Use o Silencio quando Ouvir
“Quando as ideias começam a pensar por você”
Vivemos um tempo estranho. Aceitamos o inaceitável, toleramos o intolerável, acreditamos no inacreditável e ainda chamamos isso de pensar.
Mas pensar não basta. Há quem pense apenas para confirmar aquilo em que já decidiu acreditar.
A mente mente. E uma de suas mentiras mais úteis é nos convencer de que todo pensamento que ocorre dentro de nós nasceu em nós. Não nasceu. Somos atravessados por ideias, repetições, pressões, pertencimentos.
Uma mentira não precisa tornar-se verdade para vencer. Basta tornar-se comum. Repita o absurdo até que ele deixe de espantar. Depois, chame de exagero quem ainda se espanta.
Talvez por isso o senso comum comumente mente. Não porque o comum seja sempre falso, mas porque ser comum jamais foi critério de verdade.
A guerra é puraMENTE mental, porque o território não é o que pensamos, mas os critérios que deixamos de examinar.
Não se trata apenas de influenciar o que pensamos, mas de pré-definir as perguntas. Não é preciso proibir o pensamento quando se consegue domesticar os critérios.
Por isso, discernimento não é pensar mais. É pensar sobre quem pensa quando pensamos.
A pergunta talvez não seja:
“No que você acredita?”, mas “Quanto daquilo que você acredita sobreviveria se você investigasse por que acredita?”
Porque quem não discerne o que entra na própria mente pode passar a vida inteira acreditando que está defendendo suas ideias, quando são as ideias que estão usando sua mente para se defender.
Carlos Eduardo Balcarse
Psicanalista, Escritor, Educador, Pesquisador.
“Quando o absurdo deixa de causar espanto, o discernimento já está em perigo.”
Vivemos uma triste realidade que beira a irrealidade.
Nunca tivemos tanta informação disponível e, talvez, nunca tenha sido tão fácil fantasiar desinformação de conhecimento, opinião de ciência, crença de evidência e absurdo de verdade.
Basta acrescentar uma palavra difícil, uma explicação incompreensível, um pouco de “ciência”, alguma “física quântica”, uma promessa extraordinária e uma boa dose de convicção. Pronto, o inacreditável ganha aparência de credibilidade.
Só que o problema mais grave talvez não seja existirem pessoas dispostas a vender fórmulas mágicas. É existirem mentes suficientemente desarmadas para comprá-las.
A mente mente. E mente ainda melhor quando encontra argumentos sofisticados para acreditar naquilo que deseja acreditar.
Por isso, informação não é conhecimento. Conhecimento não é verdade. Convicção não é evidência. E inteligência, sem discernimento, também pode ser extraordinariamente eficiente na construção do próprio engano.
O senso comum comumente mente. Mas o discurso incomum também pode mentir, às vezes apenas com palavras mais difíceis.
É justamente aí que precisamos recuperar o espanto. Não o espanto de quem acredita em qualquer coisa extraordinária, mas o espanto de quem ainda consegue olhar para o absurdo e perguntar, como chegamos ao ponto de isso parecer razoável?
Porque uma sociedade que perde a capacidade de se espantar com o absurdo, pouco a pouco começa a normalizá-lo. Aceita o inaceitável, tolera o intolerável, acredita no inacreditável, justifica o injustificável e termina defendendo o indefensável.
Talvez por isso, desenvolver o discernimento tenha se tornado uma urgência educacional.
Precisamos de pensamento crítico, mas também de alfabetização do discernimento, de uma pedagogia do discernimento capaz de ensinar não apenas adquirir conhecimento, mas examinar a autoridade que concedemos às informações, crenças, emoções, narrativas e até certezas.
A guerra contemporânea é puraMENTE mental.
E, nessa guerra, talvez a derrota mais perigosa aconteça quando alguém coloca uma ideia dentro de nós e ainda nos convence de que fomos nós que a pensamos.
