Túmulo
O CORPO DO CORVO
Morto ser porquê foste diante meu ser...
Parado num túmulo de contradições sois a replubica que reluzente nas asas da democracia.
Larvas surgem em seu corpo tão igual euforismo político funcional...
Geopolítica a estatua corroida pelas correntes de retóricas golpista.
O que sois no cranio ja vivo incompatível desejo de ser como as chamas que deformam com tempo.
As vestis sao mortalhas fúnebres
Pois a ignorância faz o monstro da corrupção.
Na França, no tumulo de Allan Kardec, diz aqui jaz os restos mortais de Hippolyte Léon Denizard Rivail, o codificador da ciência espirita. Em Jerusalém, em Roma e em nenhum lugar do planeta, consta nenhuma lapide sobre os restos mortais de Jesus de Nazaré, pois ele venceu a morte e ressuscitou, está em luz, amor e verdade entre nos, por todos os tempos.
Na permuta do pensamento,
somos rosas num túmulo sangrento
onde margaridas expõem experiências passadas
pelas heranças genéticas e multirraciais da cognição.
Vemos a síntese das almas aniquiladas.
Lábios inferiores, sedentos,
despertam sensações de ligações profundas...
Nas quais evoluímos em crisântemos floridos,
em sonhos que são vales cheios de vida.
Dentro de cada sussurro,
beijos que nutrem as margens peculiares da alma,
alimentando o espírito selvagem do dente-de-leão.
O esquecimento é o túmulo mais profundo; não preciso de pá ou terra para sepultar alguém vivo, basta que eu não o reconheça no meu silêncio.
GOETHE ALÉM DO TÚMULO: REENCARNAÇÃO, MUNDOS HABITADOS, MEDIUNIDADE E A RESPONSABILIDADE MORAL DO PENSAMENTO HUMANO.
O DIÁLOGO DE KARDEC COM O ESPÍRITO GOETHE - E A AMPLIAÇÃO DA VISÃO ESPÍRITA SOBRE A VIDA.
Autor: Marcelo Caetano Monteiro.
A comunicação atribuída ao Espírito de Johann Wolfgang von Goethe, registrada por Allan Kardec na Revista Espírita de junho de 1859, constitui um dos estudos mais profundos da literatura espírita acerca da continuidade da vida intelectual e moral após a morte. Mais do que uma simples evocação de uma personalidade célebre, o diálogo realizado na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, em 25 de março de 1856, apresenta uma série de questões que atravessam os grandes temas da Doutrina Espírita: a sobrevivência da alma, a pluralidade das existências, a diversidade dos mundos habitados, a influência espiritual sobre o pensamento humano e a responsabilidade daquele que transmite ideias à coletividade.
O episódio demonstra uma característica essencial do método kardeciano: a investigação racional dos fenômenos espirituais. Kardec não buscava apenas manifestações extraordinárias; procurava compreender as leis morais e intelectuais que regem a existência do Espírito. A comunicação com Goethe torna-se, assim, um campo de reflexão sobre o destino humano e sobre o peso espiritual daquilo que o homem cria, ensina e divulga.
A CONDIÇÃO DO ESPÍRITO APÓS A MORTE: A CONTINUIDADE DA CONSCIÊNCIA.
Ao ser questionado sobre sua situação espiritual, Goethe responde que se encontrava na condição de Espírito errante, isto é, ainda não reencarnado. Na linguagem espírita, a erraticidade não significa inutilidade ou ausência de progresso, mas representa o período em que o Espírito, desprendido do corpo físico, continua sua caminhada evolutiva no mundo espiritual.
A resposta dada pelo Espírito — afirmando estar mais feliz por encontrar-se livre do corpo grosseiro e por perceber aquilo que antes não via — relaciona-se diretamente com os ensinamentos de O Livro dos Espíritos, especialmente no estudo sobre a vida espiritual. Segundo a Doutrina Espírita, o corpo material limita temporariamente as percepções do Espírito, enquanto a desencarnação amplia gradativamente sua capacidade de compreensão.
