Tempos

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Para aqueles poucos que amam nos tempos atuais, o amor resume-se ao fim.
- Marcela Lobato

Em tempos digitais onde as imagens passam a valer bem mais do que mil palavras, corriqueiramente somos presenteados com a figura típica e de certo tipo anedotário do "beijoqueiro digital". O individuo, tanto masculino como também feminino, vive espalhando imagens ao lado, próximo ou em conjunto com varias personalidades famosas de todos os meios, sejam politico, artístico, televisivo ou religioso com o simples objetivo de serem vistos com famosos, que na maioria das vezes não são. Estes personagens são figuras que se auto promovem excessivamente, objetivando uma importância social que na maioria das vezes, não tem infelizmente.

Vamos repensar?

Bauman — “Vivemos tempos líquidos.”

“A sociedade líquida não apenas dissolveu certezas; dissolveu compromissos. Quando tudo pode ser substituído, o ser humano corre o risco de transformar até pessoas em objetos de consumo emocional.”

Carlos Eduardo Balcarse

Em tempos em que a polarização política cega corações e endurece olhares, parece que deixamos de enxergar o ser humano por trás das opiniões. O respeito se perde no caminho, e o ódio, disfarçado de convicção, encontra morada em ambos os lados.


Tão envolvidos pela certeza de que o outro está errado, muitos já não se permitem explorar novos caminhos. O medo do desconhecido, o receio de que tudo possa piorar, faz com que nos agarremos à ideia do "menos pior", como quem se prende a um porto por medo do mar aberto.


Mas o tempo passa. As eleições terminam. As bandeiras são guardadas. Os discursos perdem a força.


E então resta o que realmente foi sacrificado: amizades que não resistiram, relacionamentos que se quebraram, famílias que se afastaram. Feridas abertas por debates que, meses depois, já nem são lembrados com a mesma intensidade.


No fim, a democracia nunca deveria ser apenas o direito de escolher, mas também a capacidade de respeitar quem escolhe diferente. Porque quando o ódio vence o respeito, todos perdem um pouco daquilo que acreditavam defender.


E talvez a maior derrota não aconteça nas urnas, mas no momento em que esquecemos que, antes de qualquer posição política, somos todos humanos.

Nos tempos de hoje, o homem de verdadeiro caráter é muitas vezes confundido com um tirano, porque sustentar princípios inegociáveis parece, aos olhos frágeis, uma ameaça maior do que a própria decadência moral.

Foi tempos que era só
bordão que tudo mudou,
Não se encontra mais Tatu,
ninguém faz mais Aaru,
Por enquanto ainda há
alguma memória para quem
tiver vontade de procurar,
E se um Tatu te encontrar,
melhor deixar ele caminhar
_porque não nos falta Beiju.


Não se esqueça de recordar
que a Terra precisa sobreviver
para a gente se sustentar...

Buquês da Aldrago
dançam sobre nós,
foi há tempos tirado
o eu da escrita
desde o dia que te vi
sem fantasia.


Tudo em poesia
diária foi convertida,
o dia que eu quiser
falar do que é do eu
e do que doeu,
não me encabulo.


Se este assunto
não for tocado,
por ninguém será
nem aventado,
o eu não nasceu
para ser domado.


(O eu de cada não é
campo de batalha,
E sim nasceu para
ser academia nata).

Está vendo, meu amor?
Tem florada de Goiaba azeda
em tempos de calor.
Está ouvindo, meu amor?
A canção do Reisado
pela voz do cantador.
Está sentindo, meu amor?
E o meu querer querendo
porque é você quem faz
o meu coração continuar batendo.

Se o teu coração há tempos
entrou no modo concreto,
sou como Pau ferro - não temo,
Na muralha escrevo poesia,
e por nenhum segundo tremo.


Sei o que o meu amor é capaz
de fazer inteiro por dentro,
no momento que beijo os olhos,
E ensino a olhar para o céu
neste tempo que furta sonhos.


