Versos de Interesse para uma Mulher
SEM VOCÊS
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Sem vocês me sinto fim. Uma espécie de folia sem reis que pede prendas aos grãos de areia do Saara. Uma planta desprovida de folhas, folha desidratada e fila imensa de absolutamente ninguém.
Eu, sem vocês, não passo de pátria sem nação. Caminho sem solo e reta sem ponto... corpo sem ossos. Até com alma, porém sem ossos. Copo desprovido de fundo, pelo qual resvalam conteúdos desperdiçados. Sinto-me ninguém, com sem, sem com. Grito que não soa, cabeça sem mula e lenda sem região. Mitologia sem Grécia. Templo sem igreja.
É assim que sou sem vocês. Um misto imenso de nadas. Isto sem aquilo. Conto de fada sem fada. Conta sem produto... simples assim: eu sem vocês não sou eu... ou sou eu sem mim.
MEDO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
O seu olhar inocula
em minha força vencida,
uma paixão incontida;
a maluquês de quem pula
em um abismo sem fim...
você me dá medo de mim.
DE BOA FÉ
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Prefiro me fazer de bobo, a ter uma consciência maliciosamente permissiva. Dessas que me levariam a fazer o próximo de bobo.
Tenho muitos defeitos. Muitos, mesmo. Tantos, que até sufocam e anulam, não raras vezes, as poucas qualidades que me permito saber que tenho. Que ainda tenho.
Das minhas bem poucas qualidades, creio poder afirmar que sou um homem de boa fé. Ou se você preferir: de boba fé.
EXTRA-QUADRO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Há um ser de quem tudo se fez e sustenta;
uma base, a raiz, a provisão do espaço,
mas não faço menção de saber quem ou quê,
nem me deixo supor que alguém saiba por mim...
Já venci a crendice no Deus previsível
que se rende ao discurso do nosso elogio,
tem um cio implacável de gestos contritos
e de servos entregues à sua vontade...
Seja Deus, outro nome, acredito num ser
sem nenhuma legenda nos livros impostos,
nem a postos pra todos que lhe rendem cultos...
É alguém, talvez algo, muito longe ou perto;
gritará no deserto e na treva total,
qualquer um que pretenda rotular um Deus...
MEU QUINTAL
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Uma rede me aguarda no quintal;
numa sombra que a mão até apalpa;
rede não social, por ser só minha,
só aceita o calor de minha pele...
Os calangos procuram meus sinais,
a mangueira não sabe o que dizer,
nem a cobra cipó entre a folhagem
faz menção de saber aonde ando...
Vim ao bairro buscar o que não planto
no meu canto, na terra de arvoredo;
volto logo a compor essa paisagem...
Minha fauna se une à minha flora
nesta hora de ausência inesperada;
meu quintal me requer, pois mora em mim...
DEDO EXTRA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Estou passando por uma... frase difícil. Mas confio no texto de minha vida. Manterei o controle desta história, porque a caneta é minha. É um membro do meu ser... meu dedo existencial. Nada vai amputá-lo de quem sou.
VALE VIDA
Demétrio Sena, Magé – RJ.
Uma vida só vale seu tempo cumprido
entre sonhos, ações, utopias, verdades,
o cupido, as paixões, desafios aceitos
e as quedas seguidas de novos perigos...
Não há mundo que valha um só giro no espaço
se não for pra causar as vertigens de praxe,
pra borrar nossa guache, nossas aquarelas,
nos fazer insistir e pintar outros quadros...
Todo tempo se cumpre com horas feridas,
porque vidas precisam afrontar a morte
ou serão evasivas; vazias de causa...
Vale a pena viver sem certeza e promessa,
sem a peça que sempre nos falta encaixar
e assim desfazemos pra fazer de novo...
LETRA NOVA PARA UMA VELHA CANÇÃO
Demétrio Sena, Magé – RJ.
É tanto pranto
para chorar,
que é como ter
um mar em mim...
Guardo as águas
de muitas mágoas;
dor sem fim.
Em minha estrada
sem horizonte,
não acho ponte
pra outro amor...
Morro aos poucos,
na solidão
dessa dor.
