Sobrevive Amor Acima de tudo
TÉNUE LUZ NO ABISMO INTERIOR.
" Permaneço em silêncio no âmago da tristeza, não por consentimento, mas por prudência do espírito. Mesmo quando nenhuma cor alcança meus olhos, os sentidos murmuram em tom tão baixo que não perturbam os transeuntes da existência. O silêncio, longe de ser rendição, é resguardo. É o ato de não me deixar contaminar pelas dissonâncias que rondam a carne e o pensamento. Assim, meu porão interior começa a aclarar-se, ainda que sob a luz turva de uma filosofia soturna, erudita e posta à beira do precipício, onde cada reflexão parece ressoar como eco de uma lucidez quase fúnebre. "
MEU UNIVERSO DE ESTESIA.
No vasto pavilhão interior onde a Estesia se converte em alicerce e sopro, ergue-se um universo cuja tessitura lembra um relicário de consciências antigas. Ali, cada sensação assume a gravidade de um oráculo silencioso, e cada pensamento se recolhe como se fosse uma lâmina de luz antiga, talhada pela mão do Absoluto. Nada se dissipa nesse âmbito secreto. Tudo se ordena como se obedecesse à harmonia primordial que sempre presidiu o espírito humano.
A sensibilidade, nesse reino recôndito, não é mero sentir. É uma faculdade régia, um sacerdócio íntimo. Ela penetra os interstícios da existência com a solenidade de quem sabe que o mundo se sustenta não pelos ruídos, mas pela disciplina do silêncio interior. A Estesia transforma-se em sacrário, onde a alma se ergue, altiva e contemplativa, para colher o que há de mais vigoroso em sua própria substância. Cada emoção adquire a natureza de uma escritura sagrada. Cada lembrança converte-se em argila moral. Cada dor se transmuta em um farol que instrui, conduz e depura.
É nesse universo que o espírito aprende a curva dos séculos, a verticalidade do passado, a nobreza do que não se corrompe. Tudo ali assume o peso do tradicional, a dignidade do perene, a compostura lúcida do que não se curva às inquietações fugazes. A Estesia torna-se uma espécie de clarão ético que verte de dentro, donde a vida se revela como uma confluência de responsabilidades magnânimas e chamamentos silenciosos.
Contemplar esse universo é perceber que o ser humano somente se engrandece quando restitui a si mesmo a inteireza que perdeu. É entender que cada sentimento é um altar e que cada pensamento é uma via que se abre para regiões ainda não nomeadas. A grandeza não se encontra no tumulto, mas na interioridade que ousou permanecer fiel à sua própria essência.
E assim, nesse universo de Estesia, a alma se levanta como um monólito sereno, guardando em seu centro uma chama que jamais se extingue. Porque tudo o que é verdadeiro, quando tocado pelo espírito, transforma-se em senda para a imortalidade.
Quando a Paz é Sua:
A Sublime Força do Perdão Consciente.
“Quem não perdoa não se livra da ofensa.”
Autor: Marcelo Caetano Monteiro .
Quando a indiferença é do outro e a paz é sua, o coração descobre que o perdão não é um favor ao agressor, mas um remédio bendito que liberta a própria alma do peso da mágoa e da repetição mental da dor. Quem escolhe perdoar retira as correntes invisíveis que o prendiam ao passado, abrindo espaço para que os benfeitores espirituais o amparem com inspirações de serenidade e coragem na caminhada evolutiva.A maior sabedoria se consiste em saber compreender a ignorância alheia, porque cada espírito está em um degrau diferente da escada evolutiva, aprendendo a duras lições aquilo que um dia também ignoramos. Diante da indiferença, da grosseria ou da injustiça, o olhar espírita recorda que todos somos viajores da experiência humana, trazendo débitos, provas e limitações que nem sempre aparecem aos olhos do mundo, mas são conhecidas pelas leis divinas de causa e efeito. Assim, em vez de alimentar revolta, o discípulo do bem escolhe compreender, amparar em pensamento e seguir adiante, confiando na justiça de Deus que não falha.Conforme inspira Allan Kardec em O Evangelho Segundo o Espiritismo, a verdadeira superioridade moral manifesta-se na serenidade diante das fragilidades do outro, pois o espírito realmente amadurecido não se compraz em apontar erros, mas em oferecer exemplos silenciosos de paz e tolerância. Nessas horas, calar-se para que um ignorante continue falando é uma caridade que ele não está apto a entender, mas que protege sua própria harmonia interior e evita que palavras impensadas criem novos débitos espirituais. O silêncio que nasce da caridade não é omissão, mas oração em ato, que entrega a situação às mãos de Deus e, quando preciso, aguarda o momento certo para um diálogo fraterno e edificante.Aquele que perdoa com entendimento profundo não se perturba diante das incompreensões alheias, porque reconhece que todos nós ainda caminhamos rumo à conquista da convicção plena da imortalidade e das leis divinas. O perdão consciente não é fraqueza, mas expressão luminosa de maturidade espiritual, que transforma feridas em sabedoria, humilhações em humildade verdadeira e tropeços em aprendizado duradouro. Que cada gesto de compreensão, cada silêncio caridoso e cada esforço íntimo de perdoar seja para nós um passo seguro na trilha da evolução, preparando nossa alma para as alturas da imortalidade, onde somente o amor, a paz e a misericórdia têm morada definitiva.
