Versos de Clarice Lispector
Que simplicidade. Nunca pensei que o mundo e eu chegássemos a esse ponto de trigo.
E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria – e não o que é. É porque ainda não sou eu mesma, e então o castigo é amar um mundo que não é ele. É também porque eu me ofendo à toa. É porque talvez eu precise que me digam com brutalidade, pois sou muito teimosa.
Hoje compreendo-o. Tudo lhe perdoo, tudo perdoo aos que não sabem se prender, aos que se fazem perguntas. Aos que procuram motivos para viver, como se a vida por si mesma não se justificasse.
Disso tudo, restam nervos muito sensíveis e uma predisposição séria para ficar calada. Mas aceito tanto agora. Nem sempre pacificamente, mas a atitude é de aceitar.
Nota: Trecho de carta para Fernando Sabino, escrita em 5 de outubro de 1953.
...MaisO bom é que a verdade chega a nós como um sentido secreto das coisas.
(...) um desses frios que se tem quando se vê sem ilusões a realidade.
Nota: Trecho de carta para Fernando Sabino, escrita em 12 julho de 1956.
...MaisDesejo que você não esmoreça, porque é tão bom estar de “bom jeito”. Acho que eu devia abandonar minha “tragédia” em um ato...
Nota: Trecho de carta para Fernando Sabino, escrita em 13 de outubro de 1946.
...MaisÉ sempre assim que acontece – quando a gente se revela, os outros começam a nos desconhecer.
Farei o possível para não amar demais as pessoas, sobretudo, por causa das pessoas. Às vezes o amor que se dá pesa, quase como uma responsabilidade na pessoa que o recebe. Eu tenho essa tendência geral para exagerar, e resolvi tentar não exigir dos outros senão o mínimo. É uma forma de paz… Também é bom porque em geral se pode ajudar muito mais as pessoas quando não se está cega de amor.
Nota: Trecho de carta para Elisa Lispector, escrita em 19 outubro de 1948.
...MaisA crueza do mundo era tranquila. O assassinato era profundo. E a morte não era o que pensávamos.
Experimentamos ficar calados – mas tornávamos inquietos logo depois de nos separarmos.
Nota: Trecho do conto Uma amizade sincera.
...MaisEu acho que, quando não escrevo, estou morta.
Mas ela já o amava tanto que não sabia mais como se livrar dele, estava em desespero de amor.
Quero exigentemente que acreditem em mim. Quero que acreditem em mim até quando minto.
Era um pouco de febre, sim. Se existisse pecado, ela pecara. Toda a sua vida fora um erro, ela era fútil. Onde estava a mulher da voz? Onde estavam as mulheres apenas fêmeas? E a continuação do que ela iniciara quando criança? Era um pouco de febre.
É por isso que na graça eu me mantive sentada, quieta, silenciosa. E como em uma anunciação. Não sendo porém precedida por anjos. Mas é como se o anjo da vida viesse me anunciar o mundo.
Resignou-se pois. A resignação era doce e fresca. Nascera para ela.
É preciso não ter medo de criar.
Nota: Trecho da crônica Conversa descontraída: 1972.
...MaisFico tão assustada quando percebo que durante horas perdi minha formação humana. Não sei se terei uma outra para substituir a perdida.
