Todo Amor Precisa ser Alimentado
FORA DE MIM
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Perco todo esse tempo que tenho a ganhar,
quando sonho apressado e desprezo critério,
pois o mundo é mistério por ser desvendado
e voar nos exige visão de horizonte...
Já perdi muita vida por saltar no escuro,
por querer em excesso e me soltar ao léu,
rabisquei tanto céu e terminei no chão
do futuro passado, perdido e no fim...
Hoje quero conter os impulsos incautos,
o meu tempo de saltos avançou a idade,
mas às vezes esqueço que cheguei aqui...
E me perco nas perdas do tempo já gasto,
me devasto e jamais me replanto a contento,
porque tento correr para fora de mim...
CIDADE SEM HONRA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
A cidade onde vivo perdeu todo brio;
há um vulto sombrio sobre os nossos olhos;
um temor, uma fuga, um sonhar escondido
pra ninguém acordar e perceber-se gente...
Os algozes do povo comemoram dias
de fartura extraída em estoques alheios;
burlam nossos direitos, roubam nossos sonhos,
com a velha magia da doce mentira...
Nossa honra se cala, se deixa ruir,
não responde, não grita, não expõe seu basta;
quando pode ser livre refaz a senzala...
Os ladrões da cidade nos tomam de nós,
nosso veto recua no dia do voto
e da voz que mastiga nossa liberdade...
MÁGOA DE PAPEL
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Faço todo silêncio a que tenho direito,
pra falar sem palavras e nenhum temor,
sobre a mágoa que trago no sótão do peito;
amordaço e não deixo escapar o clamor...
Isso cabe ao papel; nele posso compor
uma prosa, um poema para dar meu jeito
e pintar de magia os contornos da dor;
só chorar solitário, nos braços do leito...
Aprendi esta forma de fluir lamentos;
minha escrita se adorna dos breves momentos
dessa doce utopia de só ser escrita...
Estes versos endossam a minha missão;
dou às pautas os males do meu coração;
suavizo com letras o que sangra e grita...
O PODER DO COMPROMISSO
Um conselho que dou a todo pai, é que ele tenha uma ocupação oficial. Um emprego, se não for empresário ou profissional liberal estabelecido. Não servem biscates, porque biscates não são compromissos, e o termo biscateiro é algo bastante pejorativo: o desempregado que faz uma coisinha aqui, outra ali, para não pegar mal, mas quando não quer ir ao trabalho, não vai. Se ele tem um emprego “fácil”, daqueles que ocupam poucos dias ou poucas horas de seus dias, não importa: ter o compromisso fixo desses dias e horários dá dignidade. É um emprego; um compromisso formal que ele podechamar de seu.
E se você é pai empresário ou profissional liberal estabelecido (tem seu escritório, sua clientela, sua rotina de trabalho...), ou até mesmo um trabalhador informal desses que chamam de ambulante ou camelô, não faça de sua função uma brincadeira, deixando a responsabilidade para terceiros e se enfurnando em casa enquanto os outros trabalham por você e sua clientela não sabe o que está acontecendo. Vá trabalhar, cumprir seus compromissos, ser homem sério, devidamente ocupado. Seja digno do conforto e do descanso no aconchego do lar, nas horas certas, exatamente por ser um trabalhador regular. Que trabalha, duro ou não, mas regularmente; é comprometido com um emprego, um negócio, uma causa, e não falta ao dever.
Este conselho não é exatamente pelo bem do pai. Nem mesmo da mãe, que no fundo gosta (ou pensa gostar) de ter o marido sempre à mão. A preocupação maior deste artigo é com o filho, que cedo ou tarde, perderá o respeito pelo modelo precário de homem que tem em casa. Perderá também pela mãe, que não se respeita e dá suporte a esse homem. E acreditem: ter um filho que não admira, e consequentemente não respeita os pais, é algo muito triste.Com promessa de consequências futuras drásticas.
EMPREENDEDOR TERMINAL
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Já não há tempo a ganhar.
Perdi todo o meu tempo
não tendo tempo a perder.
EGO E CARÁTER
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Não julgue todo o mundo
pelo caráter de alguns.
Nem todo o mundo é todo mundo.
FIM DE NOVELAS
Demétrio Sena, Magé - RJ.
As novelas perderam todo enredo;
não há drama real nem fantasia;
nada é sério nem tem senso de humor
ou amor; ou mistério; tudo é fútil...
Ver novela é costume de ver algo
e manter olhos fixos na tela,
ser fiel ao cardápio da emissora
por preguiça de sair do canal...
Acabaram-se os dramas convincentes,
os olhares e os gestos verdadeiros,
textos plenos, vertentes criativas...
Não há mais a novela como a vida,
nem a história vestida de magia
que nos leve a sonhar além da trama...
FELIZ ANO TODO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Peço a todos, licença para não gostar, nem mesmo agora, no calor das obrigações do fim de ano, daquela pessoa que o meu coração ainda considera indigna de afeto, respeito e admiração. Verdade não dá trégua. Sinceridade não tira férias. E se de repente me deu aquele desejo de perdoar ou ser perdoado, peço também licença para fazê-lo depois. Bem depois da fragilidade a que somos expostos no fim do ano, por influência das propagandas e as mensagens institucionais específicas destes dias.
