Textos de Beleza

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O Cadáver da Rosa e o Silêncio das Palavras
​A rosa é a simplicidade da beleza de um cadáver já em decomposição orgânica. Ela se desfaz enquanto serve de adorno, fazendo do seu perfume o último suspiro de vida. Esse aroma dispersa o pólen em um mundo transbordante de palavras isoladas, mas escasso de verdadeiras narrativas.
​No silêncio, a rosa murcha e seca, feito uma alma que se esvaziou de sentimentos, embora ainda a achem linda ali, estática no centro de uma mesa vazia. Enquanto isso, vozes fanáticas viajam pelo tempo e pelo espaço, ecoando distantes em sua linguagem única.


Por Celso Roberto Nadilo

​Os buracos brancos seriam de uma beleza única, singulares no universo: entidades que obliteram a realidade e rasgam o ambiente. É notório que o vórtice do espírito seja o prólogo dos céus — ambientes surreais nas paralelas da existência. Tantas distinções em olhares que sequer piscam, pois, se piscarem, o tempo se torna a areia que devora a si mesma.
​Nessas manchas vermelhas dos sóis, vemos a energia viajar através das eras; nas lágrimas reais, contemplamos o microcosmo — este que, despido de definições ou resquícios de dúvida, reporta a própria descoberta. Tudo se conecta, não como uma mera evolução linear de eventos, mas como a própria realidade em que habitamos, imersa nas propriedades da probabilidade.
​A realidade dita "concreta" é uma evolução desconectada: a alienação gera convicções e certezas que distorcem o cosmos, reduzindo a razão a uma nota de rodapé sobre o fato. Seja o buraco branco ou o negro, ambos revelam nossa extrema fragilidade diante do tempo e de suas ondas massivas de continuidade. Fato lógico: cada segundo é a simplicidade de um piscar nessa realidade ambígua. Por isso, percorro pensamentos pelas galáxias do espaço — seja o exterior, seja o interior, lá no início de tudo.

No horizonte de eventos.
Tudo é visto com a beleza.
Qual seria o seu horizonte de eventos?
Pois a busca por beleza te faz admirar algo?
E enquanto isso nota feiura e contraste do caos te faz ter sentimentos. Para o qual o evento te proteja em sua mente a inércia da imagem. E tudo que se faz ou seja torna se maravilhoso. Num estado absurdo os sentidos lhe da realidade.
Os sentidos lhe dao liberdade e um sentido da vida.
Sem os sentidos vivera dentro da escuridão não haveria sentimentos apenas lembranças.
De um evento parado numa cena do desconhecido.⁠

Criar versos para ter tempo pra babar
a beleza da linguagem.
Como as palavras são capazes; aqui são um pensamento, em outras frases outros...
Olhar olhar elas causando pensamentos só porque elas podem
Olhando os traços parecendo que em
vez de tinta na caneta o poeta tinha mel; mais uma olhada, uma olhadinha nada de boba...
Tirar uma casquinha não custa nada
-- ah linguagem -- tu passa balança os sentidos de qualquer jeito não importa a palavra...




Leonardo Mesquita

Dizem que ela perdeu demais.
A beleza da juventude, o tempo que não volta, o emprego, os planos.

Mas ninguém viu o dia em que ela decidiu não desistir de si.

Ela entendeu que recomeçar não é voltar pro zero.
Recomeçar é usar os pedaços que sobraram e construir algo novo.
É pegar a sabedoria que a dor ensinou e transformar em coroa.

Ela não tem mais 20 anos.
Tem algo melhor: tem história.
Não tem mais o mesmo emprego.
Tem as mãos que ainda sabem trabalhar.
Não tem mais o mesmo tempo.
Tem o agora. E o agora basta.

Devagar ela vai.
Planta de novo.
Sorri de novo.
Acredita de novo.

Porque quem já perdeu tudo...
descobre que ainda tem o mais importante:
a si mesma.

E com isso, ela pode começar quantas vezes forem preciso.

Havia uma pessoa que levaram quase tudo.
Levaram a beleza que ela tinha quando era jovem.
Levaram o tempo que não volta mais.
Levaram o emprego, a rotina, o chão.

