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MORADAS FLUÍDICAS E MORADAS ETÉREAS: A ARQUITETURA INVISÍVEL DO MUNDO ESPIRITUAL.
Obs. " Sem pedantismo de nossa parte digo porém que: _ Consigo compreender com naturalidade de senso os prós e os contras, também ao estudar a codificação espírita é notório que Kardec não engessou a doutrina espírita. "
Autor: Marcelo Caetano Monteiro.
Encontramos, na literatura espírita, determinadas expressões que parecem abrir diante da imaginação humana uma janela para regiões que os sentidos físicos não alcançam. “Moradas fluídicas” e “moradas etéreas” pertencem a esse vocabulário evocativo. Elas sugerem um universo espiritual que não deve ser concebido como um vazio abstrato, imóvel e desprovido de organização, mas como uma realidade dotada de movimento, gradações, relações, trabalho, beleza e formas de manifestação próprias.
Entretanto, para compreendê-las com verdadeira lucidez espírita, é indispensável distinguir aquilo que Allan Kardec efetivamente estabeleceu como princípio doutrinário daquilo que pertence ao desenvolvimento literário, filosófico e espiritualista posterior, particularmente em autores como Léon Denis.
A imagem apresentada abaixo corresponde a uma passagem de Après la mort, de Léon Denis, obra publicada em diferentes edições desde o final do século XIX. A própria Bibliothèque nationale de France registra a edição revista e consideravelmente ampliada de 1893, publicada pela Librairie des sciences psychologiques.
É nesse horizonte que a expressão moradas fluídicas adquire sua riqueza simbólica e doutrinária.
DEUS, ESPÍRITO, MATÉRIA E O FLUIDO UNIVERSAL.
A questão 27 de O Livro dos Espíritos oferece uma chave fundamental para essa compreensão. Kardec pergunta se haveria dois elementos gerais do Universo, matéria e Espírito. A resposta acrescenta Deus acima de tudo e introduz o fluido universal como elemento intermediário entre o Espírito e a matéria propriamente dita.
Esse ponto é capital.
O Espiritismo não apresenta o Universo como uma oposição simplista entre aquilo que é físico e aquilo que seria absolutamente imaterial. Kardec admite diferentes estados da matéria. Na questão 22, por exemplo, é afirmado que a matéria pode apresentar-se em estados tão sutis que escapem inteiramente aos sentidos humanos e, ainda assim, continuar sendo matéria.
É justamente nessa gradação que a linguagem dos fluidos encontra seu significado.
Para Kardec, o fluido universal, também chamado fluido primitivo ou elementar, é apresentado como intermediário mediante o qual o Espírito pode atuar sobre a matéria. Suas combinações, sob a ação do princípio inteligente, participariam da produção de uma variedade imensa de fenômenos e estados da matéria.
Assim, quando Léon Denis descreve o Espírito como um ser fluídico que atua sobre os fluidos do espaço por meio da vontade, sua concepção encontra um ponto de contato evidente com a estrutura conceitual kardeciana. Não significa, porém, que toda descrição estética de Denis deva ser convertida automaticamente em definição doutrinária.
Essa distinção é essencial.
O QUE SÃO, ENTÃO, AS MORADAS FLUÍDICAS?
Na perspectiva apresentada por Léon Denis, as moradas fluídicas não devem ser imaginadas simplesmente como cópias transparentes das cidades terrestres.
São descritas como ambientes nos quais o Espírito, utilizando os elementos sutis disponíveis no mundo espiritual, pode imprimir formas, cores, harmonias e configurações correspondentes à sua capacidade de realização.
O trecho reproduzido na imagem fala de construções aéreas, cúpulas luminosas, grandes espaços de reunião, templos, paisagens e manifestações artísticas que ultrapassariam os padrões da experiência terrestre. A finalidade da descrição não é apenas arquitetônica.
Há nela uma concepção filosófica muito mais profunda:
a realidade espiritual seria capaz de expressar, em formas, a qualidade interior dos seres que a constituem.
A arquitetura deixa de ser apenas arquitetura.
A beleza torna-se linguagem.
A harmonia torna-se experiência.
A arte torna-se uma forma de oração.
E a vontade deixa de ser somente faculdade psicológica para assumir, dentro da cosmologia espiritualista de Denis, uma função organizadora sobre os elementos fluídicos.
É por isso que o texto afirma que, para a alma superior, a arte pode constituir uma homenagem ao Princípio eterno.
Não se trata apenas de contemplar beleza.