Entretanto, essa ampliação não significa que todos os Espíritos, imediatamente após a morte, alcancem a perfeição ou possuam conhecimento absoluto. O progresso espiritual ocorre de acordo com o desenvolvimento moral e intelectual conquistado pelo próprio ser.
A RECORDAÇÃO DAS EXISTÊNCIAS ANTERIORES E O PRINCÍPIO DA REENCARNAÇÃO.
Um dos pontos mais significativos do diálogo está na afirmação de Goethe de possuir recordações relacionadas a uma existência anterior. Quando questionado se havia vivido anteriormente na Terra, responde negativamente, indicando uma experiência em outro mundo.
Dentro da perspectiva espírita, essa passagem apresenta um dos fundamentos da pluralidade das existências. Para Allan Kardec, a reencarnação constitui uma lei de progresso pela qual o Espírito passa por diferentes experiências, adquirindo conhecimentos e desenvolvendo virtudes.
A ideia de que o Espírito pode trazer impressões, tendências ou lembranças de experiências anteriores é tratada em O Livro dos Espíritos, principalmente nos capítulos dedicados à lembrança da existência corporal e às experiências do Espírito antes da encarnação.
Contudo, Kardec também esclarece que a recordação completa das vidas anteriores não é regra geral para os encarnados. O esquecimento temporário do passado é considerado um mecanismo educativo, permitindo ao indivíduo construir sua personalidade atual sem a influência direta de antigas paixões, ressentimentos ou culpas.
A lembrança espiritual, quando permitida pela Providência, teria finalidade instrutiva e moralizadora, jamais de simples curiosidade.
A PLURALIDADE DOS MUNDOS HABITADOS E A DIVERSIDADE DAS CRIAÇÕES DIVINAS.
A afirmação de Goethe sobre ter vivido em outro mundo conduz a outro princípio fundamental da Doutrina Espírita: a existência de diferentes mundos habitados.
O diálogo apresenta uma importante observação: nem todos os mundos possuem a mesma organização, e a superioridade de um planeta não deve ser compreendida apenas pelos aspectos materiais. Existem diferentes graus de desenvolvimento físico, intelectual e moral entre os mundos.
Segundo a visão espírita, a criação divina é dinâmica e progressiva. Os mundos funcionam como escolas destinadas ao aprimoramento dos Espíritos. Alguns apresentam condições mais primitivas, outros oferecem ambientes mais desenvolvidos, conforme o estágio evolutivo dos seres que os habitam.
A passagem de Goethe também combate a ideia equivocada de uma suposta "queda" espiritual. Ao ser questionado se teria descido de um mundo superior para a Terra por degradação, responde que não houve queda, pois sua missão continuava ligada ao auxílio e ao progresso moral dos homens.
Essa concepção revela um princípio essencial: a reencarnação não é necessariamente uma punição, mas uma oportunidade de trabalho, aprendizado e cooperação com a evolução coletiva.
A INFLUÊNCIA DOS ESPÍRITOS SOBRE OS ENCARNADOS E A MEDIUNIDADE.
Um dos aspectos mais profundos do diálogo está relacionado à influência espiritual presente nas obras humanas.
Goethe afirma ter possuído uma recordação de um mundo onde observava a influência dos Espíritos sobre os seres materiais. Essa afirmação aproxima-se de um dos princípios centrais da mediunidade estudada por Kardec: a comunicação e a influência entre o mundo espiritual e o mundo corporal.
Em O Livro dos Espíritos, Allan Kardec questiona os Espíritos sobre a influência que exercem sobre os pensamentos humanos. A resposta é clara ao afirmar que os Espíritos influenciam os homens muito mais do que geralmente se imagina, frequentemente dirigindo pensamentos e inspirando decisões.
Entretanto, a Doutrina Espírita não apresenta o ser humano como um autômato dominado por forças invisíveis. O Espírito encarnado possui livre-arbítrio e responsabilidade. A influência espiritual ocorre através da sintonia moral e mental.
