Vida
Tente ser ao menos um pedacinho daquilo que a vida tem de mais charmoso, uma pessoa surpreendente. Não faça promessa, faça surpresa!
Que o Espírito Natalino que hoje nos une, permaneça em nós, em todos os outros dias da nossa Vida, para podermos e sabermos celebrá-la, sempre Espalhando Amor e Semeando Esperança.
Enquanto muitos vivem como se a vida de primeiro mundo fosse um drama, muitos brasileiros tropeçam no drama e fazem comédia.
A vida é um amontoado de despedidas, onde ninguém sabe qual é a derradeira.
A vida, em essência, é uma sucessão de chegadas e partidas.
Um amontoado de despedidas silenciosas que se acumulam, quase sempre sem aviso.
Nunca sabemos qual abraço será o último, qual conversa não se repetirá, nem qual olhar se prenderá eternamente na memória.
Talvez seja justamente essa incerteza que valorize o instante — a consciência de que ele é frágil, transitório, irrepetível.
Por isso, a vida nos convida a viver cada encontro com reverência, cada presença com gratidão e cada despedida com a delicadeza de quem entende que até a separação faz parte do milagre de existir.
No fim, não é a derradeira despedida que mais importa, mas sim a intensidade dos encontros que a antecedem.
Outubro ou nada!?!
Que nem a seriedade cobrada pela vida adulta consiga distrair a graça da criança que ainda vive em nós!
Amém!
Que o Senhor da Vida liberte os que trilham as Estradas da Saudade calçados com as Sandálias do Remorso!
Amém!
Que o Senhor da Vida liberte os que trilham as Estradas da Saudade calçados com as Sandálias do Remorso!
Amém!
Liberta, Senhor!
Arrebentai as Sandálias do Remorso de todos que revisitam as lembranças dos que partiram antes de nós!
Saudades, sim — Tristeza, não!
Amém!?!
Porque a Saudade, por si só, já é estrada longa o bastante — feita de Memórias, Silêncios e Ausências que aprendem a conversar conosco.
Mas há quem caminhe por ela ferindo os próprios pés, calçado com as sandálias do arrependimento.
São passos, às vezes, demasiadamente pesados, que machucam o coração a cada lembrança do que não foi dito, do abraço adiado, da reconciliação interrompida...
No entanto, a verdadeira cura começa quando entendemos que o amor não termina com a partida — apenas muda de endereço.
E quem parte não deseja nos ver presos ao que faltou, mas gratos pelo que foi vivido.
Descalçar o remorso é um gesto sagrado: é permitir que a saudade volte a ser caminho de amor e não de castigo.
Que possamos, então, revisitar nossas lembranças com a graça de quem sabe que o perdão é o único calçado capaz de levar a alma em paz, sobretudo pelas estradas pavimentadas pela Saudade.
Amém!
Enquanto para uns, o que dói é a finitude da vida, para outros, o que alivia é a finitude das dores.
Para uns, a morte é a grande inimiga — a interrupção brusca dos planos, dos afetos, dos sonhos ainda inacabados — para outros, ela surge como um descanso prometido, quase um silêncio misericordioso depois de longos e exaustivos gritos.
Há quem tema a finitude da vida porque ama intensamente o que tem, o que construiu, o que viveu e o que ainda espera viver.
Para esses, cada despedida é um rasgo, cada adeus é uma mutilação do possível.
A morte representa a perda de tudo: das mãos que se tocam, das conversas inacabadas, dos abraços que ainda poderiam ser dados.
É o fim das oportunidades de amar mais uma vez.
Mas há também quem, exausto de carregar dores que não cessam, encontre na ideia da finitude um alívio secreto.
Não porque despreze a vida, mas porque já não suporta a forma como ela se apresenta.
Para esses, a morte não é vista como roubo, mas como cessação.
Não é a perda de tudo — é o fim de tudo o que dói.
É o apagar de uma chama que já não aquece, apenas queima.
E aí reside o grande paradoxo da existência: a mesma morte que para uns é tragédia absoluta, para outros é libertação imaginada.
