Tag poesia
Ela não me acompanhou na minha jornada.
Pra ela fui só um jornal,
que se lê e joga fora
Em meus sonhos de mentira
seria tão fácil me jogar
igual um avião de papel
pelos arranha-céus.
São essas lascas de felicidade momentânea que me fazem continuar lutando incessantemente dentro desse cisquinho que chamam de "vida".
Luzes e movimentação sem meus óculos.
Parecem pequenas estrelas se rachando e partindo ao meio, embora fossem todas coloridas de vermelho.
Como a luz de freio de um carro.
poesia mais triste do ano 2
sei um dia te encontro
você saiu do meu corpo sem rumo
destinado ao caos
frieza corro sem esperança
ando vagamente
procurando motivos para viver
esboço sorriso todos os dias
mas sabe o incrível?
que por dentro eu to invisível
uma carcaça perambulante
andando em um mundo
cheio de problemas
e eu me procuro em cada lugar
cada canto
usando uma lupa gigante
procurando sinal de alma
caminhando em um deserto
o desespero bate
o incrível é que eu só quero sair
gritar, chorar, andar
um dia voltar a sorrir verdadeiramente
talvez o desejo de ver geral feliz
me sufoca por dentro
me enforca mas nem que demore uma eternidade
sei que consigo sair da minha calamidade
enquanto isso os meus passos
palavras
felicidade se cala
enquanto isso eu grito
imploro
para alguém tentar me notar
onde é que você está?
tá difícil?
eu grito cadê você?
sumiu em meio ao vácuo ate quando?
alguém me escuta?
alguém me ouve?
alguém?
vejo e observo todo mundo
observo o mundo
e a solidão nos observa
nos modifica e nos alinha junto a ela
de novo eu grito e berro me paraliso em minha cama tentando entender meu outro dia
um turbilhão de pensamentos desalinhados me destrói
o meu peito e meu cérebro corrói
tento fazer algo impedido pela a falta do meu eu
causando conflitos
repetitivos e sem solução
indiferentemente
tudo oque eu queria agora é um descanso
minha mente não aguenta mais tanta pressão
uma pressão preste a explodir
não sei mais para onde ir
novamente só ando perambulante por ai
só aguardando o meu fim.
não há poesia disperdiçada
nem quando não é vista
nem quando não é declamada
não pertence a amores desatentos
não se eterniza em desdém/relento
não depende de 'sim'
quase sempre evita 'não'
poesia é criação fisiológica
se faz até em
modo avião
Não espere grandes acontecimentos...
Cante uma canção. Sorria de novo e de novo!
Plante um jardim ou até mesmo uma flor.
Olhe nos olhos... Ria de si mesma...
Escreva uma poesia.
Seja um vento menino a revoar por todos os cantos.
Não espere grandes acontecimentos.
Somente Viva!!!
Deixei de ouvir-te. E sei que sou
mais triste com o teu silêncio.
Preferia pensar que só adormeceste; mas
se encostar ao teu pulso o meu ouvido
não escutarei senão a minha dor.
Deus precisou de ti, bem sei. E
não vejo como censurá-lo
ou perdoar-lhe.
ESTA MANHÃ ENCONTREI O TEU NOME
Esta manhã encontrei o teu nome nos meus sonhos
e o teu perfume a transpirar na minha pele. E o corpo
doeu-me onde antes os teus dedos foram aves
de verão e a tua boca deixou um rasto de canções.
No abrigo da noite, soubeste ser o vento na minha
camisola; e eu despi-a para ti, a dar-te um coração
que era o resto da vida - como um peixe respira
na rede mais exausta. Nem mesmo à despedida
foram os gestos contundentes: tudo o que vem de ti
é um poema. Contudo, ao acordar, a solidão sulcara
um vale nos cobertores e o meu corpo era de novo
um trilho abandonado na paisagem. Sentei-me na cama
e repeti devagar o teu nome, o nome dos meus sonhos,
mas as sílabas caíam no fim das palavras, a dor esgota
as forças, são frios os batentes nas portas da manhã.
