Voce foi Melhor Tio do Mundo

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Agir sem atuar, ver sem enxergar, crer sem acreditar. Ao despertar o mundo, o Buda despertou-se.

Looping


Tudo é velho. O mundo é uma repetição imutável, não se pode perceber o movimento. Falta-nos a ausência. A voz diz que não há vida. O guia nos abandonou. A noite caiu. A dor é perene, a luz está distante, não se pode recuperar o que o dano finalizou. Os meus músculos estão tensos, o coração apertado, as mãos trêmulas. A liberdade me levou a isso, as infinitas possibilidades. Mas ainda ne resta força para quebrar o encanto: posso ver um dos níveis superiores e me agarro nele. A paciência é amiga. O ar volta a soprar. A tranquilidade nunca foi perdida realmente. Tudo isso é o que acontece no momento.

A moda é um anseio de ser diferente como todo mundo.

Livre
Quando eu estou desgostoso do mundo dos mortais, me refugio no meu mundo de abstrações e formas puras. Aí fico flutuando entre as nuvens e os outros anjos, esquentando as asas na luz azul, voando com os pássaros. Eu, tão lacônico e sintético, também posso alongar o verbo e falar, falar. Posso satisfazer o desejo insaciável de novidade, de vida, daqueles que não a conhecem. A tentação é ter piedade pela ignorância do mundo, quando só cabe a compaixão de reconhecer que eu dou valor aos que não se valorizam. Assim, amargo, só posso rir das trapalhadas, do mau hálito, a barba por fazer. Sinto simpatia pelos bajuladores e os violentos. Vejo a graciosidade dos mentirosos e sem educação. Os meus irmãos são os fracos, como eu, os que a hipocrisia impede que falem, aqueles que adoram o dinheiro. Só não tenho piedade pelos loucos, porque eles estão além de todos nós, viventes de um lugar em que existe a liberdade.

O mundo desperto é o mundo da lógica, o mundo dos sonhos é o reino da imaginação. Os artistas são aqueles que sonham acordados. Eles estão nos dois mundos.

A esquizofrenia é uma porta para um mundo oculto, além da lógica e de todos os caminhos conhecidos.

O mundo é uma peça de teatro que se repete todo o tempo. O mundo quer a sua repetição. Só quando percebemos a nossa contínua reprise é que podemos nos modificar, e, assim, modificar o Universo.

Este mundo vai se acabar


Haverá um tempo em que existirão poucas pessoas e os poucos serão gente de qualidade, não muitos supérfluos. A propaganda não existirá para promover o muito, o inútil e o daninho à vida, ao contrário, virá do real desejo de preservar e promover o conhecimento da sua Natureza. Os materiais usados serão mínimos, ampliados pela imaginação, que será usada por todos para criar, através da arte, um mundo que realiza a sua beleza. Assim, só haverá Um. A doença da cobiça se findará e o dinheiro não será mais sinônimo de culpa e auto sabotagem. Apesar dos seus inúmeros defeitos, as pessoas encontrarão um denominador comum que as una, fazendo que parem de competir e se voltem ao apoio de todos por todos, acabando a inimizade recíproca. Isso é difícil de acontecer, mas é inevitável, sob a pena de não haver mais humanidade.

O mundo é um desenho de um movimento.

Leve


No mundo, todos podem ser poetas. Vão produzir poesias com ideias comuns, como são as pessoas comuns, que nunca se aprofundaram nas rimas. Isso eu pensava sentado à mesa do bar, comendo um bolinho de batata, acompanhado de um suco de melancia. Existiria uma situação mais adorável? Eu tentava, em vão, me convencer de que havia algum motivo para que eu saísse dali e fosse para casa. Em outro lugar, em qualquer lugar é a mesma coisa: onde eu estou é a perfeição, não há a necessidade de esse ir e vir interminável. É aqui que eu estou, carregando a minha felicidade para toda parte.

É fácil enxergarmos o mundo. É difícil enxergarmos como ele nos vê.

O sedutor ama o mundo. Ao procurar o amor eu descobri a mim mesmo.

O mundo se repete por mim, os números são a essência.

A ponte do arco-íris


Visitamos em sonho o mundo das formigas, onde não há o sexo. As formigas se recolheram, mas daqui a dois anos vão voltar e, através da ponte do arco-íris, Bifrost, vão chegar à Terra e instalar um reinado de trilhões de seres, aniquilando toda outra forma de vida. Não há escapatória, mas os homens tentarão de tudo para descobrir um modo de sobreviver. As espaçonaves ainda não estão prontas, e a única maneira é lacrar a ponte com aço e lutar.

Entidade fantasmagórico espectral


Não existe o lixo, existem coisas fora de lugar. O mundo pede que o coloquemos na ordem correta. A felicidade está em enxergarmos o conjunto que surge se nos detemos nas pequenas unidades. Alguém que eu não posso ver sorriu para mim atrás dos livros da estante.

Nós, deuses, viemos ao mundo para brincar de sorrir e de chorar.

Quando o Texto Me Lê

Eu pensei que escrevia
para dizer ao mundo.
Mas escrevo
para escutar
o que ainda não sei.