Pensamentos elevados favorecem a aproximação de Espíritos igualmente elevados; pensamentos inferiores estabelecem vínculos com influências compatíveis.
A mediunidade, portanto, não é apenas uma faculdade de transmitir mensagens espirituais. Ela envolve responsabilidade moral, disciplina interior e vigilância constante.
O PODER DAS OBRAS HUMANAS E A RESPONSABILIDADE DE QUEM ESCREVE.
A reflexão mais delicada do diálogo encontra-se quando Goethe é questionado sobre sua obra Werther e sobre a influência que ela teria exercido em acontecimentos trágicos.
O Espírito reconhece que aquela obra teria produzido consequências negativas e demonstra arrependimento pela influência moral que dela poderia ter resultado.
Essa passagem oferece uma profunda lição sobre a responsabilidade intelectual.
Toda ideia lançada ao mundo possui consequências. O escritor, o artista, o educador e todos aqueles que influenciam consciências participam de uma responsabilidade proporcional ao alcance de suas palavras.
A Doutrina Espírita ensina que o pensamento possui força criadora. O pensamento não é apenas um fenômeno interno e passageiro; ele representa uma manifestação espiritual capaz de influenciar ambientes, pessoas e sociedades.
Por isso, o cuidado com aquilo que se pensa, fala ou publica torna-se uma exigência moral.
Não significa limitar a liberdade de expressão, mas compreender que a liberdade deve caminhar acompanhada da responsabilidade.
A palavra pode iluminar consciências, despertar sentimentos nobres e conduzir ao progresso. Entretanto, também pode alimentar paixões desequilibradas, incentivar comportamentos destrutivos ou fortalecer ilusões.
A MORALIDADE DO PENSAMENTO, DA PALAVRA E DA DIVULGAÇÃO.
No pensamento espírita, toda produção humana possui uma dimensão espiritual.
Uma obra literária, científica ou artística não é avaliada apenas pelo talento técnico, mas também pelos valores que transmite.
A inteligência é uma ferramenta concedida ao Espírito para o progresso. Quando utilizada sem orientação moral, pode tornar-se instrumento de perturbação. Quando unida ao sentimento elevado, transforma-se em instrumento de educação e esclarecimento.
Por essa razão, Kardec sempre destacou a necessidade de unir conhecimento e moralidade. O verdadeiro progresso não está apenas no desenvolvimento intelectual, mas na transformação ética do indivíduo.
A mediunidade, a escrita, a arte e a comunicação pública exigem consciência do impacto que podem produzir.
Cada pensamento cultivado é uma escolha espiritual. Cada palavra pronunciada representa uma construção no campo moral. Cada publicação oferece uma influência que pode permanecer além do momento em que foi criada.
GOETHE E A MISSÃO DO GÊNIO HUMANO.
O diálogo com Goethe apresenta ainda uma reflexão sobre a missão dos grandes intelectos da humanidade.
Na perspectiva espírita, os grandes artistas, filósofos e pensadores não aparecem na Terra por acaso. Suas capacidades podem representar instrumentos de progresso coletivo.
Contudo, o gênio intelectual não está isento de responsabilidade. Quanto maior a influência exercida sobre os outros, maior é o compromisso moral.
A inteligência sem sentimento pode produzir apenas admiração passageira. A inteligência iluminada pelo amor e pela responsabilidade contribui para a evolução humana.
Nesse sentido, a própria avaliação que Goethe faz de sua obra revela uma consciência espiritual mais ampla: o Espírito, ao observar a existência com maior clareza, compreende melhor as consequências de suas escolhas.
CONCLUSÃO.
O diálogo de Allan Kardec com Goethe permanece como uma profunda meditação sobre a vida espiritual e sobre a responsabilidade humana.