Pensar é necessário. Discernir é descobrir se aquilo que pensamos merece continuar sendo pensado.
Carlos Eduardo Balcarse
Psicanalista, Educador, Escritor e Pesquisador
“A educação deseducadora: quando aprender não ensina a pensar”
Há uma educação que educa e há uma educação que, embora ensine, deseduca. Chamo de educação deseducadora aquela que acumula respostas sem ensinar a formular perguntas, que transmite conteúdos sem desenvolver critérios, que premia a repetição e chama isso de aprendizagem. É uma educação que pode formar pessoas informadas e, paradoxalmente, intelectualmente dependentes.
Durante muito tempo repetimos: leia mais. Mas talvez precisemos acrescentar: leia melhor. Porque quantidade de leitura não é sinônimo de qualidade de compreensão. É possível ler muito e compreender pouco; acumular autores e não construir autoria; saber citar e não saber perguntar.
O mesmo vale para o pensamento. Talvez não precisemos simplesmente pensar mais. Precisamos pensar melhor. Pensar melhor não é pensar como alguém manda. É aprender a examinar o que pensamos antes de conceder ao pensamento o estatuto de verdade.
Nunca tivemos tanta informação disponível e, ainda assim, talvez nunca tenha sido tão fácil confundir informação com conhecimento, opinião com verdade, convicção com evidência e repetição com compreensão. Nesse cenário, o discernimento deixa de ser um luxo e se torna uma necessidade. uma necessidade.
É nesse ponto que a Pedagogia do Discernimento se coloca, não como acréscimo de conteúdo, mas como uma mudança de ênfase: menos acumular, mais examinar; menos repetir, mais compreender; menos receber pronto, mais perguntar. Porque o problema não está apenas no que entra na nossa mente, mas no que encontra permissão para permanecer nela.
José Saramago falou sobre sair da ilha para ver a ilha. Eu acrescentaria: não basta sair da ilha para vê-la, é preciso sair da ilha e tirar a ilha de dentro de nós. Porque podemos mudar o lugar de onde olhamos sem mudar o olhar.
Carregamos conosco lembranças, afetos, medos, feridas, certezas, interpretações. E muitas vezes acreditamos estar observando o mundo quando, na verdade, estamos apenas reencontrando o que já estava dentro de nós. Não vemos apenas o que vemos. Vemos também com aquilo que somos.
Por isso, afastar-se não basta. É preciso perceber o que levamos conosco quando nos afastamos.
É nesse ponto que Metadiscern e o conceito de metadiscernimento se situam: não basta discernir o objeto observado; é preciso discernir também os critérios com os quais observamos. Não basta olhar para o objeto, é necessário perceber o observador observando o objeto.
Daí a necessidade de uma alfabetização do discernimento capaz de alcançar não só a leitura de palavras, mas a leitura das influências, das convicções e das autoridades que aceitamos quase sem perceber.
A mente produz, mas produzir não é provar. Pensar algo não torna esse algo verdadeiro. A mente produz. O discernimento depura.
Essa compreensão atravessa também o Método Protagonista. Ser protagonista da própria história não significa controlar tudo nem eliminar influências, mas reconhecer quais forças nos movem e escolher, com responsabilidade, quais merecem peso nas nossas decisões. Não existe protagonismo sem discernimento.
A educação deseducadora não falha apenas por falta de conteúdo, mas por ausência de critérios. E pode oferecer ao sujeito uma infinidade de janelas para enxergar o mundo, sem jamais lhe entregar um espelho.
Leia mais, sim, mas leia melhor. Pense mais, se for o caso, mas, sobretudo, pense melhor. E quando acreditar que aprendeu a enxergar, desconfie novamente dos seus olhos.
“A educação não tem segredo. O segredo está na educação.”
Carlos Eduardo Balcarse
Psicanalista, Educador, Escritor e Pesquisador.