DORME, MEU AMOR
Dorme, meu amor, que o mundo já viu morrer mais este dia e eu estou aqui, de guarda aos pesadelos.
Fecha os olhos agora e sossega — o pior já passou há muito tempo; e o vento amaciou; e a minha mão desvia os passos do medo. Dorme, meu amor — a morte está deitada sob o lençol da terra onde nasceste e pode levantar-se como um pássaro assim que adormeceres. Mas nada temas: as suas asas de sombra não hão-de derrubar-me — eu já morri muitas vezes e é ainda da vida que tenho mais medo. Fecha os olhos agora e sossega — a porta está trancada; e os fantasmas
da casa que o jardim devorou andam perdidos nas brumas que lancei ao caminho. Por isso, dorme, meu amor, larga a tristeza à porta do meu corpo e nada temas: eu já ouvi o silêncio, já vi a escuridão, já olhei a morte debruçada nos espelhos e estou aqui, de guarda aos pesadelos — a noite é um poema que conheço de cor e vou cantar-to até adormeceres.
Quando eu morrer, não digas a ninguém que foi por ti.
Cobre o meu corpo frio com um desses lençóis
que alagámos de beijos quando eram outras horas
nos relógios do mundo e não havia ainda quem soubesse
de nós; e leva-o depois para junto do mar, onde possa
ser apenas mais um poema - como esses que eu escrevia
assim que a madrugada se encostava aos vidros e eu
tinha medo de me deitar só com a tua sombra.
guardei as fitas cassete que você gravou para mim
com músicas do rádio
apertava o rec junto com o play para gravar
as fitas cassete
cortava as propagandas que às vezes invadiam a música
não posso mais tocar
as músicas que você gravou para mim direto do rádio
não tenho mais toca-fitas
restou sua mensagem gravada na secretária eletrônica
na mini fita cassete da secretária eletrônica do aparelho de fax
não posso mais escutar
seu último recado gravado na mini fita cassete
não tenho mais secretaria eletrônica que use mini fitas cassete
(elas também morreram)
tenho apenas caixa postal que grava mensagens de voz
de quem ainda deixa mensagens de voz
que serão apagadas em trinta dias
#RIP
os e-mails continuam a chegar
também as cartas
a página do facebook segue sem
atividade
inúmeros cadastros em infinitos sites
senhas irrecuperáveis
boletos de entidades beneficentes
convites, promoções, corretores insistentes
revistas e jornais: volte a ser um assinante
estamos com saudade
não se pode mais
morrer em paz
NESPEREIRA
era uma nespereira e
eles não sabiam como
protegê-la
quanto tempo leva
gestar um poema
era uma nespereira e
espiávamos dentro dos
saquinhos feitos de jornal
pode levar uma infância curta
ou uma vida inteira
era uma nespereira e ansiávamos que
amadurecessem para enfim
comermos o poema
a impertinência da cura.
arrancaram meus caninos,
tenho as gengivas suturadas à mostra.
de medo: tormenta
[mãos de pólvora afagando o fogo]
na estrada de terra
da cidade vazia
a criança preta empunha um pedaço de pau.
ela está nua e vê-se um corpo tão prematuro
quanto ruínas.
a boca intumescida da criança preta gutura
morte ao rei!
e na aridez inalcançável dos pés descalços
resiste
a criança tão criança e velha,
sozinha e livre –
o sino da igreja abandonada toca todo dia na hora errada.
ela pediu pra eu não enlouquecer
parei de tomar os remédios pra tentar ser gente
mas uma chuva forte caiu
era janeiro
e me escorreguei
perdi o senso
disseram
é temporário
os tremores noturnos
a matriz de uma ânsia descabida
os rostos na janela
todas as noites
os rostos que catequizam as janelas
nas casas sem muro
não há o que se ver que não sobrecarregue a carne
o corpo ainda sente
curva-se ao inevitável
tomba no meio da rua e conclui
não se dá as costas pra morte
há sempre um diagnóstico
preto no branco
vou morrer de tempo ou
vou fazer o quê?
