Versos de Clarice Lispector
Somente uma coisa me faria bem agora. Seria adormecer com a cabeça no seu colo, você me dizendo bobagenzinhas gostosas pra eu esquecer a ruindade do mundo.
Eu também não sei não pensar. Acontece sem esforço. Só é difícil quando procuro obter essa escuridão silenciosa. Quando estou distraído, caio na sombra e no oco e no doce macio nada-de-mim.
Estou aqui de vez em quando muito delicada, me interessam principalmente flores e passarinhos.
Não me posso resumir porque não se pode somar uma cadeira e duas maçãs. Eu sou uma cadeira e duas maçãs. E não me somo.
Sua sensibilidade incomodava sem ser dolorosa, como uma unha quebrada.
Criar sim, mentir não. Criar não é imaginação, é correr o grande risco de se ter a realidade.
Por caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher, com a surpresa de nele caber como se o tivesse inventado.
O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos.
Quando de noite ele me chamar para a atração do inferno, irei. Desço como um gato pelos telhados. Ninguém sabe, ninguém vê. Só os cães ladram pressentindo o sobrenatural.
Enquanto escrever e falar vou ter que fingir que alguém está segurando a minha mão.
Pois há um tempo de rosas, outro de melões, e não comereis morangos senão na época de morangos.
Mas não há paixão sofrida em dor e amor a que não se siga uma aleluia.
Se me abandonar, ainda vivo um pouco, o tempo que um passarinho fica no ar sem bater asas, depois caio, caio e morro.
Não ter forças para lutar era o meu único perdão.
Não posso perder um minuto do tempo que faz minha vida. Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca.
E eu não aguento a resignação. Ah, como devoro com fome e prazer a revolta.
Nota: Trecho da crônica As crianças chatas.
...MaisComo é bom o instante de precisar que antecede o instante de se ter.
O verão está instalado no meu coração.