E por um tempo ela achou que tinha ficado sem nada.

Mas ninguém conseguiu levar o que ela é por dentro.
Ninguém levou a força de levantar quando dói.
Ninguém levou a sabedoria que só a vida ensina.
Ninguém levou a luz que acende nela mesmo nos dias escuros.

A juventude foi embora, mas ficou a maturidade.
A beleza mudou, mas ficou a dignidade.
O emprego acabou, mas não acabou a capacidade de recomeçar.
O tempo passou, mas o que importa é o que ela ainda vai fazer com o tempo que resta.

Ela não é o que perdeu.
Ela é tudo o que sobreviveu.
E quem sobrevive, reconstrói.
Devagar. Um pedaço por vez.

Porque no fim, o que ninguém pode tomar...
é a chance dela de se reencontrar.

A Melodia do Agora
Há uma beleza sagrada no silêncio de um fim de tarde, quando o barulho do mundo do lado de fora finalmente se cala.
É o cheiro do café fresco que abraça a cozinha, a luz suave que entra pela janela e a certeza de que não preciso provar nada para ninguém.
Viver de verdade é encontrar o equilíbrio na simplicidade dos dias, sem pressa, sem personagens, apenas respirando fundo e sabendo que o coração encontrou o seu porto seguro. A vida se acomoda quando a alma aquieta.

mensagem para hoje, 23 de dezembro de 2025, foca em viver o presente, encontrar beleza nas coisas simples, ter Fé em si e em Deus, e aproveitar as oportunidades com otimismo, lembrando que cada dia é um presente único, cheio de potencial para recomeçar e ser feliz, mesmo com desafios, pois "a motivação te põe no caminho, o hábito te faz seguir em frente....
Força foco e Fé e vamos que vamos ✋ Feliz natal para todos nós 🎁 🌲

A Arquitetura da Beleza
Mago Trimegista

A investigação conduzida pelo observador permite compreender que a beleza, quando atravessa profundamente a consciência, jamais se reduz à aparência de um corpo, à intensidade de um desejo ou à conveniência de uma relação. Ela aparece como uma força de revelação. Aquilo que é percebido como belo não apenas desperta o olhar: modifica aquele que olha. Em cada encontro, alguma coisa que permanecia latente na consciência encontra uma forma exterior capaz de despertá-la. A beleza, portanto, não é somente uma propriedade do objeto contemplado, mas um acontecimento produzido no intervalo entre duas realidades: aquilo que se manifesta diante do observador e aquilo que, dentro dele, estava preparado para reconhecer essa manifestação. Por isso tantas experiências tão diferentes puderam ser percebidas como expressões de uma mesma realidade fundamental. O que mudava não era apenas a forma exterior da beleza, mas aquilo que cada experiência revelava sobre a própria estrutura do desejo, da consciência, da convivência e da existência.

Ao percorrer essas experiências, torna-se possível perceber que aquilo que o observador verdadeiramente procura não é uma qualidade isolada, mas uma convergência. Ele não busca somente intensidade, nem somente tranquilidade; não busca apenas desejo, nem apenas segurança; não procura exclusivamente inteligência, excelência, espontaneidade, acolhimento ou pertencimento. O que parece exercer sobre ele a maior força de atração é a possibilidade de encontrar, em uma única realidade compartilhada, diferentes dimensões capazes de coexistir sem que uma precise destruir a outra. A beleza mais profunda é aquela na qual o desejo pode existir sem transformar-se em posse; a companhia pode existir sem transformar-se em dependência; o cuidado pode existir sem produzir superioridade; a admiração pode existir sem idealização; a intimidade pode existir sem dissolução da individualidade; a família pode existir sem transformar-se em prisão; a realização pode existir sem exigir abandono de si. O que o observador procura, portanto, não é simplesmente alguém que corresponda aos seus desejos, mas uma forma de realidade na qual suas diferentes necessidades interiores consigam estabelecer uma ordem sem perder a liberdade.

