Quem se Apaixona por Si Mesmo Nao tem Rivais

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Mesmo o silêncio das orações ecoa no céu, há preces que não precisam de voz para serem compreendidas por Deus.

O amor não é ausência de dor, é persistência mesmo doendo. Amar apesar da dor é persistir na construção, mesmo quando o alicerce treme.

A fé não me poupou das feridas, mas me impediu de sangrar sozinho. Mesmo ferido, ser acompanhado faz com que o sangue não conte a história sozinho, há mãos que seguram.

Mesmo na mais longa noite, o amanhecer não se esquece de nascer. O tempo da dor é apenas o intervalo da transformação. A alma, quando confia, floresce até sob o frio da espera.

O amor não é o fogo, mas a madeira nobre que o suporta, é a lenha que, mesmo queimando, exala um perfume de cedro e jamais vira cinza.

A sabedoria não reside em não errar, mas em nunca honrar o mesmo erro duas vezes com a sua reincidência.

A utopia é o horizonte que nos faz caminhar, mesmo sabendo que não será alcançado.

A resistência é o samba que não se cala, mesmo quando o tambor é proibido.

A fé é ponte que atravesso mesmo quando não vejo o outro lado, eu caminho por instinto, por confiança, e sempre encontro chão.

A fé me ensinou a esperar, mesmo quando tudo parece tardio, o tempo de Deus não falha, e quando chega, chega perfeito.

As promessas antigas voltam como roupas apertadas. Tentam servir um corpo que não é mais o mesmo. Algumas chegam a machucar, outras, aquecem ainda. Aprendi a escolher quais vestir e quando renunciar. Despir-se também é forma de honestidade.

Não busco a estética da frase bonita, mas a crueza da palavra honesta, mesmo que ela me deixe exposto e sem defesas.

Há manhãs em que não desejo o fim, apenas uma pausa na consciência, um repouso de mim mesmo e do barulho da minha mente.

Não estou quebrado, estou apenas saturado: excesso de ontem, excesso de nós e excesso de mim mesmo.

Luto diariamente para não me tornar um fantasma de mim mesmo, um corpo que ocupa espaço, mas que já não habita o presente.

A consciência não permite descanso completo, porque mesmo no silêncio ela continua ativa, revisando, questionando, reconstruindo, como se existir fosse um trabalho que nunca termina.

Há uma solidão que não depende da ausência de pessoas, ela se instala mesmo em meio à presença, porque não é sobre estar acompanhado, é sobre ser compreendido, e isso é algo que raramente acontece de verdade.

Há dias em que eu não quero ser forte. Quero apenas descansar de mim mesmo. Mas a vida não oferece pausa para a alma cansada. Então sigo, mesmo exausto, porque desistir nunca foi uma possibilidade que o destino me permitiu.

Mesmo cercado de pessoas e de amor, a solidão é uma companhia eterna. Não no sentido de estar sozinho, mas no de saber que ninguém compreende plenamente o que sinto, o motivo das minhas lágrimas ou a profundidade das minhas dores. Elas são particulares, habitam um lugar onde apenas eu consigo entrar.


As pessoas ouvem falar delas, podem até imaginar o que representam, mas jamais poderão vê-las ou senti-las da forma como eu as vejo e sinto. Minhas dores crônicas são aquilo que mais detesto em minha vida e, ao mesmo tempo, aquilo que está mais presente nela. Nunca me abandonam. Fazem-me chorar, refletir e imaginar como seria existir sem elas.


Às vezes penso que, se não as tivesse, talvez este texto jamais existisse. Talvez eu fosse uma pessoa diferente, com outros pensamentos, outras sensibilidades e outros silêncios. Por isso, gostando ou não, elas fazem parte de quem sou. Não as escolhi, mas aprendi que carregá-las também moldou a forma como enxergo o mundo, a dor e a própria vida.


- Tiago Scheimann

Há dores que não procuram resposta, porque a pergunta já é a resposta: continuamos vivos, mesmo depois do que nos diminuiu.