Versos de Interesse para uma Mulher

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Aquele sorriso que antes era o meu porto seguro e que agora parece uma faca amolada.

Eu me sinto um museu vivo de uma história que já faliu.

Eu sou o único responsável por colorir o meu dia de novo. Ninguém vai vir com uma paleta de cores me resgatar.

O problema é limpar o corpo. Como é que se deseduca uma rotina de anos?

Hoje eu preciso de uma bebida que não tenha história, que não tenha safra e que não me lembre de nenhum brinde que a gente deixou de fazer.

A dor mudou de formato, cara. Ela não é mais aquele soco na boca do estômago... Agora ela é uma presença silenciosa, tipo um vizinho barulhento que tu acabou se acostumando a ouvir através da parede.

A gente tem uma capacidade meio assustadora de se acostumar com a falta de ar.

Tem dias que a ausência não é uma falta; é uma presença física dentro de casa.

Dá uma raiva danada perceber o quanto de energia eu gasto só pra parecer um vivente normal aos olhos dos outros.

Todo dia eu visto uma armadura que pesa mais que o meu próprio corpo.

Para quem está acompanhado, é só mais uma data no calendário; para quem ficou sozinho na calçada, é um campo minado.

A liberdade só é bonita quando é uma escolha tua; quando ela é o resultado de um abandono, ela tem muito mais cara de solidão.

Veio só aquele aperto seco no peito, tipo quem reconhece uma cicatriz antiga, aquela que já não sangra mas ainda dói quando aperta no lugar certo.

Talvez uma parte de mim quisesse só sentir o soco de propósito, pra depois poder dizer ‘pronto, já dói, já passou’

Duas contagens regressivas correndo ao mesmo tempo, uma tentando cicatrizar, outra tentando comemorar, e as duas com o mesmo nome dela no meio.

Aquele silêncio esquisito, tipo quando param de tocar uma música no meio e o ouvido continua esperando a nota que não vem.

Talvez seja assim mesmo que a coisa funciona. Não é uma porta que fecha de um dia pro outro, é mais um instante aqui, um minuto ali, se somando devagar, sem pedir licença…

O compasso hoje quase acertou o tom sozinho. Por uns minutos, ele nem lembrou que tava tocando uma música triste.

Não é uma sensação boa, mas confesso que também não é totalmente ruim. Depois de tanto tempo só sentindo falta, dói de um jeito diferente sentir raiva. Quase parece um sinal de vida.

Uma vida inteira cabendo numa telinha de cinco polegadas, aparecendo do nada, sem hora marcada, sem pedir licença.