Versos de Amor Autor Desconhecido
O raso tem essa crueldade: parece fácil, parece seguro, parece até bonito quando o sol acerta o ângulo. Mas não acolhe. Não sustenta mergulho. Quem vive de superfície se acostuma a respirar ofegante, como quem teme o próprio fôlego.
O tempo — esse animal indomável — merece ser gasto em abismos que valham o risco. Em encontros que te façam perder o chão, mas te devolvam o sentido. Em silêncios que não te afoguem, mas te ensinem a ouvir.
Não desperdice seus minutos em quem tem medo da correnteza.
Não negocie sua profundidade com quem só sabe molhar os pés.
Porque, no fim, a vida não é sobre colecionar respirações, é sobre o raro instante em que falta o ar e, ainda assim, você sente que valeu a pena.
O difícil nunca foi me reconhecer, foi sustentar. Autenticidade cobra caro. Ela retira aplausos fáceis, desmonta personagens bem avaliados, afasta quem só se aproximava enquanto eu me moldava.
Ser eu exigiu cortes precisos. Abandonei negociações afetivas, rasguei expectativas alheias, aceitei que nem todo vínculo sobrevive quando a gente para de pedir permissão para existir.
Hoje sou mais direto, menos explicável. Não tento convencer, sustento. E isso, curiosamente, é o gesto mais delicado e mais ácido que já aprendi.
Porque nada desconcerta mais o mundo do que alguém que decidiu ficar inteiro.
Se você olhar com presença para o que se repete, vai descobrir que nada se repete de verdade. O mesmo sol nunca nasce igual, e a mesma xícara, hoje, pesa diferente na mão. Há um mistério miúdo em tudo o que insiste em parecer comum.
Acontece que a pressa cega os detalhes — e o mundo, quando não é olhado, encolhe. Vira rotina, vira parede branca, vira som de relógio sem música.
Mas se você se inclina, se chega mais perto com a delicadeza de quem escuta o segredo de uma folha, verá que há universos escondidos nas frestas. Um vento que passa entre duas árvores pode ser uma dança. Uma sombra no chão pode ser um poema que ninguém escreveu ainda.
É só questão de treino — desaprender o óbvio, reaprender o espanto. Porque o essencial não grita: sussurra. E só escuta quem vive devagar o bastante para se surpreender com o que já estava ali, pedindo para ser notado.
Passamos tempo demais tentando salvar versões de nós que já cumpriram seu papel. Continuamos repetindo gestos, sustentando personagens e defendendo identidades que um dia nos protegeram, mas que hoje apenas nos apertam por dentro.
Existe um luto que quase ninguém nomeia: o de deixar de ser quem aprendemos a ser para abrir espaço para quem já estamos nos tornando.
Nem toda mudança começa quando a vida muda. Às vezes, ela começa quando finalmente paramos de insistir em caber onde a nossa verdade já não respira.
Agimos como gostaríamos de ser porque, quando há tempo para pensar, escolhemos a versão de nós que queremos apresentar ao mundo. A ação comporta cálculo, linguagem, educação, desejo de reconhecimento.
Mas a reação acontece antes da diplomacia do pensamento. Ela atravessa nossas defesas e revela aquilo que ainda não conseguimos elaborar: nossas feridas, medos, ressentimentos, necessidades e modos aprendidos de nos proteger.
Por isso, não somos necessariamente aquilo que fazemos quando estamos no controle. Há algo de nós que aparece quando o controle falha.
É justamente aí que a frase se torna incômoda: nossas reações talvez não revelem quem somos por inteiro, mas revelam quem ainda somos quando não conseguimos escolher quem ser.
E talvez seja nesse intervalo, entre o impulso que nos atravessa e a resposta que aprendemos a construir, que começa o trabalho de transformar-nos.
Não confunda paciência com submissão.
Paciência não é permanecer onde você desaparece. Não é aceitar o desrespeito em nome da esperança, nem chamar de maturidade o hábito de engolir o que machuca.
A paciência continua de mãos dadas com a dignidade. Ela sabe esperar sem se abandonar. Sabe que algumas coisas amadurecem devagar, mas também reconhece quando o tempo deixou de cultivar e começou apenas a adiar o inevitável.