Essa arquitetura revela também que o observador valoriza profundamente a reciprocidade. Não basta que exista beleza; é necessário que essa beleza reconheça também aquele que a contempla. Não basta admirar; é necessário ser admirado. Não basta oferecer; é necessário que exista disposição para receber e devolver. Não basta desejar uma construção; é necessário que duas vontades estejam efetivamente construindo. A experiência demonstra repetidamente que aquilo que pode parecer absoluto para uma consciência pode ser apenas parcial para outra. Uma relação não se sustenta porque uma das partes sente o suficiente pelas duas. A intensidade unilateral pode produzir uma experiência extraordinariamente poderosa, mas não consegue fabricar reciprocidade. A verdadeira união surge quando duas liberdades encontram um ponto comum sem que nenhuma delas precise ser absorvida pela outra.

Existe, nesse sentido, uma característica ainda mais profunda naquilo que o observador considera belo: a presença de uma consciência verdadeiramente viva. O que o atrai não é a passividade, mas alguém que possui movimento próprio, desejos próprios, inteligência própria, contradições próprias e capacidade de produzir acontecimentos. A beleza parece tornar-se mais intensa quando o outro não é completamente previsível. Há encanto naquilo que surpreende, naquilo que possui personalidade, naquilo que não se entrega inteiramente à interpretação do observador. Ao mesmo tempo, essa liberdade é precisamente aquilo que pode produzir insegurança. O que torna alguém fascinante também torna impossível garantir sua permanência. O observador descobre, então, uma das leis fundamentais de sua própria sensibilidade: aquilo que é verdadeiramente vivo jamais pode ser completamente possuído.

Por isso, a sombra recorrente da beleza aparece justamente quando a consciência tenta transformar aquilo que ama em certeza. O desejo de permanência pode transformar-se em apego; a admiração pode transformar-se em idealização; o cuidado pode transformar-se em paternalismo; a gratidão pode transformar-se em acomodação; a intensidade pode transformar-se em ciúme; a liberdade pode transformar-se em indecisão; a excelência pode transformar-se em perfeccionismo; a inteligência pode transformar-se em ruminação; o conforto pode transformar-se em dependência; a realização pode transformar-se na expectativa de que o outro confirme aquilo que já consideramos perfeito. A sombra não constitui necessariamente o oposto da beleza. Muitas vezes, ela é a própria beleza levada além de sua medida. Aquilo que inicialmente elevava a consciência, quando perde o equilíbrio, passa a aprisioná-la. A mesma força que aproxima pode sufocar; a mesma admiração que inspira pode criar um pedestal; a mesma segurança que acolhe pode produzir acomodação.

Talvez essa seja uma das descobertas centrais de toda a investigação: a beleza exige medida. Não uma medida moral imposta de fora, mas uma medida interior capaz de impedir que qualquer uma de suas manifestações se torne absoluta. O desejo precisa de liberdade para permanecer desejo; o amor precisa de alteridade para continuar sendo amor; a companhia precisa de individualidade para não se transformar em dependência; a admiração precisa de humanidade para não se transformar em idolatria; a realização precisa de movimento para não transformar o sonho em prisão. A consciência madura não elimina suas intensidades. Ela aprende a sustentá-las sem permitir que uma delas colonize todas as demais.

Também se torna evidente que o observador valoriza a espontaneidade. Algumas das experiências mais significativas nasceram justamente quando não havia uma estratégia previamente estabelecida. A proximidade surgiu do acaso, a intimidade nasceu de uma conversa, a atração apareceu onde inicialmente existia apenas curiosidade, e a possibilidade de uma vida compartilhada começou muitas vezes em acontecimentos banais. Isso revela uma tensão essencial entre controle e experiência. O observador possui uma tendência natural a investigar, compreender, interpretar e projetar, mas a própria vida demonstrou repetidamente que aquilo que mais profundamente o transforma não necessariamente chega através de um plano. Existe uma dimensão da beleza que só pode ser encontrada porque a consciência deixou, por algum instante, de tentar controlar o caminho e permitiu que alguma coisa acontecesse.