A reencarnação demonstra que o Espírito possui uma trajetória contínua de aprendizado. Os mundos habitados revelam a grandeza da criação divina e a diversidade dos caminhos evolutivos. A mediunidade evidencia a relação permanente entre o mundo espiritual e o mundo material. E a responsabilidade moral recorda que pensamentos, palavras e obras nunca são indiferentes perante a lei de progresso.
O homem não é apenas aquilo que realiza exteriormente; é também aquilo que cultiva interiormente e aquilo que desperta nos outros.
A grande lição extraída desse estudo é que toda inteligência deve buscar a iluminação pelo sentimento, porque o conhecimento sem amor pode perder sua finalidade, enquanto o conhecimento aliado à moral transforma-se em instrumento de elevação espiritual.
FONTES CONSULTADAS.
KARDEC, Allan. Revista Espírita: Jornal de Estudos Psicológicos. Junho de 1859. Seção: “Conversas familiares de além-túmulo — Goethe”. Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas. Evocação realizada em 25 de março de 1856.
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Parte Segunda — “Do mundo espírita ou mundo dos Espíritos”. Capítulo VI — “Da vida espírita”. Questões referentes à lembrança da existência corporal, especialmente questões 315 e 317.
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Parte Segunda — “Da influência dos Espíritos sobre os encarnados”. Estudos sobre pensamento, livre-arbítrio e influência espiritual.
KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Capítulos sobre responsabilidade moral, pensamentos, palavras e transformação espiritual.
KARDEC, Allan. A Gênese. Estudos sobre a criação, pluralidade dos mundos habitados e progresso dos Espíritos.
O TÚMULO VAZIO.
Autor: Marcelo Caetano Monteiro.
Quando a aurora, em véus de luz, surgiu cantando,
O céu beijou a terra em gesto sacrossanto;
As flores, em silêncio, estavam a esperar
Aquele que vencera a morte e o sepulcrar.
A pedra, antes pesada, abriu-se docemente,
Qual coração que aprende a amar sinceramente;
Não houve mão humana a romper-lhe a prisão:
Foi Deus quem escreveu a eterna redenção.
O túmulo vazio não fala de partida,
Mas canta a plenitude da imortal vida;
É o berço luminoso da esperança sem fim,
Que floresce em teu peito, em mim e em todo jardim.
Maria, entre perfumes, chorava em oração,
Levando em cada lágrima um rio de aflição;
Buscava entre as sombras o Mestre, o seu Senhor,
Sem ver que a própria Luz vestia-se de amor.
Então uma voz mansa, mais doce que o luar,
Fez toda a sua alma de alegria despertar;
"Maria!" — apenas isso... e o mundo renasceu;
O nome pronunciado abriu caminho ao céu.
Os anjos, silenciosos, guardavam o lugar
Onde a morte aprendera, por fim, a se curvar;
Ali jazia apenas o linho sem calor,
Porque a Vida vencera o império da dor.
Nenhuma sepultura consegue aprisionar
A chama que nasceu para sempre iluminar;
O Cristo não pertence às pedras do jazigo:
Habita o coração de quem o traz consigo.
O túmulo vazio é escola de esperança,
É cântico divino que a alma nunca cansa;
Ensina que a tristeza, por mais que faça o mal,
Jamais será mais forte que o Amor celestial.
Quantos vivem no mundo sepultos sem morrer,
Cobertos pelo medo, sem coragem de viver!
Mas Cristo, ao ressurgir, estende a santa mão
E desperta do sono qualquer coração.
Ressurge quem perdoa, quem sabe compreender,
Quem troca a própria mágoa pelo bem de viver;
Quem planta a caridade onde existia espinho,
Descobre que o Senhor jamais o deixa sozinho.
O túmulo vazio é altar da eternidade,
Onde repousa apenas a antiga humanidade;
O Homem Novo nasce na manhã da redenção,
Vestindo a luz celeste da sublime afeição.
Não choremos a pedra que um dia se moveu;
Celebremos a Vida que para sempre venceu.
