Vai Ficar na Memoria
O amor é o emblema da eternidade: ele confunde a noção do tempo, apaga toda a memória de um começo, todo o medo de um fim.
Existe algo mais forte do que a morte; a lembrança dos ausentes na memória dos vivos.
Só existe o hoje. O passado é memória, o futuro é incerteza. Cada dia, ao despertar, temos a chance de moldar nossa jornada com escolhas conscientes e ações significativas. O presente é um presente, um momento único para viver, aprender e crescer. Ao focarmos no agora, construímos nosso caminho com intenção e propósito. Pequenos passos diários, somados, definem nossa trajetória e nos aproximam de nossos sonhos. A vida é efêmera, e é no presente que reside a verdadeira potência da transformação. Viver intensamente o hoje é a chave para um futuro brilhante e uma existência plena.
O IRREPETÍVEL
Há acontecimentos na vida que não admitem reedição.
Por mais que a memória tente rearrumar as peças, por mais que o coração procure réplicas, por mais que o desejo se vista de esperança, certos encontros pertencem a um único instante do universo, e jamais regressam com a mesma força.
Não porque falte coragem.
Não porque falte amor.
Mas porque o caos — esse dramaturgo secreto — escreveu um enredo que não se repete.
Há amores que não voltam porque não nasceram para durar: nasceram para revelar.
Há paixões que nos atravessam como relâmpagos — belas, breves, devastadoras — e deixam em nós uma claridade que nenhuma rotina suporta.
E, ainda assim, tentamos.
Tentamos reescrever a história.
Tentamos transplantar a emoção de um corpo para outro, como quem tenta acender uma fogueira com cinzas frias.
Tentamos encaixar um novo rosto no formato exato do antigo.
Tentamos repetir o gesto, o riso, o perfume, o tremor, como quem repete feitiços que perderam o encanto.
Mas o coração não aceita imitadores.
O que nos marcou não foi apenas a pessoa — foi o instante.
A circunstância.
O invisível.
Aquela interseção secreta entre tempo e alma, onde algo se abriu dentro de nós e nunca mais fechou no mesmo lugar.
É inútil reinventar o que foi único.
O universo emocional não admite plágio.
Há feridas que só aquele corpo sabia curar.
Há abismos que só aquela voz sabia atravessar.
Há silêncios que só com aquele olhar faziam sentido.
Há vertigens que só aquele toque despertava.
Transferir esse sentimento para outro contexto é como tentar mover uma constelação inteira para outro céu.
Nenhum encaixe funciona.
A geometria do amor é exata demais para ser manipulada.
Talvez seja essa a beleza brutal da experiência humana:
nem tudo é reaproveitável.
Nem todo amor é reciclável.
Nem toda paixão sobrevive à tentativa de repetição.
O que vivemos uma vez, vivemos uma vez apenas.
E é justamente essa precariedade que faz do instante um milagre.
Não caberá em outro corpo.
Não caberá em outra história.
Não caberá em outra tentativa.
O máximo que podemos fazer é honrar a verdade do que sentimos — e seguir.
Não como quem busca substituições, mas como quem reconhece que há acontecimentos que são portas: abrem-se uma vez e nunca mais se repetem no mesmo lugar.
E talvez seja assim que o caos nos ensina:
não para que reconstruamos o que acabou,
mas para que aceitemos que o irrepetível também é uma forma de eternidade.
''Pois a memória é o estômago da mente...
Para ali vão as comidas mais variadas: umas saborosas e de digestão fácil, outras amargas e impossíveis de serem digeridas.''
"A coerência é a paz de quem não precisa de memória para sustentar uma mentira, nem de espelhos para validar sua beleza."
Se memória fraca é parte da felicidade, o que acontece se esquecermos quem somos e perdermos a personalidade? O passado ajuda a sermos melhores, não cometendo os mesmos erros.
A Mulher Que Ficou Apenas na Memória
No primeiro dia de novembro,
o tempo escreveu o teu nome
na página mais bonita da minha vida.
E eu, sem saber,
entreguei-te o coração
como quem entrega uma casa
a alguém que promete nunca partir.
Em março,
vestimos o amor de eternidade.
Diante do mundo jurámos permanecer,
ignorando que até as promessas
podem sangrar em silêncio.
Vivemos instantes
que hoje parecem pertencer
a outra existência.
Havia poesia no teu olhar,
calma nas tuas mãos,
abrigo no teu abraço
e esperança no sabor do teu beijo.
Tu caminhavas com a elegância
de quem fazia da ternura
a sua mais bela linguagem.
Então a vida,
cruel sem pedir licença,
arrancou-nos um filho
antes que ele pudesse conhecer
o calor dos nossos braços.
Naquele dia,
não morreu apenas um sonho.
Morreu um pedaço de nós.
Depois desse vazio,
vieram os silêncios.
Quem me chamava “amor”
passou a pronunciar apenas o meu nome,
como se cada letra apagasse
a história que juntos escrevemos.