“Quando o interesse pensa por nós”
Gostamos de acreditar que primeiro pensamos e só depois escolhemos. Mas talvez, em muitos momentos, façamos o caminho inverso. Primeiro, algo em nós escolhe, e só depois o pensamento trabalha para justificar a escolha.
Interesse não é apenas dinheiro ou vantagem material. Pode ser o interesse em pertencer, em ser aceito, em manter uma identidade, em não decepcionar um grupo, em não admitir um erro.
Talvez os interesses mais poderosos sejam, justamente, aqueles que não reconhecemos como interesses.
Não se trata apenas de más intenções ou falta de caráter, mas de perceber o quanto o pensamento pode ser convocado para defender conclusões que nunca foram realmente examinadas.
Conhecimento, sozinho, não resolve isso. Uma pessoa pode ter muito repertório e ainda assim usá-lo para proteger conclusões que jamais permitiu serem questionadas.
Talvez por isso o diálogo esteja tão difícil. Não apenas porque faltam ouvidos, mas porque ouvir de verdade ameaça interesses que nem sempre estamos dispostos a perder.
Talvez a pergunta mais difícil não seja “o que eu penso?”, mas “o que, em mim, precisa que eu pense assim?”
Há interesses que não compram nossas opiniões. Eles apenas nos convencem de que elas são nossas.
Carlos Eduardo Balcarce
Psicanalista, Educador, Escritor e Pesquisador
Distrações causam distorções. Distorções facilitam manipulações. E, quando entregamos nossa atenção sem discernimento, ao nos distrairmos, nós nos traímos.
Carlos Eduardo Balcarse
Pensar não termina quando produzimos uma conclusão. O METADISCERN começa justamente quando examinamos por que essa conclusão recebeu autoridade suficiente para permanecer em nós.
Carlos Eduardo Balcarse
Desaprender começa quando deixamos de perguntar apenas “o que aprendi?” e passamos a perguntar “quanto peso isso ainda merece ter sobre o que penso e decido?”. Discernir também é recalibrar o aprendido.
Carlos Eduardo Balcarse
QUANDO AS IDEIAS COMEÇAM A PENSAR POR VOCÊ
O maior perigo de uma ideia não é estar errada.
É tornar-se tão familiar que deixamos de examiná-la.
Pensamentos repetidos criam intimidade. A intimidade produz confiança. A confiança concede autoridade. E aquilo que recebe autoridade suficiente já não precisa nos convencer todos os dias.
Passa simplesmente a pensar por nós.
É nesse ponto que o pensamento pode deixar de ser instrumento e tornar-se comando.
Nem tudo o que está dentro de você veio de você. E nem tudo o que veio de você precisa continuar autorizado por você.
Essa é uma das razões pelas quais pensar não basta.
O METADISCERN começa onde o pensamento deixa de ser apenas conteúdo e passa a ser também objeto de investigação.
Não basta perguntar: “O que estou pensando?”
É necessário perguntar: “Por que isso que estou pensando recebeu tanto poder sobre aquilo que decido?”
Essa mudança parece pequena.
Não é.
Ela desloca o discernimento da escolha entre ideias para a investigação da autoridade que concedemos às ideias.
A mente produz. A consciência percebe. O discernimento examina. A autoria decide.
É aqui que a calibração discernitiva se torna necessária.
Uma influência não precisa ser eliminada para deixar de governar.
Uma crença não precisa ser esquecida para perder autoridade.
Uma emoção não precisa desaparecer para deixar de comandar.
Um aprendizado não precisa ser apagado para ser desautorizado.
Autonomia não é ausência de influência.
Autonomia é impedir que influência se transforme automaticamente em autoridade.
A Pedagogia do Discernimento nasce dessa necessidade.
A Alfabetização do Discernimento Consciente transforma essa necessidade em problema educacional.
O Método PROTAGONISTA a encontra no território da autoria.
E o METADISCERN a conduz para dentro do próprio pensamento.
No fundo, todos chegam à mesma fronteira:
Quem está atribuindo peso àquilo que pesa sobre você?