Quem ama nunca morre, apenas muda o véu,
Prossegue iluminado nas amplidões do Céu.
Que cada dor terrestre, em sua noite fria,
Transforme-se em semente da eterna alegria;
Pois Cristo nos demonstra, com divina amplidão,
Que a morte é só a porta da ressurreição.
E quando o nosso corpo tombar exausto ao chão,
Sem força, sem palavras, sem última canção,
Lembremos do sepulcro vazio ao amanhecer:
Em Deus ninguém termina... apenas vai nascer.
LUCIDEZ ESPÍRITA: O MOBILIÁRIO DE ALÉM-TÚMULO.
Autor: Marcelo Caetano Monteiro.
Exegese do artigo da Revista Espírita - Agosto de 1859.
Prolegômenos - A Razão como Claridade.
Kardec abre este artigo com uma profissão de método que é a própria definição de lucidez espírita: o Espiritismo é ciência de observação, mas é, sobretudo, ciência de raciocínio. Não basta ver mesas girantes. É preciso compreender o porquê e o como. A crença cega já não está nos costumes deste século.
O estudo nasce de uma carta da Sra. R..., do Jura, correspondente da Sociedade Parisiense.
Dois fatos paradigmáticos:
1. O fumante invisível: Uma criança de 8 anos vê, durante toda a noite, um homem sentado à cabeceira da mãe, fumando um grande cachimbo, enchendo o quarto de fumaça e sacudindo as cortinas. Só a criança, em estado de maior sensibilidade mediúnica, o percebe.
2. O desdobramento e a tabaqueira: A própria Sra. R..., enferma e em vigília prolongada, vê às dez horas da noite um amigo de família velando-lhe o sono. Ele gira entre os dedos a sua tabaqueira habitual e toma rapé. Depois, constata-se que seu corpo físico dormia tranquilamente em sua casa. O Espírito se desdobrara. A tabaqueira vista era idêntica à real, que ficara em casa.
I. O Fundamento - A Teoria das Aparições.
Antes de resolver o acessório, Kardec relembra o principal.
O Espírito não é abstração. Possui, além do invólucro grosseiro, o perispírito, corpo semimaterial, etéreo, de natureza quintessenciada, invisível em estado normal.
A morte é a desagregação do primeiro corpo, não do segundo. No estado errante, o perispírito persiste.
A visibilidade se explica por uma analogia física precisa: o vapor d'água. Rarefeito, é invisível. Levemente condensado, torna-se névoa. Mais condensado, liquefaz-se. Mais ainda, solidifica-se. De modo análogo, por ato volitivo, o Espírito opera uma transmutação molecular em seu perispírito, tornando-o visível e, em certo grau, tangível. Não é condensação no sentido vulgar, mas modificação íntima de sua contextura fluídica, por vezes com assimilação de fluidos ambientes.
Até aqui, nenhuma dificuldade para a personalidade.
II. O Problema Ontológico - De onde vêm as roupas e os objetos?
Aqui reside o nó filosófico. Se o Espírito conserva a forma humana, compreende-se. Mas por que aparece vestido? Por que com cachimbo, tabaqueira, joias?
Teriam os objetos inertes um duplo etéreo no mundo invisível? Haveria um desdobramento da matéria inerte? A matéria teria uma parte quintessenciada que nos escapa?
Kardec formula a hipótese e a submete ao Espírito São Luís, em 24 de junho de 1859. A resposta destrói o fetichismo e funda o conceito que mais tarde chamaremos ideoplastia.
III. A Hermenêutica de São Luís - A Tabaqueira como Paradigma.
1. Sobre a natureza da fumaça e da tabaqueira - Questões 1 a 4.
A fumaça e a tabaqueira são aparência. Mas aparência, adverte Kardec em nota, não deve ser tomada como ilusão de ótica pura, como reflexo em espelho sem substrato.