Ela é, simultaneamente, ausência e descanso; ruptura e cessação; perda e alívio.
Talvez isso revele menos sobre a morte e mais sobre a forma como estamos vivendo.
Porque, quando a vida é experiência de sentido, a finitude assusta.
Mas quando a vida se torna apenas resistência, a finitude seduz.
No fundo, não é a morte que muda de significado — é o peso que carregamos enquanto respiramos que redefine o que ela representa.
E talvez a tarefa mais urgente e necessária não seja discutir a morte, mas aprender a tornar a vida menos insuportável para quem já não a reconhece como lar.
Não há arrependimento de mãos ensanguentadas que devolva a vida de um inocente.
Essa é uma das verdades mais duras que a existência humana pode encarar.
Há erros que podem ser corrigidos, palavras que podem ser retiradas, pontes que podem ser reconstruídas e feridas que o tempo até consegue cicatrizar.
Mas existem escolhas cujas consequências atravessam o limite do reparável.
Quando uma vida inocente é interrompida, não há remorso capaz de inverter o curso dos acontecimentos, nem lágrimas doloridas e suficientes para preencher o vazio deixado por uma ausência definitiva.
O arrependimento possui um valor inegável.
Ele revela a consciência desperta para o peso dos próprios atos.
É a alma reconhecendo aquilo que antes ignorou, desprezou ou justificou.
Contudo, o arrependimento não é uma máquina do tempo.
Sua função não é apagar o passado, mas impedir que a mesma escuridão continue produzindo destruições futuras.
Talvez por isso a responsabilidade seja uma virtude tão necessária.
Antes de cada decisão, existe um instante muito silencioso em que ainda somos livres para escolher.
Depois que a ação se concretiza, passamos a ser prisioneiros de suas consequências.
A verdadeira liberdade habita o momento da escolha; a responsabilidade habita tudo o que vem depois.
Vivemos em uma época em que frequentemente se busca justificativas para tudo.
Circunstâncias, emoções, traumas e pressões são apresentados como explicações para atitudes que jamais deveriam ter acontecido.
Embora compreender as causas de uma tragédia seja muito importante, nenhuma explicação transforma o errado em certo, nem devolve à vítima aquilo que lhe foi tirado.
A compreensão pode esclarecer; a justificativa, porém, não absolve.
Existe também uma lição bastante dolorosa sobre o valor da vida humana.
Muitas vezes, ela só é percebida em sua plenitude quando já não pode ser recuperada.
A presença que parecia comum torna-se insubstituível.
A voz que era rotina transforma-se em profundo silêncio.
E aquilo que foi tratado como descartável revela-se um universo inteiro que jamais voltará a existir.
Por isso, mais do que refletir sobre o arrependimento, é necessário refletir sobre a consciência.
Sobre o cuidado com as próprias ações.
Sobre a capacidade de enxergar a humanidade do outro antes que seja tarde demais.
Porque a verdadeira sabedoria não está em lamentar o mal causado, mas em impedir que ele aconteça.
No fim, o arrependimento pode transformar quem errou, mas não ressuscita quem partiu.
E talvez essa seja a razão pela qual algumas escolhas carregam um peso tão imenso: elas nos lembram que há danos que o tempo não desfaz, palavras que silêncio algum corrige e vidas que, uma vez perdidas, permanecem para sempre além do alcance de qualquer pedido de perdão.
Entre os “cristãos” que aceitam a interrupção da vida intrauterina e os que aceitam a interrupção da que “não deu certo” — socialmente —, paira um abismo de Misericórdia.
Talvez porque a Misericórdia verdadeira não se acomode nas trincheiras ideológicas.
Ela não escolhe vítimas conforme a conveniência moral do momento, nem distribui compaixão segundo critérios de afinidade política, econômica ou cultural.
A Misericórdia vê primeiro a pessoa, depois a circunstância; primeiro a dignidade, depois o julgamento.