Talvez liberdade intelectual não seja pensar qualquer coisa.
Talvez seja conseguir examinar por que determinadas coisas adquiriram o direito de continuar pensando dentro de nós.
Porque existe uma diferença enorme entre possuir uma ideia e ser possuído por ela.
Quando as ideias começam a pensar por você, o problema já não está apenas no pensamento. Está na autoria.
Carlos Eduardo Balcarse
Psicanalista, Educador, Autor e Pesquisador
Aprender acrescenta conhecimento. Desaprender recalibra sua autoridade. Também aprendemos quando descobrimos que aquilo que sabemos já não merece pesar como pesava.
Carlos Eduardo Balcarse
O QUE FAZER QUANDO DUAS FONTES CONFIÁVEIS DISCORDAM?
É relativamente fácil desconfiar de uma fonte evidentemente ruim.
O problema realmente interessante começa quando duas fontes aparentemente boas chegam a conclusões diferentes.
Dois especialistas. Dois estudos. Duas instituições. Dois profissionais experientes.
Se ambos possuem credenciais, experiência e argumentos, em quem confiar?
Talvez a pergunta esteja mal formulada.
Não precisamos começar escolhendo uma pessoa. Podemos começar examinando o que exatamente está em desacordo.
As fontes estão respondendo à mesma pergunta? Usaram os mesmos critérios? Analisaram populações semelhantes? Trabalharam com evidências equivalentes? Estão expressando fatos, interpretações ou recomendações? Qual é o grau de incerteza?
Essas perguntas transformam confiança em investigação.
Reconhecer autoridade epistêmica não significa transferir integralmente o julgamento para uma autoridade.
Significa reconhecer que determinadas pessoas ou instituições possuem razões para receber maior peso em campos específicos.
Peso maior não significa peso infinito.
Autonomia intelectual não é independência absoluta.
Dependemos do conhecimento dos outros todos os dias. A questão é aprender a depender sem desaparecer intelectualmente dentro dessa dependência.
Quando duas autoridades discordam, talvez nossa primeira tarefa não seja escolher rapidamente uma delas.
Talvez seja descobrir onde a discordância realmente está.
Porque duas respostas diferentes nem sempre significam que uma delas é falsa. Às vezes significam apenas que fizemos uma pergunta simples demais para um problema complexo.
Carlos Eduardo Balcarse
Psicanalista, Educador, Escritor e Pesquisador
COMO SABER QUANDO ESTAMOS DANDO IMPORTÂNCIA DEMAIS A UMA INFORMAÇÃO?
Existem informações que não são falsas.
O erro está no tamanho que damos a elas.
Uma experiência negativa pode se tornar a medida de todas as experiências futuras. Um comentário pode apagar cem avaliações positivas. Um caso extraordinário pode parecer representar uma regra.
Em todos esses casos, o problema pode não estar no conteúdo. Pode estar no peso.
Pensamos frequentemente como se julgar fosse apenas reunir informações.
Mas julgamentos também dependem de ponderação.
Duas pessoas podem conhecer exatamente os mesmos fatos e chegar a conclusões diferentes porque atribuem pesos diferentes a cada um deles.
Isso significa que discernir não consiste apenas em procurar novas informações.
Às vezes precisamos recalibrar aquelas que já possuímos.
Perguntar “Estou considerando isto?” é diferente de perguntar “Quanto isto está influenciando minha conclusão?”
A segunda pergunta revela algo que a primeira não alcança.
Uma informação pode merecer consideração sem merecer comando.
Essa diferença está no centro da calibração discernitiva.
O desafio não é eliminar influências.
É impedir que alguma influência receba mais autoridade do que sua função justifica.
O problema nem sempre é acreditar na coisa errada.
Às vezes é acreditar demais na coisa certa.
Carlos Eduardo Balcarse
Psicanalista, Educador, Escritor e Pesquisador
COMO CONTINUAR AUTÔNOMO QUANDO DEPENDEMOS DO CONHECIMENTO DOS OUTROS?
