Quem tem Telhado de Vidro Evita Chuva de Pedra
Quando ele voltar, depois da chuva
Abra aquele litro de bebida
Apele pro teu resto de bom senso
Lá fora o mundo é grande e o frio, imenso
Quando ele voltar, depois da vida
Abra teu sorriso, porventura houver guardado
Aquele desgastado, penso nunca, jamais visto
Sequer por teu olhar sem amplitude
Guarde teu orgulho costumeiro
Esse, que acompanha a tua sombra o dia inteiro
Descobre teu olhar de todo argueiro
Se acaso sentir medo
Feche as mãos, esconda os dedos
Quando, então, se revelar detrás do espelho
Donde há de voltar, depois de tanto tempo
Um resto de lembrança, um traço de esperança
Um espaço que estava vazio
Outro pedaço de passado
Cacos de vida lado a lado no presente
Ilusão de tempo dilatado, embora inexistente
Bem diante dos teus olhos, logo após o estio.
No mesmíssimo lugar que se encontrava
Antes da chuva.
Edson Ricardo Paiva.
A vida era
Toda ela, um vaso de alabrastro
Um prazo que não venceria
O Sol na chuva, era alegria
Era a felicidade, a verdade sobre a mesa
Um astro de primeira grandeza
Era harmonia
Comedida em seus excessos
Ah, essa era a vida, ela excedia
Não era, ela não era não
Era uma mão que se escondia
Oculta com propriedade
Tangia as cordas da vida
De modo tão perfeito
A justa forma ela imitava
A gente se iludia tão perfeitamente
O vento leve, o tempo breve
O espelho que não se mostrava
Era a vida uma centelha
Um prazo que nos vencia
Ele venceu
Essa era a vida
Este sou eu.
Edson Ricardo Paiva.
O cheiro de chuva com seus artifícios
Imagens de infância
Sinetes, avisos: é preciso viver
Como vivem as luzes assim
Luzindo nos aços
Você indo lá fora pra olhar
O lugar onde tantos olhares
Cederam a vez a espaços vazios
Que deixamos ficar sem abrigo
O inimigo imaginário
A força da imaginação
O ponteiro, o vento, o calendário
O céu, que não tinha esse azul
Não era assim
Chega a ser engraçado
Mas não era assim
Tantos passos
Se forçar a vista, dá pra ver o fim da estrada
O cheiro da chuva
Um meio sorriso
A primavera que não veio
É preciso viver
Como vivem as luzes
Mais nada.
Edson Ricardo Paiva.
Oportunidades.
Aquela poça dágua
Que ficou depois da chuva
Num final de tarde
Ainda arde na tua lembrança
A vontade de criança
Ter pulado nela
e lançado a lama pra todo lado
Aquela voz na tua janela
Um amigo com a bola debaixo do braço
Te chamando pra brincar
Nenhum de nós jamais saberá dizer
Porque foi que você não foi
Ou então, a goiaba amarela
Aquela no galho mais alto
Hoje a gente sabe
Que de fato, lá ela ficou
O tempo não tem atalho
Aquele par de ouvidos
As palavras podiam ser ditas
Até hoje você se lembra
Mas não acredita
Deixa estar!
A própria vida
Tanta gente sonhou
Tanto sonho se quedou pelo caminho
O pássaro no galho
No galho do ninho
O papel estava lá
O lápis também
O mais lindo poema em mente
E assim chegamos no presente
Que aflição que te dá, que te dói!
A página mais bonita
Dá a impressão
Que ela podia ser escrita
Mas não foi
Só a lama da poça
Nossa!
Essa, ficou conhecida
Como um gesto repetido
Mas aquela, do começo da vida
Secou, como todo o resto
Ficou tudo lá.
Edson Ricardo Paiva.
Belas horas.
