Retomar uma Amizade
Triste eu não fico
Eu dou qualquer motivo pra felicidade
Eu canto uma canção de amor,
Eu planto uma flor, eu faço uma viagem
Que solidão que nada, eu flerto com a lua
Paquero as estrelas até de madrugada...
A minha namorada ainda não é minha
Mas sorrir e se despe enquanto
Caminha suave na minha direção
Nos momentos mágicos das minhas fantasias...
Ou na monotonia da minha solidão
ROMANTISMO EGÍPCIO
Camelo é o deserto mais belo de uma solidão
Pirâmide é o que há de mais lacônico na eternidade
O céu era azul ou eu o via assim, e os fins de tarde eram dourados ou dourados eu os via; havia uma magia, a magia da adolescência; não importava a poeira que subia das ruas de piçarra, ou a lama nos dias de chuva; tudo era uma aventura, como por exemplo catar latas para ostentar, nas tardes de sábado, uma coca-cola bem gelada no botequim da esquina; ou as paixões lacônicas pelas professoras, que se iam nas passagens de ano para dar lugar a uma nova paixão por uma nova professora. Irmãos e irmãs, tias, primos, sobrinhos; éramos um grande exército e pela madrugada um "general" saía sem que ninguém percebesse... fizesse chuva ou não; nunca vi ninguém com mais coragem para enfrentar aquela fábrica de cigarros que na velhice lhe rendeu um enfisema pulmonar. essa é uma história muito triste para alguém que amava demais a vida; foi uma batalha à parte, as outras todas ele venceu, mas quem vence o tabagismo?
Em tudo o que pairava sobre a minha cabeça, essa foi uma mancha cinzenta; e as tardes douradas deram lugar a um bronze fosco, mas as maiores feridas são as que adornam o espírito e as maiores carências enriquecem a alma; assim eu consigo, percebendo a felicidade, mesmo diante de todas as agruras, no menino que eu fora um dia; então todos os sorrisos se reúnem de vez em quando num momento alegre, ou num momento que eu calava para uma repreensão, ou um conselho; a voz grave de minha mãe na leitura bíblica de todas as manhãs; a caminhada triste na condução de um féretro de um ente querido; será que eu já tinha quatro anos? nunca mais esqueci o semblante de cada um que fazia aquele funeral. Acho que funeral devia ser feito sempre assim, uma longa caminhada para termos tempo de refletir e não cometer os mesmos erros do defunto. Tristezas profundas à parte, mas nada tirava de mim a sensação de que éramos eternos, penso que essa é uma característica da juventude com o jeito de perceber tudo belo, mas a beleza de Nilópolis tinha a eloquência da castidade, a beleza dos pores de sol atrás de colinas e manhãs dominicais douradas nos campinhos suburbanos de torneios futebolísticos inesquecíveis nas minhas lembranças. Então foi assim sempre... sempre? Este sempre foi lacônico, foi rápido, mas é uma referência do que posso chamar de felicidade, isto reúne sorrisos, lágrimas, momentos difíceis mas com olhares de conforto e mãos de apoio; até que um dia uma foto de família documentou, deixando ao fundo o azul anil de uma casinha modesta, a satisfação no sorriso de cada um, editando assim a nossa união. O céu era azul e as tardes eram douradas e todos pareciam personagens de um mundo fantástico com apelidos jocosos como: puruka, brucutu, simica, buck jones... às vezes penso que tudo isso deveria ficar assim à parte, mas quem eu seria hoje? isso já faz parte da minha identidade; assim, mesmo nos momentos de agora, corro pela Joaquim Cardoso atrás das pipas, dos saquinhos de doces de São Cosme e Damião ou atrás de uma bola nos gramados castigados; são momentos reconfortantes para as incertezas de agora, são recordações que inspiram diante de uma pandemia que nos sufoca e uma omissão que nos mata.
Eu não sei se sou triste
ou se é só mais uma ilusão que eu alimento,
mas esta felicidade ninguém tira de mim...
