Capítulo 1: As Origens do Lugar Secreto... gilcimar matos

Capítulo 1: As Origens do Lugar Secreto
Para compreendermos a profundidade do que está
oculto nas entrelinhas do Salmo 91, precisamos
primeiro fazer uma viagem no tempo. Investigar as
origens de um texto sagrado nos ajuda a enxergar as
nuances que a leitura superficial do dia a dia costuma
deixar passar. E a primeira pergunta que naturalmente
surge é: quem escreveu o Salmo 91?
Se abrirmos o texto original em hebraico, a resposta
imediata é o silêncio. O salmo é anônimo; ele não
possui uma assinatura explícita em seu cabeçalho. No
entanto, a história da teologia nos aponta para duas
grandes direções.
A primeira delas vem da Septuaginta — a primeiríssima
tradução da Bíblia do hebraico para o grego, feita
séculos antes de Cristo. Nela, o texto traz Davi como o
autor da canção. Se essa hipótese estiver correta, o
salmo teria sido composto por volta do ano 1000 a.C.,
refletindo o período em que o rei de Israel enfrentava
guerras, traições e exércitos inimigos.
A segunda direção, no entanto, é sustentada pela
milenar tradição judaica, que atribui a autoria a Moisés.
Se caminharmos por essa estrada, recuarmos ainda
mais no tempo, situando a escrita entre 1440 e 1400
a.C., justamente no período do Êxodo.
Particularmente, olhando para as evidências do próprio
texto, eu escolho ficar com a tradição judaica. As ricas
alegorias que compõem o salmo são pistas que
apontam diretamente para a jornada de Moisés
liderando o povo hebreu. Quando o salmo fala sobre pestes, mortandades, o laço do passarinheiro e os
perigos do deserto, ele parece descrever perfeitamente
o cenário da peregrinação rumo à Terra Prometida.
Mais do que isso: as menções ao "esconderijo" e à
"sombra" fazem forte alusão à estrutura e à santidade
do Tabernáculo que Moisés ergueu no deserto por
ordem divina.
Mas quer saber de uma verdade? No fim das contas,
quem escreveu ou a data exata em que foi escrito é o
que menos importa.
O Espírito Santo permitiu que a autoria ficasse envolta
em mistério por um motivo maior. Ao não sabermos o
nome do escritor humano, o salmo deixa de ser a
experiência pessoal de um rei ou de um profeta e se
torna a oração de qualquer um de nós. O que realmente
importa não é a caneta que riscou o pergaminho, mas o
que o Salmo nos apresenta: um convite universal para
entrar em uma dimensão de proteção que transcende o
tempo, a história e o próprio espaço físico Capítulo 2: O Esconderijo Revelado
“Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo, à
sombra do Onipotente descansará.” — Salmo 91:1
O salmo mais famoso de proteção começa nos
apresentando uma condição e um lugar. Ele não faz
uma promessa genérica lançada ao vento; ele direciona
a mensagem a um grupo muito específico. O texto
começa dizendo: “Aquele que...”.
Essa expressão aponta para a individualidade. Pode ser
eu, pode ser você, pode ser qualquer pessoa, desde
que atenda ao requisito que vem logo em seguida:
habitar. Na língua original, habitar significa muito mais
do que fazer uma visita rápida. Significa morar,
permanecer, fixar residência, fazer morada definitiva. O
Salmo 91 não funciona para turistas espirituais que só
correm para Deus nos momentos de aperto; ele é o lar
de quem decidiu fazer de Deus a sua habitação diária.
Mas onde fica essa morada? O salmista a chama de
"Esconderijo do Altíssimo". No hebraico original, a
palavra usada para esconderijo é seter, que significa
literalmente um lugar secreto.
Para o autor do salmo — que, como vimos, as
evidências apontam ser Moisés —, esse "lugar secreto"
tinha um endereço físico muito claro na mente dele: o
Tabernáculo. Foi o próprio Deus quem deu as
instruções no deserto, dizendo: “E me farão um
santuário, e habitarei no meio deles. Conforme a tudo o
que eu te mostrar para modelo do tabernáculo...”
(Êxodo 25:8-9). Para o povo de Israel, o lugar secreto era aquela tenda sagrada, onde a glória de Deus descia
e onde o Sumo Sacerdote entrava.
No entanto, precisamos compreender que há mais de
3.400 anos, o salmista tinha apenas um vislumbre, uma
sombra. Para ele, aquilo era uma promessa futura. Eles
olhavam para uma estrutura de panos, peles e ouro no
meio do deserto.
Nós, porém, temos um privilégio absurdamente maior.
Hoje, nós temos o Esconderijo totalmente revelado: o
Esconderijo não é um lugar geográfico, o Esconderijo é
uma Pessoa. O Esconderijo é Cristo.
A chave de ouro para abrir esse mistério está no
Evangelho de João 1:14: “E o Verbo se fez carne e
habitou entre nós”. No texto original em grego, a palavra
traduzida como "habitou" é eskenosen, que significa
literalmente “armou o seu tabernáculo”. Olha que
riqueza! Para o salmista Moisés, o homem ergueu um
tabernáculo de panos para que Deus habitasse entre os
homens. Mas na Nova Aliança, Deus fez-se tabernáculo
de carne para que nós pudéssemos habitar nEle.
Cristo é o verdadeiro seter, o lugar secreto onde fomos
escondidos. É nEle que precisamos morar.
O versículo termina dizendo que aquele que habita
nessa presença, “à sombra do Onipotente descansará”.
O descanso é uma consequência automática de onde
você escolhe morar. Quem mora perto do perigo vive
assustado; quem habita no esconderijo perfeito
encontra repouso para a alma.
Mas aqui cabe um alerta crucial para o nosso olhar
crítico: essa promessa é para quem mora em Cristo, e
não para quem mora na religião. A religião é uma estrutura externa, fria e de aparências, parecida com as
paredes de um templo. Cristo é relacionamento,
intimidade e vida no lugar secreto. Na religião você se
cansa; em Cristo, você descansa.