Água de chuva
Parede, pintura nova
Uma ida à janela
Um olhar à rua
As mágoas da vida
Quão belas
eram aquelas manhãs de outros dias
O mundo existia
Aqui, dentro da gente
A julgar pelo olhar a rua
Nada ficou diferente
Por mais que a beleza iluda
Nada ilude eternamente
O que muda é uma coisa que existe
O badalar mais triste
de um ponteiro que acelera
Belas eram aquelas
Horas que passavam todas inteiras
iguais
A parede, a pintura
Alguma coisa pura que existia
e que era mais
Traduzia aquilo que a visão
da água da chuva que caia
Enquanto passava o avião
Um gosto, um sorriso
O linho da mesa posta
A comida do almoço
A vida
Belas eram aquelas
Risadas que compartilhamos
Das horas que não passam mais
Sem que haja um badalar que insiste
em dizer alguma coisa que eu não compreendo
Sim, isso acontece
A chuva às vezes cai ainda
e continua linda
Mas me traz uma mensagem diferente
Quando ela desce
E as imagens que vão surgindo
Não são mais tão belas
Não quanto foram aquelas
Uma ida à janela, outro olhar à rua
E cerrar as cortinas
Outro dia termina pra mim.
Edson Ricardo Paiva
Vida Flor.
A vida é o dia de uma flor
Quando a chuva aproveita
Bota as pétalas de lado, assim
Se espelhando numa poça rasa
Detalhando os seus tim-tins
Orgulhosa da própria beleza
Ajeita luz do sol
Renovando a folia
Acredita, enquanto há tempo
Tempo é tudo quanto mais havia
Quando o tempo de já não mais crer vier
Ele vem, crer ela não quer...aceita
Bota espinhos, tenta defendê-la
Tristes mãos que, porventura, recolhê-la
Assim, como um sol que renasce
E que jamais se opõe
Ao orvalho das trevas
Escolhe uma melhor lembrança e a leva
Molha-te por molhar-se
Escolhe um ramalhete pra passar teus dias
Que, por ora, ornamenta e tenta e tenta
Tanto tenta que, quando desiste
Já não sente assim, tanta tristeza
Tenta, mas aprende a desistir também
Nem jamais te arrependa de nada
Desaprenda o sorrir
Mesmo assim, depois, aprende
Rir-se de si mesma.
Edson Ricardo Paiva.
Assim como há nuvens
que se dissipam sem chuva
pensamentos ou boas ideias
que esquecemos antes que termine o dia
boas intenções que nunca
se transformaram em ações
pés descalços, mãos sem luva
frutas que caíram sem ser colhidas
boas canções não cantadas
poesias nunca lidas
vozes cansadas
que guardaram palavras não ditas
também há vidas que passaram
e que não foram vividas
Quando chove a chuva traz
lembranças do bem
que você sempre me faz
pode parecer que não
mas se você olhar para trás
talvez veja uma luz
que se esconde
quando você olha
Sempre que a chuva me molha
Eu posso chorar sem medo
Não vão nunca descobrir
deste afeto, que guardo em segredo
Este amor, mesmo sendo tão grande
e mesmo sem ter aonde
esconder
eu escondo aqui no peito
e vou te amando do meu jeito
não é do jeito que eu
sempre quis
mesmo assim fico feliz
em poder te enviar
essa luz
Que se esconde
Quando você olha
Talvez seja a nossa sina
Pois sempre
que a chuva me molha
Meu amor em forma de luz
te procura e te ilumina
Quando a gente era criança
e a mãe deixava sair
Depois da chuva
a gente podia então
dividir a rua
e fazer guerra de barro
Eu puxava o galho baixinho
E chovia de novo em você
Que escrevia meu nome
com folhas
O vento carregou meu nome
o tempo passa e tudo some
Fica a saudade
Que a chuva carrega
pra terra da recordação
Em vez de barro
Hoje a chuva
Faz tristeza
Hoje a Mãe deixou sair
Mas eu queria
ficar no quarto
e tentar ficar contente
ao lembrar
Que um dia
Eu podia puxar a folha
E então via chover
Novamente
Sobre você
Que ria.
Quando a gente era criança
e a mãe deixava sair
Depois da chuva
a gente podia então
dividir a rua
e fazer guerra de barro
Eu puxava o galho baixinho
E chovia de novo em você
Que escrevia meu nome
com folhas
Faz tempo que o vento
carregou meu nome
O tempo passa, tudo some
Vão-se com as escolhas
Fica a saudade
Que a chuva carrega
pra terra da recordação
Em vez de barro
Hoje a chuva
Faz tristeza
Hoje a Mãe deixou sair
Mas eu queria
ficar no quarto
e tentar ficar contente
ao lembrar que um dia
Eu podia puxar a folha
E então via chover
Novamente
Sobre você
Que ria.
