Textos de Feliz Ano Novo para celebrar com esperança e otimismo

O ser humano é a única criatura capaz de transformar o planeta em um vasto cemitério e chamar isso de civilização. Enquanto os animais seguem o ciclo da vida com equilíbrio, o homem rasga a terra, envenena as águas, sufoca o ar e ergue impérios sobre os ossos daquilo que destrói. É a praga consciente, a doença que caminha de pé, vestida de orgulho e vaidade.
Os animais nunca conheceram a palavra “domínio”. Eles coexistem. Caçam apenas o necessário, dormem em paz com a própria natureza. Já o homem inventou a ganância, multiplicou a dor e declarou guerra contra tudo que respira. Chama isso de progresso, mas é apenas ruína adiada.
Na sua arrogância, acredita ser o dono da criação, mas na verdade é o carrasco do mundo. Nenhum predador foi tão cruel, nenhum vírus tão persistente quanto o ser humano. Se a Terra pudesse falar, gritaria em desespero contra seu hóspede mais nocivo.
E enquanto os animais guardam silêncio, inocência e equilíbrio, o homem cava sua própria extinção com as próprias mãos. O fim não virá como um castigo divino, mas como consequência inevitável da loucura humana. O apocalipse já não é uma ameaça distante: ele habita cada floresta derrubada, cada rio poluído, cada animal silenciado pelo grito insaciável do homem.
No dia em que os humanos desaparecerem, o planeta respirará alívio. Os animais, livres do carrasco, voltarão a reger o ciclo sagrado da vida. E então ficará claro: a verdadeira praga nunca foram eles — sempre fomos nós.


Glaucia Araújo

O amor e o ódio não estão em lados opostos, estão na mesma cama. Dormem juntos, acordam juntos, se confundem. Quem ama com intensidade, quando se decepciona, odeia com a mesma fúria. É no excesso que mora o perigo: o mesmo olhar que já foi desejo, vira veneno; o mesmo toque que já foi abrigo, se torna repulsa. Amor e ódio andam de mãos dadas, e quando um cai, arrasta o outro para o abismo.


Gláucia Araújo

Gosto do perfume dos livros antigos,
páginas amareladas, ásperas,
como memórias que resistem ao tempo.


Gosto de rir do que é bobo,
do que não cabe na lógica,
mas transborda no riso.


Gosto de comprar inutilidades,
pequenos achados sem função,
mas que enfeitam o instante
e acendem, por um dia,
a alegria.

Quando as coisas parecem que começam a dar certo, parece que está engrenando, aí tudo desmorona e a vontade de desistir é imensa.


A vida, por natureza, é um amaranhado de desafios e preocupações, uma jornada árdua que nos testa a cada passo. Mas é precisamente nesse cenário de caos que reside a beleza de uma busca: a de encontrar a felicidade.


Não se trata de negar a dificuldade, mas sim de abraçar a ideia de que é possível florescer, mesmo nas circunstâncias mais turbulentas. Encontrar a alegria em meio à tempestade não é apenas um ato de otimismo, é um testemunho da nossa resiliência.


É a prova de que, mesmo quando a vida parece desmoronar, sempre podemos construir algo belo a partir dos fragmentos.

Minha Negra Consagrada



Não esconda teus caracóis

em químicas de lisura,

tua pele é tua cor,

tua arte nua e crua.



O teu jeito tão singelo

te faz altiva, és rainha,

danças leve, sensual,

na elegância que caminha.



Lábios fartos, pele escura,

jeito doce, alma pura,

a malícia se confunde

com a ternura da tua curva.



Se soubesses o quão rica

de beleza e de candura,

não dirias ser pequena,

és gigante em tua altura.



És tão linda, és tão forte,

tua raça me encanta,

descendente de rainhas,

me governa, me levanta.



Minha negra consagrada,

meu amor mais singular,

me ensina a ser teu homem,

me ensina a te amar.



Teu corpo é como um violão,

em minhas mãos, vira canção,

floresço em ti, natureza,

perfeição da criação.


