Sombra
A razão é apenas a sombra que a fé projeta no núcleo da inteligência; quem tenta medi-la, caminha no escuro com uma vela acesa pelo próprio mistério.
Reno Fioraso
Satisfatório é ter a certeza que suas sementes e pegadas um dia servirão de sombra e trilha para aqueles que ainda nem nasceram.
Caminha em direção à bondade, para que, em algum momento, o mal se perca na sombra e perceba que a luz é necessária ao reconhecimento da própria escuridão.
Tem gente que quer uma sombra no quintal, mas não tira uma folha da varanda. Tem preguiça até para olhar o sol.
MORIBUNDA.
Autor: Marcelo Caetano Monteiro.
Nas frestas do ser, tecido em sombra e peste, dorme a carne, e a alma se reveste de ferrugem, pó e lama vil;
sou fruto putrefato de um solo hostil.
No ventre úmido do tempo triste e agreste, minh'alma enferma e macilenta investe, num sonho tosco, em busca do porvir; mas tudo é vão.
O osso, o mofo, o verme persistem. E neste palco de miséria e desatino, represento o triste destino de um bicho que sonhou sentir.
E ama, e chora, e continua a perecer.
Meus olhos, duas candeias já sem brilho, pendem cansados para o chão senil;
a vida foge, fria, sutil,
e só me resta o gosto vil da dúvida que rói todo o perfil.
Sinto no peito um breu sem consolo,
um poço sem fundo, um verso sem solo.
E nesta agonia, um réquiem vago a vida entoa, zombando do meu pranto que ainda condoa.
Sou barro e lodo, sombra e lama, verme que deseja chama, mas só sabe se arrastar.
E, ermo em vão, me vou sem norte,
levando no peito a própria morte,
que vive a sussurrar. Assim... num mundo vão
me desfaço e me consumi, num riso amargo e vão que não sorri.
E a noite é tudo o que sei e serei e senti.
SOMBRA FERIDA NO OSTRACISMO.
Autor: Marcelo Caetano Monteiro.
No meu porão não há arco-íris, há neblina e luto
um veludo de pó que emoldura o corte do absoluto.
As paredes, urnas frias, suspiram úmidos segredos,
onde a luz morreu em filas, sepultada entre medos.
Há um perfume de velório, metálico e ancestral,
cheiro de livros podres, de promessas em funeral.
As tábuas gemem documentos de infância em decomposição,
e eu, órfão de auroras, escuto o peito em erupção.
Os vermes fazem coro num idioma de sal,
recitam o credo antigo da desordem e do mal.
Não vêm risos prometidos das pontes do horizonte,
só ecos de um requiem que secos meus ossos aponte.
A túnica do sonho jaz rasgada, sem bordado,
e a esperança, cadáver, exala ar frio e embargado.
Vejo, entre teias grossas, um retrato de saudade,
o olhar do tempo fechado numa urna de verdade.
Quem trouxe velas aqui? Quem desabou essa cal?
E somente o vento com fome, sussurra: _ o funeral.
Não há prisma que ministre cores à noite do abandono,
apenas o vinho azedo do remorso e do engano.
As rimas que eu buscava, como penas, se desfazem,
perdidas nas catacumbas onde as vontades jazem.
E o coração, esse pássaro morto, pesa como um sino
que bate sem crença, anunciando o próprio destino.
Aqui as estrelas não descem; apenas descem os lamentos
de uma geometria morta, sem mapas nem alentos.
Trazem-me vozes em latim as lembranças desbotadas,
orações incompletas por almas já extraviadas.
E eu, médico das sombras, abro o livro da ruína,
escrevo nela com lágrimas a página da ladainha.
Não espero salvação que salvação há no pó?
A salvação é miragem, e o porão é o seu nó.
Se há amor, é funesto; se há fé, é contrição;
se há cor, é somente a púrpura da minha instrução.
Por fim, deixo aos ratos as medalhas do desvelo
e à penumbra consagro este pobre desassossego.
No meu porão não há arco-íris, há silêncio e ossos
e a voz do tempo que bebeu todos os nossos esforços.
E se acaso amanhã algum raio ousar romper o chão,
ele morrerá engasgado na cova da razão.
Assim reclamo meu tribunal de sombras e lutos,
onde escrevo, com sangue frio, os versos absolutos.
Que fique a certidão: no fundo desta invenção,
não há arco-íris só a eterna, sublime condenação.
O Canto do Galo e a hora sagrada.
Na sombra fria rompeu a alvorada,
Cantou o galo à terra consternada;
E Pedro, a face em pranto consumida,
Viu sua fé por si mesma ferida.
Negou três vezes o Mestre querido,
Com voz de medo e coração vencido;
Mas cada som do galo anunciava
A luz que a culpa em lágrimas lavava.
O céu calou... Jesus não o ferira;
Somente o olhou com santa e doce lira.
Naquele olhar, sem ira nem censura,
Nasceu a flor da eterna compostura.
Cantou o galo. O mundo estremeceu.
O homem caiu... mas Deus não o esqueceu.
Quem chora o erro, ao bem torna outra vez,
Pois a humildade é filha da altivez.
Ó galo humilde, arauto da verdade,
Que despertaste a humana enfermidade,
Teu canto foi mais forte que o açoite,
Rasgando em luz a escuridão da noite.
Pedro caiu para melhor subir;
Quem sabe amar também sabe carpir.
E o Cristo, manso, ao ver sua aflição,
Fez do remorso um hino ao coração.
Assim, quando o pecado nos alcançar,
Que o galo torne em nós a despertar;
Porque a alma que aprende a se curvar
É a mesma que Deus torna a levantar.
“Perdi até a sombra do teu amor na escuridão dele, e desde então, procuro no vazio aquilo que já não projeta luz.”
" Aquele que deseja compreender as sombras do além deve, antes, examinar com coragem as sombras que ainda abriga. Pois toda paisagem espiritual começa na arquitetura invisível da própria consciência. "
"Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal algum, porque Tu estás comigo...”
(Salmo 23:4)
Deus não se ausenta na dor. Ele se aproxima. Ele não apenas vê, Ele sente contigo.
Hoje, o Céu ainda clama:
“Escolhe a vida, abandona a sombra,
lava tuas vestes no sangue puro,
e caminha no temor do Senhor”.
Porque o pecado é sentença de morte,
mas Cristo é a Ressurreição e a Vida.
Há vidas que brilham tão forte,
Que a sombra não ousa tocar,
São corações que amam tanto,
Que a própria morte precisa esperar.
E o céu, que as conhece pelo nome, diz:
“Espere, morte… porque ainda há propósito em andamento. Ainda há feridas que essa alma vai curar, ainda há lágrimas que essa vida vai enxugar.”
“Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo, à sombra do Onipotente descansará.” (Salmos 91:1)
No secreto, Ele nos ensina a alegria que não depende das circunstâncias, mas da presença.
Quer sombra? Plante árvore.
Sombra não nasce em estação de pressa.
Ela vem do tempo, do cuidado, da constância.
Quem planta hoje, descansa amanhã, e ainda abriga outros. miriamleal
O segredo mais bem guardado pode ser aquele que ninguém acredita que exista.
Nem toda sombra esconde um segredo, mas toda sombra pode despertar uma dúvida.
Chapéu de abas largas
Na sombra densa da amoreira,
as folhas brilham ao sol;
amoras verdes,
amoras maduras,
amoras doces..
Há doce onde moras?
O medo ronda, mas não governa, é sombra frágil diante do peito em chamas, um invasor que nunca tomará morada.
