Segundo Minuto Hora dia Semana ano Eternidade

Cerca de 118893 frases e pensamentos: Segundo Minuto Hora dia Semana ano Eternidade

FOLIA

Demétrio Sena, Magé - RJ.

No carnaval
deste natal,
na tal folia
do fim de ano,
brinquei de amor,
justiça e bem,
pus fantasia
de ser humano.

Inserida por demetriosena

DISLEXIA SOCIAL

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Muitas vezes o amigo oculto em fim de ano, revelado como alguém especial cujas virtudes sublimam os eventuais defeitos, é exatamente o desafeto suportado no decorrer do ano. Aquele sujeito indesejado, cujos defeitos inaceitáveis enterram as eventuais, escassas e questionáveis virtudes.
Não é uma crítica. É um elogio sincero à insondável capacidade humana de assumir a cor do ambiente, o ritmo da música e a filosofia da ocasião. Saber exatamente onde ganha, perde ou empata o que tem para investir no campo das relações humanas, muitas vezes com vistas a um futuro bem próximo.
Mais do que um elogio, é uma inveja de quem nasceu aleijado neste aspecto. Sem esse dom natural e obrigatório à sobrevivência de seres sociais. Alguém que tentou, fez o curso, mas nunca teve sucesso nas provas de única escolha que o mundo aplica nessas horas cruciais.

Inserida por demetriosena

FELIZ ANO TODO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Peço a todos, licença para não gostar, nem mesmo agora, no calor das obrigações do fim de ano, daquela pessoa que o meu coração ainda considera indigna de afeto, respeito e admiração. Verdade não dá trégua. Sinceridade não tira férias. E se de repente me deu aquele desejo de perdoar ou ser perdoado, peço também licença para fazê-lo depois. Bem depois da fragilidade a que somos expostos no fim do ano, por influência das propagandas e as mensagens institucionais específicas destes dias.
Depois, sim. Caso ainda sinta esse desejo de me aproximar ou reaproximar de quem quer que seja, quero fazê-lo despojado; sem emoções obrigatórias e qualquer selo de religiosidade sincera ou hipócrita. Que seja mesmo eu, aquela pessoa prostrada ou ereta confessando as falhas e pedindo perdão ou praticando a grandeza de perdoar; o que é bem mais fácil, porque nos deixa bem "na foto". Seja qual for minha posição, ela só há de ser autêntica ou pelo menos confiável, se o meu caráter não estiver bêbado nem hipnotizado pela ocasião maciça. Mais ainda, se a minha temperança, boa vontade ou repentino amor ao desafeto secular não tiver montado suas bases em conveniências de última hora.
Quem espera qualquer atitude nobre de minha parte, pegue a senha e fique na fila. Detesto correr o risco de fazer firulas ou dar espetáculos ocasionais que a médio prazo poderão perder consistência e gerar interrogações. Tenho, sim, velhos arrependimentos que pretendo expurgar um dia, com pedidos de perdão, porque me sinto mesmo culpado, e até alguns perdões para distribuir, pois algumas pessoas, mesmo poucas, também me devem esse pedido e até já o fizeram. Só falta minha parte. Não sou bom em ser bom. Seja como for, nada será no fim do ano. Nem na páscoa ou no dia do perdão. Muito menos no dia da bandeira.
Quanto aos mais, aqueles que já desfrutam do que há de melhor ou menos pior em mim, quero e deixarei carimbados os meus sinceros desejos de um feliz ano todo e um próspero todo dia. Aos familiares e amigos queridos, a reiteração do amor, o respeito e admiração. Aos desafetos, meu nada. Nem ódio nem amor. Nem isto nem aquilo. Somente o lamento por não sabermos, de ambos os lados, o que estamos eventualmente perdendo, quiçá evitando, com a distância do próximo.

Inserida por demetriosena

READOLESCÊNCIA

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Entenda minha carência;
tenho cinquenta e poucos anos;
estou na segunda adolescência...