Mauricio Macedo

INTENSA SOLIDÃO

Quando muito perto aos olhos, à visão

Muito pouco ou nada é visto do que se queria

Quase uma presbiopia

Cores sem proveito à luz do dia

E de tão perto, é dentro uma paixão

E de tão densa, intensa solidão

Tudo mais, demais se atrofia

A razão à margem esquecida

Silencia, nos olhos silencia




Autor: Rayme Soares

A










Rayme Soares

Pés , ah os pés

arqueados , chatos ,

os cavos e os normais

Sejam quais tipos forem

todos uma função principal tem

A função de ir e vir




Alguns, objetos de fetiche são

São beijados , massageados

Numa atitude de respeito

amor e até subserviência

como nos conta a história




Ah, pés

Já os tive saudáveis

bem comportados

de grandeimportância na locomoção

Hoje se acham limitados

A cada passo um queixume

expresso de forma dissimulada




Ah, tempos bons

do caminhar ligeiro

Caminhar de passo leve

mas que teve um tempo breve .

pés saudáveis

quem não gostaria de ter?

Mas há imprevistos

que nos tiram esse bel prazer

Se hoje o caminhar é limitado

O coração é abençoado

de bons sentimentos é calçado

edite lima 60
agosto 2025

Ela em Minhas Entrelinhas

Os momentos que vivi com ela me mostraram
que pequenos detalhes fazem toda a diferença.
A ela contei minha vida,
a ela desabafei minha alma.

O tempo foi curto, mas intenso.
Ainda guardo, como se fosse hoje,
o primeiro almoço que tivemos juntos —
uma lembrança gravada na minha memória,
porque essa também é a nossa história.

Com ela, não fui um príncipe…
mas ela me entendeu.
Soube me colocar em um lugar
onde ninguém jamais me colocou.
Até meu aniversário ela lembrou.

Não fui o homem que ela esperava,
mas acredito que fui o homem por quem ela se apaixonou,
aquele a quem dedicou o seu amor.

Com papel e caneta, traduzo meus sentimentos.
E falando em sentimentos…
talvez ela não perceba,
mas existe uma parte dela dentro de mim.

Falar de alguém com quem vivi tão pouco,
mas que, de certo modo, me dominou,
é admitir que ela me conquistou.

A ela revelei segredos
que poucos sabem sobre mim —
e vindo de mim, isso é raridade.

Quero que ela saiba, através deste poema,
que não é em vão que escrevo estas palavras.
São sinceras.
E vêm do fundo do meu coração.

Pasquali

Quero ser difundida na densidade do seu olhar
E ser abduzida pelo seus beijos
Amo te tanto meu amor
Que mesmo quando não te vejo
Ou não te encosto
Te sinto ao meu lado
Como quem quer tudo
E hajo como quem quer
Vontade sobe
E o desejo transborda
Dentro de mim
Para fora
Fora da orbita
Por que pelo que ouço
Me derreto
Como Mantega na panela
Como se fosse deus
Te adoro
Como se fosse Cazuza
Te venero
E sou exagerada mesmo
Como quem ama
E não quer mais ir embora
Cuide de mim
Como cuido de você
Abaixe o volume
E escute minha voz
Prometo dizer so as coisas de meu coração
Memes engraçados
E textos longos
Com diversos significados
Pisco de novo
Com os olhos
Cheios de lágrimas
Com medo de te perder
As vezes te sinto
Sempre que possível
Te beijo
E me faço presença
Na sua vida
Escrevo poesias
Grandes
Poemas pequenos
Sexos longos
Ou ao menos tenho intenção
De te sentir dentro de mim
Gosto do jeito que somos um
Mesmo sendo tão diferentes
Te olho de novo
Pela 4° vez na noite
Quem mandou dormir primeiro
Oh meu bem
Talvez seja realmente louca
E talvez vc desperte mais ainda esse lado
Sem medo eu sou
Quem eu nasci pra ser
Sem medo
Ou receio
Te vejo de novo
Dessa vez brincando com os cachorros
E alego sentir inveja
De eles terem tanto do seu amor
Te amo meu bem
Sempre
Como se vivêssemos em outro mundo
Como se já te amasse a séculos
apago e te faço mágico
Tirando o amor da cartola

Trago comigo parte do mundo, no meu DNA, muito mais do que a maioria das pessoas, trago energia, trago caos , trago incoerência, inconsistência, trago a paz, o amor, a sorte e a paixão
Trago o whisky, trago a sorte, trago a morte.
Trago o mistério e a resposta, a dúvida oculta, a pista e o norte
Trago a vida, trago o espelho, a coragem, a luxúria selvagem, trago o ventre e o fogo já dormente, "aburrido..."
E se te trago é uma dádiva, uma troca, um pouco de mim vai, um pouco de ti fica
Em um grito, um eco, um gemido




