Um Poema para as Maes Drummond
[A lição de Biel: Sorrir ao partir]
Simplesmente um pássaro que não podia voar,
Raramente se queixava, se empenhava em insistir,
Particularmente nunca o vi reclamar,
Sua grande qualidade era sorrir ao partir.
Jamais partilharia a sensação de voar,
Estar no alto das nuvens e dali acenar,
Mas ele podia sem nenhum impedimento,
Sair da atmosfera só com seu pensamento.
Sabia que esta condição, Não o impediria
De buscar a mais longínqua sabedoria.
Simplesmente um pássaro que não podia voar,
Raramente se queixava se empenhava em insistir,
Particularmente nunca o vi reclamar,
Sua grande qualidade era sorrir ao partir.
Se um pássaro sem asas aprendeu a lutar,
Quem somos nós para duvidar,
Da vida só o máximo devemos extrair,
E se tivermos que ir, vamos sorrir ao partir.
Simplesmente um pássaro que não podia voar,
Raramente se queixava se empenhava em insistir,
Particularmente nunca o vi reclamar,
Sua grande qualidade era sorrir ao partir.
Da vida só o máximo devemos extrair,
Quando tivermos que ir, vamos sorrir ao partir.
Marinheiro do Farol
Um velho marinheiro
em sua última viagem,
Sem nenhum dinheiro,
rico em camaradagem,
Juntou as suas tralhas
pra desembarcar,
No convés a residência
que devia abandonar.
O mercado a direita
e a taberna à esquerda,
Foram sua família
na época das cheias,
E encostada num barril
estava á jóia mais cara,
A conquista de um pirata,
a mulher que ele amara.
Saindo da labuta,
No abrigo marítimo,
Ele ditaria
serenamente seu ritmo.
O amor é tão lindo,
Que fez aquele velho,
Se sentir um menino.
O amor no farol,
Fez aquele marinheiro
se orientar melhor.
O amor no farol,
Fez daquele marinheiro
um homem melhor.
Somos suntuosos borrões,
Corajosos apavorados,
Expostos assim de repente,
Na vitrine um vapor dispersado.
Reviravolta
Um exaustivo
Sobe e desce
E vice versa.
Segue acima,
Prossegue abaixo,
Degraus disso,
Degraus daquilo.
O impacto dos calçados,
Em madeira, taco compensado,
Concreto, piso emborrachado,
Sortidos revestimentos e tal.
Perdurou assim por um longo tanto,
Antes e após, punhados de anos,
Até que a escada se cansou
De ser solo, chão ignorado,
Prostrado em desencanto,
Estática imutável vegetante.
Esperou um instante,
Levantou renovada,
Um atrevimento repleto,
vibrante,
Chocando paredes e teto,
Saiu dando cambalhotas,
Escada arrojada,
Escada rolante.
Se existe coisa mais bela no mundo,
Que um sorriso bobo,
Inda não encontrei.
Caso não queira-me como teu,
Deixe-me ficar com tua pena,
Já que não voo, nem me vou,
Poderei ao menos permanecer,
Respirando
Alto,
Floreando
Amores.
Principessa minha.
Ela ainda não sabia,
Mas era dona da matéria-prima,
Com que os encantamentos eram feitos.
Permita-me,
Converter-te no próprio amor
E o amor próprio,
Que se ame.
O Ser e a Luz
(ou um Ótimo Aluno em Jogos de Azar)
Percorri cada milímetro na escuridão,
O Vale das Sombras foi meu Bosque Encantado.
Diversão, na tortura psicossocial.
Campos verdejantes virando caatinga,
Florestas corpulentas se tornando cerrado.
Banalidade corriqueira no ato casual.
Nunca fomos bons em geografia,
Mas temos noção de onde devemos estar.
A sorte foi cruel, nessa vilania,
Nos demos bem apenas em jogos de azar.
Não sabemos calcular com maestria,
Mas a expectativa é de poder somar.
Ainda que o fracasso subtraia vida,
As lições tiradas dele vem acrescentar.
Nunca fomos muito bons em história também,
Não compreendemos tempo, nem cronologia.
As memórias vão além, da vã pedagogia,
Aprender é um recurso bendito,
Requisito definitivo para ensinar.
[Anotação Apagada do Livro de Poções]
É impossível
Enfeitiçar um apaixonado,
Pois o apaixonado
Já se encontra enfeitiçado,
Pela mais poderosa
De todas as feitiçarias.
Não há magia neste,
Ou em qualquer outro mundo,
Que vença a tolice
De uma paixão.
08/10/23
façamos um brinde,
aos tratamentos paliativos,
que nunca resolverão
os problemas reais,
seculares e imediatos.
Primeiros Batimentos
de um Corpo sem Vida
a fábula do sonâmbulo
desperto, pode significar
o que você quiser.
mas há uma questão,
que nunca é relativa:
existem sempre
duas versões
da história.
a primeira
é aquela que
o opressor conta
e a segunda
é a que ele oculta.
