Sou Complexa Definir
Você pode me ver como "presa fácil", mas sou sobrevivente. "Não esqueça, já sobrevivi a temporais, você é chuva fina no telhado."
(Maria Gorette O.P.P.)
Um dia alguém me falou que eu não era ninguém, tudo bem. Mas, pelos olhos de Deus sou uma jóia rara, alguém muito especial.
Danilo Strada
Veem-me cinzento.
Mas não é por falta de cor —
é por não pintarem devagar.
Não sou o que mostro.
Sou o que seguro para não cair.
O que calei para não ferir.
O que deixei por dizer
quando me disseram que já não havia tempo.
Aprendi a vestir sombras
com a dignidade de quem sabe
que até a noite tem camadas.
Ergui castelos no ar
com mapas rasgados.
Com linhas tortas, sim,
mas desenhadas com silêncio aceso.
Procurei luz sem a pedir.
Preferi arder por dentro
a que me apontassem o fogo.
E quando me disseram que o mundo era
preto ou branco,
guardei as cores no bolso.
Não para esconder —
mas para que alguém as quisesse ver.
Sou feito de todas as coisas
que não se veem à primeira.
De silêncios que gritam.
De memórias que ainda não aconteceram.
De palavras que nasceram antes da boca.
Não preciso de ser lido.
Mas se me lerem, que não me distorçam.
Procurem a cor, não as trevas.
As que tremem.
As que resistem.
As que sou.
MONÓLOGO
“Eu Sou Tereza, Eu Sou Quilombo
Por Eli Odara Theodoro
(Para o Julho das Pretas)
:
Axé…
Axé, minhas irmãs!
Eu cheguei.
Julho chegou.
E com ele, eu me levanto.
Não sozinha — nunca sozinha.
Me levanto com Tereza.
Sim, Tereza de Benguela…
Mulher preta, mulher quilombola, mulher rainha.
Liderança. Inteligência. Força política e amor pelo povo.
No século XVIII, quando mataram seu companheiro,
ela não fugiu.
Ela ficou.
Assumiu o Quilombo do Quariterê.
Criou um governo, um parlamento, uma resistência com nome de liberdade.
Ela sabia…
Que resistir era também amar.
Que ser preta, mulher e viva
já era um ato revolucionário.
E eu…
Sou continuidade de Tereza.
Sou Eli Odara Theodoro .
Mulher preta. Quilombola.
Mãe. Viúva. Educadora.
Filha da terra e dos tambores.
Minha pele carrega o barro da luta,
minha voz carrega as palavras que tentaram calar.
Como diz Beatriz Nascimento:
“O quilombo é um lugar de liberdade possível.”
E eu sou esse lugar.
Meus passos são quilombo.
Minha fala é quilombo.
Minha sala de aula, meu terreiro, meus textos, minha lida — tudo é território de reexistência.
Sueli Carneiro grita comigo contra o apagamento.
Lélia Gonzalez me lembra que o mundo é racista e tenta nos empurrar pra margem.
Mas nós somos centro!
Centro da cura, do cuidado, da criação.
Conceição Evaristo sussurra aqui dentro:
“Escrevivência…”
E é isso que faço.
Eu escrevo com o corpo.
Escrevo com as dores e alegrias que a vida preta me deu.
IBGE diz: somos 28 milhões de mulheres negras no Brasil.
Mas isso é só número.
Nós somos mais!
Somos as que levantam antes do sol.
As que dançam pra Oxum e marcham contra o racismo.
Somos as que cuidam dos filhos dos outros enquanto sonham com futuro pros seus.
Djamila Ribeiro me lembra:
“Nosso lugar de fala não é favor.”
É luta.
É direito.
Nilma Lino Gomes grita comigo:
Educação quilombola é território de sabedoria viva!
Não tem sala de aula mais forte que o chão de nossas comunidades quilombolas.
E como diz bell hooks:
Amar também é ato político.
Eu escolho amar quem sou.
Escolho amar os meus.
Escolho amar as mulheres que vieram antes,
e aquelas que ainda virão.
Hoje…
Eu não só homenageio Tereza.