Trata-se de produzi-la como expressão da elevação interior.
A VONTADE COMO FORÇA MODELADORA.
Existe aqui uma questão psicológica extraordinariamente interessante.
Na experiência terrestre, nossa vontade encontra inúmeras resistências. Pensamos em construir e precisamos de pedra, madeira, metal, energia, instrumentos, trabalhadores, tempo e recursos. O pensamento, por si só, não ergue uma catedral.
Na concepção fluídica apresentada por Denis, a relação entre pensamento, vontade e forma seria consideravelmente mais direta.
O Espírito concebe.
A vontade organiza.
O fluido responde.
A forma manifesta-se.
Essa concepção não significa que qualquer Espírito possa simplesmente criar uma cidade paradisíaca conforme um capricho individual. A própria lógica espiritualista de Denis associa a capacidade de atuação sobre os fluidos ao grau de desenvolvimento do ser.
Quanto maior a depuração, maior seria a liberdade de utilização dos elementos sutis.
Quanto mais grosseiras as tendências, mais limitada a capacidade de ação.
Há, portanto, uma relação entre evolução moral e capacidade de realização espiritual.
Essa ideia também aparece em outros momentos de Après la mort, no qual Denis relaciona a sutileza do corpo fluídico à condição evolutiva do Espírito.
MORADA NÃO SIGNIFICA NECESSARIAMENTE “CASA”.
A palavra habitat, utilizada no texto de referência, merece atenção.
Habitat não precisa ser entendido exclusivamente como uma residência arquitetônica.
Em sentido mais amplo, é o meio no qual uma determinada existência encontra condições adequadas à sua manifestação.
Nesse sentido, falar em habitat espiritual pode ser intelectualmente fecundo.
Um Espírito não estaria apenas “em algum lugar”; estaria inserido em um meio compatível com sua condição espiritual.
É aqui que a doutrina kardeciana oferece uma perspectiva particularmente sóbria.
Em O Livro dos Espíritos, Kardec apresenta os chamados mundos transitórios, destinados temporariamente aos Espíritos errantes. A questão 234 fala desses mundos como estações ou pontos de repouso, enquanto a questão 235 informa que os Espíritos ali permanecem com finalidade de instrução e progresso.
Na questão 236, Kardec esclarece que sua condição é temporária e acrescenta algo de enorme interesse: embora possam ser estéreis segundo determinadas condições, esses mundos não estão privados de beleza, pois a natureza neles pode refletir as belezas da imensidade.
Portanto, o universo espiritual, na concepção espírita, não precisa ser pensado como uma abstração sem ambiente.
Existem condições de existência.
Existem gradações.
Existem mundos e regiões adequados aos Espíritos.
E existem diferentes estados de materialidade (222) L.E.
MORADAS FLUÍDICAS E MORADAS ETÉREAS: UMA DISTINÇÃO QUE EXIGE CAUTELA.
É necessário, entretanto, fazer uma correção de rigor doutrinário.
A distinção entre “moradas fluídicas” e “moradas etéreas”, tal como apresentada no texto-base, não constitui uma classificação sistemática estabelecida por Allan Kardec nesses termos.
São expressões que podem ser utilizadas para organizar didaticamente diferentes descrições espiritualistas, mas não convém apresentá-las como se Kardec tivesse elaborado uma taxonomia oficial segundo a qual existiriam, de um lado, “moradas fluídicas” e, de outro, “moradas etéreas”.
Isso seria ultrapassar o texto kardeciano.
O vocabulário de Kardec é mais nuançado.
Em A Gênese, capítulo XIV, especialmente nos itens 3 a 5, ele descreve os fluidos como estados diversos da matéria, entre a materialidade tangível e estados de extrema sutileza. No item 5, explica que os chamados “fluidos espirituais” não são espirituais em sentido absoluto, porque ainda pertencem ao domínio material em grau quintessenciado; somente a alma ou princípio inteligente seria propriamente espiritual.
Essa precisão impede uma confusão frequente:
etéreo não significa necessariamente imaterial.
Algo pode ser etéreo no sentido de extremamente sutil e, ainda assim, pertencer ao domínio da matéria em estado que os sentidos humanos não conseguem apreender.
É uma distinção pequena na aparência, mas gigantesca em suas consequências filosóficas.
O “ETÉREO” EM KARDEC.
A palavra “etéreo” aparece no vocabulário kardeciano para qualificar a natureza sutil do perispírito e dos estados espirituais.
