Profundidade
As feridas que a vida não cicatriza se tornam lições silenciosas, escritas na profundidade do nosso ser.
Somos a geração do excesso verbal, onde a profundidade da conexão foi sacrificada no altar da tagarelice superficial.
As almas rasas não suportam o peso da profundidade e invariavelmente se afogam no mar de quem ousa pensar e sentir.
Quando me perco na profundidade dos teus olhos, não vejo ausência, mas um amor em armadura, erguido tijolo por tijolo pelo medo do futuro. É um jardim de promessas blindadas, onde a flor mais rara é a coragem de simplesmente se desfazer no instante.
Cuidado para não confundir a profundidade com a pena. O abismo não é apenas o teatro da tragédia, é também a câmara fria que gesta a pérola mais rara, a descida é a rota iniciática para a extração do seu tesouro mais íntimo.
Há memórias que queimam com tamanha profundidade que deixam de ser apenas lembranças e passam a integrar a própria estrutura emocional do indivíduo. Tornam-se permanências invisíveis, cicatrizes incorporadas ao pensamento, marcas que o tempo não dissolve, apenas aprende a esconder sob camadas de rotina e aparente normalidade. E então, nos instantes mais inesperados, um som, uma palavra, um cheiro ou um simples silêncio devolvem tudo com violência absoluta, como se o passado jamais tivesse realmente partido.
- Tiago Scheimann
Nem toda profundidade é bonita. Há profundezas que cansam, que isolam e que tornam impossível voltar a habitar superficialidades.
Aprendi que algumas almas nascem destinadas à profundidade, e profundidade demais quase sempre vem acompanhada de solidão.
Há em mim um homem que sofre em silêncio, observa com profundidade, recorda com saudade e reza com esperança. Talvez seja por isso que minhas palavras nasçam das cicatrizes: porque algumas dores só encontram descanso quando se tornam literatura.
- Tiago Scheimann
Capítulo 1: As Origens do Lugar Secreto
Para compreendermos a profundidade do que está
oculto nas entrelinhas do Salmo 91, precisamos
primeiro fazer uma viagem no tempo. Investigar as
origens de um texto sagrado nos ajuda a enxergar as
nuances que a leitura superficial do dia a dia costuma
deixar passar. E a primeira pergunta que naturalmente
surge é: quem escreveu o Salmo 91?
Se abrirmos o texto original em hebraico, a resposta
imediata é o silêncio. O salmo é anônimo; ele não
possui uma assinatura explícita em seu cabeçalho. No
entanto, a história da teologia nos aponta para duas
grandes direções.
A primeira delas vem da Septuaginta — a primeiríssima
tradução da Bíblia do hebraico para o grego, feita
séculos antes de Cristo. Nela, o texto traz Davi como o
autor da canção. Se essa hipótese estiver correta, o
salmo teria sido composto por volta do ano 1000 a.C.,
refletindo o período em que o rei de Israel enfrentava
guerras, traições e exércitos inimigos.
A segunda direção, no entanto, é sustentada pela
milenar tradição judaica, que atribui a autoria a Moisés.
Se caminharmos por essa estrada, recuarmos ainda
mais no tempo, situando a escrita entre 1440 e 1400
a.C., justamente no período do Êxodo.
Particularmente, olhando para as evidências do próprio
texto, eu escolho ficar com a tradição judaica. As ricas
alegorias que compõem o salmo são pistas que
apontam diretamente para a jornada de Moisés
liderando o povo hebreu. Quando o salmo fala sobre pestes, mortandades, o laço do passarinheiro e os
perigos do deserto, ele parece descrever perfeitamente
o cenário da peregrinação rumo à Terra Prometida.
Mais do que isso: as menções ao "esconderijo" e à
"sombra" fazem forte alusão à estrutura e à santidade
do Tabernáculo que Moisés ergueu no deserto por
ordem divina.
Mas quer saber de uma verdade? No fim das contas,
quem escreveu ou a data exata em que foi escrito é o
que menos importa.
