Textos para os meus Amigos Loucos
CIDADÃO EXTRAQUADRO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Os meus joelhos são livres
para rezar ou não;
para pedir perdão;
para não pedir;
sonegar sentimento.
E meus joelhos são livres
pra se arrastar;
não se arrastar;
implorar e jamais
em casamento.
Os meus joelhos têm isto
de Barrabás e de Cristo,
de anticristo,
silêncios, discursos,
notícias e nótulas.
E meus joelhos tão meus
às vezes não se definem;
às vezes aceitam rótulas.
DOIS MOMENTOS BEM MEUS
PARTIDO INJUSTO
Demétrio Sena, Magé – RJ.
Cada um que se arranje
ou se desarranje
com as causas, efeitos
de seus desamores...
Suas mágoas, rancores,
os acertos, os erros,
nem os ferros, as farpas
e suas feridas...
Ninguém tem que optar
por um lado,
se de ambos os lados
há pessoas queridas...
D. S.
SOLITARIEDADE
Demétrio Sena, Magé – RJ.
Se meu afeto
tem placa de aviso,
tenho bom senso;
evoco a ética
e o juízo.
Não tenho carinho,
não me preocupo
nem tenho lembranças;
nostalgia;
nenhuma empatia;
solidariedade.
Respeito as cinzas
da rabugice;
da solidão;
da privacidade.
MEUS DOIS EUS
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Passei muito tempo sem entender como ser poeta me fazia tão feliz e mesmo assim havia um buraco. Sentia falta, não sabia de quê. Só dei por mim sobre o que faltava, quando ganhei de presente uma boa câmera fotográfica.
Nas primeiras fotos que fiz, com a mesma loucura do poeta que sou, concluí que passei muitos anos fazendo poesia como quem fotografa. O buraco fez sentido, e foi sanado, quando passei a fotografar como quem faz poesia.
Tinha que ser poeta e fotógrafo. Tão fotógrafo poeta quanto poeta fotógrafo. Caneta e câmera se completam como me completo intimamente com os meus dois eus.
MEDO DE ASSOMBRAÇÃO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Tomarei meus atalhos escapistas,
minhas rotas opostas e distantes,
quando instantes mais densos de algum laço
derem pistas de nós indissolúveis...
Estou fraco pra pesos afetivos;
já não tenho saúde pra balanços;
para ranços que a vida só agrava
e mistérios que dá pra viver sem...
Amizades, amores, não importa,
não dou porta, janela pra conflitos
que transformem magia em pesadelo...
Solidão é melhor não sendo a dois;
meu olhar pra depois não quer presente
candidato a fantasma do passado...
EXPOSIÇÃO
Demétrio Sena, Magé - RJ.
Lubrificas meus eixos pelos teus à mostra;
o silêncio me avisa pra não levantar;
tua ostra guardada nas rendas lilases
deixa fios de mel percorrerem as fendas...
Meu olhar serpenteia nas curvas carnudas
que desaguam na fonte polpuda e viscosa,
uma rosa provoca o dedo imaginário
que deseja sangrar na surpresa do espinho...
Sei que tens um veneno que nem sei se tens
e teu corpo é promessa insinuada lá
onde bens mais profanos causam ambição...
Nesta ilha cercada por olhos atentos
aos intentos que trago e à causa dos tais,
meio peço a teus eixos um esconderijo ...
NOITE FOGOSA
Demétrio Sena - Magé
Numa noite fogosa, de sons indecentes,
os meus eixos e sulcos numa contorção,
minha pele sentia o roçar de seus dentes
e mostrava mais pontos pra sua incursão...
Foi um sonho banhado pela sua língua
passeando em meu corpo inquieto e fremente;
provocando a carência de quem morre à míngua,
com saliva melosa e seu hálito quente...
Nossas carnes expostas ao denso braseiro;
nossos corpos grelhados, também de fumeiro
se comeram com fome de bando feroz...
Sua flor lambuzada pela seiva densa
finalmente se abriu e minha recompensa
escorreu como rio; jorrou feito foz...