Nenhum ser humano moderno consegue verificar pessoalmente tudo aquilo em que precisa confiar.
Não fabricamos nossos próprios medicamentos. Não reproduzimos todos os experimentos científicos. Não examinamos toda infraestrutura que utilizamos. Não dominamos todas as áreas necessárias para tomar decisões.
Dependemos.
Isso significa que a autonomia absoluta é uma fantasia.
Mas dependência não precisa significar submissão.
Existe uma diferença entre reconhecer a competência de outra pessoa e entregar a ela a autoria da própria decisão.
Podemos dizer: “Essa pessoa sabe mais do que eu sobre isso.” Sem concluir: “Portanto, tudo o que ela disser sobre isso deve ser aceito sem exame.”
Autoridade epistêmica é contextual.
Alguém pode possuir enorme competência em determinado campo e nenhuma competência especial em outro.
Discernir não significa desconfiar compulsivamente dos especialistas.
Significa justamente saber quando confiar mais, quando procurar confirmação e quando reconhecer os limites da própria capacidade de avaliação.
Autonomia madura não diz: “Não preciso de ninguém.”
Diz: “Preciso saber de quem dependo, para quê dependo e até onde essa dependência deve alcançar.”
A independência intelectual não está em eliminar relações de confiança.
Está em impedir que confiança se transforme em abdicação.
Ser autor do próprio pensamento não significa escrever sozinho. Significa continuar responsável pelo texto mesmo depois de ouvir muitos autores.
Carlos Eduardo Balcarse
Psicanalista, Educador, Escritor e Pesquisador
O QUE ACONTECE QUANDO UMA RESPOSTA PARECE CERTA, MAS NÃO SABEMOS VERIFICÁ-LA?
Uma resposta pode estar correta e ainda representar um problema.
Parece paradoxal.
Mas imagine receber uma solução tecnicamente perfeita para uma questão que você não possui capacidade de verificar.
Você tem uma resposta.
Mas não possui critério independente suficiente para saber se ela merece confiança.
Esse problema tornou-se central com sistemas capazes de produzir textos sofisticados em segundos.
A aparência de competência pode superar nossa capacidade de avaliação.
Nesse momento, passamos a depender não apenas da ferramenta para produzir a resposta, mas também da confiança que depositamos nela.
Existe diferença entre usar uma ferramenta cuja operação conseguimos conferir e usar uma ferramenta cujo resultado excede nossa capacidade de verificação.
Quanto maior essa distância, maior a importância do discernimento.
Podemos procurar fontes externas. Comparar respostas. Verificar referências. Consultar especialistas. Testar consequências. Reconhecer explicitamente que não sabemos.
O que não deveríamos fazer é transformar ausência de capacidade de verificação em certeza.
Não saber que uma resposta está errada não significa saber que ela está certa.
Essa frase parece óbvia.
Na prática, esquecemos dela com extraordinária facilidade.
Carlos Eduardo Balcarse
Psicanalista, Educador, Escritor e Pesquisador
QUANDO CONFIAR NA PRÓPRIA EXPERIÊNCIA PODE NOS ENGANAR?
“Eu vi.” “Eu vivi.” “Aconteceu comigo.”
Essas afirmações possuem enorme força.
E deveriam possuir.
A experiência pessoal é uma fonte legítima de conhecimento sobre aquilo que experimentamos.
O problema surge quando ampliamos silenciosamente seu alcance.
Uma experiência individual pode dizer muito sobre um caso e muito pouco sobre uma população.
Pode revelar uma possibilidade sem revelar sua frequência. Pode demonstrar que algo aconteceu sem demonstrar por que aconteceu.
Nossa experiência tem uma vantagem poderosa sobre estatísticas abstratas: ela aconteceu conosco.
Por isso possui presença emocional, detalhes e memória.
Mas justamente essa proximidade pode fazer com que lhe atribuamos mais peso do que sua capacidade explicativa permite.