Trago comigo o mundo em pedaços,
cravado no sangue, bordado nos traços —
mais do que muitos, mais do que sei,
trago o que sou, e o que deixei.
Trago energia, trago o caos,
sou incoerência, sou vendaval.
Trago a paz que dorme em silêncio,
o amor febril, a sorte — o incêndio.
Trago o whisky queima-garganta,
trago a morte que nunca espanta.
Sou mistério e sou resposta,
sou a dúvida oculta, a pista, a rota.
Trago a vida em seu espelho,
a coragem, o desejo vermelho.
Luxúria em carne, ventre em brasas,
o fogo adormecido nas madrugadas.
“Aburrido...” — murmura o tempo,
mas sou um grito, um eco, um lamento.
E se te trago, é dádiva e troca:
um pouco de mim vai,
um pouco de ti, ainda me toca.
Trago tudo — e nada explico.
Sou o verbo antes do grito.

UM DIA...


Me despertei poeta
Fiz parceria com minha inspiração
Entendendo as trilhas a seguir
Revestir -me de emoção.


Despertei -me poeta
Plantando flores
Pintando a vida
Com belas cores.


Despertei -me poeta
Desvendando segredos
Buscando encarar
As covardias e os medos.


Despertei -me poeta
Rabiscando um verso
Escrevendo minha história
Avaliando o reverso.


Foi quando me sentir poeta
Publiquei meu primeiro poema
Entre críticas e descasos
Hoje enfrento qualquer problema.


Irá Rodrigues..

Olha só como o jogo virou ne!!



Um dia por vez — é assim que eu tento me concentrar,
colhendo pequenos segundos como quem junta cacos de vidro.
Sua ausência me assusta; sua falta, curiosamente, me cura.
Ando, e a cada passo desato um pranto de amor —
choro o que fomos e me reconstruo com as próprias mãos.

Você já me amou? Pergunto ao eco, porque duvido,
mas sei — havia pedaços seus que cabiam em amor.
Sinto seu cheiro no travesseiro, sua pele em lembrança quente,
mas não posso te tocar; não posso mais me enrolar em você.
Sinto falta do seu beijo — daquela risada que vinha depois,
do riso ao beijar sua barriga, daquela alegria desajeitada.

Às vezes sinto que tomei a decisão certa; outras, vacilo.
Nessas horas a solidão sussurra desejos que já não fazem sentido,
uma força antiga querendo voltar onde o fogo só consumia.
Mas sigo: um dia, um passo, uma respiração —
aprendendo que cuidar de mim é não apagar o brilho,
é deixar as brasas virarem memória e não prisão.

E se ainda chego a duvidar, permito ao menos esse perdão:
hoje me escolho, mesmo que doa, mesmo que trema.
Porque amar também é soltar, é aprender a costurar a própria alma —
e um dia por vez, reaprendo a ser inteira.

CARTA DE SOCORRO


A quem ainda pode me ouvir,
Aos que ainda sentem a terra sob os pés,
Aos que ainda se lembram que sem natureza não há futuro:


Socorro!


Eu sou a Caatinga.
Sou o único bioma exclusivamente brasileiro.
Nasci do calor, cresci na escassez, floresci na resistência.
Durante séculos, abriguei povos inteiros, curei feridas com minhas raízes, alimentei famílias com meus frutos, e dancei com o vento seco sob o sol ardente.
Hoje, estou morrendo.


Tenho sido queimada, arrancada, esquecida.
Espécies que guardava como tesouros — como o pau-ferro, a baraúna, o umbuzeiro, o mororó, o juazeiro e o mandacaru — estão sendo levadas embora, uma a uma.
Meus filhos verdes, meus espinhos de proteção, meus galhos retorcidos de luta, estão sendo transformados em cinzas, carvão e silêncio.


Me chamaram de pobre, de seca, de lugar sem vida.
Mas nunca perguntaram o quanto dei de mim para que a vida sobrevivesse aqui.
Nunca olharam com carinho para o que fui capaz de sustentar, mesmo com tão pouco.


Eu sangro em silêncio, mas agora grito: me recatinguem!
Me curem.
Me deixem respirar de novo.


