Sou muito da Poesia, mas, se a vida me... Alessandro Teodoro

Sou muito da Poesia, mas, se a vida me empurrar para a Artilharia, jamais vou me furtar.
Porque há uma diferença imensa entre escolher a delicadeza e ser incapaz de enfrentar a dureza.
Gosto das palavras que acariciam, dos silêncios que dizem muito, dos olhares que dispensam explicações e dessa estranha beleza que existe nas coisas simples.
Prefiro o diálogo ao confronto, a construção à ruína, o abraço à distância.
Mas aprendi que nem toda batalha se vence com flores, nem toda injustiça se desfaz com versos, nem toda mão estendida encontra outra disposta a acolhê-la.
Há momentos em que a vida nos convoca para além daquilo que gostaríamos de ser.
E é justamente nesses momentos que descobrimos se nossas convicções são raízes profundas ou apenas folhas ao sabor do vento.
Ser Poeta não significa ignorar a realidade; significa enxergá-la sem permitir que ela nos roube a capacidade de sentir.
E, às vezes, preservar aquilo em que acreditamos exige uma firmeza que a própria Poesia, em sua aparente fragilidade, sempre soube esconder.
Não romantizo a guerra, tampouco desprezo a paz.
Apenas compreendo que a paz, quando não encontra respeito, pode ser confundida com submissão; que a bondade, quando não conhece limites, corre o risco de se tornar permissão para o abuso; e que a serenidade, em determinadas circunstâncias, precisa caminhar de mãos dadas com a coragem.
Não quero fazer da vida um campo de batalha, mas também não aceitarei que transformem minha existência em território ocupado.
Há uma dignidade bastante silenciosa em saber até onde ceder, quando permanecer e em que momento dizer basta.
Nem toda resistência precisa de gritos, assim como nem toda força precisa de violência.
Às vezes, a maior demonstração de coragem é sustentar a própria humanidade quando tudo ao redor parece conspirar para destruí-la.
No fundo, continuo acreditando que o mundo precisa muito mais de Poetas do que de Artilheiros.
Precisa de quem semeie perguntas, cultive encontros e tenha a ousadia de imaginar futuros que ainda não existem.
Mas também precisa de pessoas que compreendam que a sensibilidade não deve ser confundida com fraqueza e que a gentileza não nos obriga a aceitar qualquer coisa.
Se me for atribuído o direito de escolher, escolherei sempre a palavra que reconcilia, o gesto que acolhe e o percurso que dispensa cadáveres pelo caminho.
Entretanto, se a vida me colocar diante de uma encruzilhada na qual a omissão custe minha dignidade, meus princípios ou a proteção daqueles que amo, não farei da minha delicadeza uma desculpa para a covardia.
Porque há uma Poesia que floresce nos jardins, mas há outra que nasce entre as ruínas, quando alguém se recusa a desistir de ser humano.
E talvez seja essa a maior contradição da existência: ter o coração educado para a beleza, sem permitir que a brutalidade do mundo nos torne incapazes de enfrentar a realidade.
Sou, antes de tudo, um homem da palavra…
Prefiro escrever pontes a erguer trincheiras, compor versos a alimentar ódios, oferecer flores a colecionar cicatrizes.
Mas não confundo amor à paz com medo do conflito, nem sensibilidade com ausência de firmeza.
A Poesia é a minha natureza desde de sempre; a coragem, minha responsabilidade.
E, se um dia a vida me convocar para a Artilharia, que eu tenha lucidez suficiente para não disparar por vaidade, consciência para não ferir por vingança e humanidade para compreender que a força só tem algum valor quando permanece subordinada à razão.
Porque não há honra em destruir apenas por poder, assim como não há virtude em se omitir apenas por parecer bom.
No fim, quero conservar as mãos capazes de escrever, o espírito disposto a compreender e o coração suficientemente inteiro para reconhecer a beleza, mesmo depois de atravessar a tempestade.
Pois, se a vida me forçar a guerrear, que não me faça esquecer por que sempre preferi a Poesia.
E que, mesmo quando o mundo exigir armaduras, eu jamais precise sepultar o Poeta que sempre existiu em mim.