Mas há uma referência fornecida no texto-base que precisa ser corrigida: o item 159 de O Livro dos Médiuns não trata de moradas etéreas. Ele pertence ao capítulo XIV, “Dos médiuns”, e define a mediunidade como a faculdade pela qual alguém sente, em determinado grau, a influência dos Espíritos.
Por isso, não é adequado utilizar o item 159 como fundamento direto para afirmar a existência de “planos etéreos” habitados por Espíritos puros.
O próprio O Livro dos Médiuns, em sua parte introdutória, oferece formulações mais pertinentes ao explicar o perispírito como envoltório semimaterial e ao mencionar sua natureza fluídica, etérea e vaporosa.
Essa é a maneira mais segura de tratar o assunto: não transformar uma palavra qualificativa em uma categoria cosmológica rígida que Kardec não estabeleceu.
O QUE PODEMOS CHAMAR DE MORADAS FLUÍDICAS?
Em linguagem interpretativa, podemos denominar de moradas fluídicas os ambientes do mundo espiritual descritos como constituídos por matéria sutil, sujeitos a condições diferentes das da matéria terrestre e nos quais os Espíritos podem desenvolver atividades, relações, aprendizado e experiências compatíveis com sua condição.
Nesse sentido, a expressão é perfeitamente inteligível dentro do vocabulário espírita.
Mas convém não afirmar que Kardec descreveu literalmente “cidades espirituais construídas pela mente” nos mesmos moldes encontrados em obras posteriores.
Essa imagem pertence sobretudo ao desenvolvimento posterior da literatura espírita e espiritualista.
É justamente nesse ponto que Léon Denis se torna importante.
Ele amplia literariamente a concepção do mundo espiritual, descrevendo ambientes de extraordinária beleza, reuniões de Espíritos, manifestações artísticas e construções realizadas mediante o emprego dos fluidos.
Sua obra possui enorme valor histórico dentro da tradição espírita, mas deve ser lida como desenvolvimento autoral posterior, não como se fosse uma continuação textual de O Livro dos Espíritos.
E AS “COLÔNIAS ESPIRITUAIS”?
Aqui também é necessária prudência.
A expressão “colônia espiritual” tornou-se extremamente conhecida no Espiritismo brasileiro, sobretudo pelas obras mediúnicas posteriores, como Nosso Lar.
Contudo, Nosso Lar não é obra de Allan Kardec.
Consequentemente, não devemos retroprojetar suas descrições diretamente sobre Kardec como se o codificador tivesse descrito aquelas cidades, hospitais, ministérios ou edificações específicas.
É possível estabelecer analogias conceituais, pois nas entrelinhas das suas obras o senso íntimo nos leva e apresenta, principalmente quando se considera a ideia kardeciana de mundos, regiões, ambientes espirituais, Espíritos errantes e diferentes condições de existência.
Mas analogia não é identidade.
Essa diferença preserva a seriedade do estudo e a Kardec também não foi apresentado e tão pouco o codificador conseguiu abranger tais descrições em sua época.
BELEZA COMO EXPRESSÃO DA ELEVAÇÃO.
Talvez esse seja o ponto mais fascinante do texto de Léon Denis.
A beleza não aparece simplesmente como ornamento.
Ela é consequência da elevação.
Os Espíritos superiores, segundo a visão apresentada, vivem em ambientes nos quais música, arte, arquitetura, luz, harmonia e convivência deixam de ser meros entretenimentos e passam a constituir expressões naturais da própria condição espiritual.
O que na Terra é fragmentário, no mundo espiritual seria integrado.
A arte seria oração.
A música seria harmonia.
A arquitetura seria pensamento materializado em substância sutil.
A convivência seria fraternidade sem competição.
E a beleza seria o reflexo exterior de uma transformação interior.
Existe aí uma profunda consequência psicológica.
Não somos apenas aquilo que possuímos; somos também aquilo que somos capazes de criar a partir de nós mesmos.
Se o pensamento participa da modelagem do ambiente espiritual, então a vida íntima deixa de ser um território sem consequências.
Pensamentos, sentimentos, desejos e intenções passam a adquirir significado moral.
O Espírito não carregaria apenas suas lembranças depois da morte.
Carregaria também a qualidade de sua própria estrutura interior.
A MORADA COMEÇA NO PRÓPRIO ESPÍRITO.
Eis talvez a conclusão mais lúcida.
Antes de imaginar cidades luminosas, templos magníficos ou regiões etéreas, o Espiritismo nos convida a olhar para aquilo que levaremos conosco.