Não quero virar lembrança em livros didáticos.
Não quero ser só nome em relatório de extinção.
Quero ver de novo as folhas do umbu se abrindo depois da chuva.
Quero ouvir o barulho das ararinhas-azuis que quase não existem mais.
Quero acolher de novo o vaqueiro, o sertanejo, o viajante.


Peço socorro aos cientistas, aos agricultores conscientes, às escolas, aos jovens, aos povos originários e tradicionais. Peço socorro a quem ainda me reconhece como vida.


Plantem o que sou.
Ensinem quem fui.
Preservem o que restou.
E devolvam-me o que me tiraram: o direito de continuar existindo.


Eu sou a Caatinga.
E eu ainda resisto — se vocês resistirem comigo.


Com dor e esperança,
Caatinga a voz esquecida do sertão.


Emmanuel.limap

Sua luz, distante e pura, em meu céu,
Um farol que guia meu silêncio, meu véu.
Não ousarei chegar perto, nem tocar seu chão,
Pois a beleza que admiro não é para minha mão.
Você sorri, e o mundo inteiro se ilumina,
Em meu peito, uma flor que não se inclina.
Sou apenas uma sombra, na esquina da vida,
Amando uma estrela que nunca será atingida.
Eu a vejo passar, e o tempo para,
Seu perfume, a brisa suave que me abraça.
E em cada olhar que não é para mim,
Planto um amor que nunca terá um fim.
Não desejo a posse, não quero ser seu par,
Apenas a sorte de, de longe, poder amar.
Você é a poesia que nunca escreverei,
O sonho bonito que sempre sonharei.

O Silêncio que Fala Mais Alto

Sempre achei curioso o fascínio moderno pelos podcasts. Milhares de vozes, todos os dias, despejando pensamentos, opiniões e experiências em um fluxo infinito de conversa. É como se a humanidade tivesse descoberto, finalmente, o jeito de falar sem parar — e, mais do que isso, sem ser interrompida. Há quem chame de revolução na comunicação; eu vejo como a consagração de um instinto antigo: o de falar mais do que ouvir.

Não me entenda mal. Há podcasts brilhantes, daqueles que parecem uma extensão da alma, que abrem portas para mundos desconhecidos. Mas, na maioria das vezes, percebo que o objetivo não é compartilhar, e sim existir pelo som da própria voz. É um palco portátil, onde cada um pode ser mestre de si mesmo, declamando certezas como quem ergue bandeiras. Falar se tornou uma forma de respirar. Ou talvez, para alguns, seja a única maneira de não se afogar.

Eu, no entanto, nunca tive essa ânsia. Prefiro estar na plateia invisível, nos cantos da sala, com o fone no ouvido, deixando que as vozes alheias se acomodem na minha mente. Não porque eu me ache menor, mas porque sei que é no silêncio que colho mais frutos. Quem fala está ocupado demais afirmando o que já sabe; quem ouve, se abre para o que não conhece.

A ironia é que, nos podcasts, mesmo quando se convida alguém “para ouvir”, na prática, é para esperar a vez de falar. O diálogo cede espaço ao monólogo de duas cabeças. É um jogo de pingue-pongue onde a bola, às vezes, nem precisa voltar — basta continuar girando dentro da própria mão.

Vivo me perguntando se a arte de ouvir não está se tornando uma espécie em extinção. Talvez, no futuro, surjam podcasts silenciosos, onde se transmitam apenas pausas, respirações e o som do mundo acontecendo. Quem sabe aí a gente descubra que, muitas vezes, o que mais precisamos não é dizer algo, mas escutar o que o silêncio já vem dizendo há muito tempo.

E eu estarei lá, ouvindo. Sempre ouvindo.

- Eduardo Medeiros -

Calunga da Alma: Umbanda em Versos Alquímicos


Não é só na guia, no atabaque ou no giro,
Mas na sombra que dança no fundo do respiro.
A Umbanda não vem só de folha ou raiz,
Vem do abismo do ser, onde o eu se infiltra e diz:


"Quebranta-me, Preto Velho, com teu cachimbo lento,
Desfia este novelo de falso sofrimento.
Mostra-me na kalunga do inconsciente fundo,
O Exu guardião do meu desejo infindo.