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@destacar
Carta Lenta à Velocidade do Mundo.
Autor: Marcelo Caetano Monteiro.
meu bem,
há em caligrafar uma carta
um gesto arcaico que resiste
como se a mão, ao traçar o contorno das palavras,
buscasse recuperar o antigo rito
em que a mensagem era também oferenda
e cada sílaba repousava
no silêncio atento de quem a enviava
mas o tempo, esse senhor impaciente,
anunciou a nova ordem
em que a pressa submete o afeto
e o correio, outrora cortejo cerimonioso,
foi mutilado pela urgência
até que a missiva, privada de sua demora,
se converteu em míssil
um projétil que fere aquilo que tenta alcançar
sendo assim
pergunto a mim mesmo o que fazer
como seguir escrevendo
num mundo que desaprende a espera
e teme a profundidade dos gestos?
ainda assim, e talvez por isso mesmo
insisto em lhe escrever
uma salva de ternuras
que não busca destino
mas presença,
uma pequena convocação ao eterno
para que saiba que, entre ruínas e ruídos,
há alguém que continua a lhe querer
na paciência do que é verdadeiro, e que cada palavra enviada
mesmo que perdida no vento
é uma centelha acesa
contra o desaparecimento, pois só o que escrevemos com a alma, perdura e segue respirando
na vastidão luminosa do que cremos.
" Diálogo entre o Filósofo e os Lírios do Abismo de Monfort "
Do Livro: Não Há Arco-íris No Meu Porão.
Autor: Marcelo Caetano Monteiro.
Na penumbra antiga do vale de Monfort, onde o vento descia como sussurro de eras incontáveis, o filósofo caminhava com o passo lento de quem já conversou demasiado com o silêncio. Ali, no limite entre a luz e o precipício, erguiam-se os lírios do abismo, flores pálidas que pareciam feitas de bruma e memória.
O filósofo deteve-se diante deles, inclinando a cabeça como quem saúda iguais.
Disse o filósofo
Vós, que cresceis à beira do nada, que segredos guardam vossas pétalas? Que ciência é essa capaz de florescer à margem da queda?
Responderam os lírios
Nada teme a flor que nasce onde o mundo se desfaz. Somos sustentados pela dor dos que aqui passaram e pela coragem dos que ousaram olhar o abismo sem se entregar a ele.
O filósofo sorveu o ar, como se quisesse entender a gravidade espiritual daquela resposta.
Disse o filósofo
Falo há anos sobre a essência, sobre o destino, sobre a interminável travessia da alma. Contudo, nunca me ocorreu perguntar ao próprio abismo o que ele exige do espírito.
Responderam os lírios
O abismo não exige. Ele oferece. A queda é escolha. O retorno é conquista. E a permanência, essa sim, é a sabedoria dos que se firmam entre sombras sem perder a própria luz.
O filósofo fechou os olhos por um instante, tomado por um reconhecimento íntimo, como se tivesse reencontrado um mestre muito antigo.
Disse o filósofo
Então floresceis como testemunhas da luta entre a dúvida e o sagrado.
Responderam os lírios
Florescemos como juízes silenciosos da coragem. E tu, que dialogas conosco sem temer o vento ou o precipício, já carregas em tua alma a marca daqueles que buscam a verdade no que o mundo tenta ocultar.
O filósofo abaixou-se e tocou uma das pétalas, leve como o sopro de um pensamento recém-nascido.
Disse o filósofo
Que a poesia de vossas raízes me acompanhe. Que me sirva de guia quando a mente vacilar e o espírito tremer.