Vai no meu olhar
olhar a minha alma...
e a paisagem tão serena é uma miragem
que a ansiedade banha no açude;
fiz o que pude e o que não pude,
mas o amor segue nessa estrada infinita
a se perder nos montes,
é uma vadiagem que o coração permeia,
o meu amor é tão vadio,
é tão vazio de vazios,
numa alma tão pequena a abrigar o mundo,
e apenas num segundo
o meu amor cabe no que não vejo,
mas me intui este desejo de te amar
A minha vontade é uma cidade tranquila com pessoas serenas que se encantem com o neon e se apaixonem pelos manequins vestidos em viscoses estampadas... ou simplesmente caminhem sem medo por estradas carroçais ao lado de rebanhos ou manadas em retorno para seus currais num final de tarde, como se não fosse tarde para contemplar o ocaso ou como se a dor não empoeirasse a alma. Acho que o mundo poderia ser melhor se estivéssemos todos em estado de gestação para gerar uma esperança para quem derrama um olhar, para quem estende uma mão, para quem precisa de um sorriso. Na verdade o que precisamos é um banho no rio, um mergulho no lago e nos limparmos de toda incoerência que nos conduza a atalhos sombrios, porque na real, na essência, parodiando John: "tudo que precisamos é amor."
Eu sei que a noite é só a noite,
é só a noite, é a noite só,
mas a noite é uma eternidade,
uma eternidade, bem maior
que as coisas longas que se alongam
por estradas empoeiradas...
sabe, essas coisas incertas
que só as paixões suportam,
porque mais distantes que as paixões
só as paixões distantes,
só as estradas empoeiradas,
só a noite, só a noite, só a noite só...
Foi tão rápido, as coisas aconteceram assim
como se só uma manhã...pintasse de azul, de cinza, de púrpura
as cores que eu vi passar e se eu sonhasse antes o que eu sonhara
diluiria à acidez do tempo que enruga os olhares...
sempre fiz tudo tão certo,
que perto do que eu seria se eu não fosse feliz... certamente eu não seria tão sozinho
e não estaria escrevendo poemas
crendo que a vida é um jardim com acácias, açucenas e flores de lis
parte grande do que componho vem da minha imaginaçâo, outras partes eu invento, o resto é ficção...
como quando você caminha na minha direção
o resto é verdade, acordo sozinho e tarde,
uma fresta de luz bate nos meus olhos,
faço uma oração ao meu Deus. Sei que não custa sonhar, mas custa; pés-de- galinha e cabelos brancos...
Tem sessenta, só viveu vinte
e tá com uma gata de vinte que já viveu oitenta
ele pensa que ela é novinha
ela tem muita estrada, beco, vielas, guetos...
ele adolesce sexagenário
ela parece um anjo, e ele não parece ser otário..
TREM DA PAIXÃO
Não foi só paixão, foi muito mais
o que o rio leva e a cachoeira cai...
uma força além do que eu podia suportar
eu me perdi assim...
o meu lugar comum me guarda desse olhar
nem quero acreditar que o mundo é belo...
se uma andorinha só não faz verão,
verão que a dor do amor dói em qualquer estação
não quero nunca mais sonhar...
além desse ocaso o acaso deste além
o que nos conduz a dor, ao amor
é o trem dessa paixão, é o trem do teu olhar, é o trem...
Seria impossível uma mulher não ser feliz, se ela pudesse imaginar e tornar útil, todo o poder que Deus lhe deu.
BEIRUTE
Ainda tinha as lembranças de alguns meses atrás, era uma marquise aconchegante apesar do mal cheiro de um contêiner de lixo que exalava mais forte com os pingos de uma chuva de um verão ardente, e chegava-nos de longe, provavelmente de algum veículo, o som de uma música de um tempo romântico quando nossas asas eram ainda imaculadas. Beirute mencionara uma coisa bonita como alguém mencionara há muito tempo atrás, passou as mãos nos meus cabelos, como aquele alguém querido, mas o que fizemos ali não foi amor... parecia mas uma louca tentativa de segurar algo que parecia escapar das nossas almas como a capacidade de amar; amor; acho que não sabíamos mais o que era isso. No nosso mundo chovia meteoros como nosso planeta em formação, e algumas espécies foram exterminadas.