Se não está preparado para ouvir,
e tampouco para sentir - irei seduzir,
e colocarei no ponto para sentir,
onde os meridianos estão a nos unir.


Ainda que você esteja desatento,
estarei entrando nos teus poros
com o meu manso e ribeiro cortejo,
e se renderá com fina gala e festejo.

Em tempos de floração sutil
da Guararema do destino,
o teu cerco irresistível
tem sido o meu fascínio.


No hábito e no silêncio
contigo tenho tecido
tapeçarias para o paraíso
que temos construído.


Nas tuas luzes e sombras
em todas tenho afinco:
assumo que não te resisto.


O teu brio afiado e tranquilo
põem o meu peito rendido,
ocupas o meu ser com domínio.

O meu brio encontra o seu,
ambos pantaneiros,
concedidos pelo nosso Deus:
vivemos tempos alvissareiros.


Durante a descida dos andores,
todos com beleza adornados,
os corações batendo feito tambores
ao som do cururu, todos animados.


Com as mãos mergulhando
São João no Rio Paraguai,
eu de Corumbá e você de Ladário,
o meu coração apaixonado,
morando contigo lado a lado.


Contigo não tem sido diferente:
estamos morando um no outro,
ainda protegidos de toda a gente,
esperando o dia certo para anunciar
que viveremos só de amor imparavelmente.

Em tempos absolutos
da florada Ginger Thomas,
da Ilha de Andros
trago a misteriosa poção
para fisgar o coração.


Caí na tentação e pedi
emprestada a sedução
das sereias bahamenses
para fazer o marinheiro
se render com imensidão.


A força cósmica tem
unido o amor e a paixão
de maneira imparável
a tudo o que é inevitável:
Somos oceano indomável.

Eu sou contra que crianças tenham contato com armas sejam em tempos de paz ou em tempos de guerra.


Em tempos de paz uma arma ser colocada na mão de uma criança acena que há um processo de radicalização em curso.

Por saudade, de tempos em tempos, as borboletas saem de seus jardins e voam.


Cada batida de asa traz o perfume de ternura e leveza para o coração.


Como se o vento escrevesse cartas de amor que só aqueles que sentem sabem ler.

⁠Não
há
Crime Grave
o bastante para relativizar outro.


Em tempos de tantas justificativas vazias e malabarismos morais, parece que a régua da ética se elastificou — estica conforme a conveniência de quem julga, de quem fala, quiçá de quem tenta se eximir.


Como se a existência de um erro maior tivesse o poder mágico e poético de diminuir ou até absolver um erro menor.


Mas definitivamente não tem.


Um crime não anula o outro.


Não o equilibra.


Nem o compensa.


Apenas revela o quanto estamos dispostos a negociar princípios quando eles deixam de nos favorecer.


É o velho impulso de apontar o dedo com uma mão enquanto a outra esconde aquilo que não queremos ver.


Relativizar o erro alheio com base em um erro maior é, no fundo, uma forma forçosamente elegante de aceitar o inaceitável.


É transformar justiça em comparação, quando deveria ser compromisso.


É escolher lados quando o certo seria escolher valores.


A lógica da compensação moral é sedutora porque alivia consciências.


“Perto daquilo, isso nem é tão grave.”


E assim, aos poucos, vamos rebaixando o que deveria ser inegociável.


Vamos nos acostumando com pequenas concessões que, somadas, constroem grandes e medonhas distorções.


O problema nunca foi apenas o tamanho do crime, mas a disposição em aceitá-lo quando convém.


Porque quando a indignação depende de contexto, ela deixa de ser princípio e passa a ser estratégia.


E é nesse ponto que tudo se fragiliza, tudo se perde.


Quando começamos a pesar erros em balanças seletivas, já não estamos mais buscando justiça — estamos apenas escolhendo qual incoerência, qual injustiça estamos dispostos a defender.


No fim, não é sobre quem errou mais nem menos.


É sobre quem ainda se recusa a tratar o erro como erro, independentemente de quem o cometeu e como cometeu.