Há quem se escandalize diante da interrupção de uma vida ainda escondida no ventre, mas permaneça indiferente quando uma existência já nascida é descartada pela pobreza, pela dependência química, pela doença mental, pela solidão ou pelo fracasso.
Há também quem se mobilize em defesa dos vulneráveis que caminham pelas ruas, mas relativize a vulnerabilidade absoluta daquele que sequer pode erguer a própria voz.
Em ambos os casos, o risco de transformar a defesa da vida em uma causa seletiva é iminente.
E toda seletividade aplicada à dignidade humana revela mais sobre nossas preferências do que sobre nossos princípios.
O Evangelho apresenta um caminho muito mais exigente.
Não basta defender a vida em um estágio e ignorá-la em outro.
Nem proteger o inocente antes do nascimento e abandonar o ferido depois dele.
Tampouco basta acolher o socialmente excluído e negar humanidade ao que ainda não nasceu.
A coerência da caridade cristã pede um olhar integral: a vida humana não adquire valor por ser desejada, produtiva, saudável ou socialmente bem-sucedida.
Seu valor é anterior a qualquer mérito.
A Misericórdia não elimina a verdade, mas também não permite que a verdade seja usada como instrumento de condenação.
Ela convida à defesa da vida sem arrogância, ao acolhimento sem relativismo e à justiça sem crueldade.
Talvez o maior desafio não seja identificar quem está do outro lado do abismo, mas reconhecer que todos estamos à sua beira.
Porque, quando a compaixão se torna seletiva, quando a dignidade humana passa a depender de circunstâncias ou preferências, cada um de nós contribui para alargar a distância entre aquilo que professamos e aquilo que vivemos.
E é justamente sobre esse abismo que a Misericórdia insiste em construir pontes.
Não para abandonarmos nossas convicções, mas para que elas sejam iluminadas pelo amor; não para deixarmos de defender a vida, mas para aprendermos a defendê-la integralmente, do início mais silencioso até o último suspiro natural.
E se a
Finitude da Vida for aMoldura Invisível que valora tudo o que vivemos?
Talvez seja justamente porque a vida acaba que cada instante carrega algum valor.
Se tivéssemos tempo infinito, talvez os abraços pudessem esperar, os encontros poderiam ser adiados, os pedidos de perdão ficariam para depois e os sonhos jamais precisariam sair do papel.
A finitude nos lembra, e muito silenciosamente, que não existe um estoque ilimitado de manhãs nem amanhãs.
É ela que transforma um café com quem amamos em memória, uma conversa despretensiosa em lembrança, um olhar em saudade.
É porque sabemos que as pessoas podem partir — e que nós também partiremos — que certas presenças se tornam tão preciosas.
Estranhamente — aquilo que nos apavora — também pode nos ensinar a viver.
A consciência de que o tempo é limitado deveria nos tornar menos econômicos com o afeto, menos orgulhosos diante do perdão, menos preocupados em vencer discussões e mais interessados em não desperdiçar encontros.
Talvez viver bem não seja tentar encontrar uma maneira de escapar da finitude, mas aprender a fazer dela uma razão para estar inteiro no que ainda existe.
Porque, no fim, não é apenas a quantidade de tempo que valoriza a vida.
É a consciência de que ele não volta.
E talvez seja por isso que algumas coisas tão simples — um abraço demorado, uma mesa compartilhada, uma risada inesperada, um “eu te amo” dito sem esperar motivo — valham tanto.
A vida não precisa ser eterna para ser imensa nem intensa.
Talvez baste que, enquanto durar, a gente tenha coragem de realmente vivê-la.
Passamos tanto tempo vivendo como se a vida fosse infinita, que morremos sem ter vivido quase nada.
Adiamo-nos.
Depois viajamos, depois amamos, depois perdoamos, depois dizemos o que sentimos, depois fazemos aquilo que realmente desejamos.
E, enquanto esperamos pelo momento certo, a vida vai acontecendo sem pedir licença — silenciosa, irreversível, indiferente aos nossos planos.
Talvez o maior engano não seja acreditar que nunca vamos morrer, mas agir como se ainda tivéssemos tempo para tudo.