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MEUS ESTADOS
Demétrio Sena - Magé
Porto Alegre
do Rio Grande
do Sul,
não fique triste...
A Bahia
de Todos os Santos
nem existe
sem Salvador...
E o Rio
de Janeiro
rompe a força
d'aguas de março...
Além do mais,
há um Belo
Horizonte
pras Minas Gerais...
A Vitória
já é certa
pro Espírito Santo;
Ceará não seria
uma Fortaleza,
sem seu encanto...
Bato Palmas
para Tocantins
a cada conquista...
E Roraima
sempre terá
uma Boa Vista...
O ano inteiro
tem Natal
no Rio Grande
do Norte...
Sou Brasileiro
que o tempo todo
crê na sorte;
rompe os estados
que se acumulam...
e vai além...
Qualquer dia
me arrumo e parto
Pará Belém...
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FANATISMO
Demétrio Sena - Magé
Os meus olhos internos não enxergam mitos
entre os donos de vagas nos halls do poder;
quero ser este pária no páreo da pátria
na qual tantos acampam à sombra de alguns...
Nunca hei de ser lêndea nos pelos das lendas
que se formam às custas da fome das massas,
recusei desde cedo as trapaças do sonho
de contar com heróis para ser o que sou...
Não entendo quem acha que alguém é seu deus
e seus olhos apagam a luz da razão,
do bom senso e do amor por afetos reais...
Fanatismo político ou religioso
nos alija do mundo e das nossas verdades;
é um dom venenoso injetado na alma...
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POR(NÓS)
Demétrio Sena - Magé
Fantasia que visto ao me despir;
tua pele grudada nos meus pelos;
meus apelos rompendo as tuas coxas,
indo às aguas profundas do prazer...
És um sonho teimoso em minhas noites,
o meu sono deságua em tua fonte,
os açoites de beijos e carícias
trazem todo meu vício à flor da pele...
Misturamos as nossas melaninas;
o suor das salinas dos desejos
nos tempera de todos os aromas...
É assim que desperto em solidão,
minha mão te procura no meu corpo
e termina por nós o que não houve...
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CANSAÇO
Demétrio Sena - Magé
Hoje a vida me pesa igual cimento
e meus pulsos parecem ter algemas,
vivo cada momento como a hora
que não sei por que tantos temem tanto...
Levo a carga do tempo no meu dorso,
há um mundo sobreposto em meu mundo,
me contorço nos becos da minh'alma
cujos pés têm a carga de aguilhões...
Eram asas as placas que me amassam
no recheio da minha solidão,
onde os anos que passam se acumulam...
Puxo as horas num saco de ferragem,
ranjo sonhos de gesso nos meus dentes
de viagem perdida já no fim...
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DIA DE MARIA
Demétrio Sena - Magé
Creio poder dizer de mim, de meus irmãos e minhas irmãs, que não existe a cura desta saudade. Terapeutas não podem ajudar a si próprios... muito menos a nós, neste sentimento. Existe um ter que seguir; um empenhar o melhor de nós em homenagem a ela, na tentativa diária de sermos merecedores póstumos da mãe que a vida nos deu de presente. Nosso dia das mães é de lembrarmos que, para nossa mãe, todo dia era dia dos filhos.
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AMAR DE NOVO
Demétrio Sena - Magé
Seu olhar me garimpa nas águas do meu;
tenho cá meus tesouros no espelho do pranto,
no silêncio das mágoas que trago bem fundo,
sob manto estendido em lembranças de amores...
Foram muitos os cortes na carne da alma;
tanto sangue talhado em esperanças vãs;
minha calma perdida na boca sem fala,
meus afãs inquietos domados em mim...
Sua voz envelopa meus traumas do tempo;
me desmonta e recolhe pra depois soltar
neste mar de memórias que tento não ter...
Só assim me descuido e permito este sonho
e me ponho de novo aos cuidados de alguém
que me cala de amor e refaz esperanças...