Tomei cada pingo de chuva
Numa tarde de domingo
À noite teve Lua nova
Mas ainda me era possível
Enxergar a Luz do dia
Quando o Céu se abriu no estio
Som de gaitas e violinos
Ecoava na rua deserta
Soava perto de mim
E mesmo assim
Eu não via quem tocava
A canção
Mais bela que eu já ouvira
Naquela noite de Lua nova
À beira daquela cova
Que eu não sabia de quem era
Fui ouvir de um Anjo ali perto
E ele falou:
"Abandona esta paisagem
Completaste integralmente
tua missão aqui neste Mundo
agora respira fundo
há bastantes gentes te esperando
Após a viagem desta noite
Pra este mundo agora estás morto
Acabou-se a triste miragem
Nos aguardam lá no Céu
Esta música é em tua homenagem."
A grama da colina
Amanheceu toda molhada
Devido à chuva fina
Que caiu de madrugada
e de repente me lembrei
de outras tantas manhãs
Que jamais haverão de retornar
Num tempo em que eu não sabia
O que sentia ou quê sentir
Agora o dia amanheceu
Sem borboletas nem café
Sem sorriso de mãe
nem nada a tocar no rádio
Amanheceu um dia assim
Que me fez lembrar do começo
de algo que eu nem sabia o que era
Sabia que sempre amanhecia
Mas não achava que
Com o passar das primaveras
Aquilo que eu nem sabia o que era
haveria de tanto mudar
E mesmo assim o amanhecer
Ainda traz grama molhada
mas agora eu sei
Os janeiros, os verões, e os amanheceres
Me ensinaram quem eram
E o quê eu devia sentir
A cada vez que visse
Findar mais uma madrugada
E de tanto aprender
Hoje
Não sinto absolutamente
Nada.
Olho pro Mundo, hoje há chuva
No silêncio deste mágico momento
Eu tento entender a lógica
Que faz a Terra girar pra um lado
e a gente caminhar pro oposto
É mês de novembro
e eu respiro um ar de mês de agosto
Só não sei de qual ano ele é
Parece que igual a mim
Muita gente que se encontra nesta Cidade
Simplesmente perdeu-se no tempo
O coração se deixa invadir
Por uma estranha alegria tristonha
Houve dias em minha vida
Em que as unhas do tempo
arranhavam minha porta, que eu abria
Entravam sonhos
dos mais variados tamanhos
Eu os mesclava à realidade e vivia
da maneira que o Mundo deixasse
Alguns estéreis e fecundos
Outros profundos
O Mundo e os sonhos
Também foram me deixando aos poucos
Agora, nestes loucos dias que correm
O tempo anda pra trás
O Mundo parece parado
De vez em quando
as águas chovem
E eu ainda vivo
os poucos sonhos que me vem
Enquanto eles também não morrem
Madrugadas de chuva
Por que será que Deus as fez?
Se o bonito da chuva
é ver-lhe o brilho
das gotas que caem
Creio que Deus
Em Sua Infinita Sabedoria
Guarda para nós uma surpresa
Que nem sempre é percebida
Quando nasce o dia
É uma forma de fazer-nos enxergar
Tardiamente
A alegria que muitas vezes
Esteve aqui, bem ao lado da gente
E que não soubemos ou quisemos
Reconhecer-lhe o real valor
Somente quando já tiver passado
Uma vida inteira de ingratidão
É que finalmente vão
Perceber o quanto foram vãs
As reclamações sem sentido
As acusações infundadas
E todas aquelas formas
das quais dispomos e utilizamos
Pra dizer que não mais queremos
Algo que um dia
Desejamos tanto
e que não soubemos dar valor
Enquanto as possuíamos
As coisas que são perdidas
Voluntariamente, no nosso dia-a-dia
E que, somente no fim da vida
é que a gente finalmente percebe
O quanto a gente as queria
E que, bem ou mal
Nos causaram tanta alegria.
