coisas acontecendo além dos limites dos nossos olhos e das nossas mãos. Coisas que somente a fé pode alcançar e que apenas o coração consegue enxergar.
Desnaturalizamos as dificuldades do processo de transformação, talvez porque tenhamos aprendido a enxergar a transformação apenas quando ela já terminou. Não sabemos reconhecer a beleza da transformação enquanto ainda estamos no meio dela, por ela se dar por meio de processos dolorosos.
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