Um dia a Gente Aprende Mario Quintana
E assim fui vendo minha juventude se deteriorando dentro de um quarto, vendo minha vida passar como se não tivesse mais forças para lutar.Envelhecendo com os meus pensamentos na companhia da solidão.
O passado é como tivesse
sido apenas um sonho.
Existem memórias que nos moldam, transformando naquilo que somos. É um storyboard de imagens e sentimentos, que mostra parte da nossa jornada até os dias de hoje. Mesmo com os detalhes borrandos e quase apagados por causa do tempo. Hoje sou o espelho que reflete as escolhas do meu passado.
FABIAN
Desenhe um cara sem face,
Desenhe um cara sem rosto,
Desenhe um cara sem voz,
Desenhe um cara que não pode ouvir...
Desenhe o mar,
Multiplique por dez...
Isso é a metade da metade
Da minha saudade,
Desenhe uma mentira,
Esta é a minha verdade...
Olhe os morcegos, feche as vidraças...
Desenhe uma pipa, o Zeppelin
Uma dúzia de vassouras turbinadas...
Estou do outro lado da parede
Cantando parabéns pra você...
ETERNIDADE
Um vale assombrado ou um pântano tenebroso
Abrigar-nos-á para purgarmos
Por toda a insensatez e luxúria...
Mendigos e flagelados ouviremos Coubain ou Janis Joplin
Blasfemando melodicamente contra o amor...
Teremos uma vizinha que pensa que já morreu
Que não fala, nem ouve, porque teme
Ter a certeza disso por outro alguém
Revoada de corvos na tarde
como um mal presságio
E, à madrugada, relâmpagos e trovões
numa tempestade apocalípticas...
Na vereda que conduz a caverna dos enforcados
Uma ou outra cruz demarcando
aqueles que não souberam lutar pela paixão
Mas também veremos árvores com corações
E declarações de amor sem fim
Alguns poemas que jamais entenderemos
Porque a eternidade é obscura e fria
Mas quando eu conseguir entender
Quando ela chega com meia dúzia de estrelas no bolso,
A ansiedade no olhar, corada e arfando: ‘’quanto tempo!’’
Na minha mente eclipsada de confusões
Um raio de luz entrará furtivo
E uma manhã ensolarada expulsará do vale
Todos os fantasmas e habitará o pântano
Então eu direi sem me preocupar
Como as palavras podem ser simples e banais:
“Eu também...”
INCISÃO
Há uma neblina ou uma brisa...
Um apito, um latido, um miado...
madrugada e nenhum silêncio é completo.
Ela dorme como um anjo,
ele repousa como um guerreiro
E pela vidraça, a tênue luz das estrelas
Que cintilam como um aceno.
Não tente entender tanto terror,
Ninguém morre sorrindo...
Foi uma bela incisão...
Falta um dedo, uma perna, um braço,
Mas a partir de então,
o silencio é completo...
Não tem nenhum cadáver debaixo da cama...
Perdoe os fracos... perdoe palavras tão vagas,
Estrofes estrábicas
multiplicando o sentido,
o soneto tentando palavras exatas,
quando tudo o que queremos
É o sono tranqüilo dos anjos,
é o repouso do guerreiro
Sem essa sensação de que,
está faltando alguma coisa...
Eu tenho um pé no horizonte
e outro no paraiso
eu tenho uma fonte infinita de riso
e um sol se pondo atrás do monte...
RETOQUE
Poderia começar dizendo que sou um romântico,
Tudo que você sabe de mim ou de ouvir falar...
Na verdade eu vivo de retoques, só que as vezes dou cores demais
ao que era apenas preto e branco...
mas quando eu amo... pelo menos quando eu amo eu sou sincero...
bem, acho que não sou um bom partido
hoje em dia, as pessoas precisam mais de status do que de sonhos
e se você tivesse de escolher entre queijo e amor...
sem querer dizer que você é um rato,
acho que você escolheria queijo.
Isso não lhe deve deixar constrangida,
O que você pensa ser monólogo pode ser uma ratoeira,
Mas se você saiu ilesa, se você saiu inteira
Você realmente é um roedor...
Claro que isso é só mais um retoque...
Desculpe o mau jeito de um semeador de sonhos
Desta desvirtude você não sabia nem ouviu falar
Mas quem pode saber tudo de um romântico?
As vezes ele se confunde com suas fantasias e coisas tão abstratas...
As pessoas precisam apalpar, as pessoas precisam de chão como apoio...
Os céticos aproveitam as coisas até onde terminam
E nos românticos sabemos que, onde termina para eles
Para nós apenas começa e tem o infinito como limite...
É como voar como uma gaivota, não se debater como morcegos,
Desculpe a insistência, voltando aos ratos...
Fica esse devaneio em forma de verso,
O verso em forma de beijo,
O resto é o que você não pode saber do sonhador;
Fantasias... coisas tão abstratas...
A paixão é um corcel branco alado, todo enfeitado,
arreios dourados...
o amor é um jumentinho cinzento, velho e lento...
SOBRE A PERFEIÇÃO
tinha a lua como testemunha,
flores que ornamentavam um jardim,
de tão nervosa, ruía as unhas
jurando-me amor sem fim
nos olhos, a profundidade de um oceano,
na alma trazia o paraíso,
dentes de madrepérolas no riso,
mas não sabia dizer eu te amo...