Discernir não significa desprezar experiência pessoal.
Significa situá-la.
Perguntar o que ela demonstra.
E, igualmente importante, o que ela não demonstra.
Uma experiência pode ser verdadeira e nossa interpretação sobre sua causa estar errada.
Esse talvez seja um dos pontos mais difíceis do pensamento humano.
Porque questionar nossa interpretação pode parecer questionar aquilo que vivemos.
Não é.
Respeitar uma experiência não exige transformar sua interpretação em lei universal.
Carlos Eduardo Balcarse
Psicanalista, Educador, Escritor e Pesquisador
QUANDO APRENDER EXIGE DESAPRENDER?
Aprender costuma ser imaginado como acrescentar.
Mais informações. Mais conceitos. Mais experiências. Mais repertório.
Mas existem momentos em que o crescimento intelectual depende de uma operação aparentemente contrária.
Retirar.
Uma explicação antiga pode ter sido útil e deixar de ser suficiente.
Um hábito mental pode ter funcionado em determinado contexto e tornar-se inadequado em outro.
Uma crença pode ter sido construída com as melhores informações disponíveis e precisar ser revisada diante de novas evidências.
Nesse sentido, desaprender não é esquecer.
É reavaliar a autoridade daquilo que já aprendemos.
Isso é muito diferente de apagar o passado.
Conhecimentos anteriores continuam participando da nossa história.
A questão é se continuarão governando nossas decisões.
Por isso, aprender a desaprender também é aprender.
Talvez seja uma das formas mais difíceis de aprendizagem.
Adicionar conhecimento novo pode ser prazeroso.
Retirar autoridade de uma certeza antiga pode atingir identidade, pertencimento e segurança.
O discernimento aparece justamente nesse intervalo.
Não devemos abandonar o antigo porque é antigo.
Nem preservar o antigo apenas porque nos trouxe até aqui.
Precisamos perguntar se aquilo que aprendemos continua merecendo o peso que recebe.
Aprender acrescenta possibilidades. Desaprender retira obrigações. Discernir decide o que permanece.
Carlos Eduardo Balcarse
Psicanalista, Educador, Escritor e Pesquisador
QUANDO A CERTEZA DEVERIA NOS DEIXAR DESCONFIADOS?
Certeza é confortável.
Ela encerra perguntas. Organiza decisões. Reduz ansiedade. Permite agir.
Não há nada de errado em possuir convicções.
O problema começa quando a sensação de certeza passa a ser utilizada como evidência da própria certeza.
“Tenho certeza” descreve um estado psicológico.
Não demonstra, sozinho, a qualidade das razões que produziram esse estado.
Podemos estar absolutamente certos e absolutamente errados.
Isso significa que quanto mais importante for uma decisão, menos deveríamos depender exclusivamente da intensidade subjetiva da convicção.
Talvez algumas certezas mereçam uma pergunta adicional: por que estou tão certo disso?
Tenho evidências fortes? Consultei fontes independentes? Considerei explicações alternativas? Estou confundindo familiaridade com verdade? Minha identidade depende dessa conclusão? Alguma evidência poderia me fazer mudar de posição?
Essas perguntas não destroem convicção.
Elas a testam.
E uma convicção que não suporta perguntas talvez não seja tão forte quanto parece.
A dúvida não é inimiga da certeza.
Às vezes é o teste que separa convicção de cegueira.
Carlos Eduardo Balcarse
Psicanalista, Educador, Escritor e Pesquisador
QUANDO A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL COMEÇA A PENSAR POR NÓS
A inteligência artificial não precisa dominar o ser humano para diminuir sua autonomia. Basta que o ser humano deixe de dominar aquilo que delega a ela.
A grande questão do nosso tempo talvez não seja se as máquinas conseguirão pensar como nós, mas se continuaremos pensando quando elas puderem pensar por nós.
Pensar com uma máquina não é o mesmo que entregar à máquina aquilo que deveríamos continuar pensando.