Inserida por demetriosena

CONSIDERAÇÕES DE FIM DE ANO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Carnaval de fim do ano;
desfilar de ser humano
e ser amigo oculto.
...
Sou brasileiro
e penso assim:
este fim
de ano
ainda não é
o fim.
...
Ter pais presentes
é melhor que ter presentes
embrulhados por ausências...
...
Para milhões
de brasileiros
condenados à má sorte,
só existe Natal
do Rio Grande
do Norte.

Inserida por demetriosena

MINHA TORCIDA PARA O ANO NOVO

Demétrio Sena, Magé – RJ.

Torço para que 2019 não confirme o avanço vertiginoso da intolerância, fomentada como antes nunca, em 2018. Não extingua em definitivo as leis que regem os direitos humanos, especialmente nas questões mais polêmicas e necessárias. E que a justiça, em um todo, não se torne vingança oficial (o que foi sinalizado nos últimos meses).
Que a sociedade majoritária não cace os diferentes. Não abata os opostos. Nunca persiga os que não concordam ou rezam conforme suas cartilhas, como foi ensaiado com base nos discursos de velhas lideranças que se apresentaram como novas. Convenceram no grito, milhões de brasileiros divididos entre carentes e de vida ganha. Sinceros e sonsos. De boa e má fé. Uns, desejosos do Brasil para todos, e maioria, do Brasil só para si.
E o novo poder público não ratifique a preferência por classes e conveniências, muito menos por nível de obediência e servidão. Cada cidadão seja respeitado em seus direitos e particularidades, e só os crimes, de fato, sejam tratados como crimes. Não as escolhas de foro íntimo e pessoal, partidário, profissional nem religioso.
2019 não seja o segundo turno de 2018. Não “desafricanize” o sangue deste país de alma negra nem o faça excluir a si mesmo, pela pretensão ariana que não combina com nenhum brasileiro. A educação restitua e ganhe mais espaço. O professor seja respeitado. Deixe de ser agredido pelo poder público e pela sociedade que se deixou cegar.
Sejam todos bem-vindos ao novo tempo! Todos, mesmo! Não apenas os cidadãos de minha cor, meu gênero, escolha, classe, cultura, fé ou não! Somos todos, brasileiros, apesar da trágica divisão fomentada pelos preconceitos, a raiva e a fome de poder que se anunciaram ao país, na voz de quem percebeu como estava fácil modelar a massa.
Que os brasileiros estúpidos e destemperados como eu façam as pazes entre si. Deixem de ser pretensiosos e nunca mais se desprezem, se ofendam nem se agridam por causa de nenhum... absolutamente nenhum ídolo de qualquer natureza... muito menos de natureza politicopartidária.

Inserida por demetriosena

FELIZ NATAL

Demétrio Sena, Magé – RJ.

Tivemos o ano brasileiro da imbecilidade presidencial nas falas, nos atos institucionais e nas decisões "de orelhada". Tudo criteriosamente seguido e copiado pelos filhos, capangas ministeriais e ministérios da “fé” comprada pelas promessas de vantagens reais ou ilusórias à vista e a perder de vista. Não me refiro à fé legítima, sem aspas, que não visa essa espécie de sinal da besta; esse carimbo ideológico de prestígio e de postas abertas... ou não me refiro à exceção; falo apenas da maioria.
Destaque para a imbecilidade popular. Da mesma forma, não de toda a população; só de sessenta por cento. Um povo que aplaudiu cada palavra, gesto e decisão contra ele próprio. “Bateu palmas para maluco dançar”; pediu – e teve – a ditadura de volta. Ululou a favor do sucateamento definitivo da educação pública; da perseguição aos professores que promovem o pensamento crítico e a liberdade de expressão – e perseguiu junto.
Prestou ação de graças à quase extinção da ciência que busca, entre outros feitos, a cura para doenças e vírus graves. Enalteceu a destruição da natureza, o abuso oficial contra mulheres, estrangeiros e crianças, a ideia do trabalho infantil, do armamento em massa e do extermínio dos índios, pela devastação de suas reservas. Alegrou-se como antes nunca, pela segregação acentuada dos negros, dos membros de seitas e religiões de matriz africana e dos gêneros não convencionais ou obrigatórios.
Vimos uma massa ensandecida, que atuou sem saber por que razão, contra as artes e os artistas até então amados por suas histórias, posturas públicas, engajamentos em prol do livre arbítrio e do respeito às escolhas e orientações. Gritou-se aos ventos, cada um seguindo ao outro, todos submissos à vara e ao cajado do poder. Multidão cega, seguindo a multidão, sem ninguém se reconhecer no meio dela, por se tratar de uma hipnose.
Vim aqui desejar feliz natal. Aos oprimidos, opressores, e os que se julgam opressores, iludidos por vantagens passageiras. Um natal de reflexões pelo bom senso. Que os cristãos iludidos com o poder inquisitório e os profanos que se converteram à inquisição repensem o país. A nação livre, o estado laico, o justo discernimento entre questões espirituais e sociais, para o bem de todos os cidadãos em suas diferenças de classe, cultura, culto, não culto, gênero, etnia e tantas outras.
Que os políticos legislem e governem com justiça. Sem maldades. Buscando recursos nas fontes certas. Cortando gastos onde o tesouro se oculta e não na miséria ou escravidão popular, que tem sido a fonte de suas riquezas pessoais, entra governo sai governo. Sejamos povo com menos vocação para povo no sentido pejorativo da palavra e com mais vocação para gente; cidadãos; indivíduos pensantes; seres sociais.