Eu a convoco.
Tereza está em mim.
Tereza está em nós.
Porque, como diz Conceição Evaristo:
“Nossos passos vêm de longe.”
E eu completo:
Vêm de longe…
E seguem firmes.
De cabeça erguida.
Pés fincados na terra.
E o coração batendo no ritmo da ancestralidade.
Axé, Tereza!
Axé, Mulheres Negras!
Axé, Julho das Pretas!
Desde que você entrou na minha vida, cada momento se tornou especial. Sou grato por ter você ao meu lado. 💖✨
Sou eu a pessoa que você quis
Sou eu o amor que em sua vida fazia sentido
Sou eu também a pessoa que te quis
E quando um mais um foram dois
Eu precisei ser menos
Por entender
Que sendo um
Ja me sinto completo
E singular.
Sou um menino que caiu do céu com vontade e sede de viver. Não precisei fazer nada aqui, porque todos que vi já morreram pela mesma moeda: sangue derramado por muito pouco. E eles ainda acreditam que pode haver um rei aqui na Terra.
Sou o último escritor que não usa i.a. meus trabalhos estão em manuscritos datados. A verdade é que sou disléxico.
Luz e Sombra da Alma
Há dias em que sou luz.
Ilumino tudo sem querer.
outros dias…
Eu sou sombra.
Me escondo de mim.
Faço o mal que não quero,
sem entender por quê.
O bem que desejo
fica parado na beira
do meu medo.
Sou cheia de abismos.
feridas antigas,
gatilhos que disparam sozinhos
quando menos espero.
não é drama,
é história mal curada.
E o que eu alimento em silêncio
cresce.
A raiva?
A compaixão?
A crítica?
O amor?
A alma é território de guerra,
mas também é jardim.
E se não cuido,
tudo vira mato por dentro.
O autoconhecimento não é bonito,
é rasgar a pele,
olhar os monstros nos olhos,
e ainda assim escolher
ficar.
curar.
voltar pra si.
Porque o mundo dentro da gente
precisa mais do que frases bonitas —
precisa de presença,
de coragem,
de recomeço.
Nascer de novo
não é sobre mudar tudo.
É sobre lembrar
quem se é
embaixo de todas as máscaras.
Sou luz.
Sou sombra.
Sou quem observa as duas
e aprende a viver
com inteireza.
CONCEIÇÃO PEARCE
Vulnerável
Sou vulnerável, sim —
às bobagens que dançam no ar,
às palavras miúdas que ninguém quis guardar,
a um olhar que escapa, sem querer,
e às ideias que invento sem saber.
Sou feito de brechas e de vento,
de silêncios que gritam por dentro,
de gestos que não se explicam,
de sonhos que se multiplicam.
Basta um riso torto, um suspiro alheio,
e já me desfaço inteiro.
Não é fraqueza, é excesso de sentir,
é viver com o coração sempre a descobrir.
Imagino mundos em cada gesto,
crio histórias onde só há restos,
e me perco — doce e profundo —
no que talvez nem exista neste mundo.
Sou vulnerável, e nisso há beleza:
ser tocado pela leveza,
ser inteiro na incerteza,
ser humano na delicadeza.
Roberval Pedro Culpi
Eu sou um eterno escravo,
Escravo da minha liberdade,
Escravo da minha vontade,
Escravo da minha servidão,
Escravo de tudo,
Escravo da vida,
Escravo de mim mesmo.
Rogerio Germano
Tem dias que nem sei mais quem sou. Me olho no espelho e vejo um reflexo apagado, cansado... distante do que um dia fui. Sinto que perdi o brilho no olhar, a força nas palavras, a vontade de lutar. Aprendi a esconder o que sinto, porque ninguém percebe mesmo. Ando por lugares que já me fizeram sorrir, mas agora só me dão vontade de sair correndo. Me pego lembrando de quem eu era — cheio de planos, de vida — e comparo com esse alguém que só sobrevive. Não sei se é tristeza, exaustão ou só um vazio que tomou conta... só sei que algo em mim se perdeu. E isso pesa mais do que consigo explicar.