A palavra sai achando
que sabe o caminho,
desfila segura,
convencida.

Até que eu volto.
Leio.
E o texto me olha de volta.

Ler o que escrevi
é chegar atrasado
a mim mesmo.
Um espelho sem rosto,
só gesto,
só intenção escancarada.

O medo se esconde
em frases longas,
cheias de vírgulas,
com medo do fim.

A coragem aparece
sem alarde,
num verbo simples
que não pede desculpa.

Enquanto escrevo,
defendo ideias.
Quando leio,
negocio com elas.

Descubro palavras
que não eram minhas
apenas passaram.
E verdades pequenas
que se sentaram
e ficaram.

O texto pergunta,
com ironia mansa:
Era isso mesmo?

Às vezes dói reler.
A genialidade de ontem
vira eco vazio hoje.
Outras vezes assusta:
fui eu
que escrevi isso?

Sim.
Fui eu.
Naquele dia.
Com aquele peso.
Com aquela lucidez possível.

O texto não mente:
ele registra o movimento.

Escrever não acaba
no ponto final.
Começa
quando o autor
vira leitor.

Ali,
o texto também escreve.
Aponta.
Ensina.
Cutuca.

Não grita.
Mas fica.

Quem não relê
perde metade da aula.
Porque escrever é falar.
E reler
é escutar.

E quase sempre
é na escuta
que a gente aprende.

No fim,
eu queria ensinar alguém.
Mas o papel, paciente,
me mostrou:

o aluno
era eu.

“O Mundo e as Palavras”

Como fazer uma poesia se o mundo não vive uma poesia? Olho pela janela e vejo pressa, vejo indiferença, vejo gente passando por gente como se fossem sombras. Onde está o verso nesse corre-corre sem sentido? Onde está a rima nesse barulho que não cessa?
Como falar de amor se o mundo não ama mais? As pessoas tocam telas, não mãos. Enviam corações digitais, mas esqueceram como se abraça de verdade. O amor virou pressa, virou conveniência, virou algo que se descarta quando incomoda. E eu aqui, com palavras antigas tentando descrever um sentimento que parece fora de moda.
Como escrever histórias se o mundo não faz mais histórias bonitas que tocam o coração? Tudo é rápido, superficial, descartável. As narrativas viraram manchetes, os encontros viraram notificações, os sonhos viraram metas de produtividade. Ninguém mais se senta para ouvir uma história completa. Querem o resumo, a versão curta, o final sem o caminho.
Como prometer um mundo diferente se o mundo não quer mudar? Ele insiste nos mesmos erros, repete as mesmas dores, ignora as mesmas lições. Falo de esperança e me olham como se eu falasse língua estrangeira. Falo de transformação e dizem que sou ingênuo.
Mas talvez seja exatamente por isso que preciso continuar. Porque se o mundo não vive poesia, alguém precisa escrevê-la. Se não há amor suficiente, que eu possa oferecer o meu. Se as histórias não tocam mais, que eu insista em contar aquelas que fazem o coração lembrar que ainda bate.
Talvez mudar o mundo comece justamente quando nos recusamos a aceitar que ele não pode ser diferente.​​​​​​​​​​​​​​​​

“Além das Medidas”

O meu amor por ti é maior que a dimensão do mundo. Não cabe nos mapas, não se mede em quilômetros nem se pesa em balanças de ouro.
É um sentimento que escapa pelas frestas do possível, que transborda os oceanos e se derrama sobre montanhas invisíveis.
Quando te penso, o universo fica pequeno.
As estrelas são apenas pontos tímidos comparados ao brilho que carregas nos olhos. A vastidão dos mares se torna uma poça d’água diante da profundidade do que sinto. O mundo gira, mas meu amor permanece fixo, imenso, inalterável como uma constelação que só eu consigo ver.
Não há atlas que contenha este sentimento, não há horizonte que o limite. Ele existe num lugar próprio, numa geografia secreta onde só habitam duas pessoas: eu, que amo, e tu, que és amada. Ali, nesse território sem fronteiras, construímos uma dimensão maior que todas as outras feita de instantes, de silêncios partilhados, de promessas sussurradas ao vento.
O meu amor por ti é maior que a dimensão do mundo porque criou um mundo próprio, infinito, eterno.

Ainda Assim, Respiramos

Vimos tudo.
Mas não deixamos que tudo nos leve.

O mundo gritou alto demais,
rasgou papéis,
confundiu nomes,
trocou cuidado por ruído.
E nós, cansados,
ficamos olhando.

Não por covardia.
Por sobrevivência.

Há dias em que resistir
é apenas levantar da cama,
é continuar sentindo
quando sentir dói.

Somos testemunhas, sim.
Mas também somos silêncio fértil,
olhar atento,
memória que não se apaga.

Enquanto o palco treme,
há quem plante esperança nos cantos,
quem acenda pequenas luzes
longe dos holofotes.

Nem todo gesto é barulho.
Nem toda força é grito.

Às vezes, viver
já é um ato de coragem.
Às vezes, respirar
é a forma mais bonita de ficar.

E mesmo quando parece pouco,
é o suficiente
para que a manhã volte
devagar
mas volte.