Hoje choveu
Antes da chuva
O vento carregou as folhas
Que a chuva varreu
Eu estava parado na calçada
Sozinho, pensando
No quanto eu
de certa forma me sentia
Semelhante às folhas que caíam
Agora elas também se foram
E eu fiquei só
Somente em companhia da chuva
Mas enquanto ela desaba
Eu sei que posso chorar
Sem que ninguém perceba
Amanhã é outro dia
Brilha o Sol, as folhas crescem
Somente isso que eu sinto
não se acaba
A vida segue adiante
Somente meus olhos
parados no tempo
Atrelados ao meu coração
tão solitário
Não te esquecem.
Chuva no chão
Calor de Sol
Raios de nuvem
Na linha do horizonte
Junto aos montes
Alguma coisa tinge o Céu
de cor maçã
Nesse momento eu percebo
Que deixei de perceber
O quanto a passagem dos dias
Foi minguando, de fato
As dores e alegrias
Que eu sentia
Agora
Os dias são apenas dias
Minh'alma já nem sofre
do doce ensimesmamento
Ao qual se recolhia
Nas madrugadas caladas
O coração quase que pára
Pouca coisa resta
O Passar do tempo
tem poder
de aparar arestas
e minimizar o efeito
das pedras que ficavam no caminho
E adentravam os sapatos
A ciência que eu que não tenho
é compensada
Pela vivência de tantos
Pores-do-Sol
de fato
Aqueles de nós
Que conseguem chegar nesse lugar
Poderiam sentir , quem sabe
Estranha estupefação
Mas há tanta calma no coração
Que tal coisa não mais lhe cabe
Resta-me, quem sabe
Dirigir aos Céus uma oração
de gratidão
Por tamanha mansidão
Que o tempo me trouxe à alma.
Edson Ricardo Paiva
Eu quero a chuva
Num dia de Sol
No mesmo Sol
De uma manhã de inverno
Eu quero a sorte
de noite estrelada
Que seja hoje
e de novo amanhã
Calor de Sol
Numa blusa de lã
Espero
A curva lá da ventania
Eu quero vida na vida
E se eu pudesse querer
Outra coisa qualquer
Desejaria que ela fosse
Linda
Linda como a chuva
Num dia de Sol.
Edson Ricardo Paiva.
É tarde de mês de novembro
É tarde de ventania
É dia de chuva
A chuva é de vento
Não existe Mar à vista
Nenhum continente pra conquistar
Não há Mar pra eu andar sobre as águas
Não é tarde de conquista
Ela é só mais uma tarde de novembro
Eu nem me lembro quantas vezes vivi
Ou quantos meses eu vi este ano
Nesta tarde planejo
Molhar-me na chuva
Troveja
E eu vejo pela janela
O vento carregando aquela nuvem
Pra distante
E antes que chova
Novamente o Sol arde no Céu
Como há muito esse Céu não ardia
Malogrando meus planos
Num dia de tarde de mês de novembro
Era chuva de vento
E lentamente o meu banho de chuva
Outra vez se distancia
Numa tarde de Sol
de outro mês de novembro.
Edson Ricardo Paiva.
Tarde de dezembro
Tarde de calor
Tarde linda!
Depois
Que a bem vinda chuva
desaba e deságua
Novamente o Sol se desdobra
e a gente, feliz, descobre
Que mesmo após o fim
Aquela chuva não se acaba
do jeito qua gente queria
Permanece invisível e suspensa
Decantando a luz do dia
em coisa multicolorida
Enquanto isso o calor nos compensa
Com imensa quantidade de vida
Que revela que esteve escondida
Debaixo da minha janela
Num canteiro de margaridas
Eu me lembro que até há pouco
Me escondia, infeliz e louco
Em verdes colinas distantes
Existentes na minha mente
Onde eu me sentava
numa sombra triste
Fingindo-me contente
Apenas o tempo suficiente
de escrever versos felizes
Mas, na manhã seguinte
O clarão da aurora
Me traz outro dia
E desta vez
O meu coração não chora
Meus olhos enxergam vida
e vontade de sentir de novo
Uma vontade há muito perdida
Vida trazendo vida
a outra vida
que parece que também
Andou se sentindo perdida
E de repente a gente percebe
Que ainda não é tarde
Linda tarde de dezembro...
Edson Ricardo Paiva.
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