A tecnologia pode ampliar a inteligência sem ampliar a consciência. Pode acelerar a resposta sem acelerar a compreensão. Pode entregar conhecimento sem entregar discernimento.
E aqui mora o periGO: aquilo que nos ajuda a PENSAR também pode, silenciosamente, começar a PENSAR por nós.
Quanto mais pronta a resposta, maior deveria ser nossa disposição para perguntar.
Porque uma resposta pode estar pronta sem estar certa.
Pode estar CERta e ainda nos tornar inCERTos sobre aquilo que realmente sabemos.
A inteligência artificial produz respostas. O problema começa quando transformamos produção em comprovação.
PRODUZIR não é PROVAR.
INFORMAR não é FORMAR.
RESPONDER não é compreender a PERGUNTA.
Saber utilizar uma ferramenta não significa saber avaliar aquilo que a ferramenta utiliza para nos convencer.
É por isso que tenho insistido, em minha produção acadêmica sobre discernimento, educação, metacognição e autonomia, numa diferença aparentemente pequena, mas decisiva: receber informação não significa conceder autoridade à informação.
A mente recebe.
A consciência percebe.
O discernimento pesa.
E aquilo que não PESAMOS pode acabar PESANDO sobre nós.
Talvez este seja o paradoxo da inteligência artificial: quanto mais inteligente se torna a ferramenta, mais inteligência precisamos desenvolver para não terceirizarmos a nossa.
Não devemos ter medo de máquinas que aprendem.
Devemos prestar atenção em seres humanos que desaprendem porque as máquinas aprenderam por eles.
DESaprender pode ser necessário para REaprender.
Mas desaprender a pensar para aprender a pedir respostas é outra coisa.
Quando perguntamos tudo, corremos o risco de deixar de perguntar a nós mesmos.
Quando terceirizamos todas as respostas, podemos terceirizar também as perguntas.
E quem terceiriza a pergunta talvez já tenha terceirizado parte do pensamento antes mesmo de receber a resposta.
Por isso, não basta prestar atenção na resposta produzida pela inteligência artificial.
É preciso prestar atenção na ATENÇÃO que estamos prestando à resposta.
Depois, é necessário ir além.
Precisamos observar os critérios com os quais julgamos aquilo que observamos.
Porque pensar sobre o pensamento ainda é pensamento.
Discernir exige decidir quanto poder aquilo que pensamos continuará tendo para pensar por nós.
A pergunta do futuro, portanto, não será apenas:
“O que a inteligência artificial consegue fazer?”
Será também:
“O que deixamos de conseguir fazer depois que ela começou a fazer por nós?”
A inteligência artificial pode ser uma extraordinária ferramenta de emancipAÇÃO.
Mas toda emancipAÇÃO tecnológica exige responsabilidade sobre a própria AÇÃO.
Caso contrário, aquilo que deveria ampliar nossa AUTOnomia poderá apenas automatizar nossa HETEROnomia.
A máquina não precisa nos substituir.
Basta que, pouco a pouco, substituamos a nós mesmos.
O verdadeiro desafio não é impedir que a inteligência artificial aprenda a pensar.
É impedir que o ser humano aprenda a NÃO pensar.
Porque talvez o maior risco da inteligência artificial não seja uma máquina adquirir consciência.
Talvez seja o homem, cercado de inteligência, abrir mão da própria.
Carlos Eduardo Balcarse
Psicanalista, Educador, Escritor e Pesquisador
Pensar por si mesmo começa quando conseguimos pensar CONTRA aquilo que gostaríamos de continuar pensando.
Carlos Eduardo Balcarse
A dúvida amadurece quando deixa de duvidar apenas da resposta e começa a duvidar do critério que a chamou de CERTA.
Carlos Eduardo Balcarse
Quando o pensamento vira testemunha de si mesmo, convicção deixa de ser prova e passa a ser objeto de investigação.
Carlos Eduardo Balcarse
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