Se ela quer Voar a porque tem Asas
Faça de contas que ela está
Entre em seu quarto
E abra a janela
Está um dia lindo
Faça de contas que ela está
Ela já se levantou
Se vestiu, foi para a rua
Na hora do almoço ela volta...
Ela pegou suas coisas
Penteou os cabelos
e foi para o lugar combinado
Esperar a van que a leva para a faculdade
Acho que mais ou menos à essa hora
Ela deva estar no intervalo
Conversando animada com as amigas
Ou tirando fotos no celular
Já é tarde
E ela deve estar dormindo
Seu quarto não é vazio
Seu leito não é frio
Seu corpo não jaz noutro lugar
Ela dorme abraçada ao travesseiro
Faça de contas que a ouviu se levantar
Que ouviu seus passos na cozinha
Deve ter sentido sede
Por algo salgado que comeu antes de ir dormir...
Parece que está tocando sua música favorita
E você até pode imaginar ela dançando
Fazendo pose em frente do espelho
Olha, ela está se arrumando
Vai à uma festa com seu namorado
Ele deve estar tão bonito
E ter exagerado no perfume ou no gel de cabelo
Acene, diga boa noite
Peça que volte logo
que se cuide
E não se esqueça de dizer que a ama
E que sempre vai amar...
Faça de contas que ela está aqui
Faça de contas que ela vai estar para sempre
E assim vai ser mais fácil
Suportar a sua ausência...
( para Márcia Couto )
Às vezes você está bem em frente da pessoa, olhando para ela e mesmo assim é inevitável se peguntar:
-Para onde é que ela foi?
A vida não é injusta.
Às vezes, ela te deixa escolher entre uma bicuda na canela ou um chute nos bagos.
As pessoas acham a morte perigosa.
Eu digo: ela não é.
Perigosa é a vida, com suas esquinas e labirintos.
Perigoso é respirar e beber a vida correndo o risco de engasgar.
Perigoso mesmo é saltar de um dia para o outro levando só o desejo de futuro.
A morte, meu amigo, é o fim. Ou melhor, o começo.
Não dá para ser feliz disfarçando a própria infelicidade. Ela está lá quando se está sozinho. Não adianta fingir que está bem, quando se tem uma represa atrás dos olhos. Não há o que comemorar se tudo for só vazio e encenação. O riso é fraco e não convence. O sorriso é murcho, é breve...O relógio marca que você ganhou mais um ano de vida. Mas na verdade, o que você ganhou foi a confirmação da sua solidão. Hip, hip, hurra!
Não me submeto à sua poesia
Não
Ela não me toca
Não me atinge
Não conversa comigo
Suas palavras andam de um lado para o outro
Afundam e emergem
Rasgam as vestes em praça pública
Mas nada...
Nada acontece
Eu sigo
Domei suas mentiras
Assinei um contrato de sanidade comigo
Seus gafanhotos não devoram mais
A minha plantação
Nem sua estiagem compromete minha colheita
Não olhe mais para mim como se eu fosse
Um boneco de argila que você vai moldando
Me poupe de te odiar
Me deixe seguir em paz e sem arrependimentos
Não somos mais um do outro
Nunca fomos
Pare de espalhar cacos de vidro onde eu posso passar
Me deixe respirar sem esbarrar em você
Me deixe ser quem eu era
Quem eu fui
Quem ainda posso ser
Saia de mim sem ser expulso.
Você se pergunta se está no caminho certo. Mas como alguém pode te dizer se nem ela mesma sabe se está no caminho certo?
E depois, o que é o caminho certo? O que, ou quem pode apontar o Norte, servir de bússola nesses tempos -no mínimo- inglórios?
Quem pode dizer o que é o certo e o errado para a sua, para a minha vida?
Porque deveríamos credenciar alguém para tão ingrata missão?
Porque por mais que alguém seja justo, bom, digno e honesto aos nossos olhos, não significa que terá as respostas que buscamos.
Nem que a receita que deu certo para uma pessoa vai ser igual para um de nós.
Então, qual o caminho a seguir?
Como viver a nossa vida em segurança ou pelo menos, com tranquilidade?
A resposta mais correta é confiar nos seus instintos. Esquece esse papo de agir com a razão. Ou ouvir o coração.
A razão tem feito tudo isso que vemos a nossa volta: O caos.
E o coração! Ah, esse retardado que anda batendo por qualquer porcaria que se mova. Que não sabe diferenciar um elogio de um ardil...
Alguma pessoa muito perdida recomendou isso um dia.
Ouça o que diz o seu instinto. Ele é aquele resquício digno da nossa ancestralidade. Que é isso o que somos. E o nosso maior erro foi anular essa ferramenta negando o que somos: bichos, feras.
Umas adestradas. Outras nem tanto.
Mas bichos.
O nosso instinto nos guiará para um lugar seguro. Ou seja, para bem longe de nós mesmos.
Meire Moreira
Toda vez que eu faço polenta me lembro da minha avó materna.
Ela pegava a panela onde havia sido feita e despejava um pouco de leite e depois que o angú desgrudava da panela, ela comia.
Minha avó lavava todas as roupas. Lavava toda a louça. Era forte e trabalhadeira.
Era vaidosa e nunca ficava sem esmalte ou tintura nos cabelos.
Sempre fazia um vestido novo que tinha bolsos na parte da frente.
O que a minha avó mais costumava falar era algum ditado antigo ou coisa que ela mesma inventava: " Quem chega por derradeiro bebe água suja." "Igual esse daí o diabo caga aos montes" e por aí afora.
Minha avó ensinou muitas lições preciosas. Mas esta é a melhor de todas:
A simplicidade é um item de luxo.
