Sê quem és

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Pode-se ser justo, se não se é humano.

Um marido é apenas um amante com a barba de dois dias, um colarinho sujo e queixando-se o tempo todo de enxaqueca.

Censuram-se severamente defeitos à virtude, ao passo que se não poupa indulgência para as qualidades do vício.

Os escolares preocupam-se em segredo com o mesmo que preocupa as raparigas nos internatos; faça-se o que se fizer, elas falarão sempre do amor, aqueles das mulheres.

Há mulheres que se encontram à venda e jamais conseguiriam dar-se.

A grandeza precipita-se sobre si mesma: esse limite foi imposto pelos deuses ao crescer da prosperidade.

Toda a história do progresso humano pode reduzir-se à luta da ciência contra a superstição.

É um gládio perigoso o espírito, mesmo para o seu possuidor, se não sabe armar-se com ele de uma maneira ordenada e discreta.

Não ter temor da morte, é não temer-se ameaças.

Ninguém desenvolverá alguma vez as faculdades da sua inteligência, se, pelo menos, não intercalar alguns momentos de solidão na sua vida.

Muitas obras dos antigos tornaram-se fragmentos. Muitas obras dos modernos já nascem como tal.

O presidente Clinton poderia combater sua fama de mulherengo tornando-se mórmon. Se tivéssemos quatro ou cinco primeiras-damas, seria muito mais fácil para o povo americano gostar de pelo menos uma delas.

O homem enfeita-se com a sua sorte.

Quando o idealista mete a mão na algibeira, torna-se inconscientemente realista.

Pode-se prescindir de tudo. Desde que não se deva.

Entre a avareza e a prodigalidade encontra-se a economia, e esta é a virtude que o homem honesto deve praticar.

O cristianismo é um camaleão, transforma-se sem cessar.

O ingrato merece indulgência, realmente; o que ele faz, tão-somente, é confundir-se com o seu benfeitor.

Ama-se com amor aqueles que não se podem amar de outro modo.

O amor dá-se mal nas casas ameaçadas de pobreza. É como os ratos que pressentem as ruínas dos pardieiros em que moram, e retiram-se.

Camilo Castelo Branco
BRANCO, C., Anos de Prosa, 1863