Versos de Clarice Lispector
Tulipa só é tulipa na Holanda. Uma única tulipa simplesmente não é. Precisa de campo aberto para ser.
Eu me sinto culpado quando não vos obedeço. Sou feliz na hora errada. Infeliz quando todos dançam.
Também era bom que não viesse tantas vezes quantas queria: porque ela poderia se habituar à felicidade.
O perigo de meditar é o de sem querer começar a pensar, e pensar já não é meditar, pensar guia para um objetivo.
Quero que me deem isto: não a explicação, mas a compreensão.
Nota: Trecho da crônica Ao correr da máquina.
...MaisÉ absolutamente indispensável que eu seja uma ocupada e uma distraída.
Nota: Trecho da crônica Atualidade do ovo e da galinha (II).
...MaisFaça a descoberta de si mesma – e aos poucos você descobrirá que é mais seguro e compensador valorizar-se
O ponto de partida deve ser: “Não sei.” O que é uma entrega total.
Nota: Trecho da crônica Máquina escrevendo.
...MaisOh Deus, e eu que faço concorrência a mim mesma. Me detesto. Felizmente os outros gostam de mim, é uma tranquilidade.
Eu me perfumo para intensificar o que sou. Por isso não posso usar perfumes que me contrariem. Perfumar-se é uma sabedoria instintiva. (...) É bom perfumar-se em segredo.
Nota: Trecho da crônica Os perfumes da terra.
...MaisAliás, verdadeiramente, escrever não é quase sempre pintar com palavras?
Nota: Trecho da crônica Temas que morrem.
...MaisMas um dia ainda hei de ir, sem me importar para onde o ir me levará.
Tudo me atinge – vejo demais, ouço demais, tudo exige demais de mim.
O mal é que a minha esperança ou é inexistente ou forte demais – esperança forte demais é “infantil”.
Nota: Trecho de carta a Fernanda Sabino, de 24 de janeiro de 1957.
...MaisMe detesto. Felizmente os outros gostam de mim, é uma tranquilidade.
Sua coragem é a de, não se conhecendo, no entanto prosseguir. É fatal não se conhecer, e não se conhecer exige coragem. [...] O caminho lento aumenta sua coragem secreta.
Nota: Trecho do conto As águas do mundo.
...MaisEm vez de me obter com a fuga, vejo-me desamparada, solitária, jogada num cubículo sem dimensões, onde a luz e a sombra são fantasmas quietos. No meu interior encontro o silêncio procurado. Mas dele fico tão perdida de qualquer lembrança de algum ser humano e de mim mesma, que transformo essa impressão em certeza de solidão física.
A dor parece uma ofensa à nossa integridade física.
Há alguma coisa aqui que me dá medo. Quando eu descobrir o que me assusta, saberei também o que amo aqui.
Nota: Trecho da crônica Nos primeiros começos de Brasília.
...MaisAdoro ouvir coisas que dão a medida de minha ignorância.