10/10/23
Desandando a Massa e Vivendo nos Intervalos
fazer o mínimo é um exagero
demasiado. nossa meta
é não fazer sequer o mínimo.
todavia, nos propomos
atrapalhar a todos,
sempre que possível.
dedique-se ao incômodo,
semeie o desconforto,
seja picante e caótico.
produza nada,
contribua com ninguém,
seja um maldito colaborador.
concorde com o regresso,
colabore com a desordem,
semeie apatia e impotência.
viemos para empurrá-los do pedestal,
jogá-los ladeira abaixo,
rasgar tuas vestes caras,
furar teus pneus importados,
perder todo o seu lucro,
esgotar teus rendimentos.
derrubar tuas fronteiras,
queimar tuas bandeiras,
apagar seus slogans.
desprezamos tuas corporações,
odiamos alegremente tuas marcas,
martelaremos forte tuas máscaras.
socamos o desempenho
bem no meio da cara,
almejamos o prejuízo,
investimos para a falência.
por fim, namastêfoda-se
a esta pesada filhadaputagem.
somos a infecção generalizada
em sua bolha perfeita,
pomposa e purulenta, vazando.
que a fantástica fábrica de ilusões
exploda e seus pedaços decorem
o céu estrelado.
que toda certeza se torne um talvez
e que a noite nasça iluminada,
uma última vez, neste sonho desintegrado.
(Michel F.M. - Ensaio sobre a Distração [Trilogia] 13/10/23)
Vibrante Estupidez Corpulenta
de um Recipiente Vazio
duas semanas
após as eleições,
ele havia abandonado
completamente
sua pátria amada.
aquele outrora
grande patriota viril,
traído por seus
indecentes líderes,
encontrava-se agora
impotente.
não que não fosse
outrora.
nunca mais
cantaria o hino
de tua nação
desolada,
do qual não se lembrava
das palavras
e nem sequer
algum dia as compreendera.
(Michel F.M. - Ensaio sobre a Distração - 25/10/23)
As Aventuras da Chapeuzinho Crescida ou O Depoimento de um Lobo Domesticado
dos pés à cabeça
quis desejá-la,
da cabeça aos pés
quis absorvê-la.
dos pés à cabeça
quis saboreá-la,
da cabeça aos pés
assim, eu quis tê-la;
entretê-la.
ela me converteu
dos pés à cabeça,
da cabeça aos pés
ela me dominou.
a fera enjaulada
estava abatida,
deixou-se abater,
na fúria incontida.
um conto de fadas
sem nenhum paralelo,
a saliva molhada
num beijo sincero.
foi o filme mais lindo
que jamais filmaram,
o desenho mais vívido
guardado no peito.
foi o sonho mais belo
que nunca sonharam,
o Morango mais doce,
em seu mais doce efeito.
(Michel F.M. - Trilogia Ensaio sobre a Distração - 29/10/23)
Outro Evento de Extinção
Neste Pequenino Orbe Azul
você implodiu a minha vida
de um jeito diferente,
e se eu tivesse
uma máquina do tempo,
faria tudo do mesmo jeito,
exatamente.
porque apesar de toda vida,
nalgum momento chegar ao fim,
nesta pequenez valiosa,
até mesmo as tuas moléculas
brilharam para mim.
e assim sobrevivemos
ao inverno nuclear,
afinal, os corpos celestes
queimam tudo ao seu redor,
antes de acabar.
(Michel F.M. - Trilogia Ensaio sobre a Distração - 31/10/23)
Um Cataclisma de Cada Vez
a vida adulta
é um gigante tão cruel,
mas há beleza
mesmo nesta batalha terrível.
me conte em detalhes,
as utopias que tem colecionado.
relate a mim, os devaneios
tantos que armazenaste.
coloridas quimeras
e fabulação,
a fantasmagoria
das fantásticas ficções
fantasiosas.
pois sou desprovido
de imaginação,
um reles sonhador
desmemoriado,
que em sua jornada
desesperada pelos sonhos,
ainda não aprendeu a sonhar.
(Michel F.M. - Trilogia Ensaio sobre a Distração - 05/11/23)
[De um biscoito da sorte
encontrado na sarjeta]
se foram
quase todos os tipos.
você já tentou
com o tipo namorado.
já tentou com o tipo marido.
com aqueles
que juraram fidelidade
e comprometimento.
e chegamos até aqui.
mas, há algo inédito.
que tal, tentar com o poeta.
sem compromissos
ou arrependimentos.
ele vai te amar
apaixonadamente,
como nenhum outro
jamais poderia.
mas sem vínculos
convencionais.
sem alianças ou papéis,
sem contratos ou convidados.
sem promessas.
só o poeta, você
e toda a poesia
que puder suportar.
(Michel F.M. - Trilogia Ensaio sobre a Distração - 05/11/23)
[Ensaio sobre os Motivos]
muitas coisas ruins
foram feitas
em nome de um bem maior.
mas ele nunca chega,
não é ?!
o bem maior,
nunca chega.
(Michel F.M. - Trilogia Ensaio sobre a Distração - 05/11/23)
se torna impossível controlar
um elemento concebido
pelo fogo,
advindo deste único
propósito,
nascido para queimar.
o ciúme é um sentimento
completamente infundado,
pois não podemos
possuir o outro.
o máximo que podemos fazer,
é num golpe de sorte,
possuirmos a nós mesmos.
[A Megalópole de um Homem Só]
dizem
que quem lê,
vive mil vidas.
e aqueles
que escrevem,
vivem cem mil.
mas geralmente
se esquecem
de mencionar
os poetas,
que vivem milhões.
(Michel F.M. - Trilogia Ensaio sobre a Distração - 12/11/23)
[Outra causa vencida
numa canção de amor]
e aquela mulher
que nunca havia tido
um homem de fato,
possuiu definitivamente
seu coração.
tornando-se a pessoa
mais importante,
na vida daquele homem,
que havia tido todas as mulheres,
sem nunca possuir nenhuma.
(Michel F.M. - Trilogia Ensaio sobre a Distração - 12/11/23)
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