Depois, sim. Caso ainda sinta esse desejo de me aproximar ou reaproximar de quem quer que seja, quero fazê-lo despojado; sem emoções obrigatórias e qualquer selo de religiosidade sincera ou hipócrita. Que seja mesmo eu, aquela pessoa prostrada ou ereta confessando as falhas e pedindo perdão ou praticando a grandeza de perdoar; o que é bem mais fácil, porque nos deixa bem "na foto". Seja qual for minha posição, ela só há de ser autêntica ou pelo menos confiável, se o meu caráter não estiver bêbado nem hipnotizado pela ocasião maciça. Mais ainda, se a minha temperança, boa vontade ou repentino amor ao desafeto secular não tiver montado suas bases em conveniências de última hora.
Quem espera qualquer atitude nobre de minha parte, pegue a senha e fique na fila. Detesto correr o risco de fazer firulas ou dar espetáculos ocasionais que a médio prazo poderão perder consistência e gerar interrogações. Tenho, sim, velhos arrependimentos que pretendo expurgar um dia, com pedidos de perdão, porque me sinto mesmo culpado, e até alguns perdões para distribuir, pois algumas pessoas, mesmo poucas, também me devem esse pedido e até já o fizeram. Só falta minha parte. Não sou bom em ser bom. Seja como for, nada será no fim do ano. Nem na páscoa ou no dia do perdão. Muito menos no dia da bandeira.
Quanto aos mais, aqueles que já desfrutam do que há de melhor ou menos pior em mim, quero e deixarei carimbados os meus sinceros desejos de um feliz ano todo e um próspero todo dia. Aos familiares e amigos queridos, a reiteração do amor, o respeito e admiração. Aos desafetos, meu nada. Nem ódio nem amor. Nem isto nem aquilo. Somente o lamento por não sabermos, de ambos os lados, o que estamos eventualmente perdendo, quiçá evitando, com a distância do próximo.
QUEM É VOCÊ?
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Venho e trago todo afeto;
calor humano sem fim;
você olha para o teto,
ao invés de olhar pra mim...
Outro dia tenho a sorte
de apesar do meu temor,
encontrá-la em outro porte;
até com senso de humor...
Quando penso que já sei
que você é mesmo duas,
subestimo a própria lei
do planeta; o céu; as luas...
Você enche, míngua, cresce,
se renova com vertigem,
esquenta, gela, incandesce,
é cerrado e mata virgem...
Cansei de passos no escuro;
nos vãos de sua maré;
agora só lhe procuro
ao saber quem você é...
O SONHO NÃO ACABOU
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Com tristeza profunda, vejo que todo sonho acabou. Minha esperança tardia se desfaz em sombra, fumaça e decepção... deixa de ser esperança.
Cabisbaixo, faço meia volta. Se não há mais sonho, nada resta. Não há nada que adoce a constatação deste momento sem sentido. Nem existe o que açucare a queda vertiginosa do prazer com que cheguei aqui.
Mas o mundo é fantástico. A vida é inesperada. O tempo surpreende o destino em questão de segundos, e muitas vezes o põe a favor das nossas expectativas mais frustradas.
Foi assim comigo. Eu já sumia na esquina, quando meu coração acelerou. Emocionou-se com uma voz amiga e solidária que rompeu meus ouvidos e se aninhou bem fundo.
Meu amigo há anos, o confeiteiro Nando anunciava que nem todo sonho acabara. Havia três, ainda frescos, guardados especialmente para mim.
PRECONCEITOS
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Tenho meus preconceitos. Devo confessar que, se todo preconceito fosse passível de ação judicial, os covardes, hipócritas e fofoqueiros me processariam com grande facilidade.
MAIS DA VIDA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Queira mais do que o todo ao alcance da mão,
voe mais do que as máquinas que o mundo fez,
pra chegar ao desvão das verdades ocultas
onde a voz ou a vez do infinito nos quer...
Tudo é tão inexato que pede um mergulho;
tão profundo e guardado que nos desafia;
quebre todo esse orgulho do seu pé no chão,
para dar fantasia e sentido aos instintos...
É que a vida real não precisa ser tanto,
seu encanto está justo no lado abstrato
dos caminhos tomados para qualquer parte...
Busque o bem que seus bens não conseguem pagar;
há um ar de mistério que ninguém desvenda
e se alguém o fizesse não teria encanto...
CARÁTER
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Ninguém é faixa preta de caráter, mas todo mundo pode lutar um pouquinho.
CRIAÇÃO À MODA ETERNA
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Os nossos filhos pequenos merecem todo o medo real do mundo que nos cerca. Não só merecem, como precisam desse olhar extremado que não abre a guarda e vai lá no fundo. Mesmo quando não há fundo. Mergulha intempestivamente no caos das verdades farpadas do tempo em que vivemos.
