Sonho
Não realizar um sonho é menos doloroso do que sonhar um sonho que não depende somente de você para realizá-lo.
Enquanto eu sonhava!
Se for um sonho,
deixem-me sonhar.
Não me acordem,
não me despertem.
Deixem-me acreditar
que, enfim,
encontrei o paraíso
onde minha alma aprendeu a descansar.
Há um lugar
onde o tempo esqueceu de passar,
onde o silêncio tem cheiro de mar
e a paz não faz perguntas,
apenas convida a ficar.
Nesse horizonte,
cabelos da cor do sol
tocam a luz sem pedir licença,
como se o próprio amanhecer
tivesse encontrado um rosto
para nascer.
E há um sorriso...
tão discreto
que o mundo quase não percebe,
mas quem aprende a olhar
o guarda para sempre.
Sonhei com o paraíso.
E havia alguém.
Não sei se era destino,
miragem,
lembrança de um futuro
ou um desejo
que se cansou de viver apenas em silêncio.
Só sei
que desde esse sonho
a realidade parece pequena demais
para conter o que senti.
Tenho medo de despertar.
Medo de abrir os olhos
e perder o caminho
que me leva até você.
Medo de que a manhã,
tão certa de si,
leve embora
aquilo que a noite
me confiou em segredo.
Então,
por favor,
não me despertem.
Há sonhos
que não imploram para se tornar realidade.
Basta que existam,
porque existem presenças
que o coração reconhece
antes mesmo de lhes dar um nome.
E, se for preciso viver entre o sono e o amanhecer,
que seja.
Pois, ainda que o mundo me acorde,
uma parte de mim
continuará sonhando...
na esperança silenciosa
de voltar ao lugar
onde o mar aprende o seu nome,
o sol encontra os seus cabelos
e minha alma,
pela primeira vez,
descansa.
Onde o Sonho Não Tem Medo
As entrelinhas jamais mentiram,
foram os silêncios que primeiro falaram.
O suspense vestiu-se de luar,
mas os fatos, discretos, vieram revelar.
Nunca fui feita para esperar,
há verdades que recusam se calar.
Pois viver de mistério é sobreviver,
quando a alma só deseja acontecer.
A realidade ergue muros ao redor,
faz do perto um caminho bem menor.
Afasta os passos, aprisiona a emoção,
e ensina saudade ao próprio coração.
Por isso escolho o país do sonhar,
onde ninguém pode me proibir de ficar.
Ali, teu nome é abrigo e clarão,
escrito em segredo na palma da mão.
Se minhas palavras tocaram tua dor,
não nasceram da falta de amor.
Nasceram do peso de um querer calado,
que aprendeu a existir do lado errado.
Então me escuta, sem medo de ver:
é no sonho que ainda encontro você.
Lá o impossível esquece o próprio nome,
e o tempo, por um instante, não nos consome.
Não peças ao destino outra direção,
nem desafies os ventos da razão.
A vida, aos poucos, tem me ensinado
que até o caos pode andar compassado.
Hoje abraço o fogo sem me consumir,
aprendo a sentir antes de partir.
Minha intensidade já não quer vencer;
ela apenas deseja florescer.
Porque descobri, no silêncio do mar,
que a força não está em deixar de amar.
Está em guardar, como um segredo profundo,
o sonho mais bonito que não cabe no mundo.
Entre o Sonho e o Teu Chamado
Na calada da noite, ouvi teu chamar,
uma voz entre falhas querendo me encontrar.
Fui seguindo o caminho, sem saber onde dar,
até ver-te na areia, contemplando o mar.
Teus olhos molhados, teu jeito de fugir,
um mundo tão pesado que não querias sentir.
Correste para os meus braços, sem nada explicar,
e eu apenas te abracei, deixando o silêncio falar.
Disseste baixinho, cansada de esconder:
“Hoje eu consegui fugir… e pensei em você.”
E eu, sem compreender o que havia acontecido,
fiquei ao teu lado, no silêncio dividido.
A lua testemunhava o que ninguém podia ver,
duas almas conversando sem precisar responder.
E o mar, tão sereno, parecia guardar
cada palavra perdida na imensidão do luar.
Então teus olhos pousaram na minha pele,
e tua mão, devagar, percorreu o que nela se escreve.
Dedilhaste a tatuagem, em silêncio, sem pressa,
como quem reconhece uma história que atravessa.
E disseste, com os olhos marejados de emoção:
“Eu sei que essa você fez pra mim, Mannu.”
Não respondi; deixei o silêncio falar,
pois certas verdades não precisam de um explicar.
Mas vi novamente as lágrimas em teu olhar,
e não compreendi o que te fazia chorar.
Perguntei o que havia, querendo entender,
e tu apenas disseste: “Não precisa saber.
Você não precisa entender o que sinto agora,
nem encontrar respostas para o que me devora.
Apenas me abraça e deixa o momento existir…
eu consegui fugir, e estou aqui.”
Ficamos até o céu começar a clarear,
vendo a madrugada lentamente passar.
E quando o primeiro raio surgiu no horizonte,
o sonho começou a desaparecer como espuma na fonte.
Foi quando o telefone resolveu despertar,
uma mensagem tua acabara de chegar.
