Versos de Clarice Lispector
Onde está a imaginação? Ando sobre trilhos invisíveis. Prisão, liberdade. São essas as palavras que me ocorrem. No entanto não são as verdadeiras, únicas e insubstituíveis, sinto-o. Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome.
Estava rindo, quente, quente.
Nota: Trecho do conto A menor mulher do mundo.
...MaisQuem tem piedade de nós? Somos uns abandonados? uns entregues ao desespero? Não, tem que haver um consolo possível. Juro: tem que haver.
O que sente nunca dura, o que sente sempre acaba, e pode nunca mais voltar.
Nota: Trecho da crônica Vida ao natural.
...MaisComo se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.
Nota: Trecho do conto Felicidade clandestina.
...MaisEscrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar para mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse sempre a novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias. Mas preparado estou para sair discretamente pela saída da porta dos fundos. Experimentei quase tudo, inclusive a paixão e o seu desespero. E agora só quereria ter o que eu tivesse sido e não fui.
Minha grande altivez: prefiro ser achada na rua. Do que neste fictício palácio onde não me acharão porque – porque mando dizer que não estou, “ela acabou de sair”.
E eu estava só. Sem precisar de ninguém. É difícil porque preciso repartir contigo o que sinto.
Abro bem os olhos, e não adianta: apenas vejo. Mas o segredo, este não vejo nem sinto. A eletrola está quebrada e não viver com música é trair a condição humana que é cercada de música. Aliás, música é uma abstração do pensamento.
Nota: Trecho do conto Tempestade de almas.
...MaisFiz do meu prazer e da minha dor o meu destino disfarçado. E ter apenas a própria vida é [...] um sacrifício. Como aqueles que, no convento, varrem o chão e lavam a roupa, servindo sem a glória de função maior, meu trabalho é o de viver os meus prazeres e as minhas dores. É necessário que eu tenha a modéstia de viver.
Nota: Trecho do conto O ovo e a galinha.
...MaisVivo sem explicação possível. Eu que não tenho sinônimo.
Ele precisava dela com fome para não esquecer que eram feitos da mesma carne.
Nota: Trecho do conto A mensagem.
...MaisAliás o que me irrita é que tudo tem de ser “do modo certo”, imposição muito limitadora.
Hoje estou a mesma chata de sempre.
Escrever é tantas vezes lembrar-se do que nunca existiu.
Trabalhar é a minha verdadeira moralidade
Nota: Trecho de carta para Fernando Sabino, escrita em 19 de junho de 1946.
...MaisIa me fazer muito bem abrir afinal meu coração e mostrar afinal a alguém que fechasse os olhos e não ouvisse, que horror pode se guardar numa pessoa. A solidão de que sempre precisei é ao mesmo tempo inteiramente insuportável.
Nota: Trecho de carta para Fernando Sabino, escrita em 27 de julho de 1946.
...MaisTem certas coisas que é melhor que a gente nunca tenha oportunidade de dizer, certas coisas que ficam fatais depois que se disse, e antes pelo menos era a vida de um modo geral.
Nota: Trecho de carta para Fernando Sabino, escrita em 14 de agosto de 1946.
...MaisVou tentar explicar, mas explicar não justifica.
Nota: Trecho de carta para Fernando Sabino, escrita em 21 de setembro de 1956.
...MaisTudo às vezes questão de mão recusada ou dada, tudo às vezes por causa de um passo a mais ou a menos.
Nota: Trecho de carta para Fernando Sabino, escrita em 8 de janeiro de 1957.
...Mais