A submissão é mais silenciosa. Ela costuma vestir a roupa da compreensão enquanto vai apagando a própria voz. Um dia você percebe que não está mais esperando o outro mudar. Está esperando voltar a existir dentro da própria vida.
Existe uma diferença enorme entre dar tempo a alguém e entregar o próprio tempo a uma ferida que já decidiu não cicatrizar.
A primeira é um gesto de amor. A segunda costuma ser o jeito mais lento de desaparecer.
Você só vive duas vezes: a primeira quando nasce; a segunda quando encara a morte.
Provérbio Japonês
Solidão
Todos nós somos sozinhos,
uns um pouco menos, outros um pouco mais,
mas mesmo assim, somos sozinhos.
A solidão é uma dádiva,
quando se sabe aproveitá-la,
ou pode ser um peso,
carregado por uma dúvida:
o porquê sou tão sozinho?
Essa pergunta não sei responder,
só o que falta é tentar entender.
Ser só pode doer até ver que consegue viver em um mundo onde,
só houver você .
Talvez a resposta não seja fugir,
mas aprender a existir em mim,
porque no silêncio que eu tanto temi,
encontrei partes que ainda não vi.
Isadora de Lima
Ah! Tristes olhos
Por que chora em silêncio a dor que ninguém ver?
Por que deposita tuas lágrimas no oculto do teu vazio?
Por que corre?
Por que foge?
Por que se esconde?
Por que se disfaça?
Quando escuridão cobrir teus olhos e não enxergar mais nada, porque não volta seus olhos ao criador?
Não me traga flores, porque elas secam e viram pó. Não me traga perfumes, porque o cheiro não dura muito tempo.
Não me traga poemas, porque o tempo os apaga. Não me traga músicas, porque o vento as leva. Traga-me seu coração e, com ele, seu amor, porque esse sim se eterniza.
Hipócritas
Quando você já experimentou os dois lados da moeda,
você percebe o quão hipócrita é.
Em um dia sendo oprimido, no outro, opressor.
Em um dia te olham torto, no outro, quem olha é você.
De um lado da moeda,
te deixam de lado, formam suas panelas, e o intrometido é você.
Quando senti esse sentimento tão vazio,
parecia o fim do mundo.
Só torcia para que alguém olhasse, sorrisse e puxasse algum assunto.
Pensei comigo mesmo: “Será que estou tão errada em tentar interagir?”
Mas daí nós vemos, de repente, do outro lado da moeda,
e percebemos que o que mais temi, cometi,
e vi tarde demais que excluí uma das várias pessoas
que passaram por mim.
... a suprema
missão do espírito é despertar
e potencializar conteúdos
e atitudes que, sobretudo,
o testemunhem digno
de espírito!
... imprudente
solidão é a que nos afasta
de nós mesmos...
De tudo que já somos; tudo que
lutando já conquistamos; e,
não poucas vezes, nos
esquecemos!
Quem
tolere o mal
como se toda finalidade
justificasse os meios empregados;
contribui no alastramento
de sua aura doentia,
devastadora!
É parte da cura
o firme desejo de ser curado,
diz o honrado Sêneca!
Logo, não há porque nos
afeiçoarmos a certos hábitos
e deformidades
que apartados de mínima
sensatez, tão só nos
adoecem!
Nunca esperes
por condições favoráveis
para realizar o que
desejas - na verdade, caberá
a ticriá-las, como um primeiro
passo na feitura daquilo
que ambicionas!
Saiba, caro amigo,
que 99% do que cinge
teu espírito; do que harmoniza
e estimulatuas mais caras
competências, teu senso realizador,
permanecem intocáveis,sem uso...
Logo, não te subestimes
nem desanimes diante da vida:
floresça o que te falta
e viva!
... um gesto de perdão
evidencia a virtuosa estatura
de um Ser... E, aos ora acolhidos por
misericordioso aceno, a chance de
remediar suas criadas demandas e
deslizes - ainda que, em muitos casos,
resgatados mediante o amoroso
bálsamo da contrariedade
e da dor!