Música: Mama, I'm Coming Home
Mãe, estou voltando para casa.


Os tempos têm mudado, os tempos estão estranhos
Aqui estou, mas não sou mais o mesmo
Mãe, estou voltando para casa.
O tempo passa sem se esconder
Você poderia ter sido uma melhor amiga
Mãe, estou voltando para casa.


Você me gerou e me expulsou
Sim, você me hipnotizou.
Achei-me e me perdi
Pelo fogo de seus olhos


Você me fez chorar, contou-me mentiras
Mas não consegui ficar para dizer adeus
Mãe, estou voltando para casa.
Eu poderia estar certo, eu poderia estar errado
Dói demais, e faz muito tempo
Mãe, estou voltando para casa.


Amor egoísta, estamos ambos a sós
A corrida antes da queda
Mas eu vou tomar esse coração de pedra
Eu quero tê-lo por inteiro


Eu vi seu rosto centenas de vezes
Todos os dias que estávamos separados
Eu não me importo com a luz do sol
Pois mãe, mãe, estou voltando para casa.
Estou voltando para casa.


Você me gerou e me expulsou
Sim, você me hipnotizou.
Achei-me e me perdi
Pelo fogo de seus olhos


Eu vi seu rosto milhares de vezes
Todos os dias que estávamos separados
Eu não me importo com a luz do sol
Pois mãe, mãe, estou voltando para casa.
Estou voltando para casa.


Ozzy Osbourne, In aeternum


[Quando nos aceitamos com todas
as falências e cicatrizes que ainda
sangram, estamos em casa, em
nosso interior, livre e em paz
para aceitarmos a imperfeição do
outro ante a também nossa.
Eu voltei para casa, eu estou na
minha casa, e em mim mesmo.]


Marcelo HB

⁠Em tempos tão conflitantes, talvez não haja motivação mais eloquente para regular o nosso tom que o cuidado com o outro.


Porque é justamente enquanto o mundo insiste em gritar, que a forma como escolhemos falar revela quem de fato somos.


Não é tão difícil elevar a voz quando se acha que está convicto, tampouco é raro confundir firmeza com agressividade.


O verdadeiro desafio, porém, reside em sustentar a clareza sem abrir mão da humanidade — em defender ideias sem ferir desnecessariamente quem as escuta.


Até porque quem acha que precisa subir o Tom para sustentar uma ideia, muito raramente tem ideia para sustentar.


Há uma tentação constante em tempos de tensão: a de transformar divergência em inimizade, discordância em afronta pessoal.


Nesse cenário, o tom deixa de ser ponte e passa a ser a pior das armas.


E quando a palavra vira projétil, o diálogo se torna campo de batalha — onde ninguém aprende, ninguém cede, e todos saem, de alguma forma, muito menores.


Regular o tom não é sinal de fraqueza, mas de consciência.


É compreender que, por trás de cada opinião, existe uma história; por trás de cada reação, uma experiência que nem sempre vemos.


O cuidado com o outro não exige concordância, mas exige responsabilidade — especialmente com aquilo que escolhemos amplificar.


Talvez a verdadeira eloquência não esteja em convencer, mas em preservar.


Preservar a possibilidade de conversa, a dignidade do outro e, sobretudo, a integridade de quem fala.


Porque, no fim, não é apenas o que dizemos que nos define, mas a maneira como escolhemos dizer — principalmente quando tudo ao redor nos empurra para o contrário.

⁠Saudade dos bons e velhos tempos em que quase todos queriam — e se atreviam — a ser diferentes uns dos outros.


Havia uma coragem deveras silenciosa em não caber nos moldes.


As pessoas ousavam ter opiniões impopulares, gostos estranhos, sonhos improváveis.


Erravam com a própria assinatura.


Discordavam sem medo e sem culpa — olhando nos olhos.


Não precisavam de plateia para existir, nem de aplausos para sustentar suas convicções.


