Quem Diria que Iria te Reencontrar
Carrego memórias como quem carrega pedras: pesadas, quentes, íntimas. Elas queimam a palma da mão, marcam o caminho do corpo. Mas cada pedra também inventa um mapa, quem eu sou, onde caí, e como ainda consigo ficar de pé com tanta terra no sapato.
Aprendi a moldar a dor como quem esculpe uma palavra, a transformar o sangue em frases que cabem na boca. Não busco cura, procuro sentido, um fio que atravesse o vazio, um verso que substitua o soco, que torne a queda suportável.
Falar de amor virou ato de contrabando entre a dureza do mundo. Levo-o escondido no peito como quem leva pérolas em bolsos rasgados. Quando entrego, minhas mãos tremem, não por medo de perder, mas por saber que a dádiva pode curar lugares onde o sol não entrou.
A criança que fui e o homem que sou trocam bilhetes na madrugada. Um pede coragem, como quem pede socorro. O outro devolve silêncio, rabiscos, mapas inúteis de resignação. Às vezes, contra a própria vontade, sobem no mesmo trem. Não sabem por quê. Descendem em estações sem nome, onde a surpresa não consola, apenas prova, cruelmente, que ainda se está vivo.
O riso escapa às vezes como quem rouba um remédio proibido. Dói o riso quando sei o preço que ele tem: esquecer por instantes. Mas prefiro esses lapsos de luz a um cotidiano contínuo de negrume, pois há beleza mesmo nos intervalos em que a alma consegue respirar.
A chuva hoje tocou a janela como quem pede licença para entrar. Dentro de mim há móveis que rangem com lembranças. As palavras saem mansamente, como se pedissem perdão. Às vezes penso que sou feito de corredores vazios. E nesses corredores ecoam os passos que um dia me ensinaram a voltar.
O silêncio cheio é aquele que não pede resposta. É morada de quem já entendeu demais para falar. Quando me sento nele, o mundo afrouxa o ritmo. Permite-me respirar sem justificativa. E isso, por si só, é privilégio raro.
O desapego me veio aos poucos, como quem descasca fruta. No começo dói, depois suaviza o gosto amargo. Libertar é reconhecer que não trazemos nada do mundo. Só algumas estrias e memórias para contar. E isso basta para sermos ricos de experiência.
A noite guarda segredos que o dia não entende. Ela tem diplomacia de quem aceita contradições. Sento-me à sua mesa e aceito seu cardápio. Alguns pratos são amargos, outros, surpreendentemente doces. E eu como tudo com fome de entender.
A saudade não chega devagar,
ela atravessa a porta como quem tem direito. Não traz esperança, não oferece consolo, só deixa o impacto seco de quem já perdeu. É memória sem afeto, é amor sobrevivendo em forma de dor.
Às vezes penso que sou ilha e ponte ao mesmo tempo. Isolado, construo travessias para quem está perto. Há dias em que não quero ponte alguma. Outros, sou inteiro de tal modo que abraço o mar. E nessas variações, descubro meu próprio ritmo.
Sou o inventário de versões minhas que não sobreviveram ao inverno, carrego os restos como quem guarda relíquias de um incêndio.
Fiz da ausência um hábito, depois um vício e, por fim, meu próprio nome. Já não sei quem eu seria se o vazio me deixasse.
O pessimismo é apenas o realismo de quem já foi ferido demais pela expectativa e hoje prefere a segurança da observação.
Minha escrita não busca o aplauso da plateia, mas o reconhecimento silencioso de quem lê e pensa: "eu também habito esse deserto".
Desconfio da perfeição de quem nunca caiu. A verdadeira humanidade só é forjada no fogo do abismo, nunca no conforto do pedestal.
Exauriu-me a tarefa de legendar minha dor para quem não sabe ler sentimentos. Prefiro o silêncio de quem escreve.
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