Eis que o terreiro é espelho: arquétipo em transe,
Jung e Lévi-Strauss no mesmo passo que dança.
Ogum desce no ferro da couraça quebrada,
Oxóssi flecha a angústia, caça a alma atordoada.


Iemanjá é o útero, o mar primordial,
Onde o ego se afoga num sal gélido e igual.
Ela lava na espuma o complexo enraizado,
O trauma cristalizado, o amor não realizado.


Oh, Pombagira gira no eixo da libido,
Desata o nó do gozo, do que foi reprimido.
Seu riso é catarse, seu gume é análise,
Desvelando na lama a mais pura promessa.


A magia? É símbolo que opera no osso,
Projeção transformada em axé, sangue e gozo.
O médium, o transe, não é Narciso ferido, é amparo
Enxergando no orixá seu duplo esquecido.


A cura não é fuga, é integração profunda:
O inconsciente coletivo que em santo se desfunda.
O ego se dissolve no ponto riscado no chão,
E renasce no corpo de luz, em comunhão.


É "Erzulie" no espelho quebrado da autoimagem,
Xangô julgando a culpa, cortando a ramagem
Do superego severo, da moral que oprime,
Restituindo o sujeito ao seu centro sem crime.


A Umbanda opera a grande sublimatio...
A pulsão devoradora, em caridade e ofício.
O desejo recalque, em gesto de dar,
O ódio ancestral, em perdão sem parar.


Não é magia menor, feitiço no escuro,
É "magnum opus" da alma no cadinho do futuro.
É a psique em procissão, arquétipo em terreiro,
Desfazendo o sintoma, curando o mundo inteiro.


No silêncio que ensurdece após o último ponto,
O eu, agora coletivo, perde seu contraponto.
A vida transformada? Não por mero milagre,
Mas porque a alma, enfim, aprendeu a ser ponte
Entre o abismo e o astral,
Entre o humano e o divino,
Entre a dor e o axé,
No terreiro, destino....

“Antes que o tempo nos leve” - De João Moura Júnior (2023)

O tempo passa, apaga caminhos,

deixa histórias, e homens sozinhos.

Alguns se vão sem um último abraço,

outros resistem, são fortes, são laços.



Se a saudade pudesse falar,

gritaria o que eu quis calar.

Eu queria ter dito, queria ter sido,

palavras que o vento levou pro mar



Antes que o tempo nos leve, me escute, me veja,

se existe amor, que ele, então seja.

Não deixe pra depois, não espere o final,

pois tarde demais é sempre fatal.



Tia Bia, vida que brilha em tom de sabedoria,

um olhar puro e doce, uma belezinha.

Tem tanto a viver, tem tanto a ensinar,

Com um coração que só sabe amar.



Se eu pudesse voltar o tempo, diria sem medo:

“Pai, mãe, vocês foram o meu enredo”.

Mas a vida não volta, só segue pra frente,

E quem fica pra trás vira um eco ausente.



Antes que o tempo nos leve, me escute, me veja,

se existe amor, que ele, então seja.

Não deixe pra depois, não espere o final,

pois tarde demais é sempre fatal.



Hoje eu vivo sem esperar o tempo passar,

mas se há um amor, que elesaibaficar.

Se o futuro é o presente que ainda não veio,

o que resta do seu tempo eu me presenteio.

Veem-me cinzento.
Mas não é por falta de cor —
é por não pintarem devagar.

Não sou o que mostro.
Sou o que seguro para não cair.
O que calei para não ferir.
O que deixei por dizer
quando me disseram que já não havia tempo.

Aprendi a vestir sombras
com a dignidade de quem sabe
que até a noite tem camadas.

Ergui castelos no ar
com mapas rasgados.
Com linhas tortas, sim,
mas desenhadas com silêncio aceso.

Procurei luz sem a pedir.
Preferi arder por dentro
a que me apontassem o fogo.

E quando me disseram que o mundo era
preto ou branco,
guardei as cores no bolso.
Não para esconder —
mas para que alguém as quisesse ver.

Sou feito de todas as coisas
que não se veem à primeira.
De silêncios que gritam.
De memórias que ainda não aconteceram.
De palavras que nasceram antes da boca.

Não preciso de ser lido.
Mas se me lerem, que não me distorçam.
Procurem a cor, não as trevas.
As que tremem.
As que resistem.
As que sou.