Tenhamos medo por eles, para eles não o terem depois do tempo nem nos contextos equivocados que de nada valerão. Apostemos o nosso couro, quantas vezes quisermos, mas nunca suas essências, no que não é de nosso alcance. Evitemos as ausências disfarçadas; as distâncias amenizadas por presentes; as terceirizações em nome da independência precoce. O sossego prático e frio de nossa confiança nos corações externos.
Eles tanto precisam do nosso exagero, quanto sentem profundamente a falta do excesso desse amor, quando nos rendemos ao descanso de respirar sem culpa e susto... à paz da consciência adquirida por conceitos modernos de criação menos vinculada. Só no passar dos anos, os filhos percebem todo o abandono que lhes demos com belas nominatas contemporâneas embrulhadas em bonitos discursos profissionais.
Sejamos os pais de que a inocência filial precisa. Logo a vida privará os nossos filhos dessas loucuras de amor, mas essa perda tem cura. Ela virá na saudade sempre terna e risonha do que não lhes faltou no tempo em que tiveram a proteção - ou superproteção - de tantas preocupações afetivas.
VIVA E PRONTO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Viva o todo. E se o todo for nada mais que parte, seja vivo. viva-o todo. Procure não partir o que já é partido. O tempo é arte que as nossas mãos modelam nas medidas do sonho e da esperança.
Queira e vá, mesmo sem a certeza do sucesso da ida. Saiba que a simples menção de não ir aleija e alija seus projetos; é uma espécie de bullyng contra o temor. Tem humor tragicômico e confuso, desses de chorar e sorrir da própria treva.
Caso morra o futuro logo ali, a poucos metros do presente, não importa. Logo ali já é futuro. Viva o logo. E viva-o logo, antes que o logo nem tenha chance de ser passado. Gaste o fogo do qual dispõe. Não goste nem da ideia de parar no meio do caminho.
E não se deixe acabar de tanto não viver. Também não se exceda, porque viver tem seus critérios de cuidado e observação. Jamais se tranque no próprio eu. Nunca seja um mistério para si mesmo.
DONO DO MEU TODO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Tenho fantasias inibidas de um atrevimento só meu. Uma timidez despudorada. Secretamente despudorada. Muitas vezes, meu corpo nada mais quer do que as carícias leves do vento.
Vem aquele desejo enorme de seguir uma estrada sem levar bagagem. Nem panos na pele. De não temer consequências, porque não haverá. Porque será transparente o sentido verdadeiro de um ato não tresloucado, por ser apenas libertário.
Para o que ouso idealizar, não haverá espadas nos olhos; nem cicuta nas línguas; nem pedras nas mãos de quem me vir tão eu. Tão dono do meu tudo e seu nada mais.
Nessas minhas fantasias, imagino que o corpo não agride. Que me atiro além da estampa e minh´alma veste a pele. Minha carne se torna uma vitrine sincera de quem sou por dentro.
Momentos meus. Do meu eu comigo e mais ninguém. Quando sou deus do meu mundo e toda lei é minha. Não tenho pecado, porque tudo posso no sonho que me fortalece.
INFINITO PROVISÓRIO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Hoje sinto que o sempre se fez nunca mais,
todo amor é nenhum, vejo a cara do nada,
tudo jaz onde o jazz nos tirou pra dançar
no salão das quimeras que dão rumo à vida...
Porque fomos eternos provisoriamente,
nossa chama imortal foi chamada e se foi,
deu à mente o que outrora foi do coração
e não disse a que veio, quando disse adeus...
Acabou essa estrada que não tinha extremo,
é de não acabar que se acaba o que paira
sobre o caos insondável de muitos mesmismos...
Já não resta sentido para sentimentos
que perderam a graça, todo viço e vício,
nosso amor foi comício pros ébrios da praça...
DEIXAR DE SENTIR
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Sempre houve um pra sempre; já perdi a conta;
todo amor é assim em seu passo primário;
tudo quanto começa já traz uma ponta
pra buscar outra ponta de mais um sudário...
Imortal repetente ou eterno diário;
cada laço é uma vida que o tempo remonta,
como nosso infinito cabe num aquário
onde o pronto parece que nunca se apronta...
Quanto amor para sempre; quanta eternidade;
a verdade que agora desmenta a verdade,
quando nossa doçura virou absinto...
Aflorou no pra sempre o velho nunca mais;
outro sonho cansado retorna pro cais;
meu amor, sinto muito pelo que não sinto...
MORTOS-VIVOS
Demétrio Sena, Magé - RJ.
‘Falo com gente morta,
O tempo todo’.
Gente que criou lodo
e virou porta.
Vivo com gente fria,
sem emoção,
sem sentimento.
Que ficou vazia,
verteu no chão,
sobre o cimento.
Gente sem veia, calo,
feito rebanho,
de alma torta.
Parou entre o ralo,
o banho
e o rodo.
‘Falo com gente morta,
O tempo todo’.
TODO MUNDO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Se todo mundo faz besteiras na vida, sempre que você puder não seja todo mundo. Seja você.