A verdadeira questão não é apenas:
“Onde o Espírito viverá depois da morte?”
É também:
“Que Espírito estará vivendo depois da morte?”
A geografia espiritual é inseparável da geografia moral.
Léon Denis descreve ambientes grandiosos porque sua concepção do Universo está profundamente vinculada à lei de progresso. O Espírito modifica-se, depura-se, amplia suas faculdades e, consequentemente, relaciona-se com ambientes cada vez mais compatíveis com sua condição.
Kardec oferece o princípio geral; Denis desenvolve suas consequências filosóficas e literárias.
É nessa convergência, e também nessa distinção, que devemos estudar o tema.
MORADAS FLUÍDICAS, MORADAS ETÉREAS E O HABITAT ESPIRITUAL — EM SÍNTESE.
Moradas fluídicas, em sentido interpretativo, podem designar ambientes espirituais constituídos de matéria sutil, nos quais os Espíritos encontram condições de existência, trabalho, aprendizagem, convivência e manifestação.
Moradas etéreas podem ser empregadas como expressão descritiva para ambientes ainda mais sutis, luminosos e rarefeitos, associados a Espíritos mais depurados; porém, não devem ser apresentadas como uma categoria taxonômica formal estabelecida por Kardec.
Mundos transitórios, estes sim, são uma noção explicitamente apresentada por Kardec: mundos destinados temporariamente aos Espíritos errantes, servindo-lhes de estações e lugares de repouso e instrução.
Fluidos espirituais, na terminologia kardeciana, não são matéria no sentido vulgar, mas estados mais sutis da matéria; Kardec ressalta que a denominação “espiritual” é relativa, pois somente o princípio inteligente é propriamente espiritual.
E habitat espiritual é uma expressão útil para compreender que o Espírito não existe isoladamente: ele se encontra em condições ambientais, vibratórias e relacionais compatíveis com seu grau de desenvolvimento.
REFLEXÃO.
Há uma beleza silenciosa na imagem de Léon Denis.
O Espírito contempla o infinito e, utilizando os elementos sutis do Universo, cria formas que correspondem àquilo que traz dentro de si.
Essa imagem pode ser lida não apenas cosmologicamente, mas moralmente.
Porque talvez a maior “morada fluídica” que o Espírito construa não seja um templo, uma cidade ou um jardim.
Talvez seja a própria atmosfera que produz ao redor de si.
Pensamentos elevados tornam-se disposições elevadas.
Sentimentos depurados tornam-se relações mais nobres.
A vontade disciplinada transforma-se em força construtiva.
E a caridade, quando realmente incorporada à consciência, deixa de ser mero conceito e converte-se em maneira de existir.
É nesse ponto que o pensamento de Kardec e a sensibilidade filosófica de Léon Denis se encontram numa imagem poderosa: o Universo espiritual não é apenas um lugar para onde vamos; é também um reflexo daquilo que nos tornamos.
A morte, nessa perspectiva, não seria a entrada arbitrária em um paraíso ou em um abismo.
Seria a continuidade da existência sob condições diferentes.
E a morada que encontraremos terá íntima relação com a morada que edificamos dentro de nós.
REFERÊNCIAS:
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos, questões 22, 27, 234, 235 e 236.
KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns, Segunda Parte, capítulo XIV, item 159; e considerações sobre o perispírito e seu caráter fluídico e etéreo.
KARDEC, Allan. A Gênese, capítulo XIV — “Os fluidos”, especialmente itens 3 a 5.
DENIS, Léon. Après la mort — Exposé de la philosophie des esprits, ses bases scientifiques et expérimentales, ses conséquences morales. Paris: Librairie des sciences psychologiques, edição de 1893. Obra catalogada pela Bibliothèque nationale de France.
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A gente é contemplado a fazer parte desse mundo tão lindo, mas cada dia que passa, perdemos para nós mesmos. Em atitude descabível de tanta dúvida, não ver desdobramentos corretos do errado..
A gente é contemplado a fazer parte desse mundo tão lindo, mas cada dia que passa, perdemos para nós mesmos. Em atitude descabível de tanta dúvida, não ver desdobramentos corretos do errado.
No mundo em que vivo, o padrão de senso comum é ser imbecil perante a falta de compreensão com a verdade.
Que busca nesse mundo para suprir minha necessidade de ter um reflexo sobre o dia que já passou, ter esperança pelo dia que vai chegar, sempre buscando compreender melhor ou poder fazer para não morrer sem entender os propósitos da vida.