Estou sem céu,
sem lua, estrelas,
meu caminhar
é infinito...
Abafo angústias
e meu silêncio
devora o grito.
Nem mais espero
a quem amar
como te amei
num tempo findo...
Já não vivo,
percebo apenas
que vou indo.
Agora eu sei,
não há no mundo
um sentimento
mais denso e fundo...
Este amor
é minha sorte;
vida e morte.
EXPRESSO 666
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Há um Cristo forjado entre seres de bem;
uma crista que aguça exaltações febris;
um além prometido pra este momento
em que todos precisam de alguma miragem...
Multidões enaltecem a lenda fugaz;
bradam raivas ungidas, fanatismo pátrio;
pregam paz e guerreiam redundantemente,
por efeito maciço de alguma hipnose...
Um rebanho tangido por gritos de ordem;
umas tristes ovelhas alegres de tontas;
todas prontas pro dia de seus holocaustos...
São regidas por ódio e por frases sagradas,
vão marcadas pra terem uns dias de glória
e depois amargaram seus anos de culpa...
APELOS MODESTOS
Demétrio Sena, Magé – RJ.
Quem tiver um amor sobrando aê,
uma sobra de afeto – qualquer um,
qualquer prisma, soslaio dum olhar,
venha ver quanto bem lhe faço em troca...
Serei grato por gestos e palavras,
por afagos discretos nos cabelos,
minha lavra de sonhos e carências
tem apelos modestos e sutis...
Eu aceito até beijo em minha testa;
faço festa por mão mais generosa
e não vou exigir além da conta...
Tenho tempo; quem sabe lhe seduzo,
mas me privo de abuso e peço aê,
sua esmola de afeto inicial...
PROMISSÓRIA DO MUNDO
Demétrio Sena, Magé – RJ.
Uma voz me convoca pra onde não sei,
cada dia mais perto baforeja n´alma;
feito lei que se cumpre com termo de busca;
faz arresto e me cobra os impostos do tempo...
É a voz da ciência do que já vivi
ou dos passos que o mundo permitiu aos pés,
do que vi desta vida e fiz dos meus caminhos
e me dei de presente para ter futuro...
Lentamente o passado processa meu ser,
porque ser o que fui com tal fome voraz
o feriu tão a fundo pela consistência...
Promissória do mundo estendida sem dó;
uma só dentre as notas desta não canção
do silêncio da voz que fala e cala em mim...
UM QUASE
Demétrio Sena, Magé - RJ.
És a minha pendência mais remota,
uma vaga na fila dos meus anos,
minha nota mais tênue de pesar
por um belo momento não vivido...
Mesmo assim és lembrança terna e grata,
porque tive paixão correspondida,
mas a vida mostrava o julgamento
pelo qual não seríamos poupados...
Há um quase que ainda me consola,
um luar que preserva sua fase
neste sonho que sabe o quanto é sonho...
A minh´alma transporta nostalgia
desse dia que as noites perpetuam
semeando saudades do futuro...
SEM PINGO NO I
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Uma vida em conserva não serve pra mim;
sempre fui a varejo; fora do pacote;
um caminho sem fim, sem atalho pra outros
não é mote pro sonho que levo comigo...
Há um mundo em redor e preciso entendê-lo,
percorrer o que os olhos alcançam daqui,
pois o gelo da espera sobre as esperanças
é um pingo no i que se perde no mar...
Ser feliz no caixote não faz o meu tipo;
quem me planta não colhe, pois o vento extrai;
sou a folha que vai, ao sabor do que vem...
Sempre volto, mas venho pelas minhas asas,
Tenho casas no espaço e são todas de ar;
um amor só me prende se me libertar...
DESPEDIDA
Demétrio Sena, Magé – RJ.
Minha ida excessiva merece uma vinda;
eu exclamo demais, pra ter só reticências;
esta voz mal consegue tocar teu silêncio
pra dizer como és linda e furtar um sorriso...
Mas não posso viver dessa esmola diária
nem bater a carteira da tua nobreza,
quando minha pobreza de fundo afetivo
não encontra mais trunfo pra ter atenção...