O eterno começou a desfazer-se
sem ruído.
Como um castelo de areia
que o mar leva,
grão por grão,
até nada restar.
Tentámos regressar.
Houve pontes reconstruídas,
palavras ensaiadas,
esperanças teimosas.
Mas nunca faltou amor.
Faltou coragem.
A coragem de reconhecer,
de pedir perdão,
de olhar para as próprias sombras
sem fugir delas.
Hoje encontro diante de mim
uma mulher que tem o teu rosto,
a tua voz
e o teu nome…
Mas já não tem a alma
por quem um dia me apaixonei.
Onde havia princípios,
ergueram-se muralhas.
Onde existia admiração,
cresceu a indiferença.
Onde florescia a verdade,
restou apenas o eco
das promessas que o vento levou.
E então compreendi
a mais amarga das verdades:
às vezes,
a pessoa que perdemos
não parte.
Ela transforma-se
numa estranha
enquanto ainda respira.
Não sei se mudaste.
Ou se apenas deixaste cair
a máscara que o amor,
cego e generoso,
nunca me permitiu ver.
Hoje não choro
porque a nossa história terminou.
Choro porque continuo à procura
da mulher
que conheci naquele novembro.
Da mulher
que me olhava como destino.
Da mulher
que me abraçava como lar.
Da mulher
que um dia prometeu eternidade…
e que agora vive apenas
no lugar onde ninguém consegue morrer:
a memória
de um coração
que amou
até ao último pedaço de si.
Hassamo Abdurrahimo
A beleza, para mim, tem textura de memória antiga. Não brilha como notícia, mas como utensílio bem usado. Os objetos bem amados enchem a casa de sentido. E a simplicidade neles é dignidade. Viver é rodear-se de coisas que contam nossa história.
Casa de taipa.
Feita de barro, mãos e memória.
Erguida entre o vento e a esperança, sustentada mais por coragem do que por paredes.
Nela, cada rachadura conta uma história, cada canto guarda um silêncio antigo, cada porta conhece quem chegou cansado e quem partiu sonhando.
Casa simples aos olhos de muitos, mas imensa para quem entende que riqueza também mora no afeto.
Porque há lares de concreto que nunca aquecem…
e casas de taipa que abraçam como colo de mãe.
" O que é apenas visto passa. O que é verdadeiramente amado permanece na memória afetiva, no silêncio das horas, na delicada permanência do sentir. "
Dentre as doenças do ser humano, uma das que mais me assustam é a da falta de memória de gratidão, ao longo da vida de uma pessoa,você faz mil ações boas para ela, mas se depois de tantas boas, você fizer uma que for ruim, será marcado e julgado pela exceção...
DEMÊNCIA
Eu vou te beijar, quando você ficar triste...
E quando você ficar alegre, eu vou chorar...
E quando chegar a noite nostálgica e solitária
eu vou me esconder...
Entenda esta demência quando eu não sorrir...
Entenda esta ternura quando eu te agredir...
Quando eu chegar com algumas flores
Eu vou te possuir...
Posso te falar de tudo, menos o que você quer ouvir...
Posso ir a qualquer lugar, menos onde você quer ir,
Posso beijar a naja e caçar javali
Poderemos se esconder em Parati...
Pra te agradar, quando tiver vontade de chorar,
eu vou sorrir,
Vou morrer quando você quiser partir,
Vou odiar quando sentir vontade de te possuir...
Assim vou descobrir a realidade
Amar-te não depende da minha vontade
Era noite e o mundo pesava
nas costas de quem tenta ouvir
corações doentes.
Desfiando palavras gentis,
busquei nos recados secos
algum sinal de quem amou.
Mas, em vez da voz que acolhia,
vieram silêncios e madrugadas mudas,
palavras de quem já não lembra
o amor que curava o meu cansaço.
Penso se o tempo soubesse parar,
se eu tivesse escolhido o silêncio
no momento da dor,
teria guardado pra sempre
aquele “Oi amor” que, só de chegar,
fazia tudo leve,
em um mundo onde peso era somente saudade.
Meu erro foi querer entender,
quando a resposta já era ausência.
Agora, tudo o que restou
foi a vontade
de ter ido mais cedo
para morar no abrigo breve
de uma última memória feliz.
Soneto de Nenhuma Dor
Nenhuma dor dói mais que dor nenhuma,
Nenhuma palavra pode até ser um soneto,
Nenhum sorriso não quer dizer tristeza,
Nenhuma verdade torna o silêncio obsoleto.
Nenhuma dor me traz a solidão,
Nenhuma ausência me faz sentir sozinho,
Tanta paixão me deu nenhum amor,
A solitude amplia meu caminho.
Nenhum ocaso me faz pensar que é tarde,
Nenhuma verdade me faz refém do medo,
Nenhum perdão me ameniza a mágoa.
Nenhuma lembrança é a dor que ainda arde,
Nenhuma saudade tem o gosto azedo,
Nenhuma agrura me arranha a alma.