Dobramento desse mundo fascinante é que o pai vai falhar com o filho, assim o filho vai falhar com o pai, isso é um ciclo que se repete sempre.
Mundo louco, quando tem um que sabe escrever, não sabe pensar, tem outro que sabe pensar mas não sabe escrever.
A diferença
Entre aquilo que a gente é
E o que o mundo quer que se seja
É que quanto mais se for
Do jeito que o mundo
Queria que a gente fosse
Vai sempre existir
Uma porta que estava entreaberta
e se fechou
A flor que se abriu
e não foi vista
O olhar perdido, cansado e esquecido
Que cansado de esperar, partiu
E por mais que se tenha tentado
Se tenha aguardado
e por mais que se tenha visto
Não foi do jeito que devia ser
E não chega nem perto disto
Sendo certo
Que de tudo que fizeste
Erraste simplesmente, em quase tudo.
A diferença
Entre aquilo que se é
E aquilo que o Mundo
Gostaria que a gente fosse
É que este mundo não é
Do jeito que a gente pensa.
Edson Ricardo Paiva.
O verdadeiro amor não prende e não sufoca; ele dá asas para voar e todos os motivos do mundo para querer voltar.
O que me faria feliz
Era apenas e tão somente
Ver este mundo e toda gente
Ter tudo que sempre quis
Mas que soubesse desejar
Gente que soubesse onde quer ir
E aonde quer chegar
Se os anjos dissessem amém
A gente seria feliz...e além
Estantes cheias de livros
Surrados de tanto ser lidos
Meninas em brancos vestidos
Cotovelos fora da mesa
Rapazes sem chapéus,
na hora de comer
Camas limpas pra todos dormir
Ruas com árvores
Árvores com frutas
Frutas com sabor
Um pouco mais de amor no mundo
Um mundo de gente elegante
Educada e honesta
Um padre que razasse a missa
E nos desse parabéns
Por saber viver e dividir
Que a gente pudesse sorrir
E nossos vizinhos também
Um mundo onde ninguém mais
Precisasse mentir
Pra mais tarde descobrir
Que a felicidade de verdade
É uma vida isenta de ira
Que todo mundo compreendesse
Que tudo que não passa por isso
É felicidade de mentira
Enquanto todo mundo quer mais
Meu coração deseja um pouco menos
Menos astúcia, menos desconfiança
e um pouco menos angústia
Meu coração de criança
deseja que não houvesse
este excesso de falsas promessas
Proferidas por tantas mãos
unidas em prece
Eu queria que no mundo houvesse
Menos dor, menos rancor e falsidade
Procedente deste excedente de má vontade
Queria viver, enquanto há vida
Uma vida que fosse, ao menos levemente
uma vida de verdade
Enquanto meu coração pede menos
Os meus olhos pedem mais
Mais abelhas entre as flores
Mais aviões no Céu
todos feitos de papel
Mais sapos a cantar na noite
Mais estrelas visíveis
No clarão da madrugada
Mais sonhos possíveis
Mais frutas nos pomares
Promessas verdadeiras
Agradecidas nos altares
Sorrisos costumeiros
e cumprimentos matinais
e poemas madrigais
e que houvesse lugar pra todos
O último e o antepenúltimo
O primeiro e o segundo
Meus olhos desejam ver
Um pouco mais de amor neste mundo.
Quem tenta mudar as pessoas, o mundo, tudo, geralmente sofre,
porque está tentando mudar algo que já muda o tempo todo por si só, permanentemente.
A única pessoa, o único mundo, o único ser que pode ser mudado da maneira que quiser, no momento que quiser, é apenas a si mesmo.
O pior da perda não é o espaço vazio na cama ou na mesa, é perceber que o mundo continua girando lá fora como se nada tivesse acontecido, enquanto o nosso chão sumiu. Mas a grande lição que a dor nos esfrega na cara é que o luto não quer te destruir; ele é apenas o amor que ficou sem teto, um amor gigante que agora precisa aprender a sobreviver não mais no abraço, mas na urgência de a gente honrar quem partiu, vivendo a vida que eles não puderam continuar.
Carta de despedida: Nosso mundo encantado
Querida,
Hoje, ao ver uma foto sua,
um álbum inteiro se abriu diante de mim —
não de imagens, mas de memórias inventadas,
histórias que criei e roteiros que escrevi
acreditando que seriam nossos.
Projetei um enredo,
acreditei no roteiro que escrevi sozinho.
E quando o silêncio chegou,
percebi que o eco não era ausência tua —
era excesso meu.