O Espírito Santo permitiu que a autoria ficasse envolta
em mistério por um motivo maior. Ao não sabermos o
nome do escritor humano, o salmo deixa de ser a
experiência pessoal de um rei ou de um profeta e se
torna a oração de qualquer um de nós. O que realmente
importa não é a caneta que riscou o pergaminho, mas o
que o Salmo nos apresenta: um convite universal para
entrar em uma dimensão de proteção que transcende o
tempo, a história e o próprio espaço físico Capítulo 2: O Esconderijo Revelado
“Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo, à
sombra do Onipotente descansará.” — Salmo 91:1
O salmo mais famoso de proteção começa nos
apresentando uma condição e um lugar. Ele não faz
uma promessa genérica lançada ao vento; ele direciona
a mensagem a um grupo muito específico. O texto
começa dizendo: “Aquele que...”.
Essa expressão aponta para a individualidade. Pode ser
eu, pode ser você, pode ser qualquer pessoa, desde
que atenda ao requisito que vem logo em seguida:
habitar. Na língua original, habitar significa muito mais
do que fazer uma visita rápida. Significa morar,
permanecer, fixar residência, fazer morada definitiva. O
Salmo 91 não funciona para turistas espirituais que só
correm para Deus nos momentos de aperto; ele é o lar
de quem decidiu fazer de Deus a sua habitação diária.
Mas onde fica essa morada? O salmista a chama de
"Esconderijo do Altíssimo". No hebraico original, a
palavra usada para esconderijo é seter, que significa
literalmente um lugar secreto.
Para o autor do salmo — que, como vimos, as
evidências apontam ser Moisés —, esse "lugar secreto"
tinha um endereço físico muito claro na mente dele: o
Tabernáculo. Foi o próprio Deus quem deu as
instruções no deserto, dizendo: “E me farão um
santuário, e habitarei no meio deles. Conforme a tudo o
que eu te mostrar para modelo do tabernáculo...”
(Êxodo 25:8-9). Para o povo de Israel, o lugar secreto era aquela tenda sagrada, onde a glória de Deus descia
e onde o Sumo Sacerdote entrava.
No entanto, precisamos compreender que há mais de
3.400 anos, o salmista tinha apenas um vislumbre, uma
sombra. Para ele, aquilo era uma promessa futura. Eles
olhavam para uma estrutura de panos, peles e ouro no
meio do deserto.
Nós, porém, temos um privilégio absurdamente maior.
Hoje, nós temos o Esconderijo totalmente revelado: o
Esconderijo não é um lugar geográfico, o Esconderijo é
uma Pessoa. O Esconderijo é Cristo.
A chave de ouro para abrir esse mistério está no
Evangelho de João 1:14: “E o Verbo se fez carne e
habitou entre nós”. No texto original em grego, a palavra
traduzida como "habitou" é eskenosen, que significa
literalmente “armou o seu tabernáculo”. Olha que
riqueza! Para o salmista Moisés, o homem ergueu um
tabernáculo de panos para que Deus habitasse entre os
homens. Mas na Nova Aliança, Deus fez-se tabernáculo
de carne para que nós pudéssemos habitar nEle.
Cristo é o verdadeiro seter, o lugar secreto onde fomos
escondidos. É nEle que precisamos morar.
O versículo termina dizendo que aquele que habita
nessa presença, “à sombra do Onipotente descansará”.
O descanso é uma consequência automática de onde
você escolhe morar. Quem mora perto do perigo vive
assustado; quem habita no esconderijo perfeito
encontra repouso para a alma.
Mas aqui cabe um alerta crucial para o nosso olhar
crítico: essa promessa é para quem mora em Cristo, e
não para quem mora na religião. A religião é uma estrutura externa, fria e de aparências, parecida com as
paredes de um templo. Cristo é relacionamento,
intimidade e vida no lugar secreto. Na religião você se
cansa; em Cristo, você descansa.
A verdadeira riqueza não se mede pelo que se acumula no bolso, mas pela profundidade do legado que se deixa na vida dos outros.
O número dos que acreditam revela a extensão de uma convicção, não a profundidade de suas raízes na realidade.
“A criação revela a grandeza de Deus e a misericórdia, a profundidade inesgotável do seu amor. Honramos essa graça quando o cuidado que recebemos transborda por nossas mãos e se torna abrigo e consolo na vida do outro.”
A mortalidade limita a duração da existência, mas não determina a profundidade que ela pode alcançar.
A Beleza que a Profundidade revela
A arte reflete nos seus olhos, a sua beleza fica em exposição, mas a parte mais bela é invisível aos olhos: uma divina composição cuja admiração precisa de profundidade, de uma percepção que não se limita à superfície. Cada detalhe dela é importante, a partir da sua essencialidade, que torna a simplicidade em algo fascinante.
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