Use o Silencio quando Ouvir

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A sabedoria está em não controlar a energia, mas em a escutar. Reconhecer quando a mesma pede expansão, quando exige recolhimento, e perceber que pensamentos e desejos não são coisas, mas sim fluxos.

A bondade é ficar
quando tudo em nós
quer partir.

A solidariedade é uma força silenciosa, mas profundamente transformadora. Ela nasce quando escolhemos olhar além de nós mesmos e reconhecer o outro como parte do mesmo caminho.

Adoro quando tu tiras-me
as palavras da boca com a tua boca
e as colocas a derreter na tua pele.

Há abraços que não
se desfazem,
mesmo quando
os braços se soltam.

O invisível que carrego dentro de mim ocupa o espaço onde eu deveria estar, e observa-me quando tu estás perto de mim, e ainda assim não posso tocá-lo.

Poesia é quando
o corpo expressa
o que a pele ainda
não teve coragem.

A Casa que Fazes em Mim


Quando visitas o meu pensamento,
as horas derretem-se
como se o tempo tivesse aprendido
a respirar ao ritmo do teu nome.


O amor torna-se simples,
quase uma luz que se acende sozinha no silêncio onde cabemos os dois.


E há em ti qualquer coisa de infinito,
um gesto que me chama,
um abraço onde o coração
encontra casa.


Se amar é perder-me,
que seja sempre assim:
perdido em ti, e finalmente inteiro.

Estar embrenhado na natureza não é refúgio: é origem. O refúgio somos nós, quando regressamos a ela.

Quando duas almas se cruzam é sempre um instante absoluto, rápido demais para o tempo, fundo demais para o esquecimento.

Há encontros que só acontecem
quando nos deixamos afundar,
como raízes que se procuram no subsolo até se reconhecerem,
e só então perceberem que
sempre foram a mesma árvore.

Quando a seleção entra em campo: é o momento em que o país inteiro torna-se numa única pulsação
e lembra-se que ainda sabe sonhar.

O Estado Poesia




Os nossos corpos, em estado sólido,
começam a derreter quando as epidermes se tocam.
Passamos a líquido,
escorrendo um para o outro,
misturando temperaturas,
onde o toque é luz,
o calor é linguagem,
e o que somos se escreve no ar
como se a pele tivesse aprendido a respirar dentro da pele.


E quando evaporamos,
quando a anatomia
se desfaz em vibração
e ficamos só alma com alma,
passamos para o estado mais raro:
o estado poesia.


Onde já não somos corpo,
nem gesto,
nem pele — somos aquilo que o mundo lê
quando o silêncio grita.

Há dias em que o
Agosto da vida só
se revela quando
a chuva decide cair.

É tão bom ser
como a lua:
sorrir só quando
me apetece.

O humano só se completa quando aceita ser raiz, porque é na profundidade que a alma deixa de ser alma e passa a ser essência.

Jorge Palma, um poeta de piano cheio.


Palma pertence aos segundos. Quando se sentava ao piano, não procurava notas: procurava o sentido da vida. Cada tecla era uma porta entreaberta, cada acorde uma memória que regressava com o peso exacto do que foi vivido.


Nas mãos dele, o piano ficava cheio de mundo. Estações de metro dedilhadas, ruas gastas, noites que ainda sabem o nome de quem as atravessou. Há uma verdade mística no modo como ele canta: não é para impressionar, é para confessar. E nessa confissão cabe quem o escuta, como se cada canção fosse um lugar onde finalmente se pode pousar.


Palma foi isso: um compositor que não escreve música, escreve chão. Um músico que quando tocava piano, tocava caminhos. Um poeta que, mesmo quando adormecia, deixava a luz da cidade acesa e o cigarro a arder no cinzeiro, lento e translúcido, como um pequeno ritual que continuava a respirar por ele.

Quando és torrencial, não te entregues a quem só sabe ser chuvisco: a tua alma não foi feita para quem teme afogar‑se em ti.

Ser poema é continuar em ti quando as palavras já partiram.

Quando a opinião governa sem o auxílio da razão, a democracia pode transformar o número em substituto da verdade.