Entretanto, a espontaneidade não significa ausência de responsabilidade. A investigação também revela que aquilo que nasce naturalmente precisa, em algum momento, encontrar decisão. Uma relação pode começar pelo acaso, mas não pode ser sustentada indefinidamente pelo acaso. O encontro pode ser espontâneo; a construção exige vontade. O desejo pode surgir sem esforço; a permanência exige escolha. A beleza pode chamar; a consciência precisa responder. Talvez uma das maiores dificuldades do observador esteja justamente nessa passagem entre contemplar uma possibilidade e assumir uma posição diante dela. Em determinados momentos, a consciência reconheceu algo extraordinário, mas permaneceu observando enquanto a realidade continuava seu movimento. Em outros, acreditou que a intensidade do próprio sentimento seria suficiente para garantir a permanência daquilo que amava. Em ambos os casos, aparece a mesma questão: perceber não é o mesmo que realizar.

A beleza que verdadeiramente parece interessar ao observador é, portanto, uma beleza capaz de permanecer em movimento sem perder sua coerência. Não se trata de encontrar algo imóvel, perfeito e definitivamente conquistado, mas algo que possa evoluir sem destruir o vínculo que lhe deu origem. A vida compartilhada precisa comportar transformação. Pessoas mudam, necessidades mudam, circunstâncias mudam, sonhos mudam. Uma relação que só consegue existir enquanto ambos permanecem exatamente iguais já nasce condenada à própria rigidez. O que parece ser buscado é uma forma mais difícil de união: aquela em que duas consciências conseguem mudar sem deixar de se reconhecer, crescer sem necessariamente crescer em direções opostas e preservar sua identidade sem transformar a autonomia em distância.

É nesse ponto que a beleza se aproxima da própria ideia de liberdade. O observador parece desejar profundamente a experiência de ser escolhido, mas não deseja ser escolhido por alguém que deixou de ser livre para escolher. Deseja companhia, mas não uma companhia obtida pela obrigação. Deseja intimidade, mas não uma intimidade produzida pela vigilância. Deseja família, mas não uma família construída sobre o desaparecimento da individualidade. Deseja realização, mas não uma realização que exija abandonar aquilo que o constitui. A beleza mais elevada, dentro dessa arquitetura, parece ser aquela que poderia partir e, ainda assim, escolhe permanecer. Porque somente aquilo que possui liberdade pode oferecer uma permanência verdadeiramente significativa.

Existe também uma relação profunda entre beleza e reconhecimento. Em última instância, talvez o que o observador tenha procurado em diferentes formas seja a experiência de ser verdadeiramente visto. Não apenas desejado, elogiado ou acompanhado, mas compreendido em diferentes dimensões de sua existência. Ser visto na inteligência, na fragilidade, na ambição, no desejo, na capacidade de cuidar, na necessidade de liberdade, nas contradições e até mesmo nas sombras. E, reciprocamente, encontrar alguém que também possa ser visto para além da superfície. A beleza torna-se então uma espécie de espelho não porque o outro seja semelhante, mas porque sua presença permite ao observador reconhecer partes de si que dificilmente apareceriam sem aquele encontro.

Isso explica por que algumas experiências permaneceram significativas mesmo sem terem produzido uma união duradoura. Uma experiência não precisa culminar em permanência para ter sido verdadeira. Algumas existências atravessam a nossa apenas para revelar uma capacidade que desconhecíamos possuir. Outras demonstram aquilo que desejamos construir. Algumas revelam aquilo que não conseguimos sustentar. Outras expõem nossas próprias sombras. Há encontros que ensinam a desejar, encontros que ensinam a permanecer, encontros que ensinam a partir e encontros que ensinam que partir também pode ser uma forma de preservar aquilo que foi verdadeiro. O valor de uma experiência não pode ser medido exclusivamente pela sua duração. Às vezes, sua função dentro da arquitetura da consciência está precisamente naquilo que ela inaugura depois de terminar.