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MEUS IGUAIS
Demétrio Sena - Magé
Tem um mundo apressado ao meu redor,
num estouro de gente sem destino,
numa dor coletiva que se oculta
em quem dança, quem malha e dá porrada...
Vejo muita pobreza em lixo e luxo;
como tudo está cheio de vazio;
fico murcho com tantos eus inflados
que desfilam nos palcos de quimeras...
Há um surto que ri de nervosismo,
auto estimas forjadas por pressão,
no mesmismo do posso, quero e faço...
Nas mazelas da minha realidade,
meus iguais estão cada vez mais presos
nessa desigualdade que os recolhe...
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O POÇO
Demétrio Sena - Magé
Os meus olhos
no fundo do poço,
sabem que no fundo,
o mundo
está todo assim...
Após tantos danos,
pelos seres humanos,
tudo está no fim...
Vem o momento
em que a ciência
e a consciência
se unirão,
porém a esmo...
Quanto ao poço,
chegou ao fundo
de si mesmo...
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MINHA COLCHA
Demétrio Sena - Magé
Se remendo meus dias por aqui,
é porque não conheço a fraude certa
pra deixar a cortina com seus flancos
numa rua deserta e sem saída...
Vou perdendo vontades e sentidos;
descarrego as quimeras que sobejam;
calo todas as minhas tempestades
que trovejam arroubos de festim...
Ser poeta me traz algum alento;
ter o vento que acolhe meus segredos
pra guardar na distância que me chama...
Só aí se completa minha colcha,
porque forjo no tempo meus retalhos
em atalhos de sonhos desbotados...
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Respeite autorias. É lei
NOVA HISTÓRIA
Demétrio Sena - Magé
Esgotei os meus versos desse amor,
porque já me cansei de ser sozinho
no querer; no chamar; até na espera
do caminho traçado meio a meio...
Nunca hei de vencer uma razão
que resiste às verdades mais profundas,
tem um não como escudo indestrutível
contra outras razões que se afigurem...
Buscarei os meus versos noutras fontes;
vejo pontes que apontam outros vales;
vale a pena; preciso desse rumo...
Acharei um motivo pra compor
uma história de amor mais divisível
com quem tenha um olhar horizontal....
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Respeite autorias. É lei
HERÓI BANDOLEIRO
Demétrio Sena - Magé
Há um chão, mas não sinto sob o pé,
tenho ar e meus brônquios não aspiram;
nem há fé, mesmo havendo no que ter;
os instintos conspiram contra mim...
Eis o mundo, entretanto, caos e treva,
tanta vida e nenhuma em meu olhar,
porque neva em minh'alma solitária
sobre o mar onde o nada faz a onda...
Não há dor nem há gozo, e isso dói;
sou herói bandoleiro em debandada
na vertigem da própria solidão...
Levo sonhos, mas neles, pesadelos;
meus novelos tricotam mil novelas
entre as telas da minha realidade...
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Respeite autorias. É lei
Certo dia em meus pensamentos tive uma epifania, de que razão nada mais é do que, um instinto humano de proteção ao próximo.
Ja hoje me ocorre que, razão também nos priva de desfrutar algo bom, por zelarmos de mais desse próximo.
De forma que, razão se torna um paradoxo entre, viver sem preocupações, ou viver aprisionado por cuidar de mais.
Comprei uma passagem só de ida!
Viajarei em meus pensamentos, atrás de um horizonte distante, de toda essa realidade que me rodeia.
Viajarei em busca de algo, que preencha as cores dos meus pensamentos, que sempre foram preto e branco.
Viajarei como um peregrino, em direção ao arco irís, em busca de um horizonte, real e colorido.
Quem me dirá se as lágrimas que caíram dos meus olhos eram bem mais profunda do que o oceano que me banhava?
Quem me falará se o pequeno pedaço de chão onde meus pés pisaram era bem mais firme que as ondas da maré que vinha constantemente me bater onde naufraguei?
Quem adivinhará se morri ou sobrevivi naquela profundeza de um mar profundo que me lançaram? Ah! e o ar que eu prendi me diz tantas coisas (...) uma delas que estou vivo!
