Entre os “cristãos” que aceitam a... Alessandro Teodoro

Entre os “cristãos” que aceitam a interrupção da vida intrauterina e os que aceitam a interrupção da que “não deu certo” — socialmente —, paira um abismo de Misericórdia.
Talvez porque a Misericórdia verdadeira não se acomode nas trincheiras ideológicas.
Ela não escolhe vítimas conforme a conveniência moral do momento, nem distribui compaixão segundo critérios de afinidade política, econômica ou cultural.
A Misericórdia vê primeiro a pessoa, depois a circunstância; primeiro a dignidade, depois o julgamento.
Há quem se escandalize diante da interrupção de uma vida ainda escondida no ventre, mas permaneça indiferente quando uma existência já nascida é descartada pela pobreza, pela dependência química, pela doença mental, pela solidão ou pelo fracasso.
Há também quem se mobilize em defesa dos vulneráveis que caminham pelas ruas, mas relativize a vulnerabilidade absoluta daquele que sequer pode erguer a própria voz.
Em ambos os casos, o risco de transformar a defesa da vida em uma causa seletiva é iminente.
E toda seletividade aplicada à dignidade humana revela mais sobre nossas preferências do que sobre nossos princípios.
O Evangelho apresenta um caminho muito mais exigente.
Não basta defender a vida em um estágio e ignorá-la em outro.
Nem proteger o inocente antes do nascimento e abandonar o ferido depois dele.
Tampouco basta acolher o socialmente excluído e negar humanidade ao que ainda não nasceu.
A coerência da caridade cristã pede um olhar integral: a vida humana não adquire valor por ser desejada, produtiva, saudável ou socialmente bem-sucedida.
Seu valor é anterior a qualquer mérito.
A Misericórdia não elimina a verdade, mas também não permite que a verdade seja usada como instrumento de condenação.
Ela convida à defesa da vida sem arrogância, ao acolhimento sem relativismo e à justiça sem crueldade.
Talvez o maior desafio não seja identificar quem está do outro lado do abismo, mas reconhecer que todos estamos à sua beira.
Porque, quando a compaixão se torna seletiva, quando a dignidade humana passa a depender de circunstâncias ou preferências, cada um de nós contribui para alargar a distância entre aquilo que professamos e aquilo que vivemos.
E é justamente sobre esse abismo que a Misericórdia insiste em construir pontes.
Não para abandonarmos nossas convicções, mas para que elas sejam iluminadas pelo amor; não para deixarmos de defender a vida, mas para aprendermos a defendê-la integralmente, do início mais silencioso até o último suspiro natural.