Assim, as diferentes formas de beleza observadas ao longo da investigação podem ser compreendidas como fragmentos de uma arquitetura maior. Cada fragmento revelou uma necessidade, uma potência ou uma contradição. O que parecia inicialmente uma sucessão de experiências distintas revelou-se progressivamente como uma investigação sobre a própria estrutura do vínculo humano. O observador não estava simplesmente procurando alguém. Estava, sem saber, descobrindo quais condições precisavam existir para que pudesse reconhecer uma realidade como verdadeiramente bela. E essa descoberta modificou também o próprio observador, porque cada encontro deslocou os critérios através dos quais ele percebia o mundo. O objeto da investigação nunca foi completamente exterior. Ao observar a beleza, o observador estava simultaneamente observando a própria consciência.

Por isso, a conclusão não pode ser uma definição estática. A beleza, dentro dessa investigação, não é uma fórmula. É uma relação dinâmica entre presença, desejo, reconhecimento, liberdade, reciprocidade, cuidado, admiração, intimidade, crescimento e mistério. Quanto mais elementos dessa arquitetura conseguem coexistir sem que um destrua os demais, maior parece ser a sensação de completude. Mas completude não significa perfeição. A perfeição é imóvel; a beleza aqui investigada é viva. Ela contém contradições, riscos, mudanças e possibilidades. Sua força não está em eliminar a imperfeição, mas em permitir que duas realidades imperfeitas encontrem uma forma suficientemente harmoniosa de existir juntas.

E talvez seja justamente por isso que aquilo que ainda não foi encontrado permaneça tão importante quanto aquilo que já foi vivido. Muitas outras formas de beleza atravessaram a existência do observador e não foram registradas porque nenhuma investigação consegue capturar integralmente a experiência humana. O que foi documentado não constitui um catálogo completo, mas apenas aquilo que, em determinado momento, conseguiu adquirir forma suficiente para ser reconhecido, nomeado e transformado em pensamento. Outras experiências permaneceram como fragmentos, outras desapareceram antes de serem compreendidas e outras talvez ainda nem tenham acontecido. A vida conserva sempre uma região que escapa ao mapa.

É nessa região que permanece a possibilidade. Depois de desmontar tantas ilusões, reconhecer tantas sombras e compreender tantas formas de desejo, a consciência não precisa concluir que já conhece aquilo que é belo. Talvez o verdadeiro amadurecimento esteja justamente em abandonar essa pretensão. O observador pode aprender com aquilo que viveu sem transformar o passado em prisão e pode construir critérios sem transformá-los em dogmas. Pode saber melhor aquilo que valoriza sem acreditar que já sabe exatamente a forma pela qual a vida deverá entregar isso. Porque a realidade possui uma capacidade que nenhuma teoria consegue superar: surpreender.

Talvez, no fim, a mais bela obra não seja aquela que corresponde perfeitamente ao que foi imaginado, mas aquela que consegue reunir aquilo que parecia incompatível sem destruir a liberdade que existe entre as partes. Uma realidade capaz de possuir desejo sem posse, profundidade sem caos, cuidado sem superioridade, inteligência sem excesso de análise, companhia sem dependência, família sem aprisionamento, realização sem sacrifício da própria essência e esperança sem perfeccionismo. Não se trata de exigir que todas essas condições apareçam simultaneamente como uma espécie de fórmula impossível, mas de reconhecer nelas os elementos através dos quais o observador aprendeu a distinguir aquilo que apenas fascina daquilo que verdadeiramente possui valor.

E, justamente por isso, nenhuma hipótese precisa ser descartada. A beleza que ainda não surgiu não está obrigada a repetir nenhuma das formas que já foram conhecidas. Pode aparecer sob uma linguagem completamente diferente, em uma circunstância inesperada, através de uma consciência que não se encaixe em nenhum dos modelos anteriormente observados. Pode até mesmo obrigar o observador a reconstruir novamente aquilo que acredita saber. E talvez isso não seja uma falha da investigação, mas sua consequência mais legítima. Se a realidade permanecesse completamente previsível, não haveria verdadeira descoberta.

