Voce Nao Admite aquilo que Nao Consegue Medir
Esperança Para Luciana
Luciana, não desanima.
Quando o marido foi embora,
Deus ficou.
Ele ampara nos mínimos detalhes,
enxuga lágrimas que ninguém vê,
cola os pedaços da alma,
e cura dores que doem em silêncio.
No deserto Ele não abandona.
É lá que forja o caráter,
que transforma areia em caminho,
e sede em promessa.
O que hoje parece fim
é só Deus te ensinando a recomeçar.
Ele te sustenta com mãos de Pai,
te levanta com amor que não falha.
Vai passar.
E quando passar,
você vai olhar pra trás
e ver que foi Deus te carregando
em cada passo.
*Autoria: Márcia Reis Nazar*
marcianazar5@gmail.com
Não é tragédia — é escolha. Repetida no cotidiano, sem testemunhas, sem drama, apenas a lenta adesão ao próprio desvio. O homem moderno não despenca no vazio: constrói-o, camada por camada, imagem por imagem, enquanto evita o espelho que o revelaria. Incapaz de se ver, inventa culpados, projeta faltas, cria bodes expiatórios para sustentar a ilusão de que não foi ele quem, em silêncio, edificou o próprio colapso.
O silêncio tornou-se insuportável não por ser vazio, mas por transbordar do que foi evitado. É nele que se acumulam as verdades adiadas, os afetos não elaborados, as perguntas que não encontraram coragem. A exposição contínua não busca comunicar — busca encobrir. E, assim, quanto mais se fala, mais se foge; porque o silêncio, quando enfim se impõe, não oferece ausência — oferece encontro.
A visibilidade deixou de ser excesso — tornou-se prótese. Não se exibe por abundância, mas por sustentação: sem o olhar do outro, o sujeito não encontra chão suficiente para existir. A audiência não é ornamento, é muleta existencial. E assim, quanto mais se mostra, mais se revela a dependência — não de ser visto, mas de só conseguir ser quando visto.
O que frequentemente se rotula como narcisismo não é excesso de si, mas sua carência: uma identidade que não se sustenta e precisa recrutar o olhar alheio como prótese. Não há transbordamento, há dependência; não há centro, há busca. E assim, o que parece vaidade revela, no fundo, um esforço contínuo de existir por meio do outro.
A vaidade contemporânea não é excesso de amor-próprio — é seu colapso. Quem precisa ser visto a todo instante não se afirma: sustenta-se por empréstimo no olhar alheio. Não há transbordamento, há carência organizada; não há centro, há eco. E, assim, a existência deixa de ser presença e torna-se performance contínua — porque, sem testemunha, já não se sabe permanecer.
O castigo mais cruel não é a ausência do objeto desejado, nem a idealização utópica de si que jamais se realizou — é a proximidade eterna daquilo que se pode ver, sentir, imaginar, mas nunca alcançar. Há tormentos que não nascem da falta absoluta, mas da presença inacessível: aquilo que permanece ao alcance dos olhos e fora das mãos. E é justamente essa vizinhança impossível que prolonga o desejo até transformá-lo em prisão.
O sujeito não precisa do outro apenas como espelho que confirma sua imagem, mas como diferença que o desloca, confronta e amplia. É a alteridade que impede a consciência de fechar-se em circuito próprio. Sem esse encontro com o que escapa e contradiz, a identidade torna-se superfície repetida — lisa, estéril, incapaz de transformação. Toda subjetividade que não encontra diferença acaba apodrecendo dentro da própria imagem.
A psicologia não nasceu nos consultórios, mas no espanto ancestral do homem diante da própria alma. Sigmund Freud e Carl Jung não criaram o abismo — apenas lhe deram novas linguagens. Muito antes deles, Fyodor Dostoevsky já descia às regiões subterrâneas da culpa, do desejo e da contradição humana; e, antes ainda, os gregos haviam convertido esses conflitos em tragédia e mito. O inconsciente não surgiu como descoberta moderna — acompanha o homem desde o instante em que ele começou a temer aquilo que carregava dentro de si.
O reflexo não devolve presença — apenas reproduz contorno. Ele repete formas, mas não alcança profundidade; imita a superfície sem tocar aquilo que nela vive. E é por isso que repetir jamais foi corresponder: porque correspondência exige encontro, enquanto o reflexo oferece apenas duplicação silenciosa.
Na política, não defendemos a decência, mas a canalhice que está à altura da nossa. Não há, nem nunca houve, ser humano íntegro.
A velhice é o primeiro encontro verdadeiro com o próprio rosto — não aquele que inventamos no espelho da juventude, mas o que sempre esteve ali, esperando. O envelhecimento é a mais cruel das terapias: obriga-nos a elaborar, enfim, a fantasia de nossa eternidade. O idoso não teme morrer — teme reconhecer que nunca nasceu completamente.
O tempo não cura: apenas descasca. Cada estação remove uma pele, até que reste o osso nu daquilo que sempre fomos.
A memória é um espelho quebrado que reflete não o que fomos, mas o que tememos que sejamos. Cada gesto carregado de intenção deixa rastros invisíveis, e o mundo, indiferente, coleciona-os como quem guarda cinzas frias. No fundo, toda presença é sombra de ausência, e toda certeza, prelúdio de um silêncio que ninguém ousa ouvir.
O tempo não passa: dissolve-se. E nós, inconscientes, caminhamos sobre suas águas turvas, acreditando navegar. Cada lembrança é um navio naufragado que insiste em surgir na superfície, e cada encontro, um fantasma de nós mesmos que insiste em nos reconhecer.
A escuridão não é ausência, mas plenitude disfarçada; e aqueles que buscam luz nos lugares errados apenas arranham a superfície de si mesmos. Cada pensamento não vivido deixa cicatrizes invisíveis, e o silêncio que carregamos é mais denso que qualquer palavra que ousamos pronunciar.
O destino não é estrada nem muro, mas a sombra que projetamos ao caminhar. Cada passo que julgamos firme deixa rastros de incerteza, e cada sorriso que oferecemos é um reflexo do vazio que tentamos ocultar. No fim, tudo retorna àquele lugar silencioso onde já existíamos antes de saber que éramos.
O acaso não erra: apenas nos mostra, em fragmentos, que jamais fomos senhores do que acreditávamos controlar. Cada gesto carrega ecos de mundos que não vivemos, e cada silêncio é mais eloquente que todas as palavras que ousamos pronunciar.
A dor é professora silenciosa: não ensina o que fazer, mas revela quem jamais ousou olhar para si mesmo. Cada passo em falso deixa impressões invisíveis no tecido do mundo, e cada lembrança esquecida é um grito contido que insiste em nos moldar.
A verdade não se anuncia: sussurra entre as fissuras do cotidiano, onde olhos apressados jamais ousam olhar. E quem tenta agarrá-la, seguro de si, descobre que tudo o que se prende escapa, deixando apenas o eco do que nunca pôde ser dito.
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