E muito menos subir o tom para tentar sustentar uma ideia.


Hoje, a pressa por pertencimento parece ter substituído o desejo de identidade.


A originalidade virou risco; a repetição, estratégia.


Ser diferente, que antes era um ato quase instintivo de afirmação, passou a ser cuidadosamente calculado para não desagradar o rebanho — ainda que cada um jure ser pastor de si mesmo.


Talvez o medo de ficar só tenha nos ensinado a falar em coro.


Talvez a avalanche de vitrines e vozes tenha nos convencido de que é mais seguro ecoar do que criar.


Mas há um preço muito alto nessa homogeneização voluntária: quando todos repetem, ninguém realmente diz; quando todos performam, poucos vivem.


Sentir saudade daquele tempo é, no fundo, sentir saudade de uma liberdade mais bruta, menos polida e menos aprovada.


Uma liberdade que permitia ser estranho sem ter que pedir desculpas.


Que entendia que a verdadeira diversidade não nasce de discursos ensaiados, mas da coragem nua e crua de sustentar a própria diferença.


Porque, no fim, não há nada mais semelhante do que pessoas tentando, desesperadamente, parecer iguais.

⁠Noutros tempos, eu também já tropecei em vários infortúnios: o mais desonesto deles era me preocupar com opiniões alheias.


Alguns vinham disfarçados de acaso, outros de destino.


Mas o maior deles não caiu do céu nem brotou do chão:
nasceu do excesso de atenção às opiniões alheias.


Enquanto eu media meus passos pelo olhar dos outros, perdia o ritmo do que realmente era meu.


Cada julgamento externo virava régua,
cada expectativa alheia, uma pedra a mais nos ombros…


Mas não era o mundo que me limitava — era eu, entregando minha autonomia à aprovação de quem não podia caminhar meus passos, ainda que suportasse o peso das minhas sandálias.


É curioso perceber que o medo de desapontar
quase sempre nos faz abandonar a nós mesmos.


E, nessa tentativa constante de agradar,
vamos nos desencontrando do que sentimos, pensamos e somos.


O dia em que compreendi isso foi muito menos Libertador do que Honesto.


Doeu admitir que muitas quedas não foram empurrões,
mas escolhas deliberadas feitas para caber em opiniões que nunca me pertenceram.


Hoje, quando tropeço, sei diferenciar:
há infortúnios que ensinam,
e há distrações que aprisionam.


Preocupar-se demais com o que pensam de nós
é uma das mais silenciosas —
porque parece prudência,
mas cobra o preço da própria liberdade.


Definitivamente, é impossível bancar um aluguel tão caro por um imóvel sem a menor condição de habitar: a aprovação alheia.

⁠Com tanta gente Machucada no mundo, até os Carinhos nos cobram mais Cuidados.


Vivemos tempos em que o afeto deixou de ser apenas gesto; virou responsabilidade.


Já não basta estender a mão — é preciso saber onde tocar, como tocar — e até quando tocar.


Porque a pele do outro, tão marcada pelas cicatrizes da jornada, reagiu aprendendo a se proteger antes de se abrir.


E, ainda assim, o mundo continua faminto de ternura.


Talvez por isso os carinhos sejam hoje tão raros e tão preciosos: eles precisam atravessar medos, memórias e desconfianças antes de chegar ao coração que ansiosamente os espera.


E, quando chegam, chegam devagar — quase pedindo licença — porque sabem que qualquer descuido pode reacender dores antigas.


Mas o cuidado não enfraquece o carinho; ele o aperfeiçoa.


É no gesto atento, na palavra que não invade, no silêncio que acolhe, que o afeto encontra seu caminho seguro.


Afinal, quem carrega feridas aprende a reconhecer quem toca para ferir e quem toca para curar.


E talvez seja nisso que a Humanidade ainda tenha Salvação: na coragem de oferecer Carinho mesmo quando ele exige mais cuidado… e na Humildade de recebê-lo mesmo quando ainda Dói.