Vivo pra Mim
Se houver alguma coisa bonita em mim, foi Deus quem construiu. Se houver alguma força, foi Ele quem soprou. Se houver alguma vitória, foi Ele quem me conduziu. Porque eu conheço de perto a mulher que eu seria sem a graça e conheço ainda mais de perto o Deus que decidiu não me abandonar.
Se alguma coisa floresceu em mim, foi porque Deus regou o que eu já não tinha forças para cultivar. A Ele, toda a glória.
Eu não quero aplausos por aquilo que Deus fez através de mim. Quero apenas que, ao olharem para a minha vida, enxerguem a mão dEle.
Que toda porta que Deus abrir encontre em mim um coração humilde o suficiente para entrar sem esquecer Quem abriu.
Que a minha vida seja uma seta apontando para Cristo: que ninguém pare em mim quando Deus for o destino.
Que minhas conquistas nunca construam um altar para mim, mas levantem um altar de gratidão para Ele.
Se tudo é por Ele e para Ele, então minha vida não pode terminar em mim. Ela precisa apontar para Ele.
Quem conhece a mente de Deus? Quanto mais O conheço, menos espaço encontro para exaltar a mim mesma.
Se minha permanência incomoda, olhem para Cristo, não para mim. Eu sou apenas testemunho daquilo que a graça pode fazer.
Tudo o que em mim resistiu ao deserto foi sustentado pela graça. Por isso, não tomo a glória para mim: a Ele pertence toda a honra.
Quanto mais conheço a mim mesma, menos consigo condenar o outro e mais admiro a misericórdia de Deus.
Eu não fui salva porque merecia; fui salva porque Cristo teve misericórdia de mim. Por isso, creio que a graça também pode alcançar qualquer pessoa.
Quando olho para dentro de mim, não encontro motivos para me achar superior; encontro motivos para agradecer pela graça.
Deus não coloca sobre mim apenas aquilo que minhas forças suportam; muitas vezes, Ele me conduz a lugares onde descubro que Sua graça é suficiente. 2 Coríntios 12:9
O que parecia grande demais para mim tornou-se testemunho de que Deus pode sustentar aquilo que minhas forças não conseguem carregar.
O deserto não me afastou de Deus; arrancou de mim tudo aquilo que me fazia procurar segurança longe dEle.
Enquanto alguns querem aparecer, eu quero que Cristo apareça em mim.
Não preciso ser vista pelos homens para ser conhecida pelo Pai.
Não preciso disputar lugar, porque meu lugar está nas mãos dEle.
O Homem que Sobrou de Todos os Homens
Antes de mim
já havia o silêncio.
Depois,
alguém acendeu uma luz
e chamou aquilo de nascimento.
Não me perguntaram
se eu queria estar aqui.
Deram-me um corpo,
um nome,
um punhado de ossos
e uma consciência inquieta
demais para caber dentro deles.
Passei a infância
aprendendo o tamanho das coisas.
O quintal parecia infinito.
O céu não terminava.
O tempo não tinha pressa.
Eu ainda não sabia
que um dia os relógios
começariam a devorar pessoas.
Nem que homens adultos
acordariam cedo
para vender seus dias
em troca de dinheiro
com o qual comprariam
mais alguns dias.
Eu ainda não sabia
que crescer seria
descobrir lentamente
que quase tudo aquilo
que chamávamos de escolha
já vinha com preço.
Então cresci.
E o corpo cresceu comigo.
Mas dentro dele
continuava aquele menino
batendo nas paredes
de uma casa que não sabia
ser sua.
Foi quando comecei
a desmontar o universo.
Procurei Deus
atrás das estrelas.
Depois procurei estrelas
dentro dos átomos.
Procurei respostas
na matéria,
e encontrei vazio.
Procurei vazio,
e encontrei movimento.
Procurei movimento,
e encontrei caos.
Procurei o caos,
e encontrei a mim.
Talvez tenha sido aí
que tudo começou a dar errado.
Porque descobrir a própria consciência
é uma forma sofisticada
de perder a inocência.
Depois que percebemos
que estamos vivos,
não conseguimos mais
fingir que não estamos.
E eu pensei demais.
Pensei até o pensamento
ficar pesado.
Pensei até transformar
a própria cabeça
em um quarto sem janela.