Inserida por demetriosena

MAIS UM ANO SEM MARIA

Demétrio Sena - Magé

O sarampo, a caxumba e a catapora... o abandono paterno e o medo, as temporadas de fome, a indecisão do futuro... as moradias precárias, a família imprensada e a quase delinquência, vencida pela palavra mansa e os olhos miúdos e comoventes da mulher pequenina que pedia e dava calma.

Tudo seria bem-vindo e superado pelo 'ficarmos juntos', que não saía de seus lábios, porque reinava em seu coração. Eu teria novos olhos pra vida e o privilégio da mãe, dos oito irmãos/irmãs que teria novamente, se os mistérios da existência nos unissem de novo; nos desse a nova chance.

Hoje seria seu aniversário. Lá se vão alguns anos e a saudade grita em meu coração como nos primeiros dias. Queria estar com ela e com os meus irmãos, falando besteiras e achando graça das tristezas que superamos. Fazendo piadas de nossos medos, nossas quase mortes ao longo da vida.

E quero muito estar com todos, numa possível reexistência. Ser filho melhor, irmão, pai, cônjuge, pessoa. Fazer muito mais jus à honraria que o destino me deu, de ser filho de Maria... dessa Maria insubstituível no andor do meu; dos nossos corações.

(Pelos filhos de Maria; todos ao alcance um do outro, apesar da barreira de um momento mundial que nossa mãe nos explicaria com palavras ingênuas, pedindo para nos unirmos e morrermos juntos).

Inserida por demetriosena

⁠MILHÕES DE VEZES

Demétrio Sena - Magé

Mais um ano, mais outro, até jamais,
quando menos minh'alma der por si,
quanto mais demorares mais terei
meu aqui, meu agora em tua espera...
Submisso a teu tempo, teus instantes
de saudades, lembranças, nostalgias,
conterei meus rompantes e chamados;
contarei os meus dias como gotas...
O que faço do sonho nem eu sei,
mas me guardo na lei do meu silêncio
aos caprichos da própria eternidade...
Minha espera por ti é vida inteira;
uma beira de abismo sob os pés;
um contar até dez milhões de vezes...

Inserida por demetriosena

⁠FIM DE ANO DO RECOMEÇO

Demétrio Sena - Magé

Embora o Natal, como data, não tenha sentido para mim, tem sentido recordar que bem pouco tempo atrás o Brasil vivia um dos piores fins de ano de sua história. Um Natal que não fazia sentido para nenhum ser humano de boa fé e de boa vontade. Não apenas pela pandemia de Covid 19, mas também por uma praga em forma de gente, que até então governava; digo; desgovernava o país.

Neste momento em que vivo num país cuja democracia foi retomada... cujas leis contra preconceitos, especialmente o racismo, a homofobia e a misoginia voltaram a ser de fato... num país que voltou a ser bem visto pelo mundo civilizado e, surpreendentemente, começou a ter de novo a inflação controlada, o que eu nem esperava já para este ano, estou bem otimista.