Meu ainda não soube despertar teu já,
pois entrego sem fim, sem jamais receber,
a não ser que provoque algum descuido em ti...
Eu te fiz majestade que já não alcanço,
porque danço em excesso e nem há melodia,
se tu és fantasia que não dá em mim...
CAMINHOS DO AMOR
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Uma troca de opostos e recusas
que se aceitam no vão das oponências,
desafiam dormências e silêncios
latejantes na sombra do querer...
O amor das impossibilidades,
dos carinhos com farpas e faíscas,
com verdades que tentam se ferir
em um ringue de abraços disfarçados...
Eis o ponto em que nossas diferenças
podem ter semelhanças decisivas,
fontes vivas de sonhos em comum...
Descaminhos se cruzam no vazio
e vazios preenchem um ao outro,
sobre o fio que logo será ponte...
REFLOR
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Um amor vem distante; já consigo ver;
uma brisa me beija e fica seu aroma;
minha soma de vidas revela o que sinto,
já no broto que mama no seio do tempo...
A minh'alma grisalha teme o verde amor,
um orvalho me cobre de sonhos dormentes,
vejo dentes-de-leite na boca do espaço
e a flor dos anseios está no botão...
Mas também me conheço e me vejo sofrer
até ver que o que tenho são muitas lembranças
e serão de saudades as outras vivências...
Quanto menos tiver pra recordar no fim
será menos em mim pra secar e ruir
ou morrer de morrer de sentir novas dores...
VERBO COISAR
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Uma coisa que dá no que não dá pra ver,
que se sente sentir quando menos se sente,
vem pra mente, passeia pelo coração,
volta e volta fugindo até da própria fuga...
Um sentido que faz pro que não faz sentido;
desnorteia e dá norte pra desnortear;
é pedido negado que o instinto atende,
esse ter e não ter que se toma emprestado...
Ora finge que finge o que de fato é fato,
o boato é concreto no abstrato em si,
no seu pingo no i que maiúsculo é sem...
Quando a gente se coisa é a coisa mais linda;
se ainda não sei do que chamar a chama,
só me chama e me atende, quando eu te chamar...
A MESMA PESSOA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Quero em cada pessoa, realmente uma;
não importa o momento que atravesse agora,
seu outrora, o futuro que faz cara incerta
ou a mágoa recente (que não provoquei)...
Venha triste ou feliz, mas a mesma pessoa
no sorrir, no chorar e dizer o que dói,
na peleja e na loa, seja enferma ou sã,
caçarei o seu eu nos desvãos de su'alma...
Prezo cada verdade como veio a mim;
não as formas diversas, as conveniências,
a má fé ou doença do próprio caráter...
Vejo em todos os seres o que se mostrou
nos instantes da faixa de apresentação
e do show na versão que se vendeu pra mim...
RESTO DE POVO
Demétrio Sena - Magé
Há um povo que foge do saber,
uma gente que busca ignorância,
quer viver de mentira e de aparência
pra sentir sua treva dominar...
Um rebanho nascido para o caos;
multidão num estouro indefinido,
no desfile dos maus; dos imbecis
que o cupido das sombras seduziu...
Tem um resto indizível de país,
muita rês infeliz que vai ao nada
e rasteja sem alma e coração...
Alegria infeliz e sem sentido;
esse povo esquecido por si mesmo
tece a teia da própria estupidez...
... ... ...
Respeite autorias. Isso é lei
DESDE QUANDO NÃO SEI
Demétrio Sena - Magé
Sempre tive uma dor que não posso explicar;
também sinto saudades de nada e ninguém;
tenho vastas lembranças do que não me lembro,
como quem se perdeu do coração e a mente...
Trago muitas tristezas que não sei por que;
lambo tantas feridas que nem vejo em mim;
há um fim sem começo, muito menos meio
em minh'alma cansada porque não se cansa...
Eu me olho no espelho sem saber quem vi,
porque nunca vivi e mesmo assim sou velho
de jamais ter nascido no vão de quem sou...
Na verdade não sou no mais fundo em meu ser,
por morrer desde quando me notei brotar
neste chão que não sinto nas plantas dos pés...
... ... ...
Respeite autorias. Isso é lei
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