Contatos imediatos
Fragmentado, eu canto
E sorrio, eu sou um verso
Em cada esquina das minhas emoções,
Sangria madrugada a fio,
Teus dentes me trituram
Num sorriso irônico,
Anseio a insanidade
Para te ver varrendo a lua,
Sonhar e desejar contatos imediatos
Num beco da tua rua,
Mas, o que me resta é o atlântico,
Sou pirata de barcos de papel ,
Em batalhas memoráveis
Contra um capitão gancho,
Naufrago derrotado sem nem poder dizer- te amo
Mas as esmeraldas, as pérolas esse tesouro
Teus olhos e teu sorriso
Prometem batalhas inesquecíveis
Numa aventura eterna
Por mares nunca dantes navegados...
GARIMPEIRO
A vida é um rio,
E o poeta garimpa todo sentir,
Diamantes e esmeraldas
Seriam grandes amores,
Eu só tenho cascalhos
Numa estação de estio...
PARALELEPÍPEDO
Escrevo um poema num caroço de arroz,
Escrevo teu nome no meu navio de papel,
Onde navega um paralelepípedo apaixonado,
Jack sparrow e seus asseclas em busca de aventuras
E tesouros inimagináveis nalguma ilha misteriosa...
As lembranças mais doces que eu tinha,
Rimavam com jiló
Hoje sou um pirata pirado nesse mar imenso,
Nos pergaminhos das minhas saudades
Escrevo o silencio das minhas agruras,
Bando de surdos e mudos fazendo muito barulho,
Conversando sobre maremotos e temporais,
No triângulo das bermudas
Femeeiro mencionando transas’ memoráveis,
Escravos em fuga para um quilombo,
Na terra do nunca e do nada,
O meu poema no caroço de arroz,
Menciona uma noite clara,
Uma clara manhã, uma tarde clara,
Uma claridade vinda de santa clara,
Vinda de santa Clareana, com seus cabelos de fogo,
Com seus cabelos azul turquesa,
Com seus cabelos de turmalinas,
Com seus cabelos negros como a asa da graúna
E nesse oceano tem esquadras armadas,
Submarinos nucleares, cruzadores e porta-aviões,
E o meu barquinho de jornal,
Veleja incólume nessa incongruência,
Este paralelepípedo...
Esse mar imenso, piratas...
Beira-Mar
A lua submissa
Mergulha no lago de prata,
Afoga a noite como um espelho;
Traz a luz do firmamento,
Narciso de sentimento,
Passeio nessa praia,
Pisando em estrelas,
Passeio na via láctea
Mais anjo que trovador,
Mais cangaceiro que pirata,
A cidade é adorno de luzes duplicadas,
Pelo espelho da praia
E o satélite me conduz
Como um deus da brisa,
Ou como um ateu sobre o cometa
Soprando a saia da diva
A me fazer sonhar...
TADEU MEMÓRIA
TETY, um amigo fiel.
Poucos, muito poucos, pouquíssimos acreditaram quando falei de Tety, quando disse que nas últimas sextas feiras de anos bissextos, depois de meia noite em noites de quarto crescentes ele falava; muitos riram, mas também não me esforcei pra convencer ninguém, era algo que só a família conseguia usufruir, se é que podemos falar assim. Era profético, era filosófico, as vezes hilário, mas como falar disso pra alguém sem passar pelo ridículo de ser taxado de mentiroso? Tety me falou certa vez, que em outra vida já tinha sido ser humano, disse que foi sua experiência mais cruel de vida; mencionou que foi muito difícil ser humano, que fora enterrado vivo pela sua companheira, mas ao reencarnar em forma de gato que fora adotado pela sua ex companheira pode testemunhar todo seu sofrimento nas mãos do amante. Disse que gostou de ser gato curtia correr pelos telhados em noites de lua cheias flertando com as gatas... falou da existência de um ser superior, mencionou um apocalipse e um provável choque entre a lua e a terra.
Há um mês procuramos Tety desesperadamente, cheguei a conjecturar que a carrocinha pudesse ter capturado ele, mas se assim fosse outros vira-latas que vivem aqui na rua também teriam sido capturados; coloquei anúncios nas redes sociais, mas nenhuma notícia. Ontem recebi uma carta de alguém que colocou no remetente: DI STEFFANO MAXMILLIANO JONAS FREIRE DE ALBUQUERQUE BARROS DE ALCANTARA, li e reli; e o seu teor era esse: “meus queridos, muitas saudades; exatamente um mês quatro dias e vinte e duas horas de saudades de todos sem exceção. Tive que me afastar,pois como vocês perceberam fiquei velho e o que se avizinha a velhice é doenças morte e muito trabalho aos que cuidam da gente. Quero que vocês guardem na lembrança aquele cachorro jovem e brincalhão que sempre foi fiel a todos. Obrigado por toda a dedicação e carinho de vocês.
Daquele que sempre foi de corpo e alma de vocês; Tety.
NOVA FACE
Houve um tempo que este silêncio me incomodava,
O passado desfilava belo e elegante,
Diante de sintomas, que desfaleciam o meu presente,
Pensei que isso era ficar velho;
Pensei que este era o pensamento de quem envelhece.
Olho a lua tranqüila, entre nuvens que passam...
O silêncio hoje é meu aliado;
A noite tem segredos inconfessáveis
E o silencio conspira de uma forma misteriosa
Para esse momento lúdico e profícuo
Houve um tempo que, o silêncio gania como uma alcatéia
E eu me encolhia num momento qualquer da infância,
A procura do Batman e do Robin, para um tipo qualquer de defesa...
hoje o silêncio chega vertiginoso,
E eu me equilibro a mil metros de altura,
Numa espécie de slack line emocional,
Há um eclipse meu, comigo mesmo
Onde surge uma nova face,
calma e insensata, cúmplice de todos os silêncios...
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