re:___________________.
firmava os pés no chão enquanto varria, mecanicamente, os cacos de vidro. era a primeira vez que não se arrependia dos gritos, do murro na porta, de mais um copo atirado contra a parede. estava sozinha, reconhecendo suas frustrações, a parcela de si não compartilhada, e já não lhe importava o lado de fora – algo haveria de se perder, sempre, no vácuo entre duas mãos sobrepostas. em minutos, um vizinho solidário invadiria sua sala e, com tiques de pardal, exploraria cada canto, procurando marcas da Louca, até finalmente perguntar tudo bem? e ela responder, sorrindo, que sim.
toda noite vem o homem
vestido de branco e
digo a ele
é impossível domar a água
I just sit on the ground in your way
o homem vestido de branco
anota a minha doença num papel.
existi furiosamente
no instante quebrado que me dedicaram
seus olhos desocupados do
que poderia haver de mais belo
Tem uma mulher
que eu amo.
Olhos doídos, pálpebras mornas.
Já acalentou crianças,
deu-lhes o corpo,
alimentou, limpou suas lágrimas,
fez sorrir com voz calma.
Filhos, talvez netos.
Soube renascer neles tantas vezes.
Conhece a fragilidade humana.
Eu beijo os lábios
fechados dessa mulher,
a partir dos cantos,
em pequenas lascas de ternura
e queda no vazio.
Essa mulher viveu coisas
que me abastecem.
Ela fala de alegrias,
de sóis, sobremesas, decotes,
livros, enganos.
Vai falando e contornando dores
com pequenas pausas,
no que os cílios superiores tocam
os cílios inferiores demoradamente,
e ela afunda.
Aperto sua mão e ela emerge.
Enquanto a ouço,
beijo seus olhos.
Digo-lhe que é uma mulher, ainda.
Poucos homens despertaram em mim
o desejo de ser eu mesma.
Dois, talvez três em toda a vida.
O primeiro meu pai, que,
quando nasci,
perdeu-se amorosamente em mim
até se achar outra vez
mais tarde
não saberia precisar
esquecido de não ser, voltando a ser
homem.
Não tenho irmãos.
Tenho um primo que certa vez derrubei
no chão sem querer enquanto brincávamos.
Foi quando entendi
que o trabalho do ódio
é mapear circunstâncias
aleatórias
em torno de feridas alheias
que nem são nossas
portanto alheias
aprendidas.
É bonito como a criança resiste ao ódio,
se assim lhe permitem.
Vieram os homens que eu
não queria, mas que me queriam,
e os que eu queria, e não pude ter.
Os homens que não pude ter
eram sempre enormes, ambidestros,
bonitos como o meu pai quando
meu pai não era homem,
quando meu pai era eu mesma,
perdido de amor.
eu porém tantas vezes não estava pronta
banho tomado
penteada asseada jantada
crescida formada empregada quase morta
pra quando minha mãe chegasse
eu não estava pronta
eu resistia a todos os meus deveres
eu me insubordinava
eu teimava toda uma vida
(ainda teimo)
eu não me limpava
só pra ver se minha mãe chegaria
a despeito de mim
a despeito da sujeira do erro da noite
a despeito da espera a que
assim fingindo não esperar
eu me recusava
foi assim por muitos anos
minha mãe e eu
numa língua estranha e indecisa
embora fosse a mesma língua
a limpeza que eu deveria guardar para ela
e oferecer a ela
na volta
ainda guardo comigo
e de repente deparo com ela
(que ainda espera)
num livro
numa voz estranha
numa outra mulher
que também esperou
numa banheira vazia
o seu amor voltar