Ver as artes reocupando seus lugares; a cultura como um todo "revalorizada" e a cidadania recuperando seu contexto, não tem preço. Como não tem preço ligar a tevê e não ver mais, todos os dias, notícias de um idiota empoderado pelas urnas promovendo insanidades.

Mesmo sem comungar com o sentido possível do Natal, este ano está fácil participar da ceia promovida pelos meus, que acreditam... e que sempre respeitei. Boas comemorações para todos. A reunião anual das famílias em torno de uma aura consentida pelo ser humano como uma espécie de trégua, cessar fogo ou pausa humanitária é um mérito verdadeiro desta data.
... ... ...

#respeiteautorias É lei

Inserida por demetriosena

⁠2024

Demétrio Sena - Magé

Esse ano que acaba de acabar
foi de alguma esperança, vez e voz,
apesar dos demônios de janeiro;
dos esgotos que ainda escondem ratos...
Não é simples lidar com tanto ódio;
com tamanha cegueira, o fanatismo
que deu pódio à má por esses anos
de fascismo sem trégua e piedade...
Mas o tempo que agora nos abraça
tem a graça de sonhos rebrotados
e da fé no poder da boa fé...
É difícil pensar num replantio;
a colheita requer critério e calma,
mas nenhum desafio é mesmo fácil...
... ... ...

#respeiteautorias É lei

Inserida por demetriosena

⁠ANTES DO FIM DO ANO

Demétrio Sena - Magé

Você tem poucos meses para ser
mais amável, gentil, ter bom humor;
dar valor a momentos e detalhes
que não podem ser só formalidades...
Em novembro me tranco na minh'alma,
pra fugir dos ensaios natalinos;
quero a calma de não me permitir
crer nos sinos de afetos projetados...
Quando a gente chegar ao novo ano,
saberei que o teatro há de ficar
sob o pano que sempre o recupera...
Quem tiver um afeto para mim,
venha enquanto não soa falso e raso;
fim do ano meu prazo estará findo...
... ... ...

Respeite autorias. É lei

Inserida por demetriosena

⁠PELO QUE SOU

Demétrio Sena - Magé

Os disparos maciços dessas mensagens natalinas e de ano findo, que muitas vezes nos atingem (afinal são maciços), não desmancham possíveis anos inteiros de frieza, indiferença, separatismo, julgamento e preconceito. Especialmente se tudo isso é causado pela religiosidade predominante no país, que, da boca para fora prega o amor incondicional, como deveria mesmo ser. O livro sagrado que, supostamente rege tais fiéis, é utilizado apenas nos fragmentos de textos que lhes dão destaque tão favorável quanto fácil.

Asseguro que as mensagens pessoais diretas, os estilhaços dos disparos maciços e declarações ou gestos pessoais dos que me tratam com afeto sincero, de janeiro a janeiro, recebo com carinho e gratidão. Não pelo momento específico, mas pela convivência diária ou pontual que me mostra quem é quem, não importa o dia de qual mês. Sobre meus silêncios e o recolhimento em fim de ano - quando posso -, peço a todos que me perdoem pelo agora; pelo que não estou... e continuem me aceitando pelo sempre... pelo que sou.
... ... ...