Abri os olhos depressa, ainda presa ao sonhar,
e era justamente você… voltando a me chamar.
Coincidência ou mistério, não sei explicar,
há coisas que acontecem sem pedir pra começar.
Mas entre a mensagem, o sonho e o amanhecer,
ficou uma pergunta que insiste em permanecer:
“Será que eu sonhei com você naquela madrugada, ou foi minha alma que te encontrou antes da chegada?”
Outra vez é noite alta
é madrugada
Eu acordo do nada
ou de um sonho ruim
Eu procuro
com os olhos no escuro
O meu velho fantasma
que em criança me fazia medo
Num tempo em que sonho
era sempre algo bom
e que eu tinha tanta vontade
de sair pra rua e viver a tudo que eu vivi
Eu queria tanto acordar
quando já fosse dia
Perguntar pra minha velha assombração
aquele medo bobo, que me protegia
De criança que chora por alguma falta
Não sentia essa falta de ar, que eu sinto agora
Qual era a tua sensação
Por que foi que sumiu
Que segredo guardava sobre mim
e de onde vinha o cheiro de hortelã
Combinado à brancura das vestes
Só restaram perguntas
A fazer pra quem me guardava
e nunca mais voltou
Num tempo em que eu me deitava
E, sem medo nenhum dessa vida
Eu dormia até a próxima manhã.
Edson Ricardo Paiva.
A grande verdade é que estamos sobrevivendo, alimentando sonho e esperança de vitória, dia após dia. Os desafios não cessam ao longo da vida, mas a forma de encará-los muda completamente à medida que amadurecemos. Ter a clareza da realidade, das possibilidades, da nossa capacidade de seguir adiante, independentemente de quem permaneça ao nosso lado. Ter clareza de que é preciso seguir adiante, mesmo que sozinho, pelo tempo que for necessário, faz toda a diferença. O encanto pela vida tem base sólida nos sonhos alegres, o encanto pelas pessoas, tem base sólida na esperança, embora, quase sempre, ignoremos os sinais de que tudo possa ficar pelo caminho. É nesse instante que precisamos observar e agir sem emoção, fazendo prevalecer toda a capacidade da nossa racionalidade. Esse é um processo constante, árduo e doloroso, no entanto, não é possível voltar e refazer o que ficou, só nos resta seguir e reescrever cada capítulo, dia após dia, ressignificar tudo é preciso, precisamos essencialmente, mudar o filtro pelo qual enxergamos a nossa própria história, sem esquecer de que é daqui pra frente, jamais no sentido contrário.
Toda realização é um sonho que enfrentou tempestades, superou a vontade de voltar e criou raízes no mundo real.
Confia.
Mesmo quando você não entende o caminho, o sonho d’Ele continua intacto.
E é nesse descanso que o coração aprende a dizer:
“Seja feita a Tua vontade, porque ela é sempre melhor.”
Que o Senhor alinhe seus sonhos aos d’Ele,
e te dê paz enquanto Ele faz mais do que você pediu ou imaginou.
miriamleal
“O SONHO DA CAPITÁ”
“Me mudei pra capitá…
Farnelzinho de jabá…
Com farinha de Sergipe…
Me amontei num tal jipe
Dum bacana que ia pra lá…
E parti sem nem olhá…”
“Cantoria esquisita…
Risadagem infinita…
Era muito blá-blá-blá…
Cheguei no meu destino…
Que sonhei desde menino:
A tão bela capitá!”
“Gradecido, seu menino…
Deus te guie no caminho…
Fui sentar pra merendá…
Eita lugar mais bonito…
Um mundão de edifício…
Logo eu vou trabaiá!”
“Satisfeito com a visão…
Igualzinho à televisão…
Logo eu vou enricá…
Mas, pra resumo da prosa…
Procurei obra custosa…
Pra mode eu trabaiá.”
“Serviço logo ajeitado…
Muitas léguas avexado…
Todo dia pra chegá…
Mas num foi nada facim…
Trabalhei de sol a sol…
Pouco tostão pra ganhá…”
“Era motivo de mangação…
Dos colega e do patrão…
Por meu jeito de falá…
Toda aquela empolgação…
Que eu tinha desde bugrelo…
Rebentou igual chinelo…
Que nem prego ia emendá.”
“Só vivia aperriado…
Sonhando em ter arribado…
Mas tristeza vinha já…
E no meio da lembrança…
Do cheirinho da infância…
Derrubei meu mugunzá…”
“Minha Senhora Aparecida…
Me ajude nessa vida…
Quanta fome fui passá…
Pra piorar o desalento…
Me sentia um jumento…
Quem mandou num escuitá?”
“Fi, num se agarre à ilusão…
Porque a televisão tem de mania de enganá…
Tu já é um homem feito…
Só posso te desejá:
Deus te guie e abençoe…
Nessa tá capitá…
Tome aqui o seu farné…
Num se esqueça do chapé…
Pro sol não lhe judiá…”
“Televisão mardiçoada…
Fez minha vida errada…
Porque fui acreditá?”
Quando morremos no sonho, o despertar nos resgata, pois o mistério da morte é um silêncio que nem mesmo a imaginação ousa sustentar.
A esperança virou plano de ação, cada esperança ganhou etapas práticas, assim o sonho virou tarefa cumprida.