Houve noites
em que o silêncio
tinha mais presença
que qualquer pessoa.
O mundo dormia.
Eu não.
Eu contava as rachaduras
do teto
como quem procura
uma saída no mapa de uma prisão.
Às vezes queria desaparecer.
Não como quem deseja um fim,
mas como quem deseja
que alguém apague
uma palavra escrita errada
antes que a página inteira
seja condenada por ela.
Queria ser menos eu.
Depois descobri
que era impossível.
Então tentei ser outra coisa.
Fui raiva.
Fui veneno.
Fui punho.
Fui grito.
Fui a palavra que ninguém queria ouvir
na mesa onde todos fingiam
que estava tudo bem.
Olhei para o mundo
e achei que ele merecia
ser destruído.
Depois olhei melhor
e percebi:
eu também fazia parte dele.
Essa foi uma descoberta pior.
Porque é fácil odiar monstros
quando acreditamos não possuir dentes.
Mais difícil é perceber
que às vezes o monstro
mora no espelho
e paga suas próprias contas.
Ainda assim, lutei.
Contra homens.
Contra ideias.
Contra sistemas.
Contra deuses.
Contra o destino.
Contra mim.
E por algum tempo
confundi liberdade
com não pertencer a nada.
Que erro.
A liberdade não é ausência de correntes.
É saber quais delas
você aceita carregar.
Então veio o amor.
E eu, que desconfiava
de quase tudo,
acreditei.
Que ironia.
Passei anos procurando
uma prova de que a vida tinha sentido
e bastou alguém
olhar para mim
como se eu tivesse.
O amor não me salvou.
Nenhum amor salva.
Ele apenas mostrou
que havia coisas
pelas quais valia a pena
continuar lutando.
E isso foi suficiente.
Depois vieram as perdas.
Porque toda coisa que amamos
carrega consigo
a possibilidade de nos ferir.
Aprendi tarde
que algumas pessoas
não ficam.
Algumas são passagem.
Algumas são cicatriz.
Algumas são casa
e algumas são incêndio.
E algumas conseguem ser
as duas coisas.
Continuei andando.
Não por coragem.
Por insistência.
Há uma diferença.
Coragem olha para o abismo
e decide saltar ou não.
Insistência simplesmente
acorda no dia seguinte.
Eu acordei muitas vezes.
Algumas sem vontade.
Algumas sem esperança.
Algumas sem saber
o que fazer comigo.
Mas acordei.
E um dia percebi
que havia outras pessoas
acordando por minha causa.
Foi então que o homem
que queria desaparecer
começou a compreender
o peso de permanecer.
Já não era apenas meu corpo.
Já não era apenas minha vida.
Havia mãos pequenas
que ainda não entendiam
a palavra futuro,
mas já eram capazes
de mudar o meu.
Foi nesse instante
que o tempo deixou de ser inimigo.
Ele passou a ser herança.
E compreendi algo
que nenhuma equação
havia conseguido me ensinar:
nós não somos apenas
aquilo que lembramos.
Somos também
aquilo que ensinamos
sem perceber.
Somos a frase que alguém repete
anos depois.
O gesto que alguém reproduz.
A coragem que alguém encontra
porque um dia viu a nossa.
Somos aquilo que permanece
quando o nome já não está
na boca de ninguém.
Talvez seja essa
a única forma humana
de eternidade.
Não durar.
Continuar.
Hoje ainda tenho perguntas.
Muitas.
Algumas envelheceram comigo.
Outras nasceram ontem.
Ainda desconfio de Deus.
Ainda desconfio dos homens.
Ainda desconfio de mim.
A diferença é que já não preciso
resolver todos os mistérios
para apreciar o fato
de estar dentro deles.
Já não preciso compreender
o universo inteiro
para amar alguém
nesta pequena parte dele.
Já não preciso vencer
todas as batalhas
para reconhecer
que sobrevivi a algumas.
E já não quero apagar
nenhuma versão de mim.
O menino.
O revoltado.
O apaixonado.
O bêbado de pensamentos.
O homem perdido.
O homem arrogante.
O homem quebrado.
O homem que achou
que não haveria amanhã.
Todos eles continuam aqui.
Não como fantasmas.
Como fundação.