A observação do Sr. Sanson é crucial: a imagem no espelho impressiona a chapa daguerreotipiana, logo possui um princípio material. São Luís confirma:
Certamente. É com o auxílio desse princípio material que o perispírito toma a aparência de vestimenta.
Aparência significa aqui imagem, reprodução ideoplástica. A tabaqueira real não foi transportada. Foi confeccionada ali, no momento, com a matéria elementar.
2. Sobre o mecanismo criador - Questões 5 a 7.
Não há duplo etéreo dos objetos. O que há é o Fluido Cósmico Universal, matéria primitiva elementar disseminada no espaço. O Espírito exerce sobre ele um poder que estamos longe de suspeitar. Por sua vontade, concentra esses elementos e lhes dá forma aparente, adequada ao seu projeto.
Ele não encontra a tabaqueira pronta. Ele a forma e depois a desfaz. O mesmo se dá com vestes, joias e todo o mobiliário de além-túmulo.
3. Sobre a tangibilidade e as propriedades adventícias - Questões 8 a 11.
Este é o ponto de maior lucidez. Pergunta Kardec: essa tabaqueira, tão visível que iludiu a vidente, poderia tornar-se tangível? Sim. Poderia ser tomada nas mãos como autêntica? Sim. Se aberta, teria rapé? Sim. Se aspirado, faria espirrar? Sim.
Logo, o Espírito não confere apenas forma, mas propriedades específicas, organolépticas e químicas, à matéria por ele agregada. É a demonstração cabal de seu império sobre a matéria.
4. Sobre os limites ético-providenciais - Questões 12 a 14.
Poderia fabricar veneno e envenenar? Poderia, mas não o faria, porque não teria permissão. Poderia fabricar substância salutar e curar? Sim, muitas vezes. Poderia fabricar alimento e saciar? Sim.
Kardec acrescenta nota de profunda prudência: a substância produz sensação de saciedade por ação sobre a economia orgânica, mas não a saciedade nutritiva permanente. São fenômenos raros, excepcionais, jamais subordinados ao capricho humano, sob pena de concorrência desleal com farmacêuticos e padeiros. É a lei da utilidade que rege a permissão.
5. Sobre a permanência e o valor - Questões 15 e 16
Poderia fabricar moedas? Pela mesma razão, sim. Mas poderiam ter caráter de permanência? Poderiam, mas isto não se faz. Está fora das leis. Toda criação fluídica é por essência temporária e subordinada. Sua estabilidade prolongada violaria a harmonia das leis naturais.
6. Sobre a hierarquia e a inconsciência do poder - Questões 17 a 22
Nem todos os Espíritos possuem esse poder em igual grau. Quanto mais elevado, mais facilmente o obtém, embora por vezes Espíritos inferiores também o obtenham por concessão providencial quando útil.
Mais notável: essa faculdade pode ser exercida à revelia da consciência, por automatismo instintivo, como o peixe-elétrico irradia eletricidade sem compreender seu mecanismo. Daí o caso de Espíritos inferiores que se iludem a si mesmos, julgando-se ainda cobertos de diamantes e paramentos terrenos, como a rainha de Oude evocada em março de 1858. O Espírito superior sabe que criou a roupa. O inferior crê que a possui.
IV. Corolário Supremo - A Pneumatografia.
A questão final de Kardec revela o objetivo do artigo:
Se pode tirar do elemento universal os materiais para fazer todas essas coisas, também pode tirar o necessário para escrever.
São Luís responde: Finalmente o compreendeis.
Se o Espírito pode condensar matéria para fazer uma tabaqueira tangível, pode condensá-la para fazer traços grafitados. A diferença é de finalidade: objetos volumosos são desfeitos após o uso; sinais gráficos são conservados, porque convém que o sejam. Eis a chave da escrita direta, o mais extraordinário fenômeno do Espiritismo experimental.
Síntese Doutrinária.
A teoria pode ser resumida no axioma final de Kardec, de rigorosa precisão metafísica:
Há formação, mas não criação, visto que o Espírito nada pode tirar do nada.