Marco Aurélio Penha ganhara o apelido exato para retratar sua alma em conflito: Beirute. Ainda bem lá no fundo, percebia-se, tinha a sensibilidade de uma adolescência bem-amada por sua família do agreste nordestino, que ficara esperando notícias do jovem que partira paro sudeste em busca de emprego. Não fora fácil pra Mirica: (Mirian Ribeiro Castro), aproximar-se de Beirude; ele era arredio, introspectivo, tímido; e só quando ela se mostrara como álibi, durante uma abordagem policial que o acusara de conduzir drogas que foram encontradas próximo a ele... assim, Mirica conseguira a confiança de Beirute a ponto de ser sua confidente e leal parceira.
Marinalva e Jocasta, mãe, e filha que provavelmente nem tinha nascido, quando ele decidiu tomar o rumo do Rio de Janeiro; eram esses os nomes que seriam sua redenção, o que trazia algum brilho ao par de olhos negros confusos e tristes. Era só um “avião”, era assim que se identificava; “só um avião, os “passageiros” querem “viajar” e eu tenho que decolar”. Não contava as vezes que tinha que subir o morro para atender pedidos. Essa era a vida de Beirute, as vezes que tentara fugir disso não deram certo; uma parada na central do brasil que lhe rendera um linchamento quase fatal e uma parada em Copacabana que lhe deixaram duas cicatrizes de bala na perna esquerda; depois disso parece que aprendera, e só subia o morro para pegar alguma coisa. Isso era decolar. “O morro é meu, o Rio não é uma faixa de gaza, Beirute não é alvo”; Dizia sorrindo sem perceber a guerra onde a guerra não se mostra, onde não parece haver fronteiras; onde qualquer atitudde é um ato político, onde qualquer roupa é a sua indumentária.
Agora estava ali, estendido, uniforme do ferroviário estava manchado de sangue, no antebraço esquerdo a tatuagem: Jocasta, o nome da filha que nem chegara a conhecer. Era uma calçada imunda, húmida, sob uma marquise rachada que ameaçava desabar sobre quem passasse por ali; ao lado do cadáver de Beirute estava mogango, o vira-lata preto e branco pra quem ele trazia restos de comida.
Mirika enxugou o par de lágrimas que rolara dos seus olhos, jamais subiria aquele morro novamente, seu amigo fora assassinado provavelmente porque fazia isso; escreveria uma carta a dona Nigéria, mãe de Beirute, mas não lhe falaria de morte, não lhe falaria de coisas tristes, falar-lhe-ia dos passeios na Quinta, do Fla x Flu no Maraca, da saudade que ele mencionara da família e dos amigos da igreja; guardaria a grande surpresa pra quando lá chegasse: Isaac, o feto de três meses, que já se mexia ali no seu ventre, e jamais permitiria que conhecesse aquele lado sombrio da vida.
WALKIRIA
Ela pegou a vassoura...,
Começou uma discussão boba,
Quebrou alguns pratos,
Rasgou cortinas e retratos
Maldisse a família, bateu no filho e na filha
Xingou a sogra, a minha progenitora, trocou de roupa, pegou a tesoura...
E quando eu falei de amor ela armou um sorriso...
Aquela coisa sarcástica que eu percebia na Ava Gardner
Então eu vi que não tinha jeito
Só não queria a tesoura, nem a faca...
Doze polegadas de aço inoxidável cravada bem no meu peito
Seria a menopausa...
Mas nem uma pequena pausa
Continuou aflita
Fósforo e alcool ao alcance do braço, seria um inferno...
E aquele amor eterno de que tanto falávamos...
Fui tentar contê-la, ela colocou a tesoura na minha garganta
Com essa proximidade eu fraquejava, beijei-lhe a boca...
Já faz quatro anos, a idade de Amália...
De vez em quando ela pega a vassoura... mas já temos três filhos
E eu sei que ela não vai voar pra longe de mim.
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