Respeite autorias. É lei

Inserida por demetriosena

A VIGÍLIA DO SILÊNCIO VIVO.
Do Livro: Não Há Arco-íris No Meu Porão. Ano: 2025.
Autor: Marcelo Caetano Monteiro.
Há imagens que não se oferecem ao olhar, mas o convocam. Esta é uma delas. Não se trata de um retrato, mas de uma presença suspensa entre o visível e o indizível, como se a própria matéria hesitasse em existir sob a luz que a toca. A figura feminina emerge não como corpo, mas como um enigma antigo, daqueles que a memória reconhece sem jamais ter conhecido.
O olhar que se ergue em sua direção não implora, não acusa, não seduz. Ele aguarda. Há nele a serenidade dos que já atravessaram a perda e, mesmo assim, permanecem fiéis à delicadeza. Os olhos não refletem o mundo, mas o absorvem, como se todo o peso do tempo houvesse encontrado ali um abrigo silencioso. A expressão não pertence à juventude nem à velhice. Pertence àquilo que sobrevive às eras e insiste em permanecer sensível.
Nos braços, a criatura que repousa não é apenas um ser vivo. É símbolo. É o frágil confiado ao eterno. O animal repousa com a solenidade de quem reconhece o sagrado sem compreendê-lo. Há entre ambos uma comunhão anterior à palavra, um pacto silencioso firmado antes da linguagem. O gesto que o sustém não é de posse, mas de guarda. Não há domínio, há responsabilidade.
A luz que envolve a cena não ilumina, consagra. Ela não vem de fora, mas parece exalar da própria quietude que os envolve. É uma luz antiga, quase mineral, que lembra a poeira dos séculos e o ouro gasto dos ícones esquecidos. Tudo ali sugere recolhimento, como se o mundo tivesse sido temporariamente suspenso para permitir aquele instante absoluto.
Nesta imagem, o tempo não corre. Ele contempla. E ao contemplar, revela que a verdadeira beleza não clama por atenção, apenas permanece. Há uma melancolia serena que não dói, apenas ensina. Uma melancolia que compreende que existir é sustentar a fragilidade do outro sem pedir nada em troca.
Quem observa sente o peso suave de uma pergunta sem palavras. Que espécie de silêncio é esse que nos reconhece? Talvez seja o mesmo silêncio que antecede toda verdade profunda. Aquele que não se explica, apenas se sente.
E é nesse ponto exato que a imagem deixa de ser vista e passa a habitar quem a contempla. Porque certas visões não foram feitas para os olhos, mas para aquilo que em nós ainda sabe sentir sem defesa.

Inserida por marcelo_monteiro_4

A GRAVIDADE INTERIOR DO EU QUE SE CONTEMPLA.
Do Livro: Primavera De Solidão. ano 1990.
Autor: Marcelo Caetano Monteiro.

Conhecer a si mesmo não é um ato de curiosidade mas de coragem grave. É um chamamento silencioso que desce às regiões onde a alma se reconhece sem ornamentos. Nesse gesto há algo de ritual antigo como se o espírito precisasse atravessar sucessivas noites para alcançar uma única palavra verdadeira sobre si. Tal travessia não consola. Ela pesa. Ela exige recolhimento disciplina e uma fidelidade austera àquilo que se revela mesmo quando o que se revela é insuportável.

À maneira das grandes elegias interiores o sujeito que se observa descobre que não é senhor do próprio território. Há em si forças obscuras desejos sem nome medos que respiram lentamente à espera de serem reconhecidos. O eu que contempla torna-se estrangeiro em sua própria casa. E é nesse estranhamento que nasce a dor mais refinada pois não há acusador externo nem absolvição possível. O julgamento ocorre no silêncio e a sentença é a lucidez.

O sofrimento aqui não é ruído mas densidade. Ele se instala como uma presença fiel. Há quem o cultive com devoção secreta. Não por prazer mas por hábito. Sofrer torna-se uma forma de permanecer inteiro quando tudo ameaça dissolver-se. Assim o masoquismo psíquico não é escândalo mas estrutura. O indivíduo aprende a morar na própria ferida como quem habita um claustro. Conhecer-se plenamente seria abandonar esse espaço sagrado de dor organizada.

Quando alguém ama e tenta conhecer o outro por dentro rompe-se o cerco. O amor não pergunta se pode entrar. Ele vê. Ele nomeia. Ele permanece. E justamente por isso é rejeitado. Não porque fere mas porque revela. Ser amado é ser visto onde se preferia permanecer oculto. O outro torna-se espelho e nenhum espelho é inocente. Ele devolve aquilo que foi esquecido de propósito.

Há então uma violência silenciosa contra quem ama. Um afastamento que se disfarça de defesa. O amado é punido por tentar compreender. O gesto mais alto de amor torna-se ameaça. Como nos poemas mais sombrios da tradição lírica a alma prefere a solidão conhecida ao risco da comunhão. Pois compartilhar o precipício exige uma coragem que poucos possuem.