Responderam os lírios
Segue, caminhante. A justiça nunca morre. E a dor, quando aceita com dignidade, torna-se ponte para a imortalidade.
O vento passou. As flores estremeceram como se prestassem uma saudação final.
E o filósofo, com passos firmes e serenidade renovada, partiu carregando consigo a sabedoria daqueles lírios que florescem à beira do impossível.
" Mas eu não estou sozinho, o deserto me acompanha. "
Ele se estende diante de mim como uma memória antiga, uma presença sem voz que observa cada gesto meu com a paciência dos séculos. Caminho e sinto a areia ceder sob meus passos, como se o chão conhecesse meus pensamentos antes que eu os formule. Há algo de sagrado nesse espaço que nada exige e nada promete. O deserto não consola. O deserto revela.
A luz do fim da tarde estilhaça se sobre as dunas, criando sombras que se movem devagar, quase respirando. Em certos momentos, penso ouvir um murmúrio, talvez meu próprio coração esmagado sob pressões que não sei nomear. Noutras vezes, o silêncio é tão pleno que parece perguntar por mim, como se aguardasse uma resposta que ignoro desde a infância.
No horizonte, a linha é fina e impessoal, mas guardo a impressão de que alguém me observa dali. Não com hostilidade, mas com uma atenção profunda, como se meu sofrimento coubesse dentro de um gesto que ainda não compreendo. É estranho como o vazio pode nutrir. Como o nada pode abraçar sem tocar.
No meio dessa vastidão, descubro que não busco saída. Busco significado. E, enquanto caminho, o deserto caminha comigo, espelhando minhas inquietações de forma tão fiel que chego a temer que ele conheça minhas verdades mais sombrias antes mesmo que eu as aceite.
Autor: Marcelo Caetano Monteiro.
A VIGILÂNCIA SERENA SOBRE O QUE JÁ FOI SUPERADO.
Autor: Marcelo Caetano Monteiro.
A reflexão que afirma que alguém não deve tropeçar no que já está abaixo de si não é um chamado ao orgulho, e sim um convite à brandura interior. O que está abaixo representa etapas vencidas, dores que já compreenderam seu lugar e aprenderam a silenciar. Contudo, cada vitória moral é sustentada por uma disciplina fraterna, jamais por altivez.
Quando olhamos para o próprior caminho com humildade, percebemos que ninguém progride sozinho. Os aprendizados vêm do contato com outros seres, das circunstâncias que nos moldam, e da benevolência que recebemos em momentos de fraqueza. Portanto, manter vigilância não significa erguer muros, mas caminhar com cuidado para não ferir a si mesmo nem aos outros. É reconhecer que a alma humana ainda traz áreas sensíveis que precisam de cuidado, e que o progresso espiritual é sempre uma construção comunitária.
Já ensinava Allan Kardec que o avanço do Espírito se realiza pela educação contínua e pela caridade recíproca. Assim, mesmo o que já parece resolvido em nós merece atenção, não como ameaça, mas como lembrança de que somos seres em aperfeiçoamento constante. A fraternidade que exercemos com o mundo deve refletir se também em nossa própria intimidade, acolhendo nossas partes frágeis sem julgamento severo.
A verdadeira grandeza não está em se sentir acima de algo, mas em caminhar com serenidade, humildade e afeto, compreendendo que cada passo pode ser uma oportunidade de servir, aprender e crescer.
A ROSA QUE NASCE NO INTERIOR DO AFETO.
Do Livro: Primavera De Solidão. Ano: 1990.
Autor: Marcelo Caetano Monteiro.
Há um instante em que o coração compreende o que a razão sempre hesitou em admitir: ninguém se inclina a decifrar outro ser se não houver, dentro de si, uma chama que o mova. Conhecer alguém não é um gesto automático; é um desvelo que exige paciência, vigília, escuta, quase uma peregrinação íntima. E quando alguém percorre esse caminho para dentro de você, não o faz por curiosidade, mas por ternura silenciosa.
É por isso que a rosa única tem força maior do que todas as demais. Há muitas espalhadas pelo mundo, mas apenas aquela que recebeu nossas mãos, nossas dúvidas, nossos cuidados e nossas noites insones adquire sentido verdadeiro. Ela não é rara por natureza, mas torna-se insubstituível pela intensidade com que a amamos.
Assim também acontece com as pessoas: o mundo está cheio delas, porém só uma toca a alma naquela profundidade em que o tempo perde peso e a memória se converte em abrigo. São essas almas que nos aprendem, que nos escutam por dentro, que se detêm em nossos medos e tentam compreendê-los como se fossem seus.