Como se houvesse uma reserva infinita de amanhãs, abraços, conversas, encontros e recomeços esperando por nós.
Passamos anos acumulando coisas e adiando experiências; preocupados em garantir o futuro, esquecemos de habitar o presente.
Construímos agendas tão cheias que já não sabemos onde colocar a própria vida.
E o tempo, que parecia tão abundante, começa a revelar sua verdadeira face: ele não guarda nada.
Cada dia que passa não fica à nossa espera.
Vai embora.
Talvez viver seja, antes de tudo, compreender que não precisamos esperar algo de extraordinário para perceber o valor de um dia comum.
Há uma urgência muito discreta em estar vivo.
Urgência de olhar demoradamente para quem amamos, de dizer aquilo que sentimos, de rir sem culpa, de abandonar algumas prisões, de fazer as pazes com o que não podemos mudar.
Porque, no fim, ninguém lamenta ter vivido demais.
O que pesa é descobrir que poderia ter vivido mais — não necessariamente mais anos, mas mais presença nos anos tidos.
A morte não é apenas o fim da vida.
Às vezes, ela é também o resultado de uma vida que foi sendo adiada até que já não houvesse mais o que adiar.
Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja quanto tempo ainda temos, mas o que estamos fazendo com o tempo que já nos foi dado.
A vida pode não ser infinita.
Mas pode ser inteira.
E talvez isso seja o suficiente.
O grande Amor da nossa vida não é só quem Acelera nosso coração, mas também quem Desacelera nossa cabeça.
Porque amar não deveria ser viver em constante estado de alerta, tentando decifrar silêncios, justificar ausências ou adivinhar sentimentos.
O amor que realmente importa não é aquele que nos deixa presos à ansiedade de saber se somos suficientes, mas aquele que nos oferece a tranquilidade de simplesmente sermos nós mesmos.
Há pessoas que chegam e despertam borboletas no estômago, fazem o coração bater mais forte e transformam dias comuns em momentos inesquecíveis.
Mas existe algo ainda mais profundo: encontrar alguém diante de quem a alma consegue respirar.
Talvez o verdadeiro amor seja menos sobre a intensidade dos primeiros encontros e mais sobre a paz que permanece depois que a euforia passa.
É ter alguém que não alimenta inseguranças, que não transforma afeto em disputa, presença em prêmio ou silêncio em castigo.
É poder descansar no abraço de alguém sem precisar perguntar se amanhã esse abraço ainda estará ali.
Porque paixão pode incendiar.
Desejo pode estremecer.
Encantamento pode nos tirar o chão.
Mas, amor, quando é saudável, também sabe nos devolver ao chão — e permanecer ao nosso lado enquanto recuperamos o equilíbrio.
No fim, talvez o grande amor não seja quem nos faz sentir tudo ao mesmo tempo, mas quem nos ensina que não precisamos sentir medo para sentir amor.
É aquele alguém que acelera o coração quando chega, mas que, quando fica, faz a nossa mente finalmente encontrar silêncio.
E talvez seja essa a forma mais bonita de amar: encontrar alguém que não seja apenas motivo para o coração bater mais forte, mas também razão para a alma descansar.
O Dinheiro
não pode comprar Vida, mas pode comprar Qualidade para a Vida que restar.
É uma frase bastante incômoda, talvez porque toque justamente onde preferimos não olhar: o Tempo é o único patrimônio que, depois de gasto, não pode ser recuperado.
Dinheiro não compra mais uma manhã, não devolve um abraço que ficou para depois, não impede que os anos passem.
Não compra juventude, nem garante que estaremos aqui amanhã.
Mas pode, sim, diminuir sofrimentos, proporcionar conforto, permitir escolhas e transformar determinados momentos da existência.
Há quem passe a vida inteira acumulando recursos e se esqueça de viver.
Há também quem romantize a falta de dinheiro, como se a precariedade fosse uma virtude.
Nenhum dos extremos parece fazer sentido.
O dinheiro é uma ferramenta.