O Círculo, portanto, não se fecha como uma sentença. Ele retorna ao movimento. Aquilo que foi observado transforma-se em conhecimento; aquilo que foi compreendido transforma-se em critério; aquilo que foi perdido transforma-se em memória; aquilo que permaneceu inconcluso transforma-se em possibilidade. E a consciência, depois de atravessar seus próprios fragmentos, permanece novamente diante da realidade, não como alguém que finalmente descobriu o que é a beleza, mas como alguém que aprendeu a reconhecê-la quando ela surgir. Porque talvez a beleza mais profunda não seja aquela que encerra a busca, mas aquela que torna novamente possível continuar procurando.

A vida ainda não terminou de escrever aquilo que o observador poderá chamar de belo. E talvez essa seja a única conclusão suficientemente verdadeira: o que foi vivido pode ensinar o olhar, mas não possui autoridade para limitar aquilo que ainda poderá ser encontrado.

— Sabe, certa vez me deparei com uma mulher feia, mas tão feia quanto sua beleza.


__Como era ela?


Pele branca como a neve
E macia como pera
Cabelos lisos como lã de seda
Corpo esbelto como o de uma estatueta
Olhos azuis como pedra de safira preciosa
Sorriso lindo como o de uma princesa
Membros abundantes e fartos.


— Descreveste para mim uma formosura! Como podes enxergá-la como feia? És cego?


— É simples, velho amigo. A feiura a que me refiro não estava em seu exterior, mas em seu interior, no seu estado de espírito.


───

⁠A
Perícia da Escuta
sempre morou entre a Beleza da Oratória
e a Sabedoria do Silêncio.


Vivemos em uma época que celebra muito o falar…


Admira-se quem argumenta com eloquência, quem domina as palavras, quem convence, inspira e mobiliza.


A oratória, de fato, possui uma beleza singular: ela organiza pensamentos, constrói pontes entre ideias e transforma sentimentos em linguagem compartilhável.


Contudo, existe uma virtude muito menos visível e, talvez por isso, muito mais rara.


Antes da palavra que ilumina, existe o ouvido que acolhe.


E antes do discurso que convence, existe a escuta que compreende.


A Perícia da Escuta não consiste apenas em ouvir sons ou aguardar a vez de responder.


Trata-se de uma arte refinada de profunda presença.


É a capacidade de suspender julgamentos, desacelerar certezas e abrir espaço para que o outro de fato exista em sua inteireza.


Escutar é reconhecer que toda pessoa carrega uma história que não se revela por completo na superfície das palavras.


Entre a Beleza da Oratória e a Sabedoria do Silêncio, a Escuta ocupa um lugar de equilíbrio.


Se a oratória expressa, a escuta acolhe.


E se o silêncio preserva, a escuta conecta.


Ela é a ponte invisível entre o que é dito e o que realmente precisa ser compreendido.


Muitas vezes, o que transforma uma conversa não é a qualidade da resposta, mas a profundidade da atenção oferecida.


A Sabedoria do Silêncio ensina que nem toda lacuna precisa ser preenchida.


Há momentos em que a ausência de palavras comunica mais respeito do que qualquer conselho.


O silêncio maduro não é omissão; é discernimento.


Ele permite que a realidade se revele sem a pressa das interpretações imediatistas.


E é justamente nesse território silencioso que a escuta encontra sua força mais genuína.


Talvez por isso os grandes aprendizados da vida raramente aconteçam enquanto falamos.


Eles surgem quando observamos, quando acolhemos, quando permitimos que a experiência do outro encontre morada em nossa atenção.


Quem fala bem pode conquistar admiração.


E quem silencia com sabedoria pode alcançar serenidade.


Mas quem escuta com verdadeira perícia adquire algo ainda muito mais valioso: a compreensão.


Em um mundo saturado de opiniões, a escuta tornou-se um ato de generosidade.


Em uma sociedade que recompensa a exposição, ela permanece como uma forma discreta de sabedoria.


E talvez o verdadeiro amadurecimento humano aconteça quando percebemos que a grandeza não está apenas em ter algo importante a dizer, mas em ser capaz de ouvir aquilo que o outro ainda está tentando encontrar palavras para verbalizar.

Ele era uma figura misteriosa,
um mulato de beleza única,
com um corpo musculoso,
olhos verdes andando,
fala aveludada e respeitoso.