Eu sou o erro
que aprendeu com o erro.
A ferida
que aprendeu a fechar
sem esquecer onde doeu.
A pergunta
que desistiu de exigir resposta.
O caos
que encontrou uma maneira
de não destruir tudo.
A matéria
que, por algum acidente absurdo,
aprendeu a amar.
E talvez seja isso
que mais me assuste:
depois de passar tanto tempo
querendo descobrir
o que existe depois da vida,
eu finalmente comecei
a prestar atenção
no que existe dentro dela.
Um café quente.
Uma madrugada.
Uma discussão.
Um abraço.
Uma criança dormindo.
Uma fotografia antiga.
Um erro que ainda dói.
Uma gargalhada inesperada.
Uma pessoa dizendo
“fica”.
O sol entrando pela janela
sem pedir licença.
A vida.
Essa coisa estranha
que nunca explicou
por que me escolheu.
E que, ainda assim,
eu escolhi de volta.
Quando meu corpo finalmente cansar,
quando a matéria
voltar a ser matéria,
quando meu nome for apenas
uma palavra antiga
em alguma boca distante,
não quero que digam
que fui um homem sem respostas.
Eu fui pior.
Fui um homem cheio delas.
Tive respostas demais
para perguntas erradas.
Passei metade da vida
tentando descobrir
como escapar do labirinto.
A outra metade
aprendendo a construir
janelas dentro dele.
E se algum dia
alguém encontrar minhas palavras,
não procure nelas
um homem pronto.
Não existe.
Procure um homem
tentando.
Porque foi isso
que eu fiz.
Tentei.
Tentei entender.
Tentei amar.
Tentei odiar.
Tentei fugir.
Tentei ficar.
Tentei ser pai.
Tentei ser filho.
Tentei ser homem
antes mesmo de descobrir
o que isso significava.
Tentei transformar dor
em alguma coisa que não fosse desperdício.
Às vezes consegui.
Às vezes não.
Mas escrevi.
E talvez escrever tenha sido
a maneira mais honesta
que encontrei
de deixar sangue no papel
sem precisar morrer por ele.
Agora olho para trás.
Há muitos homens
espalhados pela estrada.
Todos têm meu rosto.
Nenhum é exatamente eu.
Eu sou o intervalo
entre eles.
O espaço invisível
onde um termina
e outro começa.
Sou o menino
que ainda olha para o céu.
O homem
que ainda pergunta.
O pai
que já sabe que amanhã chegará.
E o velho
que ainda não conheço.
Talvez um dia
eu finalmente compreenda
por que nasci.
Talvez não.
Mas já não tenho tanta pressa.
Tenho coisas para fazer.
Tenho pessoas para amar.
Tenho erros para corrigir.
Tenho histórias para contar.
Tenho amanhã.
E, pela primeira vez,
isso não parece pouco.
Parece infinito.
Porque agora eu sei:
não é preciso vencer a morte.
Basta não deixar
que ela seja a última coisa
a dizer quem fomos.
Então, quando chegar minha vez,
que o universo faça comigo
o que sempre fez com tudo:
me desmonte.
Quebre meus átomos.
Espalhe minha matéria.
Devolva meu corpo
ao chão.
Não me importo.
Porque antes disso
eu terei sido muitas coisas.
E algumas delas
terão ficado.
Num filho.
Num abraço.
Numa lembrança.
Numa cicatriz.
Num riso.
Numa página.
E talvez,
em algum lugar,
um homem que nunca conhecerei
leia estas palavras
e perceba que não está sozinho.
Então tudo terá valido a pena.
Não porque eu descobri
o sentido da vida.
Mas porque, no fim,
eu finalmente descobri
que o sentido não estava esperando
por mim em lugar algum.
Eu estava construindo.
Enquanto caía.
Enquanto amava.
Enquanto errava.
Enquanto envelhecia.
Enquanto escrevia.
E entre todos os homens
que eu fui,
entre todos os homens
que ainda posso ser,
há somente um
que permanece.
Não o primeiro.
Não o último.
Mas aquele que escolheu
continuar.
Eu.
Se eu insisti em você, não foi por falta de amor-próprio, mas porque você era especial para mim. Infelizmente, nem todo mundo sabe valorizar o real e prefere viver de orgulho e status!