O problema começa quando ele deixa de servir à vida e passa a ser o motivo pelo qual a vida é adiada.
Porque, no fim, talvez a verdadeira riqueza não esteja simplesmente em ter muito, mas em poder usar aquilo que temos para tornar melhor o tempo que nos foi concedido.
Uma moradia mais confortável.
Um tratamento médico digno.
Uma viagem há muito sonhada.
Tempo para estar com quem amamos.
A possibilidade de dizer “não” ao que nos destrói e “sim” ao que nos faz bem.
Pequenas liberdades que, quando a vida aperta, descobrimos que também têm preço.
Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja quanto dinheiro conseguimos juntar, mas quanto da nossa vida conseguimos preservar enquanto o juntávamos.
Afinal, chegar ao fim da estrada com os bolsos cheios e o coração vazio também pode ser uma forma de pobreza.
O dinheiro não compra a vida…
Mas pode ajudar a cuidar dela — enquanto ela ainda é nossa.
Sou muito da Poesia, mas, se a vida me empurrar para a Artilharia, jamais vou me furtar.
Porque há uma diferença imensa entre escolher a delicadeza e ser incapaz de enfrentar a dureza.
Gosto das palavras que acariciam, dos silêncios que dizem muito, dos olhares que dispensam explicações e dessa estranha beleza que existe nas coisas simples.
Prefiro o diálogo ao confronto, a construção à ruína, o abraço à distância.
Mas aprendi que nem toda batalha se vence com flores, nem toda injustiça se desfaz com versos, nem toda mão estendida encontra outra disposta a acolhê-la.
Há momentos em que a vida nos convoca para além daquilo que gostaríamos de ser.
E é justamente nesses momentos que descobrimos se nossas convicções são raízes profundas ou apenas folhas ao sabor do vento.
Ser Poeta não significa ignorar a realidade; significa enxergá-la sem permitir que ela nos roube a capacidade de sentir.
E, às vezes, preservar aquilo em que acreditamos exige uma firmeza que a própria Poesia, em sua aparente fragilidade, sempre soube esconder.
Não romantizo a guerra, tampouco desprezo a paz.
Apenas compreendo que a paz, quando não encontra respeito, pode ser confundida com submissão; que a bondade, quando não conhece limites, corre o risco de se tornar permissão para o abuso; e que a serenidade, em determinadas circunstâncias, precisa caminhar de mãos dadas com a coragem.
Não quero fazer da vida um campo de batalha, mas também não aceitarei que transformem minha existência em território ocupado.
Há uma dignidade bastante silenciosa em saber até onde ceder, quando permanecer e em que momento dizer basta.
Nem toda resistência precisa de gritos, assim como nem toda força precisa de violência.
Às vezes, a maior demonstração de coragem é sustentar a própria humanidade quando tudo ao redor parece conspirar para destruí-la.
No fundo, continuo acreditando que o mundo precisa muito mais de Poetas do que de Artilheiros.
Precisa de quem semeie perguntas, cultive encontros e tenha a ousadia de imaginar futuros que ainda não existem.
Mas também precisa de pessoas que compreendam que a sensibilidade não deve ser confundida com fraqueza e que a gentileza não nos obriga a aceitar qualquer coisa.
Se me for atribuído o direito de escolher, escolherei sempre a palavra que reconcilia, o gesto que acolhe e o percurso que dispensa cadáveres pelo caminho.
Entretanto, se a vida me colocar diante de uma encruzilhada na qual a omissão custe minha dignidade, meus princípios ou a proteção daqueles que amo, não farei da minha delicadeza uma desculpa para a covardia.
Porque há uma Poesia que floresce nos jardins, mas há outra que nasce entre as ruínas, quando alguém se recusa a desistir de ser humano.
E talvez seja essa a maior contradição da existência: ter o coração educado para a beleza, sem permitir que a brutalidade do mundo nos torne incapazes de enfrentar a realidade.
Sou, antes de tudo, um homem da palavra…
Prefiro escrever pontes a erguer trincheiras, compor versos a alimentar ódios, oferecer flores a colecionar cicatrizes.