Essa recusa não é fraqueza simples. É lucidez sem esperança. É saber que o autoconhecimento não traz salvação imediata apenas responsabilidade. Ver-se é assumir-se. E assumir-se é perder todas as desculpas. Por isso tantos recuam no limiar. Permanecem à porta da própria verdade como sentinelas cansadas que temem entrar.

Ainda assim há uma nobreza trágica nesse esforço interrompido. Pois mesmo falhando o ser humano demonstra que pressente algo maior em si. Algo que exige recolhimento silêncio e um tempo longo de maturação. Como frutos que amadurecem na sombra a alma só se oferece inteira quando aceita a noite como condição.

Conhecer-se é um trabalho lento sem aplausos. Um exercício de escuta profunda em que cada resposta gera novas perguntas. Não há triunfo. Há apenas a dignidade de permanecer fiel à própria busca mesmo quando ela dói. E talvez seja nesse permanecer que o espírito encontra sua forma mais alta não na fuga da dor mas na capacidade de atravessá la com consciência e gravidade.

Inserida por marcelo_monteiro_4

A ROSA QUE NASCE NO INTERIOR DO AFETO.

Do Livro: Primavera De Solidão. Ano: 1990.
Autor: Marcelo Caetano Monteiro.

Há um instante em que o coração compreende o que a razão sempre hesitou em admitir: ninguém se inclina a decifrar outro ser se não houver, dentro de si, uma chama que o mova. Conhecer alguém não é um gesto automático; é um desvelo que exige paciência, vigília, escuta, quase uma peregrinação íntima. E quando alguém percorre esse caminho para dentro de você, não o faz por curiosidade, mas por ternura silenciosa.

É por isso que a rosa única tem força maior do que todas as demais. Há muitas espalhadas pelo mundo, mas apenas aquela que recebeu nossas mãos, nossas dúvidas, nossos cuidados e nossas noites insones adquire sentido verdadeiro. Ela não é rara por natureza, mas torna-se insubstituível pela intensidade com que a amamos.

Assim também acontece com as pessoas: o mundo está cheio delas, porém só uma toca a alma naquela profundidade em que o tempo perde peso e a memória se converte em abrigo. São essas almas que nos aprendem, que nos escutam por dentro, que se detêm em nossos medos e tentam compreendê-los como se fossem seus.

No fim, amar é escolher uma só rosa num jardim infinito, e conhecê-la até que o perfume que dela brota passe a perfumar também o que somos. É essa escolha que transforma o ordinário em destino e o encontro em promessa de permanência.

Inserida por marcelo_monteiro_4

MARIA AO PÉ DA CRUZ.
Do livro: Nas Sandálias do Nazareno.
Capítulo 10, 15 de dezembro - ano 2000..
Autor: Escritor:Marcelo Caetano Monteiro .
Lá no Calvário estava Maria, olhando o Filho amado agora suspenso no madeiro da cruz.
Ajoelhada sob as próprias lágrimas, via, entre o pranto e a dor, as lembranças suaves de um tempo distante o tempo em que o seu menino lhe sorria com inocência divina.
Agora, porém, seus olhos olhos flagelados pela dor viam em cada ferida o sacrifício do Amor.

Jesus, submisso à cruz, deixava-se deitar sobre o instrumento que o dilaceraria.
Os soldados, cegos de ódio, riam em insânia; e ele, o Cordeiro sereno, ajudava a acomodar-se sobre o madeiro, como quem abraça a própria missão.
Martelos erguiam-se.
Mãos e pés do Justo eram transpassados pelos cravos, enquanto o Amor respondia com perdão.

No meio do rumor dos golpes e dos gemidos, Maria era puro sangue em lágrimas lágrimas que se transmutavam em luz.
A cruz então se ergueu.
O corpo de Jesus pendeu, comprimindo-lhe os pulmões; o ar lhe faltava.
Movimentou-se apenas um pouco, como quem busca aliviar o peso dos cravos.

Maria — Mãe — permanecia ali, diante do Rei dos Reis, sofrendo as mesmas dores do seu eterno Menino.
Ouviu, entre soluços, a voz blasfema de um dos crucificados, clamando por libertação.
O coração de Maria estremeceu seu Filho era inocente.
Mas outro grito, agora de fé, fez-se ouvir: era Dimas, o bom ladrão.

