Versos do Cotidiano
A vida adulta seria mais plena se preservasse a habilidade infantil de tornar o cotidiano uma aventura. Contudo, o conhecimento, ao iluminar, dissipa a penumbra onde a magia habita.
Corrosiva são as melhoras em uma tarde hospitalar, o cotidiano de um paciente não é muito diferente de um quarto vazio. O inadecer permanece.
Há feridas na alma que desafiam a cura; elas não sangram no cotidiano, mas latejam ao menor toque da lembrança.
A fé num deus que orquestra o mal cotidiano é a maior obscenidade intelectual, uma ilusão que mascara a crueldade inerente à natureza, tornando os crentes escravos dum monstro invisível que ri do sofrimento humano enquanto finge benevolência.
O nosso cotidiano nos oportuniza muitas vivências, é sempre bom registrarmos cada uma delas como se fosse única. Pois dificilmente elas irão se repetir novamente em outra ocasião.
“O que mais mata é o cotidiano que não diz adeus: ele rouba aos poucos o que você amava e deixa só a falta, intacta e infinita.”
“O cotidiano chega manso e, sem pedir licença, vai levando pedaços de você — até perceber que já não sobra nada a tempo de gritar.”
A verdadeira missão começa no cotidiano, mas muitos preferem o glamour de um chamado distante à obediência no local onde já estão.
Aceitar o caos cotidiano é entender que a pia cheia de louça e a mente cheia de dúvidas são apenas sinais de que a vida está acontecendo, de que há movimento na casa e que a estagnação é o único inimigo real que deveríamos temer ao acordar todas as manhãs.
Diversas personalidades são necessárias, para enfrentarmos às diferentes situações do cotidiano. Um só caráter é suficiente para mostrarmos quem somos.
Não é tragédia — é escolha. Repetida no cotidiano, sem testemunhas, sem drama, apenas a lenta adesão ao próprio desvio. O homem moderno não despenca no vazio: constrói-o, camada por camada, imagem por imagem, enquanto evita o espelho que o revelaria. Incapaz de se ver, inventa culpados, projeta faltas, cria bodes expiatórios para sustentar a ilusão de que não foi ele quem, em silêncio, edificou o próprio colapso.
A verdade não se anuncia: sussurra entre as fissuras do cotidiano, onde olhos apressados jamais ousam olhar. E quem tenta agarrá-la, seguro de si, descobre que tudo o que se prende escapa, deixando apenas o eco do que nunca pôde ser dito.
Todo ato de criação carrega a alma de um poeta, aquele que lapida o cotidiano e o transforma em verso, o comum em arte. Criar nada mais é do que poetizar o mundo.