Não existe mobiliário de além-túmulo no sentido literal. Não há guarda-roupas e tabaqueiras eternas no mundo dos Espíritos. Há o pensamento do Espírito atuando como buril sobre a matéria cósmica primitiva, plasmando formas transitórias para se fazer reconhecível, para impressionar, para atestar sua presença.
O cachimbo, a fumaça e a tabaqueira não eram, portanto, objetos. Eram atos de vontade coagulados em matéria.
“UMA FLOR GELADA SOBRE O MEU TÚMULO”
Não me tragas rosas incendiadas pelo entusiasmo efêmero dos homens.
Deposita apenas uma flor gelada sobre o meu túmulo.
Uma flor silenciosa.
Pálida como os corredores da memória.
Imóvel como os sinos abandonados das catedrais esquecidas pelo tempo.
Certas almas não morrem de uma vez.
Vão tornando-se inverno lentamente.
Primeiro calam os sonhos.
Depois os afetos tornam-se semelhantes a retratos cobertos por poeira.
Por fim, o coração aprende a respirar na penumbra, como uma criatura antiga escondida sob as ruínas da própria esperança.
Quero uma flor fria porque o mundo aqueceu demais as próprias máscaras.
Os homens sorriem com os dentes enquanto apodrecem moralmente por dentro.
Abraçam apenas por conveniência.
Pronunciam virtudes como atores fatigados diante de um teatro decadente.
E aquele que observa demais termina condenado à solidão das inteligências melancólicas.
Sobre meu túmulo não coloquem discursos.
Nem orações repetidas sem sentimento.
Nem lágrimas produzidas pelo remorso tardio.
Apenas uma flor gelada.
Talvez um lírio branco tocado pela geada da madrugada.
Talvez uma camélia cinzenta semelhante às lembranças que nunca conseguiram morrer completamente.
Porque existem tristezas que ultrapassam a matéria.
Dores que não pertencem ao corpo, mas ao espírito cansado de atravessar séculos humanos repletos das mesmas misérias morais.
O homem evoluiu as máquinas, porém continua primitivo nas emoções.
Construiu cidades luminosas, enquanto conserva abismos dentro de si.
E quando a noite cair sobre minha sepultura, talvez o vento compreenda aquilo que ninguém compreendeu em vida.
Que certas almas não desejavam aplausos.
Desejavam apenas autenticidade.
Um único afeto sem artifícios.
Um único olhar sem mentira.
Um único amor capaz de sobreviver ao frio metafísico deste mundo.
Então deixai sobre mim a flor gelada.
Ela será mais sincera do que quase toda a humanidade.
O silêncio é o útero onde as melhores palavras são gestadas, mas é também o túmulo onde enterramos as coisas que nunca tivemos coragem de dizer. Eu vivo nesse intervalo entre o nascimento e o enterro, tentando parir frases que sobrevivam à minha própria morte.
A lagarta acreditava que o casulo era o seu túmulo. Debatia-se contra as paredes estreitas, lamentando a perda da liberdade. O que ela não sabia era que algumas prisões não existem para nos limitar, mas para nos ensinar a voar sem medo da altura.
- Tiago Scheimann
Diante do túmulo, todo o remorso se transforma em flores; todas as lágrimas que nunca caíram dos olhos, em um gesto de condolências. Toda a bondade que nunca foi compartilhada se transforma em elogios. Ah, se o cadáver falasse! Ele certamente diria: "Guarde para o seu orgulho, já não me serve, pois já não existo."
0105 "Caso eu morra 'mesmo' (como dizem), não precisam chorar sobre meu túmulo. Prefiro que nunca se aproximem da viúva!"
"Se um dia Eu morrer, não precisa chorar sobre meu túmulo. Prefiro que nunca se aproxime da viúva!"
Frase Minha 0105, Criada em 2007
USE, MAS DÊ BOM EXEMPLO.
CITE A FONTE E O AUTOR:
thudocomh.blogspot.com
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