Mas não confundo amor à paz com medo do conflito, nem sensibilidade com ausência de firmeza.
A Poesia é a minha natureza desde de sempre; a coragem, minha responsabilidade.
E, se um dia a vida me convocar para a Artilharia, que eu tenha lucidez suficiente para não disparar por vaidade, consciência para não ferir por vingança e humanidade para compreender que a força só tem algum valor quando permanece subordinada à razão.
Porque não há honra em destruir apenas por poder, assim como não há virtude em se omitir apenas por parecer bom.
No fim, quero conservar as mãos capazes de escrever, o espírito disposto a compreender e o coração suficientemente inteiro para reconhecer a beleza, mesmo depois de atravessar a tempestade.
Pois, se a vida me forçar a guerrear, que não me faça esquecer por que sempre preferi a Poesia.
E que, mesmo quando o mundo exigir armaduras, eu jamais precise sepultar o Poeta que sempre existiu em mim.
Em vão tento me reencontrar antes do grande amor da minha vida;
só tem depois.
Há um homem que fui e que já não sei onde encontrá-lo.
Um sujeito que habitava o mundo sem desconfiar que, um dia, outro ser humano lhe alteraria a geografia da alma, deslocando suas certezas, reinventando seus abismos e dando novos nomes às coisas que, até então, julgava conhecer.
Procuro-o nas fotografias antigas, nos lugares onde meus passos ainda não tinham pressa, nas canções que eu ouvia sem imaginar que, um dia, algumas melodias poderiam me devolver a um tempo em que eu ainda não conhecia a saudade de alguém.
Mas tudo me escapa…
É como procurar o rio antes de ele descobrir o mar, como tentar encontrar a semente depois que a árvore já aprendeu a conversar com os ventos.
O amor, quando é grande, não apenas nos acontece: ele nos modifica.
E talvez seja essa a sua mais profunda crueldade — ou a sua mais extraordinária beleza.
Porque, depois dele, já não somos inteiramente donos daquilo que éramos.
Há em nós uma nova linguagem, uma sensibilidade que desconhecíamos, uma espécie de eternidade que passou a caber nas coisas breves.
Antes, eu julgava conhecer a solidão.
Hoje, sei que existe uma solidão anterior ao encontro e outra, inteiramente distinta, que nasce quando alguém nos ensina a dimensão da presença.
A primeira é um quarto vazio; a segunda é uma casa inteira que ainda guarda o cheiro de quem partiu, ou a memória de quem permanece, mas já não cabe nos mesmos gestos de outrora.
E o mais intrigante é que não sei se desejo, de fato, reencontrar aquele homem que fui.
Talvez eu sinta falta apenas da sua ignorância.
Da maneira como caminhava, sem saber que certas pessoas chegam para nos transformar em perguntas.
Da inocência com que acreditava que o coração era uma morada estável, quando, na verdade, era apenas uma casa à espera de alguém que lhe mudasse as paredes de lugar.
Quem ama profundamente perde, em alguma medida, a possibilidade de voltar a ser quem era.
Não porque o amor nos roube a identidade, mas porque nos revela dimensões de nós mesmos que, uma vez descobertas, já não podem ser desabitadas.
É como conhecer o oceano e tentar, depois, convencer-se de que uma poça d'água basta para explicar o mundo.
Talvez seja por isso que o passado me pareça cada vez mais distante, embora continue tão perto.
Não porque os anos tenham crescido entre mim e aquele que fui, mas porque a experiência abriu um abismo na memória.
O homem de ontem e o de hoje compartilham o mesmo nome, o mesmo corpo, talvez os mesmos olhos; contudo, entre um e outro, existe um acontecimento que não pode ser desfeito: eu amei.
E amar, quando o amor alcança as alturas, é permitir que a existência nos reescreva por dentro com uma tinta que não aceita borracha.
Às vezes, penso que amadurecer é justamente aprender a conviver com essa impossibilidade de retorno.
É compreender que certas portas não se fecham atrás de nós: elas desaparecem.
