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Me deparei com minha adega vazia, logo me doeu o coração atrofiado, sentei num banco sem sustento perto da porta sem maçaneta e pressionei com toda minha força sem vigor para mais um conto triste de meu gigantesco livro em branco de final já contado, que certamente não será feliz.
Sem sombras para que acompanha minha vida até no meu túmulo.
Desde que cheguei neste mundo não tenho nada que posso dizer que é meu, e isso entristecem qualquer pessoa, fazendo a vida não ser empolgante.
Mas eu encontrei o que posso dizer que vou levar para vida toda, que é a solidão.
Só ela pode ser real e acostume com sua presença, a sua existência faz suporta a minha existência miserável.
Somos um emaranhado de vivências que aos olhos do outro pode parecer apenas uma mistura desconexa e caótica. Cabe a nós desvendar o sentido subjetivo, dentro da nossa sinuosa e magnífica existência.
" Existência"
De repente as coisas mudam
Não é mais dia, e sim noite
Não é mais mais claro, escuridão
Não dão-se as mãos, e sim lutam.
As emoções, as lembranças se vão com a gente
O que fica é só uma breve saudade
Parece que há um bloqueio na mente
O ser humano esquece tudo com facilidade.
E isso é, surpreendentemente, necessário
Se não, ficaríamos parados no tempo
O ser humano é, da existência, arrancado
Difícil de entender? Compreendo.
Algumas pessoa já foram arrancadas de mim
Outras se foram, espontaneamente
Confesso que senti saudade, me reprimi
Mas passou, tive que seguir em frente
Um dia vai ser comigo
Um dia, da vida de alguns, desaparecerei
Alguns vão sofrer escondidos
Outros irão gritar por mi, e não responderei.
Mas, de fato irá passar
Uma hora nem lembrarão que existi
Por isso sofro pra tentar restaurar
Tudo que um dia eu destruí.
Mas ainda luto prara deixar meu legado
Nessas folhas escrevo o que sempre senti
Talvez um dia esteja rasgado, borrado
Mas tento deixar a ideia de que vivi, e não apenas existi.
Alguns desejam fama, notoriedade. Algo que marque sua existência. Já eu, desejo apenas quietação da alma!
Há novas árvores e novas flores sobre a terra. Tudo é tão real e está aqui ao alcance das mãos, mas a maior indagação é saber quando tudo começou. Onde está a ponta do durex?
Na rua quase deserta ouço gargalhadas, talvez vindas de festas, saltos batendo no asfalto duro de um dia que termina para uns e começa nos olhos do crepúsculo. São ruídos de quem nem sabe que eu existo.
Mesmo sem saber onde fica a minha casa quero voltar para ouvir o balir dos anjos, ovelhas do paraíso. Estarei em minha casa quando Deus terminar a crônica da minha vida.
Somos cidades ambulantes; as emoções são casas que precisam de asseio e luz. E, claro, cuidados para acolher as almas solitárias que se esgotam na folia.
O homem, pobre ser humano, tem o universo para conhecer, porém, passa a maior parte do tempo dentro de prédios. Anda pelos mesmos caminhos, igual a uma lagarta que não sabe que, num belo dia, o seu destino a fará voar.
Meus pensamentos são beliscados pelas impressões da vida. Hoje, o som do bolero me pede para recomeçar. Recomeço na necessária desconstrução das emoções. A orquestra celestial – com o Maestro a oriente de um imenso salão - me espera com músicas suaves.
A dor que se esconde não é doença. Quando adoeço ponho a boca no mundo; gemo e resmungo sem parar. Só paro quando bebo água fluída no batismo da bênção.
Cada um de nós - habitante do mundo - tem um papel a ser cumprido nessa vida efêmera e, às vezes, sem sentido. O do artista de cinema, televisão e circo é o de emocionar as pessoas. Nada é mais importante no mundo do que o seu destino.
Fecho os olhos para não ver a frota que chegou nem sei se do Atlântico ou do Pacífico. Viro o corpo, à direita e à esquerda, cansado de noites sem dormir à espera da alvorada. Dezembro, dezembro. É do natal passado de que me lembro.
No cemitério estão os mortos que já morreram; outros que vão demorar a morrer. Ainda há os que jamais morrerão: seus feitos construíram a eternidade e serão sempre lembrados.
Há uma cadência serena no andar de homens e mulheres que caminham passos regulares; os pés irradiam serenidade. Essa firmeza na jornada torna a alma da cidade mais amena.
No meu tempo de espera, que já dura décadas, posso ver o passar dos tempos nas retinas dos olhos com colunas de densas imagens. E elas são umbrais que sustêm as vergas do tempo. Quero ser um universo que se encanta no meu chão enfeitado com um docel de estrelas formado por cachos de uvas brancas da região do Minho.
Deus põe sal na minha moleira para me dar mais juízo. Um chapéu na cabeça me convém para me guardar do sereno. Ou, talvez, uma cadeira de balanço para sossegar os meus pensamentos que se afogam nas torrentes de águas.
Ter medo de ser esquecida é o pior dos medos. É como tentar fugir da velhice, não adianta, ela sempre chega. E as vezes, você já é velha e nem sabe. As vezes, você já foi esquecida, até por você mesma. A ignorância nunca pareceu ser tão atraente não é? Ela te chama, ela quer te agarrar, e você deixa. Você deixa. Você deixa se levar. Não há como resistir a uma boa dose de ilusão fantasiada de felicidade. Mas como toda ilusão acaba, o produto é negativo, o resultado é negativo. E tudo se torna escuro. Você se sente esquecida. Você está se perdendo. E a gente sabe, na vida, na vida, ninguém está disposto a te encontrar.
