Sorria Mesmo
Eu mudo de rota a cada dez anos porque me recuso a ser o museu de mim mesmo. Se eu não me trair de vez em quando, acabo virando estátua, e estátua só serve para os pombos da mediocridade cagarem em cima.
Dizer que o ateu nega a deus para pecar é o mesmo que dizer que o crente aceita a deus para não pensar; a descrença não nasce da vontade de errar, mas da recusa em fingir que sabe o que ninguém provou.
O câncer é a expressão biológica do egoísmo: células que só sabem crescer, mesmo destruindo o todo. O egoísta faz o mesmo na vida social.
Aceitar a microevolução implica, inevitavelmente, aceitar a mudança de espécie, mesmo que isso leve muito, mas muito tempo.
Mesmo que existisse uma divindade, não segue logicamente que ela precise criar um paraíso; essa ideia é apenas um desejo humano egoísta de autopreservação.
Toda mente exige estrutura; toda estrutura exige suporte não mental. Logo, nenhuma mente, nem mesmo deus, pode ser ontologicamente primária. Se deus existe, ele tem um corpo!
Se deus é onisciente, ele já sabia que ia criar o inferno e mesmo assim criou. Que sadismo divino é esse?
Empresário não “gera emprego” do mesmo jeito que sanguessuga não “gera sangue”. O emprego existe porque a empresa precisa funcionar, simples assim. Não é filantropia, não é altruísmo, não é milagre do empreendedor iluminado é necessidade operacional. Ninguém abre vaga por bondade no coração ou por amor ao próximo; abre porque sem gente trabalhando a engrenagem trava. E sem trabalhadores, o dinheiro do empresário não “empreende” sozinho: não produz, não cria, não se multiplica fica lá, mofando no banco, rendendo migalhas enquanto ele descobre, horrorizado, que capital sem trabalho é só um número triste numa tela.
A religião é o ópio do povo, e como todo bom viciado, o religioso defende seu traficante mesmo quando ele está destruindo sua vida.
Se todos somos simulações na mente divina, punir eternamente a si mesmo seria não só masoquismo, mas um imenso desperdício de energia, tempo e inteligência.
O Estranho no Espelho
O espelho reflete duas faces distintas,
Duas pessoas que habitam o mesmo lugar.
Mas não são a mesma; são chamas extintas,
De um corpo que a alma não quer habitar.
Não é aceitação, é um descompasso,
Entre a imagem que vejo e o meu próprio passo.
Em meu pensamento, a cor é diferente,
Lá mora a doçura e o riso de criança.
Maduro por fora, mas por dentro adolescente,
Cheio de brilho, vontade e esperança.
Sou o olhar que brinca e o desejo que invade,
Livre das amarras que impõe a idade.
Pois quando os quarenta se tornam vertente,
Dizem que é lindo, mas vejo o engano.
A ladeira abaixo é o que a gente sente,
A mentira pintada sob o véu de cada ano.
Quem fantasia a beleza dessa queda cruel,
Esquece que a alma não cabe no papel.
Ass: Roseli Ribeiro
já não dói do mesmo jeito,
já não pesa como antes,
mas teu nome ainda mora
nos meus dias vacilantes.
já não busco tua sombra
quando o mundo escureceu,
mas às vezes olho a lua
e imagino o olhar teu
penso em frases que eu diria,
em respostas, discussão,
no teu riso atravessando
o silêncio do meu chão
e eu sigo, pouco a pouco,
mesmo sem compreender
como alguém vai embora
mas continua em você
talvez seja a saudade
aprendendo a descansar,
feito o verão que vai embora
mas deixa o sol no ar
e que eu aprenda comigo
o que nunca percebi:
não vale perder meu mundo
tentando viver por ti
“A paciência é a arte pela qual o homem doma a si mesmo e atravessa, sem se quebrar, as intempéries do tempo.” — Leonardo Azevedo.
