Rubem Alves Jardim
Frente a frente, a mirar,
Vendo seja o que for,
Pelo fogo do olhar...
só pode ser o amor.
Amor que se adivinha,
Após o primeiro beijo
Lábios colados que dizem
Eu te amo... eu te desejo...
Num abraço apertado,
corações se unem,
descobrindo o amor,
nos sentimentos que surgem.
Nessa descoberta do amor
Corpos ficando nus
Pulsação acelerando
Desejo aumentando
Fusão dos corpos, num
delírio supremo, a compor
com loucura que alucina,
uma poesia de amor.
"No paraíso não havia templos. Deus andava pelo jardim, extasiado, dizendo: 'Como é belo! Como é belo!'. A beleza é a face visível de Deus". (Em Se eu pudesse viver minha vida de novo)
E o que resta da vida se um homem não pode escutar o choro solitário de um pássaro ou coaxar dos sapos à volta de uma lagoa à noite?
A chegada faz parte da vida. A despedida faz pate da vida [...] Sem a Morte, a Vida também não existiria, pois a vida é, precisamente, uma permanente despedida.
Quem tem muitas esperanças é um monte de cacos de vidro. Quem tem uma única esperança, é um vitral colorido de uma catedral.
Amor è um carpinteiro
Que ri com ar de metreiro,
Cerrando forte e ligeiro
Na tenda do coracão...
Põe pregos de resistência,
Ferrolhos na consiência,
Tranca as portas da razão
Tenho amigos anjos e tenho os demônios. Os anjos me falam o que é errado, os demônios me levam pra conhecer!
Um dos meus prazeres é cozinhar. Entretanto, faz uns dias, eu fui para a cozinha fazer aquilo que já fizera centenas de vezes: cortar cebolas. Ato banal, sem surpresas. Mas, cortada a cebola, eu olhei para ela e tive um susto! Percebi que nunca havia visto uma cebola. Aqueles anéis perfeitamente ajustados, a luz se refletindo neles: tive a impressão de estar vendo a rosácea de um vitral de catedral gótica. De repente, a cebola, de objeto a ser comido, se transformou em obra de arte para ser vista! E o pior é que o mesmo aconteceu quando cortei os tomates, os pimentões... Agora, tudo o que vejo me causa espanto. Então me levantei, fui à estante de livros e de lá retirei as "Odes Elementales", de Pablo Neruda.
Procurei a "Ode à Cebola" e lhe disse: "Essa perturbação ocular que a acometeu é comum entre os poetas. Veja o que Neruda disse de uma cebola igual àquela que lhe causou assombro: 'Rosa de água com escamas de cristal'. Não, você não está louca. Você ganhou olhos de poeta... Os poetas ensinam a ver".
Ver é muito complicado. Isso é estranho porque os olhos, de todos os órgãos dos sentidos, são os de mais fácil compreensão científica. A sua física é idêntica à física óptica de uma máquina fotográfica: o objeto do lado de fora aparece refletido do lado de dentro. Mas existe algo na visão que não pertence à física.
William Blake sabia disso e afirmou: "A árvore que o sábio vê não é a mesma árvore que o tolo vê".
Sei disso por experiência própria. Quando vejo os ipês floridos, sinto-me como Moisés diante da sarça ardente: ali está uma epifania do sagrado. Mas uma mulher que vivia perto da minha casa decretou a morte de um ipê que florescia à frente de sua casa porque ele sujava o chão, dava muito trabalho para a sua vassoura. Seus olhos não viam a beleza. Só viam o lixo.
(...) Há muitas pessoas de visão perfeita que nada vêem. "Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. Não basta abrir a janela para ver os campos e os rios", escreveu Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido. Nietzsche sabia disso e afirmou que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver.
De qualquer modo, escrevi sobre uma rã que encontrei no jardim, com uma das pernas presa numa cerca de arame. Não podia se soltar. Eu tirei a perna dela da cerca, mas mesmo assim ela não podia se mover. Por isso eu peguei ela no colo e conversei com ela. Disse que eu também estava preso, que minha vida tinha ficado presa em alguma coisa. Conversei com ela durante um longo tempo. Finalmente, a rã saltou do meu colo e saiu saltando pela grama afora, e desapareceu num matagal. E eu disse a mim mesmo que ela era a primeira coisa de que eu já sentira saudade em minha vida.
Cultivei de sorrisos uma vida-jardim;
em cada canteiro plantei um sorriso enfim,
Ah..de tanto sorrir pra vida,a vida floriu pra mim...
Se não encontramos beleza e felicidade em nosso própio jardim, jamais as encontraremos em outras
paisagens.
O amor é como flor, deve ser regado e cuidado todos os dias, quem muito se ausenta de seu jardim, quando volta nao encontra mais suas cores, seu cheiro, mas apenas os restos e a lembrança do que um dia foi lindo.
Girassol. Seguindo o rastro do teu pólen.
Girassóis. Jardim de estrela no teu colo.
Gira ao sol. Irradia brilho em tua alma.
Gira só. Se pôr pra dentro da tua calma.