Não existe morte, todos somos eternos no tempo, e ela sempre estará lá, viva e jovem para sempre no tempo dela.
Acredite, a autoflagelação não é a resposta, ela gera mais perguntas. Quando a depressão sussurra que ferir-me me libertaria, cada corte na pele trouxe apenas interrogações sobre minha sanidade e limites. Vi que a dor física não silencia o tormento interno, ao contrário, escancara novas fraturas emocionais que não sei como curar.
Não sou frio, sou triste.
Mas tristeza profunda não faz barulho. Ela aprende a se disfarçar em silêncios longos,
em olhares vazios que já desistiram de explicar.
Sou mais da chuva… Ela desce como quem lava os silêncios que me habitam, desfaz a poeira invisível que cobre meu espírito.
Enquanto cai, borra as dores, dissolve as arestas do peito.
O sol, ao contrário, me expõe como vitrine vazia: sua luz varre os cantos,
revela rachaduras, escorre sobre minhas lágrimas… as que finjo… não existir.
- Posso me sentar aqui? – perguntou ele, já puxando a cadeira e fazendo com que ela sentisse o cheiro de hálito fresco que saía de sua boca bonita.
- Mas não precisa ficar tão perto... – gaguejou ela, um tanto quanto constrangida, tirando-lhe um quê de contentamento com todo aquele embaraço...
- Desculpe...- ele sorriu, deixando transparecer a covinha em seu rosto másculo.
Ela retribuiu o sorriso. Ele continuou no mesmo lugar e...
- Qual o seu nome?
Script, frases de efeito, bebidas na mesa, (ah, ela não bebia nada alcoólico!), elogios, toque nas mãos (de vez em quando!), olhos nos olhos, promessas nos olhos, nas palavras! E ela ali, extasiada, inebriada, indefesa com tanto carinho, tanto respeito, tanta sorte em encontrá-lo!
Mãos nos cabelos, carinho no rosto, carícia na nuca, olhos fechados, boca na boca! Beijo longo, devagar, saboreado! Mais abraços, mais toques sutis, mais beijos, mais palavras! Ela realmente encontrara um príncipe encantado!
Algum tempo depois...
- Qual é mesmo o seu nome? – perguntou ele com o celular em mãos, pronto para anotar o número de seu telefone, mas já se despedindo e recolocando a cadeira ao lugar de outrora.
- Ma...Mas...É Maria Flor. Esse é o meu nome – acabou por repetir, ainda que sentindo um indigesto e apertado nó na garganta.
Como alguém poderia esquecer um nome desses em tão pouco tempo?
Mesmo assim, ela lhe passou o número. E até hoje aguarda a ligação de um príncipe encantado de covinhas no rosto e hálito fresco.
(...)
- Posso me sentar aqui? – perguntou ele, já puxando a cadeira e fazendo com que ela sentisse o cheiro de hálito fresco que saía de sua boca bonita.
Ela o olhou de cima a baixo, examinou cada parte do seu corpo, e, antes que a cadeira lhe caísse aos pés, puxou-a para perto de si, deixando-o indefenso quando sentiu o calor da proximidade daqueles seios lindos a roçar-lhe, de leve, o braço.
Visivelmente perturbado, disfarçou, tentou sorrir, mas as palavras não lhe saíam completas da boca. Tremia, suava, gaguejava, se desculpava, e ela ali, a olhá-lo como se nada do que dissesse a tocasse! Simplesmente não sabia como agir...
Bebidas à mesa, sorriso descontraído, palavras soltas, despretensiosas, e ela, aos poucos, trouxe-lhe um quê de fantasia de que ela poderia ser dele. Então ele continuava ali, mesmo confuso, atordoado com a energia daquela mulher que não se permitia ser a caça da noite.
- Qual é o seu...?
Foi quando o silenciou com um beijo ardente, insaciável, longo, desejado, desesperado, devorado! Promessas nos toques, nos sussurros, nos olhos, nos poros, na carne! Mais beijos, mais sorrisos, mais toques, mais desejo, mais carícias, mais cheiro, cheiro de mulher!
Ele continuava ali, extasiado, inebriado, indefeso, com tanta desenvoltura, tantos sorrisos leves, tanta vida, tantas promessas de prazer eterno, tanto prazer por prazer! Ele realmente encontrara a mulher da sua vida!
E ela sabia que ele a procuraria todos os dias, todas as noites, todas as horas, em todos os cheiros, em todas as mulheres. Ela sabia que, mesmo sem dizer-lhe o nome, ficara impregnada na pele, na alma, no coração. Ela sabia que ele a esperaria. Mas sabia também que ela não mais se deixaria encontrar...
- Eu também.
Ele fixou-lhe o olhar. Parecia não acreditar no que acabara de ouvir. Ela dissera isso mesmo ou será que estava sonhando? Seu coração estava acelerado. Suas mãos transpiravam. Ele precisava confirmar. Mas e se ela não dissesse novamente? E se tudo aquilo realmente fosse fruto de sua imaginação? Já fazia algum tempo que esperava aquele momento... Preferiu não arriscar... Ela dissera, dissera sim. Isso que importava. Tudo bem que faltavam ali mais duas palavrinhas, mas ouvir as duas primeiras já era um bom começo. Aliás, significava que já tinham ultrapassado o tão temível começo...
Como ele não reagia, ela decidiu abraçá-lo. Primeiro contornou-lhe os traços, como se quisesse decorá-los, e deu-lhe um beijo bem na ponta do nariz. Ele sorriu. Ela sorriu e o aconchegou bem próximo ao coração. Ela sabia que faltavam ali duas palavrinhas, mas sabia também que o tempo a faria terminar a frase. Era isso que importava. Ela havia recomeçado.
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