Nesse excesso, construí um mundo só nosso,
mas apenas eu tinha acesso.
Olho com carinho para tudo que senti.
Não acabou.
É apenas o primeiro dia fora do nosso mundo encantado.
Um mundo criado por mim,
mas que, em essência, pertencia a nós dois.
O que doeu não foi perder alguém —
foi perder o personagem que inventei,
aquele que você talvez nunca tenha conhecido.
Descobri que o amor idealizado
tem o brilho exato do pôr do sol:
belo, mas breve, e feito de despedida.
Me vejo como um belo arquiteto,
mas um péssimo projetista.
Criei estruturas lindas,
dignas de um conto de fadas.
E hoje, de fora,
observo o “nosso mundo perfeito”,
sem saber se você o acharia perfeito também.
Entendi que a decepção
é só a luz acendendo no cinema,
revelando que o filme era projeção.
E no escuro que fica depois,
a vida me convida a assistir de novo —
dessa vez, com os olhos abertos.
Das cenas que mais gosto são os créditos.
Porque, mesmo sendo o único colaborador físico dessa criação,
todas as cores e formas vieram de você.
Lhe agradeço por ter sido inspiração,
mesmo sem saber.
Nunca haverá mágoas
em um mundo onde só um coração pulsava.
E mesmo que esse mundo tenha sido só meu,
ele foi feito com amor —
e por isso, ele sempre será bonito.
Com carinho,
Luis
Não o mundo (pessoas) está contra mim, mas o universo mesmo. Tudo está conspirando contra minha pessoa, e quanto mais eu me esforço pra ser melhor, mesmo o meu intelecto JÁ sendo superior a de todos a minha volta, mais o universo conspira contra mim.
O monopólio da sua verdade acabou. O mundo mudou, o acesso se democratizou e qualquer narrativa sem base cai em um clique. Quem dependia da ignorância alheia para liderar, hoje se perde na própria arrogância.
O mundo anda invisível
Por isso é preciso cuidado
Ao pisar no chão
Não se sabe qual coração está lá
A vida ainda é proibida
Aos que desistem
Antes de tentar
Um milhão de vezes
Por mais humilhante que seja
A verdade é inatingível
Quando simplesmente se vive no mundo
Enquanto alguém o carrega
A vida anda brava
Com quem acredita ser a humildade
Somente palavra bonita
Assim o tempo passa
E o vento leva
A todo aquele que tanto pergunta
Onde está
A verdade
Que pretensamente
Pensa que esconde
.
Edson Ricardo Paiva.
Eu
Vivendo minha vida
Num mundo que não é meu
Uma lâmpada
Acendida anteontem
Esquecida
Quando amanheceu
Uma voz rouca e profunda
Fruto
De relação desarmônica
Vendo outros olhos
Que veem
Entendo
Que vendo o que veem
Não enxergam nada
Ou pouco dizem
Creio-lhes eu
Pode ser que sofrendo
Insuficiência verbal aguda
Mudas
Corações moldados
Em rocha intrusiva
Uma relação harmônica
Plutônica erosiva
Crônica, agudizada
Cínica em seu modo
Em desarmonia com o meu
Uma lâmpada acesa lá fora
Cá dentro, um lugar à mesa
Creio eu
Pode ser um dia.
Edson Ricardo Paiva.
Hoje, quando entardeceu
Eu olhei pra claridade
E desejei boa tarde
Boa tarde pro mundo
Pra quem flutua na nuvem
Pra quem tá à toa na vida
Pra todo aquele que ainda sonha
Os sonhos que eu sonhei
Quando era moço
Pra quem convida a tarde a entrar
Oferece uma xícara de chá
Sem saber
Que todo aquele que a tarde convida
Mais cedo ou mais tarde
Há de perceber
O quanto a tarde adentrou na sua vida
Hoje
Eu desejo boa tarde à tarde
E depois fecho a cortina
Pra essa lâmina-inquilina
Cada tarde que entardece
É outra página virada
Da qual eu me esqueço
Antes mesmo que anoiteça
Mas agora é tarde
E parece que a vida
É um navio à deriva
Outra tarde escrevi um poema pra Deus
Agora eu pergunto
Como será que teria sido
Se Deus tivesse lido
Mas agora é tarde
A tarde partiu pra não sei aonde
E essa vida, essa história sem tema
Foi Deus que escreveu
Qual se fosse um poema
Um poema que Deus escreveu pra ser vivido
Mas eu fecho a cortina
Pois agora é tarde.
Edson Ricardo Paiva.
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