Quem tem Telhado de Vidro Evita Chuva de Pedra
"Sempre gostei de ver
as gotas caírem no vidro,
assistir a luz
mergulhando nelas.
Talvez em um dia de chuva,
daqueles em que eu
ficava grudado à janela,
você era uma delas".
- Trecho de "Mosaico", do livro "Ruas & Rosas".
Se eles pudessem, o meu pai e a minha mãe tinham criado uma redoma de vidro e me botado dentro, pra não me chegar nenhuma chateação, nenhuma palavra de desabono.
Encontrei-me no silêncio, sem o Poeta da Alma para dizer qualquer coisa, percebi que sou um vidro quebrado e meu coração são os cacos.
Apesar da areia nos meus olhos,
dos cactos de vidro no meu coração,
dos dias desperdiçados,
dos pensamentos ilimitados,
das lágrimas partidas,
das borboletas sentidas,
tudo que eu preciso ainda é você.
Ao mar
Coloquei seu nome em uma garrafa de vidro
E a joguei ao mar, com um pedido feito pelo coração.
Acompanhei atentamente as ondas do mar
Levando o seu nome.
Eu tinha esperança que as ondas mudassem o sentido
E ela voltasse para mim.
Mas no fundo eu já sabia
Que quando jogasse a garrafa ao mar
Ela não retornaria.
E o meu pedido antes de jogar a garrafa ao mar
Não era que ela voltasse.
Mas sim que as ondas a levasse
E um dia ela possa encontrar terra firme.
Na qual não teria mais o seu caminho decidido
Pelo simples ondular das ondas.
Ai, esta velha e solitária angústia
a estalar meu coração de vidro colorido
_ tira-me a liberdade
de colher ilusões
transbordando
.
.
.
.
transbordando
mal sei conduzir-me na vida,
sou brigue perdida
neste labirinto
- chamado VIDA.
Quem me dera cá dentro, muito a sós,
estrangulá-la pra sempre
e vestir munha alma de criança.
Amor de vidro
Amor de vidro é aquele
Que se cuida com carinho,
Que se trata por todo caminho,
Que se usa bem mansinho
Para não se quebrar.
O amor de vidro
Se realiza com sonhos,
Se macula com desejos,
Se inventa sem pensar.
Amor de vidro
É auge, esteio,
Êxtase e frenesí,
Só se vive uma vez
E depois mantém,
Por toda vida com validez.
Espero o carro passar
Pra me ver passando no reflexo do vidro
Tô a 60 por hora
Na mente 120
Refém do futuro
Me sinto melhor
Deitada no seu peito
Me sinto em casa
Entre tantas esquinas
Tantos bares
Tantas doses
Me sinto ainda um pouco embalagem
Que contém líquido dentro
Passarinho voa
Enquanto penso em abrir as minhas asas
E voar até o mar
Ir atrás de Marte pra te surpreender
"Líderes são vidraças que recebem pedradas. Por isso, é preciso ser vidro brindado, forte, que não se quebra com qualquer pedrada." (F.C.Cunha)
Teu nome ainda lateja na minha cabeça
como vidro quebrado brilhando no chão,
bonito de longe, perigoso de perto.
Eu aprendi a sangrar devagar pra não fazer barulho,
como quem respeita o luto de algo que nunca foi vivo de verdade.
As palavras que te escrevi vieram feridas,
cheias de poeira e intenção torta,
misturando carinho podre com raiva cansada.
É foda admitir, mas tem amor que nasce morrendo,
e mesmo assim a gente insiste em regar o cadáver.
Te transformei em metáfora sem pedir tua permissão,
porque é mais fácil lidar com poesia
do que com a merda concreta do abandono.
E doeu, doeu pra caralho.
Esse negócio de achar beleza no que me destrói.
No fim, guardei tudo numa gaveta sem fundo:
tu, eu, os restos, as frases tortas,
toda essa bagunça emocional que fede e brilha ao mesmo tempo.
E quando a madrugada pesa,
parece que o universo inteiro respira, por cima do meu peito,
me esmagando, me lembrando
que até as ruínas têm memória.
E as minhas, infelizmente, ainda falam teu nome.
"Há em mim
memórias que guardei
feito vidro de perfume vazio, daqueles cuja a fragrância nos transporta a um lugar de conforto;
Há em mim
restos de caminhos que não trilhei, porque a falta de coragem
me congelou, feito aquelas pontes que balançam sobre penhascos e parecem
querer nos roubar a Alma;
Há em mim
ventos que sacodem meus cabelos, que me fazem lembrar que
já foram tempestades,
daquelas que nos fazem perder o rumo, perder o prumo;
Há em mim uma liberdade que conquistei, daquelas que nos mostram porque viemos, para onde vamos e porque somos;
Há em mim
uma certeza de amor que plantei, daqueles que a vida ensina, que cada um é o que é,
grão de areia, pingo de chuva, pétala de flor.
Parte do universo."
CHÃO DE ESTRELAS.
Você diz que eu sou vidro, mas se vidro sou, espelho sou também. E se espelho sou, talvez você esteja vendo o seu reflexo ao me olhar.
Apenas um gole
Não bebo um gole. Nem chego perto do vidro.
Tenho medo do que o vinho faz com a minha cabeça.
O álcool solta as correntes que eu levei meses para prender.
Se eu beber, eu perco a vergonha.
Se eu beber, meus pés me levam sozinhos para a sua porta.
Eu viro bicho carente, volto para o seu colo pedindo carinho,
como um cachorro que apanha, mas ainda
abana o rabo para o dono.
Todo mundo bebe para rir, para celebrar, para esquecer.
Eu não. Se eu bebo, eu lembro.
Eu sinto uma saudade que não cabe no peito.
Por isso, continuo com a garganta seca.
É melhor morrer de sede do que morrer de vergonha
correndo atrás de quem não me quer mais.
O Dono da Estufa
Na cidade de vidro havia uma estufa
onde cresciam homens em fileiras retas —
raízes presas a crachás,
folhas presas ao relógio.
O jardineiro vestia linho claro
e falava sobre produtividade
como quem fala do clima:
sem jamais olhar o céu.
Regava apenas a própria varanda.
Nos corredores, o ar era contado
em parcelas invisíveis —
cada respiração descontada do salário.
As plantas amarelavam
não por falta de água,
mas pelo excesso de sede alheia.
Ele bebia a empresa em taças largas,
degustando relatórios como vinhos raros,
e confundia lucro com eternidade.
Um dia mandou vir um sino —
um leiloeiro de voz firme,
treinado para anunciar destinos
e dar preço ao silêncio das coisas.
O homem do martelo
aprendeu o eco das paredes,
mediu o peso do tempo,
deu valor até ao pó suspenso.
Mas o jardineiro, entediado,
trocou o sino por outro qualquer,
não por falha,
não por custo,
não por razão —
apenas pelo prazer
de provar que até a palavra
lhe pertencia.
E assim ficou a estufa:
homens podados antes de florescer,
cadeiras polidas como lápides,
e um dono sentado ao sol artificial
num trono feito de folhas arrancadas.
No livro-caixa
não constava o vento.
No balanço
não cabia o cansaço.
Mas à noite,
quando as lâmpadas cessavam de mentir,
as raízes conversavam sob o chão
e sabiam —
nenhuma planta sobrevive
ao jardineiro
que se alimenta do jardim.
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