MONÓLOGO

“Eu Sou Tereza, Eu Sou Quilombo

Por Eli Odara Theodoro
(Para o Julho das Pretas)

:
Axé…
Axé, minhas irmãs!
Eu cheguei.


Julho chegou.
E com ele, eu me levanto.
Não sozinha — nunca sozinha.
Me levanto com Tereza.
Sim, Tereza de Benguela…
Mulher preta, mulher quilombola, mulher rainha.
Liderança. Inteligência. Força política e amor pelo povo.

No século XVIII, quando mataram seu companheiro,
ela não fugiu.
Ela ficou.
Assumiu o Quilombo do Quariterê.
Criou um governo, um parlamento, uma resistência com nome de liberdade.

Ela sabia…
Que resistir era também amar.
Que ser preta, mulher e viva
já era um ato revolucionário.

E eu…
Sou continuidade de Tereza.
Sou Eli Odara Theodoro .
Mulher preta. Quilombola.
Mãe. Viúva. Educadora.
Filha da terra e dos tambores.
Minha pele carrega o barro da luta,
minha voz carrega as palavras que tentaram calar.


Como diz Beatriz Nascimento:
“O quilombo é um lugar de liberdade possível.”

E eu sou esse lugar.
Meus passos são quilombo.
Minha fala é quilombo.
Minha sala de aula, meu terreiro, meus textos, minha lida — tudo é território de reexistência.

Sueli Carneiro grita comigo contra o apagamento.
Lélia Gonzalez me lembra que o mundo é racista e tenta nos empurrar pra margem.
Mas nós somos centro!
Centro da cura, do cuidado, da criação.



Conceição Evaristo sussurra aqui dentro:
“Escrevivência…”
E é isso que faço.
Eu escrevo com o corpo.
Escrevo com as dores e alegrias que a vida preta me deu.


IBGE diz: somos 28 milhões de mulheres negras no Brasil.
Mas isso é só número.
Nós somos mais!
Somos as que levantam antes do sol.
As que dançam pra Oxum e marcham contra o racismo.
Somos as que cuidam dos filhos dos outros enquanto sonham com futuro pros seus.


Djamila Ribeiro me lembra:
“Nosso lugar de fala não é favor.”
É luta.
É direito.

Nilma Lino Gomes grita comigo:
Educação quilombola é território de sabedoria viva!
Não tem sala de aula mais forte que o chão de nossas comunidades quilombolas.

E como diz bell hooks:
Amar também é ato político.
Eu escolho amar quem sou.
Escolho amar os meus.
Escolho amar as mulheres que vieram antes,
e aquelas que ainda virão.


Hoje…
Eu não só homenageio Tereza.
Eu a convoco.
Tereza está em mim.
Tereza está em nós.

Porque, como diz Conceição Evaristo:
“Nossos passos vêm de longe.”

E eu completo:
Vêm de longe…
E seguem firmes.
De cabeça erguida.
Pés fincados na terra.
E o coração batendo no ritmo da ancestralidade.


Axé, Tereza!
Axé, Mulheres Negras!
Axé, Julho das Pretas!

Quando um pai vem ao mundo...

Quando o filho nasce, o Dia dos Pais começa.

É ali, naquele momento que a vida do homem se transforma.

Vendo a representação de si ocupar o mundo

Ao abraçar o filho pela primeira vez

Um novo significado de amor faz-se presente.

Pai é proteção, amor e inspiração.

É mostrar o mundo ao filho e ensiná-lo a viver.

E quando um filho abraça o pai

Ele toma a sua força e vai em frente com mais leveza e confiança.

Não é fácil a rotina de um pai, mas é um presente de Deus.

Você se lembra quando se tornou pai? Lembra-se da primeira noite acordado?

Das primeiras palavras, do primeiro tombo, do primeiro dia da escola de seu filho?

Aos poucos o filho vai crescendo e a função do pai também.

Vem a escola, o namoro, a faculdade do filho, vem a maturidade e suas escolhas,

E sem querer o pai se percebe em um outro lugar,

Um lugar de diálogo entre iguais.

Os filhos viram companheiros,

Até que os pais se amparam nos filhos.

O ciclo da vida é esse, acolher e ser acolhido.

E nessa construção feita com tantas mudanças,

O que continuará ali entre um pai e um filho

Será sempre o amor, com sua função insubstituível,

Unindo dois seres que não se fazem sozinhos.