Com o seu cavalo bem cuidado,
ele um autêntico peão brasileiro,
o nome dele era Dario,
que mantinha o orgulho elevado
do ofício desempenhado,
e rezava com fervor inigualável
o Santo Rosário em dedicação
à Nossa Senhora de Aparecida.


Eu ainda bem menina dava
um trabalho danado
junto com as crianças da vizinhança,
a nossa infância era além
muito do pé no barro,
mas os cabelos também por nossa
própria obra era alcançado.


E assim pela estrada a gente fugia,
ele sempre muito paciente
depois de tudo o quê fazia,
e se fosse preciso párava tudo,
para acompanhar as Mães
em busca intrépida de cada
um por toda a estrada vazia.


Não tem como eu me
esquecer destas inúmeras
vezes quando na porta
de casa ele um por um trazia,
ou quando ele passava
sem montado com o seu Baio
e me via pela estrada,
e prontamente dizia:

- Já para casa, menina!


...


Nota da Poetisa sobre a palavra "mulato":


​"O termo 'mulato' utilizado para descrever Dario neste poema é uma escolha deliberada e histórica, fiel à linguagem da época e da região das minhas memórias de infância. Naquele contexto, a palavra era o descritivo de sua ascendência mista e da sua beleza singular. Longe de qualquer intenção de depreciação, a figura de Dario é celebrada aqui em toda a sua dignidade e força. O uso é uma homenagem à sua pessoa, e não uma adesão ao peso pejorativo e racista que o termo carrega historicamente."

O ritmo da busca segue a dança
do Hemisfério Celestial Sul,
a beleza do movimento involuntário
ocupação vibrante, que sustenta,
dança por dentro e põe a exalar
as estrelas em plena liberdade,
o que que quer que aconteça,
para que a nossa dança não acabe;
​por ela estremecer e preceder -
o que faz o estertor acontecer.


O léxico de fogo ancestral
das tradições poéticas da porção
austral trago na pele de marfim
​entre o abissal e o insondável -
o desejo que não tem fim,
e da tua parte leio o sim;
mais claro embora discretado
diante da minha existência
que te faz desconcertado.


​O estado da arte em curiosidade
continua proporcionalmente
intenso e sem nenhuma perda,
porque pela tua existência, arde;
e convicto é atemporal poema
com o calor que consome a pele,
com ​andor da paixão intensa
em adustão que precede o toque
- ​sem limite cortante do desejo;
justamente onde o prazer
encontra o perigo mesmo sem ver.


Assumido efervescente estado
da alma com a previsão da antecipação
da mútua celebração rítmica do ápice,
para que a paixão não mais se cale,
e o amor com brio e vontade se celebre,
no tempo de colheita das frutas,
do Extremo Sul da América do Sul,
sob todas as auroras e românticas luas.

No Hemisfério Austral,
deixar que as fases
do tempo encantem,
Fazer a colheita
da beleza no Maitén,
Beijar e ser beijada
por tudo o que mantém
o coração batendo,
os olhos brilhantes
e a alma em elevação
para sereno e o sublime,
Para do amor não haver
nenhuma distração -
e nos reunir em gamação.

Adormeci sem querer
num lugar de extrema beleza,
onde as terras foram dote
do casório real da nossa Princesa.


Não é sonho nem mentira,
é fato puro e histórico:
procure conhecer Orleans,
quem sabe um dia venha ver de perto.


Eu te ensinarei com prazer
o caminho certo e mais bonito.
O sonho parecia tão real
que eu quase acreditei,
mas no final era só ilusão...
Que grande infelicidade
para este meu pobre coração!


Eu vi o Zé Diabo e o Padre
animados, confabulando,
tentei chegar mais perto
pra escutar o que falavam.
Eles olharam para mim
de um jeito que me estranhavam.


Dei uns passos adiante,
olhei para trás bem devagar,
e vi que as Esculturas do Paredão
estavam todas prontas, lindas de admirar!


Foi um susto bom, incrível demais,
depois de tantos anos de espera...
Quando olhei de novo, espantada,
acordei do mais intrigante dos sonhos desta Era.