E, quando olhamos para trás, já não encontramos a entrada, mas apenas a paisagem transformada pela distância.
O que fazer, então, com essa nostalgia de alguém que ainda somos, mas que já não conseguimos ser?
Talvez seja necessário parar de procurar.
Parar de exigir que a vida nos devolva intactos aquilo que ela própria precisou transformar para nos fazer crescer.
Há uma vaidade escondida no desejo de permanecer o mesmo, como se a nossa versão anterior fosse mais legítima do que aquela que sobreviveu aos encontros, às perdas, às descobertas e às contradições.
Não era melhor, necessariamente, o homem que fui antes daquele amor.
Era apenas um homem que ainda não sabia quase nada da vida.
E há coisas que somente a experiência ensina, embora o preço dessa aprendizagem seja nunca mais podermos olhar para o mundo com os mesmos olhos.
Hoje, compreendo que a vida não é uma estrada que nos permite voltar ao ponto de partida para corrigir o percurso.
É uma travessia em que cada encontro altera a paisagem e cada despedida modifica o significado da chegada.
Por isso, já nem procuro recuperar quem fui.
Procuro compreender quem me tornei.
Talvez o verdadeiro reencontro não consista em regressar ao passado, mas em reconciliar-me com todas as versões de mim que precisaram desaparecer para que eu chegasse até aqui.
O menino que eu era merece ternura, não resgate.
O homem que sou merece compreensão, não condenação.
E aquele que ainda serei merece a liberdade de não precisar justificar-se eternamente pelas marcas que carrega.
Porque o amor não deveria ser medido apenas pelo tempo em que alguém permanece ao nosso lado, mas também pela profundidade com que transforma a nossa maneira de existir.
Há amores que se tornam presença; outros, memória.
Alguns nos oferecem um lar; outros nos ensinam que até aquilo que chamávamos de lar pode mudar de forma.
Mas todos os grandes amores, de alguma maneira, nos obrigam a rever a pessoa que acreditávamos ser.
E talvez a tragédia não esteja em não podermos voltar a ser quem éramos, mas em passarmos tanto tempo tentando regressar que nos esquecemos de viver quem somos agora.
Em vão tento me reencontrar antes do grande amor da minha vida; só tem depois.
E, se só tem depois, que eu aprenda a habitá-lo.
Que eu não transforme a saudade numa prisão, nem a memória num tribunal onde condeno o presente por não se parecer com o passado.
Que eu compreenda, enfim, que não preciso recuperar o homem que fui para honrar a história que vivi.
Porque há um tempo em que a vida nos pertence como possibilidade, e outro em que ela nos pertence como consciência.
Antes, eu tinha a inocência de quem ainda não conhecia a profundidade de certas águas.
Depois, tenho a lucidez de quem já mergulhou e sabe que nunca mais será possível confundir a superfície com o fundo.
E, no silêncio de tudo aquilo que mudou, começo a suspeitar que talvez não tenha perdido a mim mesmo.
Talvez eu apenas tenha deixado de caber na definição que, um dia, fiz de quem era.
Afinal, existem amores que não nos afastam de nós mesmos; afastam-nos apenas da ilusão de que já nos conhecíamos por inteiro.
E, se antes de você eu era uma história ainda por acontecer, depois de você me tornei também a consciência de tudo aquilo que uma história pode fazer com um homem.
Não posso voltar...
Não porque o passado esteja longe demais, mas porque já não sou aquele que poderia habitá-lo.
Resta-me seguir, levando comigo o que fui, acolhendo o que sou e aceitando que o futuro não me deve a devolução de nenhuma versão já esquecida.
Porque a vida, em sua sabedoria silenciosa, não nos concede o privilégio de sermos os mesmos depois de conhecermos o extraordinário.
Concede-nos algo talvez mais difícil: a oportunidade de continuar existindo depois de termos sido profundamente transformados.
E talvez seja esse o verdadeiro sentido de amar: descobrir que não há retorno à pessoa anterior, mas ainda há um mundo inteiro a ser vivido pela pessoa que nasceu depois.
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