No fim, amar é escolher uma só rosa num jardim infinito, e conhecê-la até que o perfume que dela brota passe a perfumar também o que somos. É essa escolha que transforma o ordinário em destino e o encontro em promessa de permanência.
ALQUIMIA DO CHORO NA MÚSICA INVISÍVEL DE CAMILLE MONFORT.
Do Livro: Não Há Arco-íris No Meu Porão.
Autor: Escritor:Marcelo Caetano Monteiro .
Há instantes em que a alma pressente que a dor não é apenas um acontecimento, mas um rito. E é nesse território subterrâneo que Camille Monfort se torna a guardiã dos silêncios, aquela que recolhe as lágrimas antes que toquem o chão e as devolve ao mundo como tinta, melodia e presságio.
Sob sua música invisível, o pranto não se dissolve: ele se verticaliza. Cada gota assume a gravidade de uma estrela caída, e cada respiração se converte em um cântico cansado, como aqueles que, em que gravitam entre o anseio e o abismo. Nada em Camille é simples: sua presença é uma liturgia, sua voz um instrumento que atravessa o último refúgio do espírito e o obriga a reconhecer suas fissuras.
As lágrimas, ali, não se derramam. Elas se recolhem dentro da própria pele, como se buscassem um útero de silêncio para repousar. E ao repousarem, tornam-se tinta. Uma tinta densa, lúgubre, mas moralmente altiva, que escreve sem permissão e sem consolo. Ela se arrasta pelas páginas como o rumor de um vento antigo que conhece a ruína, mas ainda aposta na dignidade do sobreviver.
Camille, nessa paisagem, não é apenas musa. É uma presença que observa. Uma espécie de sacerdotisa de sombras que compreende que tudo o que é humano é feito de perda, mas também de uma coragem secreta que se mantém de pé mesmo quando o mundo interno desaba. Sua música infinita não ressoa pelos ouvidos, mas pelas rachaduras da consciência. É uma melodia que não pede compreensão; exige entrega.
Assim, a lágrima torna-se verbo, o verbo torna-se cicatriz, e a cicatriz, com o tempo, torna-se uma assinatura do espírito. Pois há dores que não se explicam, apenas se escrevem. Há tristezas que não se superam, apenas se transfiguram. E Camille Monfort é esse ponto onde a noite encontra sua própria voz.
"Você jamais se afastará daquilo que insiste em evitar, porque a existência sempre nos reveste com a mesma tessitura das lições de que fugimos. A verdadeira transformação começa quando deixamos de temer aquilo que nos revela."
O ENVIO DAS OVELHAS ENTRE LOBOS SOB A ÓTICA ESPÍRITA.
Autor: Marcelo Caetano Monteiro.
A passagem Jesus vos envia como ovelhas entre lobos, presente em Mateus 10:16 e retomada em Lucas 10:3, adquire no estudo espírita uma densidade ética e psicológica particular, sobretudo quando interpretada à luz da Codificação, tomando como referenciais fundamentais O Evangelho segundo o Espiritismo e O Livro dos Espíritos nas traduções de José Herculano Pires, além do aprofundamento moral proposto por Léon Denis e pelas análises de Joana de Ângelis.
A imagem das ovelhas não representa passividade, mas moralidade ativa, conceito que Allan Kardec sublinha ao tratar da Lei de Justiça, Amor e Caridade em O Livro dos Espíritos, questões 873 a 879. Ali, a orientação central é a de que a verdadeira força espiritual se expressa pela retidão de consciência, pela superioridade moral e pela capacidade de resistir ao mal sem pactuar com ele. A vulnerabilidade da ovelha, portanto, não é fraqueza; é coerência ética.
Os lobos, nesta leitura, figuram as estruturas sociais e psicológicas que ainda se encontram dominadas pelo egoísmo e pelo orgulho, os dois vícios que, segundo Kardec (E.S.E., cap. XII), constituem a raiz das violências humanas. O mundo em que o discípulo se move é marcado por descompassos morais, pela tendência à agressividade e pela dificuldade de assimilação da mensagem do bem. Não se trata de demonização do outro, mas de diagnóstico ético.
É nesse ponto que a orientação prudentes como as serpentes e simples como as pombas assume seu lugar. No Espiritismo, essa recomendação harmoniza discernimento e pureza de intenções.