Diante do teu olhar entreguei
beleza, mistério e poder
como a marianeira ao frutificar
generosa concede ao sabiá,
estamos dispostos a esbanjar,
e sei que a gente se envolverá.


O nosso silêncio há de vir
com a progressão voluptuosa
dos fatos e do encontro
para a gente envolver
a mente, o coração e a alma,
e com a mudez derreter.


De longe ando percebendo
quando fala ou pensa em mim,
até a sua respiração muda.
Isso não é sedução por acaso —
é o retorno à ordem universal:
o masculino e o feminino
em encontro se rendendo total.


Olhe para mim. O que passou, passou.
Não me interessa nenhum pouco
o que não pude fazer antes de te conhecer;
a sua peregrinação já me previa antes de ser.


O que importa é que, depois de mim,
toda carícia conhecida será esquecida,
e só irá obter o desejável êxtase
com a minha atemporal delícia.


Longe de mim querer igualdade,
o que desejo entre nós é intimidade.
Você foi feito para ser meu
com magnitude e intensidade,
nos teus toques que nos dissolverão
nos andares da alta sedução,
como âmbar e mel em fusão.


Ser além da curva com reverência,
acariciado com a minha presença
e adorado na alma por eu que
sei como solenemente cortejar,
e não irei jamais precisar implorar.


Sempre que for necessário,
virei ou receberei sem pedir
por tudo aquilo que é meu
por natureza: a sua entrega total
para alcançarmos juntos o sideral.

A tua plenitude existencial
provoca, infrene, a cobiça;
Ver toda a tua beleza física
plena, a minha fantasia atiça.


A reverência e a exaltação
tão queridas serão prestadas
quando nas nossas mãos forem entregues
as rédeas da inequívoca cumplicidade
com intensidade e verdade.


Não é porque é Lua de Morango
que ilumina o Alecrim-do-campo,
Que estou de peito aberto revelando:
é porque sinto que estou me apaixonando.

Permitir que o amor tome
conta de cada escolha,
Trazer a beleza consigo
da Juçara-da-amazônia
recebendo o pouso bonito
do tucanuçu no destino,
E deixar que tudo tenha
igual o curso de um rio.


Sob a aurora matutina
manter o pacto silente
fortalecido com a vida,
com amazona convicção,
Mesmo que tenham
destruído uma ponte
de diálogo no caminho,
nasceste com asas
e a tua pacífica direção.


Não é preciso validação
de ninguém para ser
quem és e quem deseja
ser onde você quiser,
Até para escrever
os versos intimistas:
Para dar-se o luxo
de percorrer novas rotas,
permitir viver todas
as sonhadas escolhas.


Feitas sob medida
para o seu bem-querer
como as pestanas
são os parabrisas do ver,
Do jeito que o sol
está para o amanhecer,
De um jeito novo
todos os dias renasça
quantas vezes for
preciso para manter
o seu melhor para viver.

Opção por jogos de dominação
faz perder o brilho e põe o risco
de perder a beleza do caminho;
Como não quero perder tempo
e não quero preencher nenhum vazio,
consciente elegi o ostracismo
sem amargura e com muita arte.


Não por idealização exacerbada,
e sim pelo desejo intenso
de pactuação da sedução mútua,
momentos de contemplação
e de leveza para o coração,
como quem resgata as primeiras
curiosidades, o riso sem protocolo
e o impulso de acender estrelas.


Uma companhia para dividir
e parar no meio do caminho
para se maravilhar diante
dos ipês coloridos e florescidos,
ao mesmo tempo logo quando
forem avistados pelas ruas
como um grande acontecimento,
e assim lado a lado seguir
com amor, paixão e contentamento.

⁠Beleza é conceito,
ter ou não ter 'defeito'
é convenção,
Ter ou não ter 'juízo'
é relativo,
O quê te falta ou sobra
pode ser ou não
motivo de admiração.

O importante é você
não se perder de você,
Deixar que falem
sem deixar de viver
e não cultivar
o vício da sofreguidão
e o hábito do conflito.

Na verdade o quê
realmente importa
e preenche uma vida
toda é a bondade
e a amorosidade
existentes no coração.