— Tu não vês? Ele é inocente... mas nós, nós merecemos!
Mestre, lembra-te de mim quando estiveres em Teu Reino.

Jesus, exaurido, contemplou-o com doçura.
E no sopro que lhe restava prometeu-lhe o Amor:

— Hoje mesmo, estarás comigo no Paraíso.

Ah, Maria...
Que amor é esse? Que hora é essa?
Em êxtase de dor e compreensão, a Mãe vê, em visão espiritual, outras mulheres mães, esposas, irmãs cujos corações se despedaçavam ante o mesmo suplício de ver morrerem os seus.
Abraçou-as com o olhar e, em cada uma delas, reconheceu o espelho da própria dor.

E foi ali, no auge do sofrimento, que Maria compreendeu plenamente quem era o seu Menino e por que viera ao mundo.

O silêncio então tomou o Monte da Caveira.
Sombras invisíveis pairavam sobre o crepúsculo da Terra.
Mas Maria continuava sendo luz.
E amando em compreensão, amando a humanidade, mergulhou na claridade do Sol eterno aquele mesmo Sol que era o seu Filho, resplandecendo para os confins dos séculos.

Inserida por marcelo_monteiro_4

⁠⁠À medida que iniciamos este novo ano, que a chama da esperança continue a arder em teu coração, guiando-te mesmo nos momentos mais sombrios. Na dança do tempo, lembra-te de que cada dia é uma página em branco, aguardando ser preenchida com as tintas vibrantes de tuas experiências, sonhos e conquistas.
Ao refletir sobre o passado, que o aprendizado seja tua bússola, apontando sempre para frente. Cada desafio superado é um degrau na escada da maturidade, e cada sorriso compartilhado é uma expressão de gratidão pela beleza efêmera da existência.
Não te esqueças de reservar um momento para contemplar a natureza, pois ela é a sábia narradora de histórias que nos ensina sobre ciclos, renovação e equilíbrio. Em meio ao tumulto do cotidiano, encontrar paz interior é como descobrir um oásis no deserto, uma fonte inesgotável de serenidade.
Celebra as pequenas vitórias tanto quanto as grandes conquistas, pois são elas que constroem a trama de tua jornada. Sê gentil contigo mesmo, aceitando as imperfeições como parte integrante de tua jornada única.
Neste ano que se desdobra diante de ti como um livro com páginas ainda não lidas, compromete-te a escrever uma história que seja verdadeira para ti. Abraça as mudanças com coragem, aprende com os desafios e abraça com gratidão as alegrias que te aguardam.
Que este novo ano seja um capítulo de crescimento, amor e autodescoberta. Que cada passo que deres seja guiado pela luz divina.
Com votos de um ano repleto de realizações e felicidade.

Inserida por Sarahkoelho

⁠Esse ano eu quero poemas orgânicos
Sem mistura trans nos versos
Quero uma poesia feita de linhaça
Cheia de prosa e caloria equilibrada
Quero proteínas nos meus versos
Quero uma poesia natural
Feita de arroz de integral
Tão doce como rapadura
Pra botar nos meus sonhos de laranja
Cenoura e beterraba nos meus versos
Que seja escrita em papel reciclado
E de verdade não tenha Gluten nem outras besteiras
E no entardecer um gole de propolina
Pra deixar mais linda a metáfora
Espinheira divina na minha palavra
Gengibre e semente de chia nos meus versos
E que seja eterno o poético
Que o poético não seja enlatado
Envenenado por conservantes
Maquiados de tanta gordura.

Inserida por lu_almeida_1

Um ano atrás eu não sabia que poderia aguentar tanta dor no meu coração...tanta angústia, arrependimento, sofrimento. A vida dói, rasga, dilacera, nos deixa em pedaços e nos obrigada a seguir em frente. Na verdade, nem sei mais se estou seguindo em frente ou só empurrando os dias esperando o fim chegar. Não há nada que possa me ajudar. Nenhum consolo seria capaz de mudar o que eu sinto. A ferida está na alma.

Inserida por droplets