Em O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XXIII, Kardec explica que a prudência não é artifício malicioso, mas sagacidade moral, isto é, a capacidade de ler as circunstâncias e não se expor inutilmente às ações daqueles que ainda operam sob o impulso da inferioridade espiritual. Prudência equivale a equilíbrio, autocontrole e avaliação responsável.
A simplicidade das pombas, por sua vez, ecoa o princípio da autenticidade moral: agir sem duplicidade, sem cálculo egoísta, mantendo a pureza de propósito. Léon Denis, em O Problema do Ser, do Destino e da Dor (edição de 1909), reforça que a pureza da intenção é o definidor da grandeza espiritual, pois é dela que nasce a força real do espírito em missão.
Quanto à promessa do " Espírito Santo" fornecendo as palavras certas no momento devido, o Espiritismo interpreta essa assistência não como revelação mística, mas como inspiração espiritual compatível com a vigilância moral do indivíduo. Kardec descreve este fenômeno em O Livro dos Médiuns, capítulo XXXI, ao explicar que os bons Espíritos inspiram, sugerem e orientam, mas não anulam a liberdade nem substituem o esforço pessoal. Joana de Ângelis, na obra Jesus e o Evangelho à Luz da Psicologia Profunda, esclarece que essa inspiração encontra eco apenas em consciências treinadas no bem e na disciplina interior.
Assim, a metáfora bíblica, na ótica espírita, pode ser sintetizada em quatro princípios estruturantes:
Primeiro, a missão moral exige firmeza sem violência, coerência sem agressividade.
Segundo, o mundo social ainda é terreno de tensões éticas, exigindo do discípulo vigilância e discernimento.
Terceiro, a prudência é uma virtude estratégica, sem jamais descambar para a dissimulação.
Quarto, a inspiração dos Espíritos superiores é proporcional à elevação do pensamento e à retidão da conduta.
Não se explique demais para alguém porque na fila dos exigentes, apressados e inadequados sempre existirá um outro alguém.
A RESPIRAÇÃO DA CHAMA INTERIOR.
Cada vez que alimentamos a esperança de alguém, erguemos silenciosamente um altar dentro de nós mesmos. Não se trata de benevolência superficial, mas de uma operação profunda, quase ritualística, na qual o espírito reconhece no outro a mesma vulnerabilidade que habita o próprio âmago. A chama que se reacende no coração alheio também repercute em nosso interior, porque toda esperança compartilhada devolve ao mundo um fragmento de sentido que parecia perdido.
A tradição sempre compreendeu esse movimento como um ato de preservação do humano. Desde os antigos mestres que viam na ajuda um dever sagrado, até as linhas discretas que atravessam a ética espiritual, sustentar a esperança é impedir que a noite moral se adense em torno de nós. É oferecer ao desvalido não apenas consolo, mas a confirmação de que ainda existe uma vereda para continuar caminhando sem perder a própria lucidez.
Assim, manter viva a chama das almas é um exercício introspectivo, onde cada gesto de apoio revela que a verdadeira força nasce do interior e se expande como um sopro sereno.
" Que tua jornada siga iluminada pela centelha que não se extingue, conduzindo-te à conquista da tua própria conquista de tua luz.. "
A INEVITABILIDADE DO ENFRENTAMENTO INTERIOR.
Autor: Marcelo Caetano Monteiro.
" Você jamais será diferente daquilo que você foge. "
Esta sentença não se apresenta como simples máxima motivacional. Ela se impõe como uma constatação grave e silenciosa acerca da dinâmica íntima da consciência humana. Cada palavra nela contida carrega um peso específico e irrecusável. Jamais indica a permanência prolongada do estado interior quando não há ruptura deliberada. Será diferente aponta para a transformação que o espírito almeja mas adia. Daquilo que você foge revela o núcleo do drama psíquico pois aquilo que é evitado não se extingue apenas se oculta nas zonas mais densas da interioridade.
Fugir não é apenas deslocar-se para longe de uma dor imediata. Fugir é instaurar um pacto tácito com o próprio sofrimento. O que se evita não se dissolve no tempo. Permanece incubado na memória afetiva agindo como força subterrânea que orienta escolhas reações e silêncios. A consciência passa a organizar-se em torno daquilo que não foi enfrentado e o sujeito torna-se gradualmente governado por conteúdos que nunca ousou nomear. A fuga então deixa de ser ato episódico e converte-se em estrutura psíquica.
Sob uma leitura filosófica e psicológica rigorosa a identidade não se edifica pela negação mas pela assimilação consciente do que dói. O caráter humano amadurece quando o indivíduo suporta olhar para as próprias fraturas sem adornos nem subterfúgios. Aquilo que fragiliza aquilo que acusa aquilo que envergonha exige ser contemplado com lucidez. A evasão contínua gera um estado de imobilidade interior no qual o medo passa a legislar sobre a vontade. O sujeito move-se exteriormente mas permanece estagnado no âmago. Não há transfiguração possível onde não há confronto honesto.
A história do pensamento e da experiência humana confirma que toda elevação moral nasce de um embate interior prolongado e solitário. O homem que evita suas responsabilidades íntimas arrasta consigo as mesmas inclinações mesmo quando altera o cenário o discurso ou a máscara social. A fuga produz a aparência de mudança mas preserva intacta a arquitetura interna que sustenta os mesmos hábitos e desvios. Muda-se o ambiente mas conserva-se o mesmo centro psicológico. Assim o caminho se altera mas o destino permanece idêntico.
Existe ainda uma exigência ética incontornável inscrita nessa afirmação. Fugir de si é abdicar do dever de aperfeiçoamento interior. É renunciar ao labor silencioso da consciência que depura corrige e reorganiza. A transformação autêntica exige coragem intelectual e moral pois obriga o sujeito a reconhecer limites fracassos e regiões sombrias que resistem à domesticação. Esse reconhecimento fere o orgulho expõe a vulnerabilidade e impõe disciplina. Contudo é apenas nesse movimento doloroso que se inaugura a possibilidade real de tornar-se outro.
A sentença inicial portanto não adverte ela diagnostica. Enquanto o homem continuar fugindo de si permanecerá aprisionado às próprias sombras que o governam sem ruído. Quando porém decide enfrentá-las com lucidez constância e fidelidade à própria dor inicia-se o único percurso legítimo de elevação interior aquele no qual a consciência atravessa a noite de si mesma e retorna mais grave mais íntegra e finalmente mais verdadeira.
O CÂNTICO DO PÓ E DA ORDEM.
Autor: Marcelo Caetano Monteiro.
Virou pó.
assim começa a narrativa e assim ela jamais se encerra
pois tudo quanto é dito nasce já inclinado ao retorno
No princípio não houve clamor mas sedimentação
o pó repousava em silêncio anterior à forma
e desse silêncio ergueu-se o verbo não para criar o real
mas para ordená-lo segundo uma lei mais antiga que o tempo
Do pó surgiu o corpo
não como triunfo mas como concessão
cada osso cada nervura cada fôlego
foi apenas um intervalo entre dois silêncios
o anterior que chama
o posterior que recolhe
In totum in veritate
não há fuga possível dessa arquitetura
o homem ergue templos escreve tratados funda impérios
mas tudo é feito de pó organizado
e todo gesto que ignora essa origem carrega em si o germe da ruína
Os antigos sabiam
por isso falavam pouco
por isso escreviam com gravidade
o pó era mestre severo
ensinava sem palavras
que toda ascensão traz consigo a memória da queda
e toda queda preserva a dignidade do retorno
O verbo então aprende sua função
abandona o excesso
despoja-se da vaidade e antecede aos momes
torna-se servo da verdade
não para explicá-la mas para alinhá-la
pois falar corretamente é um ato moral
e ordenar as palavras é reconhecer os limites do ser
Vrou pó
não como lamento mas como sentença cósmica
o pó não destrói
o pó reconduz
nele o orgulho dissolve-se
nele o medo aquieta-se
nele a alma compreende que nada se perde
apenas se recoloca na economia eterna
Assim o corpo retorna à terra
como quem devolve um empréstimo
e o espírito liberta-se da densidade
não em fuga
mas em fidelidade à ordem que sempre foi
In verbis tantum
nas palavras apenas
quando purificadas do supérfluo
permanece o testemunho
de que toda verdade se sustenta não pelo brilho
mas pela gravidade
E quando tudo parecer noite
quando a forma ceder
quando o nome se calar
o pó continuará a falar em silêncio
lembrando ao universo que a ordem não morre
apenas espera que o verbo volte a pronunciá-la com reverência.
“Se tens apenas meio pão e, movido pela fraternidade, doas parte dele, pela gratidão em Deus a partilha transfigura a escassez e cada um passa a possuir um pão inteiro.”
"A verdadeira grandeza nasce quando o espírito se entrega ao estudo não para ser visto, mas para ser fiel àquilo que busca compreender, pois o saber recompensa aqueles que o servem em silêncio."
